A Profecia sobre a Redução da Vigência do Dharma por Buda

por Octavio da Cunha Botelho

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Gravura reproduzindo o momento em que Pajapati Gotami insiste com Buda para ser ordenada a primeira monja budista.

            Quando lemos livros ou artigos escritos por adeptos ou por simpatizantes budistas, é possível encontrar estes autores se vangloriando do fato de Buda ter sido o primeiro, na história das religiões, a ordenar mulheres como monjas, elogiando assim o seu caráter tolerante com as mulheres. Entretanto, com base em uma investigação história imparcial e rigorosa, esta vanglória poderá ser infundada. Pelo que é possível verificar a partir dos textos religiosos, das inscrições e das descobertas da arqueologia, os dois primeiros líderes religiosos a ordenarem mulheres como monjas foram Mahavira, reformador do Jainismo, e Buda, fundador do Budismo. Ambos foram conterrâneos e contemporâneos, nos séculos VI e V a.e.c., sendo que o primeiro foi um pouco mais velho. Os dados não são abundantes e tampouco muito específicos, mas, tal como algumas passagens dos textos budistas deixam entrever, a ordem das monjas jainistas (sadhwis) foi fundada primeiro que a ordem das monjas budistas (bhikkhunis), ao mencionarem a existência de outras seitas que admitiam mulheres como ascetas, cujas referências podem ser às comunidades monásticas dos jainistas. O Kalpa Sutra, um dos mais importantes textos jainistas, informa que na época de Mahavira existiam 36 mil monjas (Jacobi, 1994: 267). Certamente, o número é exagerado, mas é capaz de, pelo menos, confirmar que já existiam monjas jainistas quando Buda ordenou a primeira monja budista, a sua tia e mãe de leite, Pajapati Gotami (a mãe de Buda, a rainha Maya, faleceu logo após seu nascimento, portanto ele foi amamentado e criado pela sua tia Pajapati Gotami), tal como uma passagem do Cullavagga menciona, mais especificadamente, no trecho onde são relatados os fatos que cercaram a ordenação desta devota budista.

Demora no registro escrito

            Na antiguidade indiana, época quando e local onde surgiu o Budismo, era comum os textos religiosos serem memorizados e transmitidos apenas oralmente durante muitas gerações, práticas que não foram diferentes com a tradição budista. As datas mais sugeridas para o nascimento e a morte de Buda são: 563 a.e.c. e 483 a.e.c. respectivamente, porém estas datas são controvertidas, a maioria dos autores coloca a data da morte (paranirvana) entre os anos 487 e 480 a.e.c. Após seu falecimento, os textos budistas foram conservados na memória dos monges e transmitidos apenas oralmente por cerca de quatro séculos até a passagem para a forma escrita no século I a.e.c., durante o Quarto Concílio Budista, convocado pelo rei cingalês Vattagamani no Sri Lanka (Hazra, 1982: 50 e Winternitz: vol. II, 1993: 10 e 21). A tradição cingalesa afirma que cerca de quinhentos monges trabalharam na tarefa de recitar e de copiar os textos durante este evento.

            Transcorrido tão longo tempo de transmissão oral e tanta demora até o registro escrito, é difícil acreditar na intocável originalidade do conteúdo. Akira Hirakawa denuncia: “Durante este tempo, os cânones mantidos pelas várias escolas foram expandidos e alterados”. E explica mais adiante: “Uma vez que um longo período transcorreu entre a época das compilações originais do Sutra Pitaka e do Vinaya Pitaka e a época quando eles vieram a existir na forma atual, eles não podem ser restaurados em suas formas originais. Trechos mais antigos e mais novos dos textos foram misturados nos cânones em uso atualmente” (Hirakawa, 1990: 70). Então, em virtude desta demora na compilação escrita e a multiplicação de seitas logo nos primeiros anos, é comum encontrarmos um mesmo texto budista com conteúdos diferentes, quando comparadas as redações de distintas correntes. Portanto, esta ocorrência não é diferente com os textos do Vinaya Pitaka (coleção de textos budistas sobre as regras monásticas).

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Monjas (bhikkhunis) budistas em oração no Nepal

O tanto que estes textos foram alterados, durante os quatro séculos de transmissão oral, não é possível se saber com exatidão agora, apenas conseguimos obter uma pista quando comparamos as diferenças na redação, de um mesmo texto compilado das versões anteriormente memorizadas por diferentes correntes. Esta demora na fixação por escrito e a multiplicação de seitas budistas nos primeiros séculos, com cânones distintos e redações diferentes, levou Edward Conze a desconfiar da originalidade: “Das palavras verdadeiras do Buda nada foi deixado” (…) “a seleção do que foi preservado é devido mais ao acaso do que às considerações de antiguidade e de mérito intrínseco” (…) “O ‘evangelho original’ está além de nosso alcance agora” (Conze, 1996: 08-9). E ainda mais: “O historiador que quiser determinar o que foi realmente a doutrina de Buda, se encontra literalmente diante de milhares de obras, que afirmam todas elas virem diretamente de Buda, e que, no entanto, contém os ensinamentos mais diversos e conflitantes”. (…) “O certo é que só se pode chegar ao extrato mais antigo das escrituras existentes através de inferências e de conjecturas”. (…) “Todas estas intenções de reconstruir um budismo ‘original’ só têm uma coisa em comum. Todas estão de acordo em que a doutrina de Buda não era o que os budistas entenderam o que ela era” (Conze, 1997: 34).

O Tripitaka (Tipitaka)

            Trata-se do nome das três coleções (pitakas) de textos do Budismo mais antigo. Elas divergem conforme a corrente, portanto abaixo será usada a classificação da versão páli, por ser a que será utilizada na análise da profecia de Buda mais abaixo, cuja divisão é a seguinte:

A) Vinaya Pitaka (Coleção de Regras Monásticas), formada pelos textos:

  1. Patimokka
  2. Suttavibhanga
  3. Mahavagga
  4. Cullavagga
  5. Parivara

B) Sutta Pitaka (Coleção de Sermões de Buda), formada pelos textos:

  1. Digha Nikaya
  2. Majjhima Nikaya
  3. Samyutta Nikaya
  4. Anguttara Nikaya
  5. Khuddaka Nikaya

C) Abhidhamma Pitaka (Coleção de Textos Especulativos) formada por:

  1. Dhammasangani
  2. Vibhanga
  3. Dhatukatha
  4. Puggalapannatti
  5. Kathavatthu
  6. Yamaka
  7. Tika-patthana e
  8. Duka-patthana

A coleção de textos Vinaya

A Coleção de Regras Monásticas (Vinaya Pitaka) sobreviveu em sete cânones, cujos nomes das correntes vinayas, com a língua original e a língua na qual o texto sobreviveu entre parênteses, são enumerados abaixo (Prebish, 1994: passim e Sujato, 2012: 21):

A) da tradição Mahasanghika:

  1. Mahasanghika (Sânscrito, sobreviveu em tradução chinesa)
  2. Lokuttaravada (Sânscrito, sem tradução)

B) da tradição Sthavira:

  1. Mahaviharavasin (Páli, sobreviveu na língua original)
  2. Dharmaguptaka (Gandhari, sobreviveu em tradução chinesa)
  3. Mahisasaka (Sânscrito, sobreviveu em tradução chinesa)
  4. Sarvastivada (Sânscrito, sobreviveu em tradução chinesa)
  5. Mulasarvastivada (Sânscrito, sobreviveu nas traduções chinesa e tibetana).

A ordenação da primeira monja budista

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Diferente de como muitos budistas se vangloriam, a ordem das monjas (sadhwis) jainistas foi fundada antes da ordem budista de monjas (bhikkhunis).

            Dos textos que formam a coleção Vinaya (Regras Monásticas), interessa-nos aqui o capítulo X do Cullavagga, onde é relatada a história da ordenação da primeira monja por Buda, sua tia e mãe de leite, Pajapati Gotami. Este relato diverge em alguns detalhes quando comparamos as redações dos diferentes cânones do Vinaya, de maneira que aqui será utilizada a versão páli do cânone Mahaviharavasin, seguida pela corrente Theravada (Rhys-Davids, 1989: 320s; Warren, 1995: 441-7 e Horner, 2001: 352s). Esta recensão relata que, depois de insistir por três vezes com Buda, para que as mulheres pudessem abandonar seus lares e entrarem para a vida monástica no Sangha, Pajapati Gotami se dirigiu para Vesali, onde se encontrava Buda, para então tentar mais uma vez. Chegando lá, acompanhada de cerca de quinhentas mulheres da região de Sakhya, com a cabeça raspada, com os pés descalços, com os membros empoeirados, com o rosto coberto de lágrimas, se colocou do lado de fora do pórtico do portão de entrada. Ao vê-la assim, Ananda, o discípulo e assistente de Buda, perguntou-lhe o motivo daquela aparência e daquele choro. Ela respondeu que estava assim porque Buda não lhe permitiu entrar para a vida monástica. Então, Ananda, decidiu interferir e se dirigiu ao local onde estava Buda para tentar mais uma vez, informando que sua tia, madrasta e mãe de leite, a grande Pajapati Gotami, estava no portão chorando porque desejava se tornar monja, mas não lhe foi permitida a entrada na ordem monástica. Daí, Ananda fez a solicitação da entrada de Gotami na ordem por mais três vezes, o que o Buda recusou novamente. Enfim, Ananda fez então uma solicitação eloquente e comovente, o que finalmente resultou na aceitação do Buda, porém na condição de que Pajapati Gotami aceitasse previamente as Oito Regras Importantes (Atthagarudhammas).

            Estas regras para as monjas são seguidas até hoje nos países onde se conserva a ordem das monjas budistas (bhikkhunis), porém elas são bombardeadas por críticas das feministas que as consideram carregadas de sentimentos discriminatórios, depreciativos e preconceituosos com relação à mulher. Das oito regras, bastarão mencionar aqui apenas as duas mais discriminatórias e subjugadoras:

Regra 1: “Uma monja, que foi ordenada mesmo que seja por um século, deve reverenciar respeitosamente, levantar-se do seu assento, saudar com as mãos juntas, realizar a devida homenagem a um monge ordenado, mesmo que seja naquele mesmo dia. Esta regra deve ser honrada, respeitada, reverenciada, venerada, nunca ser transgredida durante sua vida” (Horner, 2001: 354 e Sujato, 2012: 47).

Regra 8: “De hoje em diante, advertência de monges pelas monjas é proibida, (enquanto) advertência de monjas pelos monges não é proibida” (Horner, 2001: 355).

            Obviamente, nem todos percebem estas regras acima com olhos aprovadores. Janice D. Willis, as avalia da seguinte maneira: “Estas oito regras especiais para mulheres servia para deixar claro o status separado e inferior das monjas comparado ao dos monges” (Willis, 1985: 62). Mais adiante, comentado sobre a oitava regra, ela acrescenta: “Claramente, tal regra pretendeu solidificar para sempre o lugar subordinado das mulheres dentro da Ordem Budista. Ainda mais, além de um período probatório de dois anos para as monjas, havia mais regras estabelecidas para elas do que para os monges. Também, frequentemente acontecia que os monges incorriam em menos punições que as monjas, por uma espécie idêntica de ofensa (Willis, 1985: 80).

A profecia da redução da vigência do Dharma

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Buda profetizou que, com a entrada das mulheres na ordem monástica, a duração do Dharma seria reduzida em 500 anos.

            Após aceitar as ordenações de Pajapati Gotami e das suas companheiras, Buda se dirigiu ao seu discípulo Ananda e proferiu a seguinte profecia preconceituosa de que: “se as mulheres não tivessem deixado suas casas e se tornado monjas, o verdadeiro dhamma teria durado por mil anos. Agora, uma vez que as mulheres deixaram suas casas e se tornaram monjas, a verdadeira religião (dhamma) não durará muito tempo, durará somente quinhentos anos” (Rhys-Davids, 1989: 325; Warren, 1995: 447 e Horner, 2001: 356). Em outras palavras, as mulheres são o motivo para o encurtamento da duração da verdadeira religião em quinhentos anos, ao invés de durar mil anos, durará apenas quinhentos anos, em virtude da entrada das mulheres na ordem monástica. Uma curiosidade é que esta profecia só aparece com esta redação, onde é especificado o número de anos da redução da vigência do Dharma (verdadeira religião), na versão páli do cânone dos Mahavaharavasins, enquanto que, nos textos dos outros cânones não aparece assim. Por exemplo, na versão sânscrita do cânone Mulasarvastivada, a redação deste trecho é mais enxuta e aparece assim: “Exatamente, ó Ananda, o domínio do Dharma, se as mulheres abandonarem suas casas para se tornarem monjas, não continuará por muito tempo” (Paul, 1985: 84).

            Esta profecia pode ter tido efeitos em alguns países orientais de predominância budista, pois nalguns deles a ordem monástica das monjas (bhikkhunis) foi extinta há alguns séculos, tais como na Tailândia, no Sri Lanka e em Mianmar (antiga Birmânia), porém sobrevive precariamente no Tibet, na China e com um tanto mais de vigor em Taiwan. Existem alguns esforços para se restabelecer a ordem das monjas naqueles países onde foi extinta, mas as tentativas têm resultado em vão, sendo assim, as aspirantes precisam viajar para outros países para serem ordenadas.

            Acusar as mulheres pelo motivo do declínio de uma religião soa absurdo nos dias de hoje, quando as mulheres têm demonstrado grande capacidade e habilidade nas tarefas externas, enquanto que no passado só cumpriam, quase exclusivamente, tarefas domésticas, sendo que, muitas delas ocupam hoje alguns dos mais importantes cargos de liderança no mundo, fato inimaginável na época de Buda.

            Agora, se acreditarmos nesta profecia preconceituosa, ela deixa duas conclusões. Se Buda pretendeu dizer que a verdadeira religião (Dharma) é o mesmo que Budismo e que iria durar no máximo quinhentos anos, seu fim não aconteceu no prazo por ele apontado, uma vez que a religião budista existe há cerca de 2.500 anos e ainda é florescente em muitas partes do mundo, inclusive passou a ser objeto de crescente interesse no Ocidente a partir do século XX. Se ele, por outro lado, pretendeu dizer que, depois dos primeiros quinhentos anos, o Budismo não seria mais uma verdadeira religião, resta então investigar o que é enfim este Budismo atual, pois sem uma explicação convincente para esta última hipótese, parecerá que é uma religião com o prazo de validade vencido.

Obras consultadas

CONZE, Edward. A Short History of Buddhism. Oxford: Oneworld Publications, 1996.

______________ El Budismo: Su Essencia y su Desarrollo. México: Fondo de Cultura Económica, 1997.

HAZRA, Kanai Lal. History of Theravada Buddhism in South-East Asia: with Special Reference to India and Ceylon. New Delhi: Munshiram Manoharlal Publishers, 1982.

HIRAKAWA, Akira. A History of Indian Buddhism: from Sakyamuni to Early Mahayana. Honolulu: University of Hawaii Press, 1990.

HORNER, I. B. Women Under Primitive Buddhism. London: George Routledge and Sons, 1930.

___________ (tr.) The Book of the Discipline (Vinaya Pitaka), vol. V (Cullavagga). Oxford: The Pali Text Society, 2001.

JACOBI, Hermann (tr.). Jaina Sutras, Sacred Books of the East, vol. 22. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1994.

PAUL, Diana Y. Women in Buddhism: Images of the Feminine in Mahayana Tradition. Berkeley: University of California Press, 1985, p. 77-94.

PREBISH, Charles S. A Survey of Vinaya Literature. Taipei: Jin Luen Publishing House, 1994.

RHYS-DAVIDS, T. W. and H. Oldenberg (trs.). Vinaya Texts, part III (Sacred Books of the East, vol. 20). Delhi: Motilal Banarsidass, 1989, p. 320s.

SUJATO, Bhikkhu. Bhikkhuni Vinaya Studies: Research & reflections on monastic discipline for Buddhist nuns. Santipada, 2012.

WARREN, Henry Clarke. Buddhsim in Translations. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1995.

WILLIS, Janice D. Nuns and Benefectresses: The Real Role of Women in the Development of Buddhism em Women, Religion and Social Change. Yvonne Y. Haddad (ed.). Albany: State University of New York Press, 1985, p. 59-85.

WINTERNITZ, Maurice. A History of Indian Literature, vol. II. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1990.

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