O Apóstolo Paulo e sua Condescendência com a Escravidão

por Octavio da Cunha Botelho

Escravos-acorrentados-300x187Lendo recentemente um site de matérias sobre ateísmo, encontrei uma notícia sobre a publicação de outdoors, por uma associação de ateus da Pensilvânia nos EUA, em protesto contra a aprovação, pelos deputados daquele estado, da oficialização de 2012 como o “Ano da Bíblia”. O outdoor diz: “Slaves, obey your masters” (Escravos, obedecei a seus senhores), um trecho extraído da Epístola de Paulo aos Colossenses 3: 22.  Esta peça de publicidade é ilustrada com a figura de um escravo negro acorrentado pelo pescoço.

Aproveito este incidente para analisar a passagem desta epístola que menciona os escravos no Novo Testamento e a condescendência do apóstolo Paulo com a escravidão. Reproduzo abaixo o trecho que será analisado:

“Escravos, obedecei em tudo a vossos senhores terrenos, não servindo só na presença, como quem busca agradar a homens, mas com sinceridade de coração, temendo a Deus. Tudo o que fizerdes, fazei-o do bom coração, como para o Senhor e não para os homens. Sabeis que recebereis como recompensa, a herança das mãos do Senhor. Servi ao senhor Jesus Cristo. Quem fizer injustiça receberá o pagamento do que fez injustamente, porque em Deus não há distinção de pessoas” (Epístola aos Colossenses, 3: 22-5).

“Senhores, daí aos escravos o que é justo e equitativo, considerando que também vós tendes um Senhor no céu” (idem, 4: 01).

Para analisar esta passagem, consultei um texto grego, a Vulgata latina, uma versão inglesa da Bíblia de King James, outras versões em inglês e algumas versões em português. Na comparação, a primeira coisa que chama a atenção é a tentativa eufemística de alguns tradutores de suavizar a palavra “escravos” (grego: douloi e latim: servi) na tradução, para outro termo com menor impacto repulsivo sobre o leitor. Na versão de King James e outras consultadas, por exemplo, a palavra douloi (latim: servi – escravos) foi traduzida como ‘servant’ para o inglês, que não tem o mesmo significado de escravos, mas sim de criado e servente. Algumas versões em português procuram traduzi-la como ‘servos’, um termo menos impactante que escravos. De maneira que, isto mostra, desde já, o senso de remorso no fundo das mentes de alguns tradutores bíblicos.  A palavra ‘escravos’ transmite um sentido de repúdio para muitas pessoas que reconhecem a dimensão desta injustiça cometida por séculos por muitas sociedades do passado, diante dos olhos condescendentes das religiões, por isso estes tradutores procuram suavizar seu impacto, sobre os leitores, trocando por outra que produza menor efeito repulsivo. Ou seja, a palavra servos tem menor carga abominável. Porém, a palavra no original grego é douloi (escravos – singular: doulos) que foi traduzida para a Vulgata latina como servi (escravos – singular: servus).

Sabemos que a escravidão era uma prática aceitável e comum nas sociedades antigas e medievais. Mais do que simplesmente aceitável, era uma prática amparada por lei, cujo senhor tinha o direito de propriedade sobre seus escravos, bem como era uma atividade comercial milionária. Os escravos eram considerados mercadorias, daí o surgimento dos mercadores de escravos. Muitos cidadãos se enriqueceram com o negócio de escravos. Na época de Cristo não era diferente, os hebreus, os gregos, os romanos (veja o Título III “Do Direito das Pessoas” do Edito Institutas de 23/11/533 do imperador Justiniano) e outros povos mantinham e desfrutavam do trabalho escravo. Existem registros na história de escravos que conseguiram se emancipar e se tornarem cidadãos livres.

Agora, o intrigante é a deferência, a condescendência e até mesmo o usufruto dos religiosos diante da escravidão.  Sabemos que muitos padres e bispos tinham escravos. O Antigo Testamento aprova a prática da escravidão e a regulamenta em algumas passagens (Êxodo 20: 17; 21: 08; Deuteronômio 05: 14 e 15; 21: 14; 23: 16,17; Levítico 25:39 e 53), mas nunca a condena. A Igreja Católica só começou a se manifestar contra a escravidão a partir do século XV, o primeiro documento foi a bula papal Sicut Dudum (1435) do papa Eugênio IV, o qual ordenou a libertação dos escravos negros das Ilhas Canárias.  Em seguida sucedeu uma série de bulas que proibiam a escravidão, mas sem muito efeito prático. Veja o exemplo do Brasil, onde estas bulas não tiveram efeito nenhum, que foi um dos últimos países a abolir a escravatura. Os resultados só começaram a aparecer com o surgimento do Abolicionismo, o movimento político, conseqüente do Iluminismo secular e não do meio religioso, que visou abolir a escravidão e o tráfego de escravos, cujo início aconteceu no século XVIII. O Alcorão também está repleto de referências aos escravos e às escravas, Maomé, por exemplo, tinha escravos e escravas, chegou até a desposar algumas delas.

 Agora, o curioso é o seguinte, mesmo com toda a vidência dos profetas, com toda a iluminação dos místicos e com toda a sabedoria dos sábios do passado, a escravidão só começou a ser contestada a partir do final da Idade Média, e só se transformou em um movimento efetivo a partir do século XVIII. Por que nenhum profeta, místico ou sábio não condenou e desaprovou esta injusta prática, hoje considerada abominável e criminosa, desde o início da sua prática? Por que demoraram tantos séculos para os religiosos, na esteira dos abolicionistas, reconhecerem que a prática era injusta? Estas são respostas que necessitam de uma exposição bem mais longa que o espaço limitado do presente artigo.

Bem, voltando à análise da passagem da epístola mencionada acima. Serão analisados abaixo os trechos intrigantes da mesma.

“Escravos, obedecei em tudo a vossos senhores terrenos…” Desta frase se conclui que Paulo, autor desta epístola, tal como a cultura vigente na época, aceitava e apoiava a escravidão. Em momento nenhum lhe parece ser uma prática indigna e injusta, chega até a solicitar que “obedecei em tudo (gr: panta; la: omnia) a vossos senhores terrenos (gr: sarka kuriois; la: dominis carnalibus)”, não fazendo restrição alguma em favor dos escravos, pois para ele os escravos devem obedecer em tudo aos seus senhores. Em seguida, “não servindo só na presença (…) mas com sinceridade de coração, temendo a Deus” (gr: phobeomenoi thon; la: timentes deum). Bem, se Paulo orienta que os escravos devem servir a seus senhores com sinceridade, temendo a Deus, está afirmando que, se não o fizerem assim, serão castigados por Deus, de modo que está querendo dizer que Deus aprova a pratica da escravidão e também castiga o escravo que desobedece a seu senhor terreno. Agora, que deus é este que é condescendente com a escravidão e castiga o escravo desobediente?! Mais adiante, “Quem fizer injustiça receberá o pagamento do que fez injustamente, porque em Deus não há distinção de pessoas”. Existe injustiça maior do que a própria escravidão? Aqui ele reafirma que deus aprova e regula a prática e o relacionamento entre senhores e escravos, portanto deus aprova e ainda castiga quem viola suas regras sobre o trabalho escravo. Que deus é esse que aprova e regula uma prática vigente na época, a qual depois de séculos se transformou numa prática abominável e até criminosa em quase todos os países do planeta? Parece que o deus de Paulo não é onisciente, pois não consegue enxergar além da cultura humana da época, bem como não é capaz de prever que a escravidão um dia seria abolida e considerada uma prática criminosa e discriminativa por toda a sociedade. Se para Deus não há distinção de pessoas, por que então aprova a escravidão e até castiga quem transgride as regras do relacionamento escravo? Existe discriminação maior do que a escravidão, a qual divide as pessoas em cidadãos livres de um lado e em mercadorias de outro? Finalmente, “Senhores, daí aos escravos o que é justo e equitativo…” Ora, o que de mais justo que os senhores podem dar para os escravos é a liberdade da escravidão, a sua dignidade e a igualdade de direitos com os outros cidadãos livres.

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Um comentário sobre “O Apóstolo Paulo e sua Condescendência com a Escravidão

  1. “Em 1452, uma bula papal intitulada ‘Dum Diversas’ autorizou o rei Afonso V de Portugal a escravizar qualquer ‘sarraceno’ ou ‘pagão’ que encontrasse. O Papa Nicolau V reconheceu a ação militar do rei Afonso como legítima sob a forma da bula papal e declarou seu total direito de invadir, conquistar, combater e subjugar os sarracenos, pagãos e outros infiéis e inimigos de Cristo, bem como de mantê-los sob servidão perpétua. Em outra bula papal, lançada em 1455 e intitulada ‘Romanus Pontifex’, o Papa Nicolau V reiterou seu apoio à escravização dos infiéis no contexto do monopólio de Portugal das rotas de comércio do Norte Africano.” (FONTE: https://en.wikipedia.org/wiki/Slavery_in_medieval_Europe#Justifications_for_Slavery)

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