Mini Saia no País do Véu

por Octavio da Cunha Botelho

bbc

A jovem saudita presa por postar um vídeo caminhando de mini saia e top

            A TV estatal saudita Ekhbariya noticiou ontem (18/07) a prisão de uma jovem saudita por postar um vídeo na internet, no qual ela caminha por um lugar sagrado, perto de Riad, na Arábia Saudita, vestindo uma mini saia e um top. Estes trajes são rigorosamente proibidos naquele país, onde as mulheres são obrigadas a se vestirem de acordo com as regras do vestuário islâmico, ou seja, com o niqab (aquele véu preto que cobre o cabelo e o rosto, deixando apenas um pequeno corte para os olhos) e com o abaya (aquele roupão também preto que cobre quase todo o corpo, deixando apenas as mãos e os pés expostos). O vídeo foi amplamente compartilhado na web. Os comentários variaram desde a severa reprovação até o simpático elogio pela coragem da jovem.

            A Arábia Saudita é um dos quatro países no mundo, juntamente com o Irã, o Sudão e uma província da Indonésia, onde a legislação exige que as mulheres muçulmanas, quando estiverem fora de casa, portanto em locais públicos, cubram o corpo totalmente, com os trajes que são considerados apropriados para a modéstia da mulher muçulmana. Embora alarmante para muitos, este incidente de ontem é pequeno quando comparado com um outro, também ocorrido na Arábia Saudita, relatado no livro Questioning the Veil: Open Letters to Muslim Women (Questionando o Véu: Cartas Abertas às Mulheres Muçulmanas), de autoria de Marnia Lazreg,  publicado pela Princeton University Press, em 2009, quando “em março de 2002, a imprensa saudita noticiou que quinze garotas morreram em um incêndio, que aconteceu na escola na qual estudavam, em Meca, porque o vice chefe de polícia proibiu os bombeiros de aproximarem das agonizantes garotas, mediante a alegação de que as garotas não estavam vestidas com os trajes adequados (o véu sobre o longo abaya), por isso o contato com elas seria pecaminoso” (p. 05).

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Muçulmanas com o niqab (véu que cobre até o rosto) e o abaya (roupão que cobre o corpo todo), obrigatórios na Arábia Saudita.

            Eventos como estes justificam porque a Arábia Saudita ocupou o vergonhoso 141º lugar, dentre os 144 países pesquisados, no ranking da Global Gender Gap (Diferença Global de Gênero) de 2016, uma pesquisa que é atualizada anualmente e publicada no site do World Economic Forum. Ou seja, é um dos países com a maior desigualdade entre homens e mulheres no mundo, portanto considerado por outras pesquisas também como um dos piores lugares para as mulheres viverem e trabalharem. Apenas muito recentemente (2015), as mulheres sauditas puderam votar e se elegerem como candidatas em eleições. Até então, a Arábia Saudita era o único país no mundo que ainda proibia as mulheres de tais direitos, mesmo sendo signatária da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, ONU-1979. O Brasil é signatário desta Convenção desde 1981.

No ranking da Global Gender Gap (Diferença Global de Gênero), os países com as maiores desigualdades entre homens e mulheres são quase todos aqueles de maioria muçulmana: 130º lugar Turquia, 132º lugar Egito, 133º Omã, 134º Jordânia, 135º Líbano, 139º Irã, 141º Arábia Saudita, 142º Síria, 143º Paquistão e 144º Iêmen.

Se a mini saia é um vestuário tão herético para os sauditas, imagine então o biquíni.

Para assistir o vídeo, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=saGGYGFT3jM  

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