As Suspeitas sobre a Existência da Grande Fraternidade Branca

por Octavio da Cunha Botelho

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Foto de uma gravura reproduzindo Helena P. Blavatsky (1831-91) com os mestres Kuthumi (esq.), Morya (centro) e Conde de Saint Germain.

Desde os tempos antigos, os religiosos sempre sonharam com regiões povoadas por deuses capazes de auxiliar a humanidade esperançosa, a fim de alcançar níveis mais elevados de existência e com isso encontrar outra realidade. O sonho pelo paraíso sempre foi uma tentativa de fuga da sofrida realidade terrena, por isso as religiões sempre exageraram na descrição das maravilhas do mundo celestial, o que deixou o sentimento de que “quanto mais maravilhoso o Céu, mais miserável a Terra”. As concepções sobre estes paraísos, e sobre as fraternidades de deuses que os habitavam, se desenvolveram na medida em que as doutrinas religiosas se modificavam, com a inclusão de ingredientes que se ajustavam à evolução cultural da humanidade. Assim, em sua peculiaridade, o mito da Grande Fraternidade Branca é em parte antigo e em parte uma novidade introduzida por Helena P. Blavatsky (1831-91). Antigo porque coincide em alguns pontos com os mitos das muitas religiões que pregam a existência de criaturas celestiais, muito mais desenvolvidas espiritualmente que as criaturas humanas, vivendo em paraísos, onde alegam estar as moradas dos deuses e das deusas: o Olimpo da religião grega, o Éden das religiões bíblicas, a Sukhāvatī dos budistas da tradição Terra Pura, a Shambala dos budistas tibetanos, a Vaikuntha dos vishnuístas, o monte Kailāsa dos shivaístas, etc. Enquanto que a novidade reside na adaptação destes mitos paradisíacos às ideias dos esoteristas modernos (sobretudo Rosacruz e Maçonaria), tais como revelação gradual do conhecimento secreto, discipulado, decifração do simbolismo, despertar das faculdades latentes, mistérios, iniciações, unidade de todas as religiões e ascensão hierárquica.

Uma peculiaridade da Grande Fraternidade Branca dos teósofos é que a hierarquia é formada por cargos, e não por deuses insubstituíveis, ou seja, um cargo hierárquico é ocupado por sucessivos Mestres. Outra novidade e diferença na Fraternidade Branca dos teósofos, com relação às outras hierarquias de deuses das antigas religiões, é o caráter multi-étnico e multi-religioso dos Mestres. Pois nela existem Mestres das tradições budista, hindu, sikh, cristã, grega e europeia, os quais são sucessivamente substituídos nos cargos, atuando conforme os seus raios e as suas raças raízes. Os nomes de alguns Mestres ocupantes destes cargos hierárquicos na Grande Fraternidade Branca, criada por H. P. Blavatsky e desenvolvida por seus sucessores, coincidem com os nomes de alguns deuses de outras religiões, porém com funções diferentes, enquanto que alguns outros nomes são suspeitos de terem sido inventados pela fundadora da Sociedade Teosófica, tal como será visto mais adiante.

A Ingenuidade Cientifica dos Teósofos

            A Sociedade Teosófica é um exemplo do movimento na contramão do sentido ao qual as religiões, as ciências e as filosofias estavam se dirigindo no final do século XIX e início do século XX. Qual seja, o de se separarem ainda mais, seguindo o impulso do Movimento Iluminista, com cada uma procurando executar exclusivamente tarefas da sua jurisdição, muito diferente da Antiguidade e da Idade Média, quando as religiões, bem como a filosofias, especulavam e tentavam fornecer explicações sobre a natureza, sobre o universo, sobre a vida, sobre o homem e sobre a mente, um papel que depois passou a ser exclusivo das Ciências. Em suma, antes as religiões eram as fontes para a explicação de tudo e do todo. Entretanto, naquela época (séc. XIX) crescia a tendência das religiões em se afastarem de tais tarefas, então assumidas pelas Ciências, para se concentrarem no assunto que lhe restara, qual seja, o destino e a salvação da alma. Pois, as religiões, cada vez mais, reconheciam que a explicação da natureza não era tarefa da religião, mas sim das ciências, bem como a especulação não tinha mais lugar em uma época quando a metodologia científica tinha alcançado maior grau de certeza do que antes, fazendo com que as religiões procurassem se ocupar então exclusivamente com aquilo que era o seu papel, isto é, a ocupação com o destino e a Soteriologia (Salvação).

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Charles W. Leadbeater (1847-1934), autor de The Masters and the Path (Os Mestres e o Caminho).

            Entretanto, para a Sociedade Teosófica, a religião autêntica não deve se ocupar apenas com assuntos soteriológicos, mas, se possível, com tudo: ciência, filosofia, magia, ocultismo, adivinhação, etc. Por isso o subtítulo na principal obra teosófica, The Secret Doctrine: the Syntesis of Science, Religion and Philosophy (A Doutrina Secreta: A Síntese da Ciência, da Religião e da Filosofia). Portanto, enquanto as religiões naquela época se recolhiam no interior da sua competência, isto é, a Salvação (Soteriologia), a Sociedade Teosófica, por sua vez, retrocedia ao passado concedendo à “religião verdadeira” a antiga tarefa de explicar tudo: a criação do mundo, a natureza, a vida, a mente, o universo, etc. O resultado disto foi a obra The Secret Doctrine: the Syntesis of Science, Religion and Philosophy, de autoria de Helena P. Blavatsky (1831-91), primeiro volume publicado em 1888, uma mistura bem diversificada de incontáveis assuntos. Uma tentativa anterior desta síntese já tinha sido feita, pela mesma autora, na obra Isis Unveiled (Isis Desvelada), de 1877. Esta mesma rápida desatualização aconteceu com os compêndios teosóficos escritos logo após estas obras, tais como: The Ancient Wisdom: An Oulline of Theosophical Teachings (A Sabedoria Antiga: Um Esboço dos Ensinamentos Teosóficos-1897) de Annie W. Besant, A Textbook of Theosophy (Uma Introdução à Teosofia-1912) de C. W. Leadbeater e First Principles of Theosophy (Primeiros Princípios de Teosofia-1938) de C. Jinarājadāsa

            Ao realizar as comparações entre ciência e religião, bem como os seus comentários sobre as ciências, H. P. Blavatsky lançou mão da sua mentalidade religiosa e esotérica para entender e comentar sobre ciência, ou seja, tentou explicar as ciências através dos olhos de uma religiosa, pelo motivo dela não ter formação acadêmica. Sem levar em contar o caráter evolucionário, pois ela não conhecia a historiologia das ciências, H. P. Blavatsky pensava que a descoberta científica era algo idêntico à revelação religiosa, ou seja, descobriu algo, então está definitivamente descoberto, não mudará mais e tampouco o conhecimento desta descoberta será aperfeiçoado pelas pesquisas posteriores, tal como uma revelação religiosa que, quando é feita, se torna uma verdade eterna. Então, quando alguém, que conhece a história das ciências, lê The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta) e Isis Unveiled (Isis Desvelada) percebe logo que quase tudo sobre ciências, que Blavatsky comentou, se tornou desatualizado logo nas décadas seguintes, uma vez que esta foi uma época (fim do século XIX e início do século XX) quando as ciências se desenvolveram em uma velocidade de pesquisas assustadora, para os padrões dos séculos anteriores, mais ainda quanto à época atual. Então, o sentimento que se tem, ao ler esta extensa obra (a edição brasileira da Doutrina Secreta foi publicada em seis volumes), é o de um desperdício de páginas, pois quase tudo de científico no livro se desatualizou rapidamente, embora a obra ainda seja admirada pelos teósofos e pelos esoteristas.

A Ficcionalidade das Ideias Teosóficas

            Se alguns autores teósofos e esoteristas, tais como H. P. Blavatsky, Annie W. Besant, Charles W. Leadbeater e Alice Bailey, não tivessem escrito sobre o que escreveram, ou seja, sobre esoterismo, eles certamente teriam sido ótimos escritores de ficção literária ou de ficção científica, em razão das suas habilidades ficcionais. Que alguns religiosos têm talento para se tornarem escritores bem-sucedidos de livros de fantasia ou de ficção está confirmado no grande sucesso dos autores cristãos de literatura de fantasia infanto-juvenil, tais como J. R. R. Tolkien (1892-1973), autor da tão conhecida trilogia O Senhor dos Anéis, e do também cristão C. S. Lewis (1898-1963), autor da famosa série As Crônicas de Nárnia. Eles foram amigos e cristãos dedicados, não abandonando o Catolicismo até o fim de suas vidas.[1] O sentido contrário também funcionou para L. Ron Hubbard, um autor de livros de ficção científica que, mais tarde, fundou uma religião, a Igreja da Cientologia, ou seja, um bem-sucedido escritor de livros de ficção científica que se tornou um líder religioso com séquito numeroso. Isto porque a fantasia, a ficção, o mito e a religião sempre caminharam de mãos dadas, fazendo com que, um religioso desenvolva talento para escrever sobre ficção, e um autor de ficção desenvolva talento para a criação de doutrinas religiosas, pois ambas, ficção e religião, desenvolvem a imaginação.

A virtude da ficção literária está na capacidade de, a partir de uma ideia ou de um fato irreal, ou até mesmo um fato absurdo, criar uma narrativa estruturalmente coerente e lógica capaz de fazer parecer que tudo é realidade, ou seja, criar a partir da irrealidade uma aparência de verdade, através da retórica persuasiva, que cative o leitor, ou que até mesmo o convença da sua realidade. Em suma, a transformação da irrealidade em verossimilhança é a grande virtude persuasiva da ficção literária e da ficção científica, por isso existem tantos fãs de ficção nos dias de hoje. E isto os autores acima souberam fazer com maestria, com a diferença de que, ao invés de escreverem sobre ficção literária, eles escreveram sobre algo que poderia ser chamado de “ficção religiosa”, por isso influenciaram tantos leitores e arrebanharam seguidores. A lucidez e a habilidade retórica de explicar os assuntos do ocultismo e das religiões, com as quais A. Besant e C. W. Leadbeater escreveram é de uma persuasividade irresistível, para aqueles que não conseguem diferenciar o discurso persuasivo e retórico do discurso racional e científico. Então, em função desta manipulação retórica nos textos teosóficos, Srinivas Aravamudan criou o termo “Teosofisma”, ou seja, o sofisma da retórica teosófica, em seu livro Guru English: South Asian Religion in a Cosmopolitan Language (Inglês de Guru: Religião Sul Asiática em uma Linguagem Cosmopolita – 2006: 105-41).

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Annie W. Besant (1847-1933) sucedeu H. P. Blavatsky na liderança da Sociedade Teosófica.

            Na tentativa de fundir religião e ciência, a linguagem teosófica coloriu-se com um caráter ficcional, diferente da linguagem das religiões do passado que fundiam religião e mitologia, colorindo-se assim com uma aparência poética, isto levou muitos leitores a pensarem que a Teosofia é uma religião com sustentação científica. Por exemplo, em alguns trechos dos livros de C.W. Leadbeater e de A. Bailey, o leitor sente mais que está lendo um livro de ficção do que de religião ou de esoterismo, em razão da tentativa de explicar a religião através da linguagem moderna, bem como em virtude da imaginação delirante destes autores. A vivacidade, a lucidez e o detalhismo, bem como a convicção, com que C. W. Leadbeater descreve os mundos sutis (plano astral, plano mental, devachan, plano búdico, etc.), em seus livros, graças à fertilidade da sua imaginação, levam os leitores vulneráveis a acreditar que estes mundos realmente existem. Seu ímpeto persuasivo e manipulador é tão forte que ele chega a colocar a mentira e a persuasão acima da verdade, ao justificar a utilidade de se venerar uma relíquia falsa, pois o mais importante é a devoção, mesmo que enganosa. Segundo ele, a Fraternidade Branca aprova a enganação se esta for em favor da devoção: “Em muitos casos, contudo, a relíquia não é genuína, mas isto, que para nós pareceria um fato da maior importância, na realidade importa menos do que alguém poderia supor. Se por um longo tempo, as pessoas têm formado um grande centro de sentimento devocional em torno dela (a relíquia falsa), neste caso apenas a Fraternidade (Branca) pode usá-lo tão efetivamente como se (ela, a relíquia) fosse uma relíquia genuína, e o fato de que as pessoas estão sendo enganadas em sua crença não afeta a sua utilidade, uma vez que a devoção é genuína, e isto é a coisa importante” (Leadbeater, 1927: 355-6). Em suma, o que importa é a devoção, mesmo que o devoto esteja sendo enganado, bem típico da religião. Isto é  o mesmo que dizer que a religião é para trouxas.

Fraternidades Ocultas

H. P. Blavatsky não foi a primeira a mencionar a existência de uma fraternidade oculta, encarregada do governo e da instrução da humanidade, ela foi apenas quem a denominou de Grande Fraternidade Branca, ou de Grande Loja Branca, e acrescentou, juntamente com os seus sucessores, novos nomes e muito mais detalhes na descrição desta irmandade. Antes dos teósofos, Karl von Eckhartshausen (1752-1803), em suas cartas, conhecidas em conjunto por The Cloud upon the Sanctuary (A Nuvem sobre o Santuário), mencionou a existência de uma fraternidade oculta, que ele chamou de “Comunidade Interior”, “Comunhão dos Santos”, “Comunidade Interna de Luz” ou “Igreja Interior”, a fim de diferenciar das irmandades externas, as quais podem ou não ter contato com esta irmandade interior. Segundo ele, “esta comunidade iluminada sempre foi a verdadeira escola do espírito de Deus, e considerada como escola, pois ela tem seu presidente, seu doutor, ela possui sua regra para os discípulos, ela tem formas e objetos para estudos e, em suma, um método pelo qual eles estudam”. Também, “ela tem graus para o desenvolvimento sucessivo a fim de atingir atitudes mais elevadas”. (…). Esta escola de sabedoria tem permanecido sempre oculta ao conhecimento do mundo”. (…). Ela nunca se expôs aos acidentes do tempo e às fraquezas do homem, porque somente os mais capazes foram escolhidos para fazer parte dela…” (…) “Através desta escola, foram desenvolvidas as sementes de todas as ciências sublimes…” (Steiger, 1895, Letter II).

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Ferdinand Ossendowsky (1876-1945) falou sobre o Rei do Mundo e o Reino Subterrâneo em seu livro: Beasts, Gods and Men, 1922.

            Aproximadamente, na mesma época em que Blavatsky anunciava a existência da Grande Fraternidade Branca, um esoterista francês, Alexandre Saint-Yves d’Alveydre (1842-1909), escreveu um livro em 1886, a partir das suas experiências de contato com adeptos orientais, denominado Mission de L’Inde en Europe (Missão da Índia na Europa), cuja publicação só aconteceu em 1910, por outro esoterista francês Gérard Encausse, mais conhecido pelo pseudônimo de Papus. Neste livro, Saint-Yves d’Alveydre revelou a existência de um centro iniciático misterioso designado pelo nome de Agarttha, localizado nas regiões subterrâneas da Terra. O livro está repleto de transliterações sânscritas ortograficamente incorretas. Algumas décadas depois, o explorador e escritor russo, Ferdinand Ossendowsky (1876-1945), um autor que escreveu muito sobre suas muitas viagens, publicou em 1922, em seu livro Beasts, Men and Gods (Bestas, Homens e Deuses), também repleto de transliterações sânscritas incorretas, os relatos sobre o Rei do Mundo e o Reino Subterrâneo (parte V, p. 299s), que ele ouviu dos monges budistas durante a sua visita à Mongólia. Os relatos de Ossendowsky ora concordam ora divergem dos de Saint-Yves d’Alveydre, por serem derivados de fontes distintas. Logo depois, o esoterista francês Rene Guenon tomou estas duas obras e as comentou em seu delirante livro Le Roi du Monde (o Rei do Mundo), e através de uma comparação fantasiosa com incontáveis tradições, procurou justificar a existência do Rei do Mundo que reside em Agarttha, isto é, “o mundo subterrâneo que estende suas ramificações por todas as partes, sob os continentes e inclusive sob os oceanos, pelo qual se estabelece comunicações invisíveis entre todas as regiões da Terra” (Guenon, 1958: 08). Mas, isto não foi sempre assim e não será para sempre, pois segundo R. Guenon, “o Agarttha não foi sempre subterrâneo e não permanecerá para sempre, virá um tempo quando, segundo as palavras relatadas por Ossendowsky, ‘os povos de Agarttha saltarão de suas cavernas e aparecerão sobre a superfície da Terra’” (Guenon, 1958: 67). Confesso que, quando li este livro pela primeira vez nos anos 1980, tive dificuldade em segurar o riso em alguns trechos, agora imagine quanta maior comicidade encontrará um geólogo durante a leitura.

            Quase nesta mesma época, outra fraternidade oculta foi revelada, desta vez a versão hindu, no periódico teosófico The Theosophist, de julho a novembro de 1915, por um teósofo, ex vice-presidente da Sociedade Teosófica e juiz da Suprema Corte de Madras (atual Chennai), Índia, Subramania Iyer, através de um artigo denominado An Organisation Esoteric in India, publicado periodicamente. Esta organização esotérica é a Suddha Dharma Mandalam, sediada nos Himalaias, uma espécie de versão hindu da Grande Fraternidade Branca, que os seguidores também a chamam de Grande Hierarquia Branca. Diferente da Grande Fraternidade Branca criada por H. P. Blavatsky, a qual é ocupada por Mestres de diferentes etnias e de distintas religiões, a Suddha Dharma Mandalam, por sua vez, é composta de deuses e de deusas comuns apenas ao panteão hindu (Nārayāna, Yoga Devī, Dakshināmūrti, Kumāras, Siddhas, etc.), bem como a doutrina e as práticas são estritamente comuns com a cultura hindu, porém, embora não enfatize a obediência ao sistema de castas, alguns preceitos e algumas práticas são semelhantes aos mencionados nos smrtis e nos dharmashāstras. Outra diferença é a de que, na Hierarquia Branca da SDM, todos os principais Mestres vivem em uma única região, denominada Badari Vāna, dividida em cinco aldeias nos Himalaias, enquanto que, na Fraternidade Branca dos teósofos, os Mestres não residem em um mesmo lugar. C. W. Leadbeater explicou assim em seu livro The Masters and the Path (Os Mestres e o Caminho): “Há uma grande Fraternidade e seus membros estão em constante comunicação um com o outro, mas a comunicação deles acontece nos planos superiores e eles necessariamente não vivem juntos” (Leadbeater, 1927: 212).

Annie Besant, então presidente da Sociedade Teosófica, quando da revelação desta organização oculta, a chamou de “uma falsificação da Grande Fraternidade Branca”. Assim como a Sociedade Teosófica anunciou a vinda de um “Instrutor do Mundo”, Jiddu Krishnamurti, quem em 1929 renunciou publicamente a esta missão, causando um enorme choque nos teósofos e, consequentemente, o abandono de dezenas deles; a Suddha Dharma Mandalam também anunciou, em 1923, a vinda de um avatāra (encarnação divina), conhecido por Bhagavan Sri Mitra Deva, para o ano de 1941, porém ele não apareceu até agora.

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J. Krishnamuti com os seus tutores C. W. Leadbeater e A. W. Besant.

            Uma curiosidade no relacionamento entre os simpatizantes e os seguidores destas fraternidades ocultas é a rivalidade entre eles. Cada um pensa que a sua fraternidade é a verdadeira unidade e fonte de todas as outras, de modo que as demais ou são subordinadas ou, para os mais radicais, falsificações. Veja em seguida o que disse Rene Guenon sobre a Grande Fraternidade Branca criada por H. P. Blavatsky: “as informações fragmentadas que Madame Blavatsky pôde coletar sobre este tema, sem compreender, portanto, seu verdadeiro significado, de onde nasceu nela a ideia da ‘Grande Loja Branca’, a qual poderíamos chamar, não de uma imagem, senão simplesmente de uma caricatura ou de uma paródia imaginária do Agarttha” (Guenon, 1958: 71). Parece que, o mesmo estímulo que sempre alimentou o sonho pela existência de um paraíso nas religiões tradicionais, ou seja, a esperança de que exista um lugar melhor do que este mundo, de onde poderá vir algo extraordinário que mudará a nossa realidade, agora ou na vida após a morte, é o mesmo que alimenta os sonhos dos esotéricos pela existência de fraternidades ocultas, que possam trazer a esperança para a mudança da nossa realidade, com o detalhe de que, o relato de cada paraíso ou de cada centro de fraternidade oculta, está tingido com a coloração cultural ou étnica daqueles que os criaram, apesar da alegação dos esotéricos de que estas fraternidades ocultas sejam universais.

Visão mais Clara do Oculto do que do Visível

            Quando examinamos o que escreveram os autores teosóficos sobre os mundos e os fatos invisíveis, e os comparamos com o que fizeram na vida cotidiana, concluímos que alguns deles enxergavam melhor os mundos ocultos do que o mundo físico. Pois, eles falaram maravilhas curiosas dos planos sutis, mas cometeram enganos e praticaram atrapalhadas enormes na vida física. Veja em seguida o que disse o teósofo e delirante vidente Charles W. Leadbeater, em seu livro The Masters and the Path (Os Mestres e o Caminho), publicado em 1927, portanto apenas dois anos antes do bombástico anúncio da renúncia ao papel de Instrutor do Mundo por J. Krishnamurti, diante de milhares de pessoas, durante uma reunião na Holanda, em agosto de 1929, após apresentar relatos fantásticos e detalhados sobre os Mestres, as iniciações, o discipulado, as raças, etc., Leadbeater afirmou o seguinte sobre a vinda do Instrutor do Mundo (Jiddu Krishnamurti/Alcyone): “O Instrutor do Mundo (Krishnamurti/Alcyone) está agora bem a nossa porta, e nós podemos esperar por manifestações ainda mais crescentes do seu poder, da sua sabedoria e do seu amor. A Ordem da Estrela no Oriente foi fundada em 1911 a fim de preparar esta Vinda, atraindo pessoas de todas as religiões e de todas as seitas, que por várias razões acreditam na vinda tão iminente do Instrutor do Mundo, e estão dispostas a reunirem-se, em um grande esforço, para proclamá-lo ao mundo, e se prepararem, o máximo possível, para serem os servos úteis do Senhor, quando ele aparecer. Uma vez que o Senhor Maitreya escolheu anunciar a sua Vinda ao mundo através de nossa presidente (Annie Besant), nós nos sentimos na posição, eu penso, de admitir que o seu ensinamento será, de certa maneira, alinhado com os ideais que ela (A. Besant) tem estado promulgando, com maravilhosa eloquência, durante os últimos trinta e sete anos” (Leadbeater, 1927: 363-4).

            Primeiro de tudo é preciso informar que foi Charles W. Leadbeater quem descobriu e apontou J. Krishnamurti como o Instrutor do Mundo, após uma experiência clarividente de deslumbre com a pureza e com o tamanho da sua aura, na beira do rio Adyar, nos arredores de Madras (atual Chennai), em 1909. Ademais, aqueles que conhecem a história da Sociedade Teosófica sabem que a missão de J. Krishnamurti (Alcyone), como Instrutor do Mundo, não se cumpriu, uma vez que ele renunciou a este papel em agosto de 1929, causando uma grande decepção e um forte choque em quase todos da comunidade teosófica, o que resultou no desligamento da Sociedade Teosófica de muitos membros históricos (para detalhes, consultar o meu estudo J. Krishnamurti e o Sonho Teosófico por um Instrutor Mundial, publicado aqui em 06/05/2016). Diante desta enganadora experiência alucinatória, a pergunta que fica é a seguinte: como confiar naqueles que alegam ter experiências clarividentes, mas cometem enganos tão desastrosos no mundo físico? A frequente estratégia dos videntes é sempre relatar experiências clarividentes que não são possíveis de serem comprovadas fisicamente, no entanto, quando algumas delas, talvez por descuido, são possíveis de serem comprovadas fisicamente, os resultados são sempre desastrosos, basta consultar a numerosa quantidade de profecias e de previsões que não foram cumpridas.

A Grande Fraternidade Branca

            Falar desta irmandade e de seus mestres, com todos os desdobramentos derivados da Sociedade Teosófica (Escola Arcana, Agni Yoga, Bridge to Freedom, I Am Activity, Elizabeth Clare Prophet, etc.), seria necessário um espaço bem mais extenso do que o disponível aqui, portanto nos limitaremos apenas às concepções criadas por Helena P. Blavatsky e depois desenvolvidas por seus importantes sucessores, Annie W. Besant e Charles W. Leadbeater, as quais representam as fontes das quais os autores subsequentes extraíram os seus delírios e as suas mensagens. De tudo que foi escrito (livros, panfletos e artigos em periódicos) sobre o assunto pela Sociedade Teosófica, a obra mais extensa e detalhada é The Masters and the Path (Os Mestres e o Caminho) de C. W. Leadbeater, portanto será utilizada aqui como fonte para os dados sobre a Grande Fraternidade Branca. Abaixo segue uma descrição resumida sobre os Mestres conforme o livro acima (1927: 40-8).

Os Mestres do Primeiro Raio

            Este é o raio dos reis e dos governantes. No topo da hierarquia está o Senhor Vaivaswata Manu, o governante da quinta raça raiz, que é o mais alto de todos os Adeptos. Segundo a descrição de Leadbeater, ele tem seis pés e oito polegadas de altura e é o representante da nossa raça. Ele vive atualmente nos Himalaias, não tão longe da casa de seu grande irmão, o Senhor Maitreya.

            O Mestre Morya será o sucessor do Senhor Vaivaswata Manu, ou seja, será o governante da próxima raça raiz. Ele é um rei rajput[2] de nascimento, possui uma barba escura dividida em duas partes, o cabelo é preto. Ele tem seis pés e seis polegadas de altura e se comporta como um soldado, falando através de frases curtas, como se fosse acostumado a ser imediatamente obedecido.

            Outro mestre é o Senhor Chakshusha Manu, o manu (pai da raça) da quarta raça raiz, que é um chinês de nascimento e de uma casta muito alta (um traço notável na literatura teosófica é o seu caráter racista e elitista).[3]

Os Mestres do Segundo Raio

            No topo está o Senhor Bodhisattwa, o Instrutor do Mundo, e seu auxiliar o Mestre Kuthumi (às vezes grafado como Koot Hoomi). Ele é o Senhor Maitreya e está atualmente ocupando um corpo da raça celta. Sua barba é pontiaguda.

            O Mestre Kuthumi ocupa o corpo de um brâmane da Caxemira e tem a pele clara como a de um cavalheiro inglês. Seus olhos são azuis e plenos de alegria e de amor. Seu cabelo e sua barba são castanhos (brâmane com pele clara, olhos azuis, bem como cabelo e barba castanhos é geneticamente impossível).[4] Ele será o Bodhisattwa da sexta raça raiz e atualmente reside no Tibete (ninguém o conhece lá). Ele se graduou em uma universidade na Europa, no meio do século XVIII e.c. (mas o nome da universidade não é revelado, pois se fosse, seria possível rastrear a sua matrícula e descobrir que ele nunca estudou lá).

Outros Raios

            O Mahāchoran é o tipo do estadista, o grande Organizador, ele também tem muitas qualidades militares. Ele ocupa um corpo indiano e é alto com um perfil fino.

            O Mestre Conde de Saint Germain se assemelha a ele em muitos aspectos, pois também tem um comportamento militar. Ele tem a curiosa cortesia e dignidade de uma Grande Senhor do século XVIII. Ele pertente a uma antiga e nobre família. Atualmente reside em um antigo castelo na Europa Oriental (o local exato e detalhado não é revelado, pois se fosse, seria possível descobrir que, ou o castelo não existe ou ele não reside lá, já que as revelações clarividentes precisam ser obscuras e imprecisas com relação ao mundo físico, a fim de evitar o rastreamento e a investigação).

            O Mestre Serapis é de pele clara. Ele é um grego de nascimento, embora todo o seu trabalho seja feito no Egito.

            O Mestre Veneziano é o mais formoso de todos os mestres da Fraternidade. Ele é alto, com cerca de seis pés e cinco polegadas de altura. Seus olhos são azuis. Embora nascido em Veneza, sua família tem sangue gótico nas veias.

            O Mestre Hilarion é grego e é um dos mais jovens entre os Mestres.

            Aquele que uma vez foi Jesus, está agora ocupando um corpo sírio, usa habitualmente uma roupa branca e um turbante. Ele é o Mestre dos devotos. Ele vive agora entre os drusos no Monte Líbano (ele nunca foi identificado lá).

            Outro que é muito citado na literatura teosófica é o mestre Djwal Kul, quem está ainda ocupando o mesmo corpo que ele ocupava quando alcançou o Adeptado, alguns poucos anos atrás. Ele é um tibetano (também ninguém o conhece lá). Alice Bailey escreveu alguns livros e artigos a partir da experiência de canalização através deste mestre (que era tibetano, mas conhecia quase nada sobre a cultura tibetana, por isso não falava sobre Budismo Tibetano em suas mensagens).

As Suspeitas

A partir de outras fontes, H. P. Blavatsky relatou, em uma ocasião, que seu “Mestre”, conhecido como Morya, residia perto do grande e importante mosteiro de Tashi Lhunpo, em Shigatse, no Tibete, a sede do Panchen Lama (o mais importante líder da seita Geluk-pa do Budismo Tibetano depois do Dalai Lama, ou seja, o segundo na hierarquia desta majoritária corrente tibetana). Neste local, Morya e outro “Mestre”, Koot Hoomi[5], conduziam uma escola para adeptos ao lado do mosteiro. Estes “Mestres” são compreendidos pelos teósofos como sendo avançados adeptos com poderes sobre-humanos que não eram sujeitos ao mosteiro, tampouco às suas regras, mas tinham completo acesso a sua biblioteca e aos seus recursos (Goodrick-Clarke, 2008: 213). Charles W. Leadbeater acrescentou em seu livro: “De vez em quando, o Mestre Kuthumi cavalga um cavalo louro e, ocasionalmente, quando seu trabalho está concluído, ele é acompanhado pelo Mestre Morya, quem sempre cavalga um magnífico cavalo branco. Nosso mestre regularmente visita alguns mosteiros, e algumas vezes sobe um grande desfiladeiro até um mosteiro solitário nas colinas. Algumas vezes ele caminha com o Mestre Dwal Kul, que mora em uma cabana que ele mesmo construiu” (Leadbeater, 1927: 35-6).

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Gravura reproduzindo a mítica cidade de Shamballa.

Então, com base nestes detalhes é que aparece a primeira suspeita sobre a existência destes “Mestres”. O gigantesco e importante mosteiro de Tashi Lhunpo é muito conhecido no Tibete (atualmente está aberto até para a visitação turística), no entanto, ninguém até agora, quer seja um monge, um lama, um explorador ou um visitante foi capaz de confirmar a existência destes “Mestres” nos arredores daquele complexo, sobretudo os que viveram daquela época. Por exemplo, L. Austine Waddell, contemporâneo de H. P. Blavatsky, que visitou o Tibete muitas vezes (o seu livro foi publicado em 1885), que conviveu com os lamas, que aprendeu a língua tibetana e que visitou alguns mosteiros disse o seguinte em seu livro Tibetan Buddhism (Budismo Tibetano): “Nem os lamas conhecem alguma coisa sobre estes médiuns – os Mahātmas (Koot Hoomi, etc.) – que os teósofos colocam no Tibete e atribuem um importante lugar no misticismo tibetano…” (Waddell, 1972: 129). Este autor informa mais adiante neste mesmo livro que o mosteiro de Tashi Lhunpo abrigava cerca de 3.800 monges naquela época (idem: 272), portanto é impossível que os monges e os lamas não conhecessem estes “Mestres”, que frequentavam a biblioteca e as instalações do mosteiro, também que não conhecessem a tal escola para adeptos nos seus arredores.

Também, que ele era conhecido por muitos no Tibete é mencionado na obra de Leadbeater: “Algumas vezes, ele (Kuthumi) faz sua refeição na presença deles (dos discípulos), sentado na varanda (da sua casa), com esta multidão de tibetanos e outros no chão em torno dele” (Leadbeater: 1927: 38). Portanto, exposto à tanta visibilidade, é impossível que alguém, no Tibete, com pele clara, olhos azuis, barba e cabelo castanhos, que atrai uma multidão de discípulos, não chame a atenção o suficiente para ser conhecido e mencionado em outras fontes além das fontes teosóficas. Mais do que isto, alguém com estes traços e com tanta atração, seria mais do que apenas notado, ele seria notícia.

            Segundo os relatos teosóficos, eles (Kuthumi, Morya e Dwal Kul) eram contatados através de aparições físicas para alguns poucos membros adiantados da Sociedade Teosófica, ou através de cartas que se precipitavam ou apareciam misteriosamente para alguns membros, bem como as respostas chegavam através de um armário de madeira, conhecido como “Santuário” (algo que nos lembra o Oráculo Grego), o qual se localizava no “Quarto Secreto”, ao lado do quarto de H. P. Blavatsky, na sede de Madras, ou ainda através de viagem astral por membros treinados para tal façanha. Estas precipitações misteriosas e as respostas de cartas que aconteciam através do “Santuário” foram alguns dos eventos delatados como fraudes por Emma Coulomb e alvos das investigações da Society for Psychical Research (Sociedade para Pesquisa Psíquica) de Londres, que resultaram no Relatório Hodgson.

            Outras suspeitas sobre a existência de Koot Hoomi Lal Sing (Kuthumi) estão nas discordâncias sobre a sua terra natal. A. P. Sinnett, um importante teósofo que manteve correspondência com este mestre durante alguns anos, informou que ele era nativo do Punjab, uma região no norte da Índia. Já no livro Isis sem Véu, de H. P. Blavatsky, ele é mencionado como um nativo da Caxemira, norte de Índia, e ainda em outra fonte, ele é citado como um Kutchi (Murdoch, 1894: 23). C. W. Leadbeater informou que ele é um brâmane da Caxemira (Leadbeater, 1927: 46). A controvérsia é flagrante. Também, a suspeita recai sobre os fatos de que o nome Koot Hoomi é absolutamente inexistente na língua Punjabi da região do Punjab, na língua Kashmiri da Caxemira e na língua tibetana. Ademais, o nome é também inexistente na língua sânscrita. Enquanto que o último nome, Sing, poderá ser o mesmo nome empregado como Singh, na língua Punjabi, um termo derivado do Sânscrito Sinha (Leão), em quase todos os nomes dos seguidores da tradição Sikh, portanto o último nome Sing não é utilizado para o nome de brâmanes hindus, tal como informou Leadbeater.

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O Mestre Kuthumi, o seu nome é inexistente nas línguas orientais.

            Outra suspeita está ainda no seguinte. Koot Hoomi, segundo A. P. Sinnett, foi educado na Inglaterra, porém o estilo do seu inglês nas cartas está repleto de americanismos. Por exemplo, ele escrevia ‘skepticism’ no estilo norte americano, ao invés de ‘scepticism’ no estilo britânico. Uma vez H. P. Blavatsky explicou para A. P. Sinnett de que não se tratava de um americanismo, mas sim do saber filológico do mestre (Murdoch, 1894: 24). Sobre o estilo do inglês das cartas de Koot Hoomi, o jornal indiano The Bombay Gazette, de 24.09.1881, expressou a seguinte opinião: “Ainda que o sábio (Koot Hoomi) tem infelizmente somente se revelado para os seus admiradores em uma série de cartas, cujo estilo vulgar e inflado nos faz arrepiar, com a possibilidade, se o ocultismo estiver destinado a se tornar a religião mundial. A nova revelação, até agora, não chega a ser nada mais do que uma série de artigos de fundo de um jornal americano de terceira categoria” (idem: 24).

            Moncure D. Conway desconfiou do seguinte sobre os três Mahātmas no sistema de Blavatsky: Koothumi, Morya e Dual Koot: “Eu suspeito fortemente que este último é mais uma brincadeira de Madame Blavatsky. Após criar o imaginário Koothumi (originalmente Kothume), juntando partes dos nomes dos seus principais discípulos,[6] Olcott e Hume,[7] aquele resultado bem-sucedido provavelmente a levou a criar mais um mahātma, um segundo Cott (de Olcott), transvestido como um dual ou Dual Koot” (Conway, 1906: 201). Mais adiante, ele acrescentou, quando estava conversando com jovens discípulos de Blavatsky: “Sabendo bem claramente que Koothumi era um nome torcido de Ol(cott-hume), e que tal ser não existia, eu não questionei a boa-fé daqueles jovens…” (idem: 202).

            Ainda outro caso que trouxe muita suspeita foi a reprodução literal de uma palestra proferida pelo professor norte americano, Mr. Kiddle, em agosto de 1880 e publicada no mesmo mês na revista Banner of Light, em uma das cartas de Koot Hoomi para seu discípulo A. P. Sinnett, a qual foi publicada no livro The Occult World, em junho de 1881, de autoria de A. P. Sinnett. Ao ler o livro acima, o professor Kiddle expressou a sua surpresa: “Eu fiquei muito surpreso de encontrar em uma das cartas apresentadas ao senhor Sinnett como tendo sido transmitida a ele por Koot Hoomi na maneira misteriosa descrita, uma passagem retirada quase que literalmente de uma palestra sobre Espiritismo que proferi em Lake Pleasant, em agosto de 1880, e publicada no mesmo mês pela Banner of Light. (…). Como então, ela (a minha palestra) pode aparecer na misteriosa carta de Koot Hoomi? (Murdoch, 1894: 24 e Hodgson, 1885: 206). Depois que esta nota do professor Kiddle foi feita pública, Koot Hoomi forneceu a seguinte justificativa para a reprodução literal da palestra do prof. Kiddle: “Eu estava fisicamente muito cansado em função de uma cavalgada de 48 horas consecutivas e (fisicamente ainda) meio sonolento”. John Murdoch debochou desta justificativa de Koot Hoomi da seguinte maneira: “Se Koot Hoomi pode vir em seu corpo astral do Tibete para Bombaim, como é que este pobre homem pode ser obrigado a permanecer 48 horas consecutivas sobre a sela de um cavalo? (Murdoch, 1894: 25)

            Diante destas suspeitas e de tantas outras, alguns membros descontentes, bem como alguns religiosos oponentes e a imprensa da época começaram a desconfiar e, ao mesmo tempo, a divulgar a hipótese de que os verdadeiros autores das cartas dos Mahātmas eram a própria H. P. Blavatsky e seu discípulo Damodar K. Mavalankar, portanto os ‘Mestres’ eram personagens fictícios, produto de uma fraude. O Relatório Hodgson, de 1885, da Society for Psychical Research de Londres, também chegou a esta mesma conclusão, entretanto, os argumentos, as provas e o método empregado na pesquisa de Richard Hodgson, erudito da St.John’s College, Cambridge, autor do relatório, receberam muitos contra-argumentos dos teósofos, o que resultou em uma longa discussão, até o exame crítico do Relatório, por outro membro da Society for Psychical Research, Vernon Harrison, cerca de cem anos depois (Harrison, 1986). A discussão se estendeu tanto que a autora Breatrice Hastings escreveu uma extensa obra, em quatro volumes, em defesa de H. P. Blavatsky, sendo o segundo volume dedicado exclusivamente à contestação das acusações de Madame Coulomb (ver: Hastings, 1937, vol. II e Coulomb, 1885).

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O Mestre Morya, ninguém o conhece no Tibete

           Outra forte suspeita é quanto à imensa sabedoria atribuída aos Mahātmas pelos teósofos, os quais assistiram Blavatsky na preparação dos seus escritos. Ela também era reconhecida como dotada de uma sabedoria invejável. Entretanto, quando seus textos são observados com atenção e com crítica é possível descobrir frequentes erros bem objetivos e primários, tal como confundir um livro com outro. Por exemplo, na edição de 1877 do livro Isis Unveiled (Isis Desvelada), volume II, H. P. Blavatsky afirma o seguinte: “No Hari-purana, no Bagaved Gitta, como também em diversos outros livros, o deus Vishnu é mostrado como tendo assumido a forma de um peixe com a cabeça humana, a fim de recuperar os Vedas, perdidos durante o Dilúvio. Tendo capacitado Viswamitra a se proteger com toda a sua tribo na arca, Vishnu, tendo compaixão da fraca e ignorante humanidade, permaneceu com eles por algum tempo” (ver: Blavatsky, 1877: vol. II, 257). Primeiro, o Bhagavad Gītā (भगवद् गीता) é o livro mais popular do Hinduísmo, portanto até mesmo um principiante indiano não trocaria a grafia de Bhagavad Gītā por Bagaved Gitta. Segundo, não existe capitulo com o título de Hari-purāna no Bhagavad Gītā, terceiro, não existe relato de Dilúvio no Bhagavad Gītā, o que aconteceu foi que Blavatsky confundiu o Gītā com o Bhāgavata Purāna (भागवत पुराण), onde o relato do Dilúvio aparece no tomo VIII, capítulo 24 (Tagare, 1987: part. III, 1116-24; ver também: Murdoch, 1894: 29) e, por fim, não existe arca no Dilúvio do Bhāgavata Purāna, tal como o modelo bíblico, o que Vishnu criou, a fim de salvar algumas pessoas, foi um gigantesco torrão de terra que flutuou sobre as águas, tal como um barco, de modo que alguns tradutores traduzem por “barco de terra” (I.03.15 – ver: Tagare, 1987: part I, 26). Enfim, confundir o Bhagavad Gītā com o Bhāgavata Purāna, duas obras hindus tão conhecidas, é tão absurdo como alguém que trata da Bíblia informando que o Dilúvio de Noé é relatado nos Atos dos Apóstolos no Novo Testamento.

Aparições Fraudulentas

            Uma das supostas comprovações da existência dos Mestres (Mahātmas), manipuladas por H. P. Blavatsky, era através de aparições para alguns poucos membros avançados da Sociedade Teosófica. Entretanto, estas aparições aconteciam sempre, para a suspeita de muitos, de maneira fugaz, em locais de penumbra, ou à noite, ou à distância, quando a visibilidade era precária, ou seja, em circunstâncias de pouca precisão. E. Coulomb relatou em seu panfleto (de delações sobre as fraudes de Blavatsky)[8] como os truques destas aparições eram feitos. Primeiro ela revelou como a máscara, construída por ela e por Madame Blavatsky, foi feita para ter a aparência de um mestre. “Em um dos seus dias de bom humor, ela (Blavatsky) me chamou e me disse: ‘veja se você consegue fazer uma cabeça do tamanho da cabeça de uma pessoa e colocá-la sobre aquele divã’, apontando para um sofá no seu quarto, e meramente colocou um lençol em torno dele, o que teria um efeito mágico com o clarão da lua. Ela cortou o molde do rosto que eu deveria fazer, o qual eu ainda tenho, sobre este eu cortei os exatos contornos do Mestre, mas, para minha vergonha, eu devo dizer que, afinal de contas, meu problema de cortar, costurar e estofar não deu muito certo. Madame disse que ela (a máscara) parecia um velho judeu. (…) Madame, com um gracioso toque aqui e ali de seu pincel de pintura, deu a ela uma aparência melhor. Mas isto era somente a cabeça, sem o busto, e não poderia ser usada muito bem, então eu fiz uma jaqueta e entre os panos eu coloquei estofados para fazer os ombros e o peito, os braços eram somente até o cotovelo, porque quando a coisa era utilizada, nós achamos que os braços compridos obstruiriam o caminho daquele que tivesse de carregá-la. Quando esta beleza ficou pronta, transformou Madame em outra pessoa” (Coulomb, 1885: 31 e Murdoch, 1894: 22).

            Nas cartas enviadas por Madame Blavatsky para E. Coulomb, esta máscara recebia o codinome Christofolo. Da maneira que informou E. Coulomb, parece que, dentre os mestres, esta máscara era utilizada para simular a aparição do mestre Koot Hoomi, pois em um trecho do seu panfleto ela diz: “… Christofolo, aliás Koot-Hoomi…” (Coulomb, 1885: 61 e 53). Emma Coulomb mostrou esta máscara para um auditório durante uma demonstração no Old College Hall, em Madras, logo após a sua saída da Sociedade Teosófica (Murdoch, 1894: 22). Richard Hodgson, autor do Relatório Hodgson, também afirmou que, quando entrevistou E. Coulomb, durante a sua investigação em Madras, viu a máscara e concluiu que, em circunstâncias de penumbra ou à distância, ela convenceria qualquer um de que poderia ser uma pessoa de verdade.

            Emma Coulomb relatou em seu panfleto algumas das simulações de aparição, com o uso do Christofolo, nas quais ela auxiliou: “… Madame (Blavatsky) pediu para Koot Hoomi ser mostrado no bangalô do coronel (Olcott). Baboula, o empregado da Madame, pegou o Christofolo, todo embrulhado em um xale, e com o sr. Coulomb (marido de Emma Coulomb) percorreram toda e extensão ao lado da piscina até o fim do pasto, retornando em uma linha reta de volta até o terraço do bangalô do coronel, onde ele foi erguido e abaixado para dar uma aparência etérea. Eu fui até a Madame para dizer que tudo estava pronto e a encontrei na janela, na companhia do senhor e da senhora Sinnett olhando através de um binóculo de teatro…”. Algumas tentativas às vezes falhavam, veja a seguinte: “Outro dia, ela pediu que o Mahatma fosse levado para a ilha no meio do rio oposto ao bangalô principal. Foi impossível atender ao seu pedido desta vez, porque a maré estava alta e a luz da lua tão clara quanto o dia, de maneira que o empregado, que deveria carregar a trouxa, não poderia cruzar o rio, consequentemente a aparição não aconteceu, para a grande irritação da Madame, porque ela tinha convidado o senhor e a senhora Sinnett para subir e ver a aparição” (Coulomb, 1885: 53).

Conclusão

            Como prova da existência destes Mestres, C. W. Leadbeater citou o testemunho dos líderes e de alguns membros da Sociedade Teosófica, os quais, segundo ele, tiveram as experiências de contato com estes Grandes Seres (Leadbeater, 1927: 08). Entretanto, com tantas atrapalhadas e tantas suspeitas de fraudes praticadas por líderes e por membros, tal como as descritas acima, somos levados a concluir que não podemos confiar nos teósofos nem mesmo com relação às concretas coisas que podem ser vistas, então como poderemos, ainda mais, acreditar neles quanto eles revelaram sobre o invisível?

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Notas

[1] C. S. Lewis escreveu um livro cristão que se tornou muito conhecido: Cristianismo Puro e Simples, 1952.

[2] Rajput é um povo natural do estado do Rajastão, norte da Índia, famoso pela bravura dos seus guerreiros. Este povo manteve alguns costumes bárbaros, inclusive foi o povo indiano que mais praticou o Sacrifício de Satī, aquele supersticioso sacrifício cuja viúva se atira na pira funerária em chamas, durante a cremação do corpo do marido recém falecido.

[3] Intrigante o fato desta Grande Fraternidade Branca, a qual, segundo os teósofos, está constituída pelas criaturas mais evoluídas espiritualmente deste mundo, sustentar a ideia de superioridade e de inferioridade das raças e das castas.

[4] Mais uma vez, a Fraternidade Branca, criada da imaginação de H. P. Blavatsky, admite em sua hierarquia um membro de uma casta, agora um brâmane. Será que este Kuthumi, por ser um brâmane, seguia e praticava aquelas ideias e regras tão discriminatórias, obsoletas, misóginas e preconceituosas prescritas no Manusmrti e nos Dharmashāstras?

[5] Os relatos sobre a aparência, o cotidiano, a residência e as atividades destes mestres são detalhados em The Master and the Path, de C. W. Leadbeater, 1927, p. 25-40.

[6] Por isso até agora ninguém conseguiu identificar o nome Kuthumi (ou Koot Hoomi) em alguma língua oriental.

[7] Coronel Henry S. Olcott, um dos fundadores da Sociedade Teosófica, juntamente com H. P. Blavatsky, e Allan Octavian Hume, este último talvez o mais ilustre membro da ST, ele foi Secretário da Agricultura, Botânica e Comércio da Índia, um cargo equivalente a Ministro de Estado, tão importante que ele morava em um castelo no estado de Simla, norte da Índia. Ele desligou-se da ST após apenas quatro anos, depois de suspeitar de um fenômeno fraudulento de H. P. Blavatsky de recuperar um broche perdido pertencente a sua filha. Ele era tão ilustre que a cerimônia de ingresso da sua esposa e da sua filha na ST, em 1881, foi acompanhada pela imprensa e noticiada nos principais jornais da Índia.

[8] Para saber mais sobre as delações de Emma Coulomb, consultar o estudo: H. P. Blavatsky e o Caso Coulomb em: https://archive.org/details/Coulomb

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