O Mistério como Imunidade para Deus

por Octavio da Cunha Botelho

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Conforme a mentalidade religiosa da época, deus já habitou diversas regiões, inclusive sobre as nuvens.

            Aqueles que leem habitualmente sobre os debates, entre religiosos e céticos, sobre a existência ou não de deus, podem perceber quão frequente é o argumento de desafogo dos cristãos, quando não encontram prova para a sua existência, de que deus é um ‘mistério’, ou ‘deus é o mistério’. O artifício, claro, é deslocar deus para além do alcance da Ciência e da Filosofia, pois o que é misterioso é, automaticamente, desconhecido, portanto não pode ser objeto de discussão. Daí, deus se torna imune.

            Bem, o que é preciso lembrar em primeiro lugar é de que já existiram milhares de mistérios no passado, existem tantos outros mistérios na atualidade e surgirão novos mistérios no futuro. Enquanto que, por outro lado, o que já foi mistério antes não é mais agora, em razão das descobertas e do avanço do conhecimento. Em contrapartida, estes últimos fatores contribuíram para o surgimento de mais mistérios hoje, pois ao mesmo tempo em que a descoberta e o avanço do conhecimento científico decifram os mistérios, eles, sobretudo as descobertas, fazem surgir novos mistérios. Em outras palavras, da mesma maneira que a Ciência esclarece muitos mistérios, ela mesma é responsável, em virtude das novas descobertas, pelo surgimento de novos mistérios, uma vez que novas coisas e novos fenômenos vêm à tona. Por exemplo, antes da invenção do telescópio, o espaço sideral era um mistério, do qual apenas era possível especular hipóteses. Os antigos conjecturavam que as estrelas eram luzes que atravessavam pequenos buracos de uma grande abóboda que envolvia a Terra, daí a origem do nome ‘abóboda celeste’. Com a criação da lente de aumento e em seguida da luneta, Galileu observou que nem todas as luzes no céu eram estrelas, ele realizou as primeiras descobertas dos planetas. Então, estes corpos celestes recém descobertos passaram a ser um mistério. De que são formados? Como surgiram? Existem vidas como na Terra? Com a criação de telescópios mais potentes e a construção das sondas espaciais, muitos destes mistérios foram esclarecidos, porém, ao mesmo tempo, fizerem aparecer novos mistérios, pois aumentou a capacidade de ver o universo e com isso descobrir outros corpos e fenômenos que não eram até então conhecidos (cinturão de asteroides, pulsar, buraco negro, anã marrom, quasar, supernova, estrela de nêutron, poeira estelar, estrela binária, gigante vermelha, etc.), os quais passaram a representar novos mistérios. As recentes descobertas de exoplanetas (planetas que orbitam estrelas fora do Sistema Solar) se transformaram em mais um intrigante mistério, uma vez que muitas dúvidas sobre seus detalhes são levantadas. Enfim, para que exista um mistério é preciso que se tenha pelo menos uma noção ou uma conjectura sobre a existência de algo. Por exemplo, quando os Buracos Negros eram apenas uma teoria ou hipótese, há algumas décadas atrás, portanto cercados de dúvidas sobre a sua existência, eles eram um mistério. Agora que os potentes telescópios são capazes, não de vê-los diretamente, em razão da escuridão do universo, mas de perceber pelo menos os efeitos da sua presença em função da sua elevada força gravitacional, a sua existência não é mais um mistério, agora é um fato, porém gerou novos mistérios sobre os detalhes da sua natureza e da sua função no universo (se são corpos celestes ou apenas energia).

            Entendendo desta maneira, não sabemos se os mistérios terão um fim algum dia, pois da mesma maneira que uma descoberta e um resultado de pesquisa esclarecem um mistério, eles poderão gerar novos mistérios ad infinitum, sobre coisas e fenômenos que não eram conhecidos antes. Do mesmo modo, as religiões estão cercadas de mistérios, algumas se envolveram tanto que fundaram até cultos de mistérios, cujos mais conhecidos foram os cultos gregos de Eleusis, de Isis, de Mitras, de Dionísio e de Mater Magna. A palavra “mistério” vem da raiz verbal grega que significa “fechar”, daí a palavra grega μυστηριον (mysterion), plural μυστηρια (mysteria) mistérios, portanto um adepto destes cultos era conhecido como μυσται (mystai), ou iniciado. Os maçons, os rosacruzes, os teósofos e os esoteristas são muito envolvidos com os mistérios e os segredos.

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O sol foi adorado por muitos povos do passado, agora um culto quase esquecido.

            Da mesma maneira que a Ciência esclarece e gera novos mistérios, as religiões também realizaram este mesmo processo ao longo da história. Na Antiguidade, quando a natureza física e química do sol era pouco conhecida, portanto um mistério, surgiram muitos cultos de adoração ao sol, em razão da admiração que os antigos atribuíam a sua indispensabilidade para o surgimento e para a manutenção da vida. Com isso, os cultos ao sol foram abundantes e florescentes nas civilizações antigas. Com o avanço do conhecimento científico sobre a natureza do sol (que ele é apenas mais uma estrela dentre as bilhões existentes no universo), de sua composição química, de sua distancia da Terra, de seu tempo de vida e da sua idade dentre as diferentes fases da vida de uma estrela (estrela amarela, gigante vermelha, supernova e anã negra), a prática destes cultos, juntamente com outros cultos de adoração a deuses com formas mais concretas, desapareceu nas sociedades mais esclarecidas e, enquanto isto foram as religiões com a concepção de deuses mais abstratos e distantes da concretude que prosperaram, portanto deuses que apresentam mais mistérios em sua natureza e função.

            Ademais, o que a Ciência descobriu sobre a natureza e a função do sol em quase nada coincidiu com o que os antigos conjeturavam. Então, os religiosos mais esclarecidos abandonaram as religiões de adoração a deuses concretos para se dedicarem às religiões de adoração a deuses mais abstratos, ou seja, mais distantes da materialidade, portanto mais misteriosos. Este processo evoluiu até surgirem as religiões panteístas e depois o aparecimento das religiões não teístas, cujas realidades supremas são atribuídas a regiões ainda mais recônditas. Enfim, historicamente as religiões estão sempre empurrando as concepções da natureza de seus deuses e suas realidades supremas para as regiões desconhecidas da vida e do mundo. Por exemplo, religião alguma falava no Big Bang até algumas décadas atrás, agora com o aumento da aceitação da sua teoria, alguns religiosos já estão até dizendo que deus foi o criador do Big Bang, pois o que existia antes desta grande explosão não é conhecido, portanto um mistério. Mais uma vez o recurso da ‘misteriorização’. Concluindo, as religiões teístas precisam colocar deus sempre em um lugar desconhecido e misterioso, com isso, deus já habitou inúmeros locais no universo.

            Agora, o mais intrigante é o fato de que, nas discussões, quando deus é imunizado com o mistério pelos religiosos, é sempre a religião que conhece sobre o mistério, e não qualquer outro seguimento cultural. Ou seja, se deus é mistério, portanto fora do alcance do conhecimento científico, então quem conhece e tem autoridade para falar sobre ele é a religião. Daí então a pergunta. Se deus é mistério, por que é a religião que conhece sobre seu mistério, sendo que, historicamente, foi a Ciência que mais esclareceu sobre os inúmeros mistérios já existentes? Na prática, foi a Ciência que mais provou ser capaz de decifrar mistérios, sendo que, ao contrário, as religiões nunca decifraram um grande mistério, que fosse comprovadamente confirmado, muito diferentemente, o que aconteceu foi um sucessivo desmascaramento das concepções religiosas pelas Ciências ao longo da história, fazendo com que, aos poucos, as disciplinas religiosas nas escolas fossem sendo abolidas, desde a sua implantação na Idade Média, para dar lugar a um currículo absolutamente laico de disciplinas, tal como temos hoje nos países esclarecidos.  Enfim, com o tempo a religião se transformou em uma cultura secundária.

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O debate religioso deve contar também com a participação dos ateus

            Ademais, por atribuírem um caráter misterioso para deus, alguns religiosos se sentem na condição de não precisar explicá-lo. Tampouco na condição de responderem às críticas que lhe são dirigidas. Já, outros religiosos acreditam que um dia a Ciência irá provar a existência de um criador. Caso aconteça, certamente o resultado será tal como foi com o conhecimento científico do sol, ou seja, nada terá a ver com as concepções conjeturais sobre deus atribuídas pelos religiosos. Outros religiosos argumentam que as Ciências não conhecem tudo, portanto não podem contestar a existência de deus. Sim, de fato elas não conhecem tudo, porém, outro fato bem real é que, mesmo assim, elas conhecem infinitamente mais do que as religiões.

            Mais útil do que discutir sobre a existência de deus ou não, é a discussão sobre o que as diferentes religiões dizem sobre ele. As concepções são tão divergentes que elas se diferenciam até dentro de uma mesma religião. Por exemplo, as concepções sobre deus dos primeiros padres da Igreja são enormemente diferentes das atribuídas pelos teólogos da atualidade. Muitas ideias teológicas foram derrubadas ao longo dos tantos concílios. Então, a pergunta: qual deus, dentre tantos, é este que é um mistério, ou todos são misteriosos?

            Para concluir, esta prática de sempre empurrar deus para fora do mundo conhecido, atribuindo-lhe um caráter misterioso e distante, nos faz lembrar o símile dito pelo intérprete vedantino da corrente Adwaita, Sri Shankaracharya, de que aquele que entende que deus está sempre longe de si é como o tolo que caminha tentando agarrar a sua própria sombra, por mais que ele caminhe, ela sempre estará se distanciando dele. Moral da história: ele nunca irá conhecer deus.

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