Compreender não é Concordar

por Octavio da Cunha Botelho

ensino-religioso

Doutrinar é muito diferente de educar

Tal vício não acontece com todos os religiosos, sendo mais comum entre os intransigentes, muito frequente durante um diálogo ou uma discussão, quando alguém emite uma interpretação religiosa diferente daquela aceita pelo religioso, então este último interrompe a discussão para objetar: “espera aí…. não é assim… você não entende”! Isto acontece porque, para muitos religiosos, compreender é o mesmo que aceitar ou concordar. Portanto, qualquer opinião ou interpretação que seja diferente daquela que o religioso aceita ou concorda é uma incompreensão. Ou seja, para muitos devotos, compreender é sinônimo de aceitar, portanto quem não aceita a versão da pregação religiosa e emite uma versão diferente, não compreende. Enfim, só compreende a religião aquele que concorda com a mesma interpretação, ou seja, quanto mais alguém concorda com a pregação, mais este alguém compreende a religião, ao contrário, quanto mais alguém discorda da versão tradicional, menos compreende.

            Este desentendimento entre interlocutores aumenta ainda mais quando a interpretação divergente parte de um ateu. Então, o religioso, durante a discussão, balança a cabeça em desespero para contestar: “você não entende… você precisa conhecer mais”! Por se diferenciar da pregação religiosa, as explicações dos ateus ou as dos estudos acadêmicos sobre as religiões são entendidas como falta de conhecimento ou como incompreensão. Piora ainda mais quando se trata de uma crítica. Esta última é sempre vista como uma incompreensão da religião, pois para muitos religiosos, sobretudo para os mais fanáticos, só critica a religião quem não a conhece, ou não a experimentou, pois para eles é permitido criticar tudo, menos a religião. O fundamento é aquela antiga frase popular: “santo não se critica, santo se venera”, cujos religiosos transferem para a cultura religiosa: “religião não se critica, religião se venera”, pois o que é sagrado não deve ser criticado, mas sim admirado. Com isso, as religiões foram protegidas pela blindagem da sacralidade por muitos séculos, o que lhes proporcionou uma imunidade às críticas, daí cresceram e se multiplicaram.

Sendo assim, muitos devotos pensam que, a partir do momento em que um ateu, que costuma criticar a religião, começar a ler as escrituras sagradas, suas críticas religiosas cessarão. Na visão de muitos deles, o crítico é um ignorante e um inexperiente que, na ingenuidade da sua fantasia, procura entender e explicar a religião sem ter passado pelo processo de catequese, de submissão e de disciplina, indispensável para a compreensão da religião. Em outras palavras, só entende a religião aquele que a praticou. Enfim, qualquer um de fora é um palpiteiro intrometido.

8746090Em razão disto, para quase todos os religiosos, é inadmissível a existência de um crítico, que já foi devoto, que conheça o mesmo tanto sobre religião ou mesmo até mais do que um religioso. Ou seja, que o alto grau de dedicação e de aprofundamento nos estudos e na prática o levou a uma forte decepção quanto à efetividade da disciplina religiosa. Pois, o número de praticantes que se decepcionam com as religiões é grande, porém sua divulgação é omitida pelos religiosos, uma vez que as igrejas procuram esconder estes fatos, tentando, de outra maneira, lançarem no ostracismo aqueles que abandonam os grupos religiosos. Enquanto que, por outro lado, as conversões de novos adeptos são divulgadas e celebradas com grande alarde nas igrejas. Também, o que contribui para o pouco conhecimento da ocorrência de abandono de seguidores dos grupos religiosos é o fato de que são muito pouco aqueles que, ao se decepcionarem e, consequentemente, os abandonarem, divulgam suas experiências decepcionantes, através de livros ou de artigos em jornais e revistas, com isso as visões dos dissidentes são muito pouco conhecidas. Atualmente, a Internet tem contribuído para diminuir esta omissão, com a criação de sites de dissidentes que publicam suas decepções. Alguns, além das orientações, proporcionam apoio psicológico para outros dissidentes. Este é o caso do site das Ex Testemunhas de Jeová, pois esta igreja obriga a todos os fiéis a romperem absolutamente com todos os contatos com aqueles que abandonaram a igreja, um processo denominado pelos pastores de “Ostracismo”, o que causa profundo trauma naqueles que frequentaram a igreja e conviveram com outros fiéis, muito afetuosamente, por longo tempo.

Assim, quem escreve sobre crítica religiosa se cansa de receber comentários de religiosos lhe aconselhando: “você precisa conhecer mais… estude mais… pratique primeiro para depois julgar”, ou um chavão conhecido tal como: “quem julga muito, conhece pouco”. Agora, o que os religiosos não levam em conta é o fato de que alguns críticos da religião são escritores que já foram praticantes religiosos no passado e que, em função da decepção, passaram a escrever sobre suas opiniões críticas. Portanto, nem todos os críticos da religião são religiosos inexperientes. O fato deles emitirem uma interpretação diferente da pregação tradicional, leva os religiosos a entenderem que eles não entendem a religião, pois não é a opinião de quem está sob o efeito da doutrinação religiosa.

Voltando para o assunto da equivalência entre “compreender é concordar”, o que alguém que já foi de dentro da religião, e agora está de fora, percebe é a dificuldade de muitos religiosos em entenderem a diferença entre “doutrinação” e “educação”. Na doutrinação não há debate, nem análise crítica, tampouco reflexão e confronto de opiniões, pois ela é a infusão de uma mensagem, de maneira imposta, pelo doutrinador no doutrinado, a fim de infundir uma ideologia. Já a educação é esclarecedora, informativa sem ser impositiva, bem como é refletiva e crítica. De modo que, a doutrinação é persuasiva, ou seja, seu objetivo é fazer crer e fazer agir sem refletir, enquanto que a educação é esclarecedora, seu objetivo é fazer compreender e fazer agir após refletir.

data_art_435405

Muitos  religiosos não percebem o efeito da persuasão em suas mentes.

Vale a pena incluir aqui um curto esclarecimento sobre a natureza da doutrinação. Resumidamente, doutrinar é instruir com base em uma posição ideológica, ou seja, incutir em outra pessoa determinados pontos de vista, ideologias ou visões de mundo, com a intenção de que estes pontos de vista se tornem crenças, isto é, que sejam aceitos pelo ouvinte ou pelo leitor como verdade única. Em outras palavras, é a condução do entendimento do ouvinte ou do leitor para que aceite uma opinião em detrimento de outras, enfim, é o direcionamento da compreensão do receptor da mensagem para a aceitação de um único ponto de vista, que fecha a possibilidade de comparação com outros pontos de vista. Em regra geral, emprega o estilo autoritário e impositivo de comunicação. De certa maneira, uma forma de manipulação, todavia, diferente da persuasão, pois pode lançar mão tanto de argumentos retóricos como de argumentos racionais, assim como também de evidências, tal como a doutrinação política. A doutrinação pode ser religiosa, política, moralista, ambientalista, etc., logo sempre partidária; quando religiosa, é denominada pelos cristãos como catequese.  Trata-se de um método de instruir que se difere da educação escolar. Só existe doutrinação quando existe partidarismo ideológico, por isso nunca ouvimos falar em doutrinação matemática. Ninguém faz doutrinação de algum tema da Geometria, da Física ou da Genética, uma vez que não se trata de ideologia, mas sim de ciência. Portanto, a doutrinação é um meio impositivo de transmitir ideologias, pontos de vista ou visões de mundo, onde a convicção do doutrinador já assumiu uma firmeza inabalável com a solidez de uma verdade absoluta e final. Por isso, os doutrinadores, em regra geral, são ufanistas e autoritários. Tanto a persuasão como a doutrinação são formas de influência, bem como de manipulação, com a diferença de que a persuasão é uma técnica de comunicação, enquanto a doutrinação é um método de condução do entendimento para um único ponto de vista, que pode utilizar-se não só da persuasão, mas também da argumentação racional e da demonstração lógica. Sendo uma forma de influência de uma pessoa sobre outra, ou outras, não é possível falar em doutrinar a si mesmo, mas o correto é dizer que alguém foi doutrinado, de modo que, numa relação de doutrinação sempre existe a polaridade de um autor (o doutrinador) de um lado e de uma vítima (o doutrinado) de outro. Enfim, nos casos dos devotos mais vulneráveis, ou seja, aqueles mais suscetíveis à persuasão, eles se transformam em escravos da doutrinação, daí o fanatismo religioso. E quando o processo de doutrinação é intenso sobre o doutrinado, alguns costumam denominá-lo de lavagem cerebral.

Quem já conviveu com religiosos por muitos anos e depois se afastou do ambiente religioso, é capaz de perceber um curioso traço psicológico na maioria deles, qual seja: a incapacidade dos religiosos de perceberem o efeito da persuasão em suas mentes, resultado da confusão entre a doutrinação, a qual é instrução persuasiva e exortação submissa; e o aprendizado crítico, o qual é instrução esclarecedora e exortação refletiva, por isso eles confundem compreender com aceitar (ou concordar). Então, quando um religioso adverte o outro interlocutor, durante uma conversa, por emitir uma interpretação diferente da sua, alegando que este último “não compreende”, o que existe por trás deste sentimento do religioso, de que o outro não compreende, é o inconsciente mecanismo da persuasão, da doutrinação e da catequese em sua mente, o que o faz pensar que, aquele que não está persuadido e doutrinado, não compreende a religião.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s