Nota sobre o artigo “A Fé do Descrente”

por Octavio da Cunha Botelho

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O ateísmo poderá ser uma religião?

A revista científica New Scientist publicou recentemente (14/04/2017), em sua edição online, um artigo denominado Faith of the Faithless: Is Atheism Just Another Religion? (A Fé do Descrente: o Ateísmo é apenas mais uma Religião?), escrito por Graham Lawton, o qual analisa a alegação de que o ateísmo é nada mais do que o pensamento religioso disfarçado. Antes de entrar neste assunto, gostaria de observar neste artigo a revelação do resultado de uma pesquisa que apontou a característica do candidato à presidência dos EUA que obteria o maior número de rejeições, e esta característica é o ateísmo, ou seja, um candidato ateu seria aquele que teria a maior rejeição dos eleitores norte-americanos, mais do que se o candidato fosse gay. Em suma, para o eleitorado norte americano, um presidente precisa ser, antes de tudo, um religioso, preferivelmente um cristão.

Qualquer discussão sobre este assunto, qual seja, se ateísmo é religião às avessas ou não, depende primeiramente do que se entende por religião, bem como do que se entende por ateísmo (não-teísmo). Não existe um conceito consensual sobre religião. Por exemplo, o psicólogo James H. Leuda reuniu cerca de 50 definições diferentes de religião (Botelho, 2014: 07), em seu livro publicado no século XIX e.c., e de lá para cá muitas outras definições foram criadas. Por isso é importante a leitura do livro Afinal, o que é Religião? (Botelho, 2014), a fim de conhecer como a religião pode ser tão diversamente definida. Pois, o mais comum é o autor falar da religião conforme a cultura religiosa na qual ele foi educado, e no caso do artigo acima, o Cristianismo, visto que este autor coloca a fé como o pilar central da religião. Nem todas as religiões teístas colocam a fé como a essência da religiosidade, isto é coisa apenas do Cristianismo e do Islamismo. Por exemplo, no Hinduísmo, a devoção (bhakti) é muito mais importante do que a fé (shraddhā). Existe diferenças entre fé e devoção (ver: Botelho, 2014: 27). Para se ter ideia da pouca importância da fé no sistema hindu, no Bhagavad Gītā, o livro mais popular do Hinduísmo com 700 versos duplos, a palavra shraddhā (fé) aparece apenas em dois versos, capítulo XVII, versos 02 e 03.

Comento aqui a partir das delineações dentro das quais a cultura religiosa se diferencia de outras formas de cultura, tais como esboçadas no livro Afinal, o que é Religião? (idem: 58-106), portanto algumas maneiras de entender a religião poderão ser estranhas para os leitores habituados com os autores apegados ao pensamento de que a religião é apenas teísmo, ou seja, um sistema não-teísta não é uma religião. Percebendo de outra maneira, a partir de uma visão mais ampla, é possível reconhecer que nem todas as religiões são teístas, exemplos: Budismo Theravāda, Adwaita Vedānta, Jainismo, Zen Budismo e Teosofia. Se o conceito de religião estiver limitado apenas ao de teísmo (politeísmo, monoteísmo, henoteísmo, triteísmo, dualismo e panteísmo), tal como a maioria dos autores cristãos pensa, então as religiões acima são religiões ateias. Pois, uma noção generalizada é a de que apenas as religiões teístas são religiões propriamente. O fato do Cristianismo ter se tornado a religião com o maior número de seguidores no mundo (cerca de 2 bilhões) contribuiu fortemente para a consolidação deste estereótipo. Também, levando em conta a decadência do Cristianismo, atualmente basta alguém dizer que tem fé para ser considerado um cristão, então quase todos pensam que, basta ter fé para ser um religioso, não importando o tanto que ele ou ela pratica, nas outras religiões não é assim. Em suma, o perfil do cristão atual tornou a fé sinônimo de religiosidade.

Estritamente falando, o teísmo é apenas uma concepção ontológica, dentre outras, sobre a natureza da realidade suprema. Enfim, para concluir, sem uma prévia discussão do que se entende por religião, não será possível afirmar se o ateísmo é, ou está se transformando em uma nova forma de religião, então mais e mais noções estereotipadas sobre ateísmo continuarão a ser difundidas, tais como as de que os ateus são religiosos às avessas, que são pessoas imorais e desumanas, bem como a definição de que o ateísmo é “licença para a imoralidade”.

Obra utilizada:

BOTELHO, Octavio da Cunha. Afinal, o que é Religião? Joinville: Clube de Autores Publicações, 2014.

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