O que é Ficção e o que é História em “O Nome da Rosa”

por Octavio da Cunha Botelho

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Os atores Sean Connery e Christian Slater nos papeis de William de Baskerville e de Adso de Melk respectivamente, uma dupla de “frades detetives” em O Nome da Rosa.

            Aqueles pouco familiarizados com a história medieval, sobretudo a do Cristianismo, que assistiram ao filme O Nome da Rosa (The Name of the Rose, 1986), poderão pensar que tudo neste suspense é ficção, uma vez que é baseado no romance homônimo do professor e escritor Umberto Eco (il Nome della Rosa, primeira edição italiana 1980), ou, ao contrário, em razão do formidável trabalho de ambientação medieval e da referência a fatos e a personagens reconhecidamente históricos, poderão pensar que tudo é história. A rigor, nenhuma destas ideias extremas corresponde à realidade. Esta obra, tal como quase todos os outros relatos mitológicos, fictícios e religiosos, é uma mistura de ficção e história. Por exemplo, os atuais estudos históricos mais desapaixonados da Bíblia, por historiadores desenlaçados da persuasão cristã, apontam para o fato de que seu relato é uma combinação de mitos e de fatos históricos. Sendo assim, muitos cristãos se entusiasmam ao saberem da confirmação histórica de algumas passagens bíblicas, levando-os a concluírem precipitadamente, em bloco, então que tudo na Bíblia é fato. Portanto, Jesus pode ter mesmo existido e ter sido crucificado, porém os milagres que são relatados e o espetacular fenômeno da ressurreição, certamente são acréscimos fictícios, a fim de embelezar, dramatizar e persuadir, para então conseguir efeitos catequéticos, registrados pelos seguidores já engajados em um programa de doutrinação, algumas décadas após a sua morte. A prática de alterar e engrandecer os fatos e os personagens é muito comum no trabalho de registro em quase todas as religiões.

            Da mesma maneira, o suspense O Nome da Rosa combina ficção e história em uma trama que nos leva a refletir sobre a obscuridade cultural daquela época, quando o conhecimento existente era preservado e estudado nos mosteiros. Visto que o filme foi muito mais assistido do que o livro foi lido, ou seja, o filme é muito mais popular que o livro, comentaremos a obra aqui a partir do filme, a fim de facilitar o entendimento. Apesar do pouco sucesso nas bilheterias norte americanas, estreou apenas em 176 salas, em um país que possui mais de 20 mil salas de cinema, com a baixa arrecadação de apenas US$ 7,2 milhões, o orçamento foi de US$ 17,5 milhões, o sucesso internacional foi grande, com arrecadação mundial de US$ 77,1 milhões. O filme foi muito assistido na época do auge do VHS, no final dos anos 1980.

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O premiado ator F. Murray Abraham é o temido inquisidor Bernado Gui (1261-1331 e.c.).

            Sobre a ficcionalidade e a historicidade dos fatos e dos personagens relatados na obra, a dupla de “monges-detetives”, o frade franciscano William de Baskerville, interpretado no filme pelo conhecido ator Sean Connery, e seu assistente, o noviço Adso de Melk, interpretado por Christian Slater, encarregada de desvendar as causas da ocorrência de mortes misteriosas em um mosteiro medieval no norte da Itália, no ano de 1327 e.c., muito provavelmente Umberto Eco se inspirou na dupla Sherlock Holmes e seu companheiro Dr. Watson respectivamente, da obra de Arthur Conan Doyle, ambas duplas são fictícias. O nome William de Baskerville parece ter sido uma combinação dos nomes William de Ockham (1287-1347 e.c.), um famoso teólogo medieval que utilizou muito do raciocínio lógico e do nome Baskerville da novela policial “O Cão dos Baskervilles” de autoria de Arthur Conan Doyle, primeira edição em 1902.

            Assim que chega no mosteiro, a dupla William de Baskerville e o assistente Adso de Melk encontra o perseguido frade franciscano Ubertino de Casale (1259-1329 e.c.), interpretado no filme por William Hickey, este último foi um personagem histórico, um líder dos Espirituais, os seguidores de uma rígida vertente da ordem franciscana, que pregava a pobreza extrema. Em conflito com o papa Benedito XI, ele foi banido para o convento Monte Alverna, na região da Toscana, região central da Itália, e não para um mosteiro no norte da Itália, tal como o filme reproduz. Durante o seu retiro neste convento e movido de ódio, ele comparou o papa Benedito XI com a segunda besta do Apocalipse em um dos seus escritos. Ele foi um contemporâneo dos eventos narrados na obra de Umberto Eco, ou seja, o ano de 1327 e.c.

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O autor do romance O Nome da Rosa (il Nome della Rosa, 1980) Umberto Eco (1932-).

            Outro personagem histórico e também contemporâneo, mencionado no filme, foi o líder franciscano Michele de Cesena (1270-1342 e.c.), interpretado por Leopoldo Trieste. Ele lecionou teologia em Bologna, sua opinião sobre a pobreza o colocou em conflito com o papa João XXII. Em 1329 e.c., ele foi expulso da liderança franciscana por ordem do então papa. Não se tem a informação de que ele tenha estado em um mosteiro no norte da Itália a fim de participar de um debate, tal como retratado no filme.

            Agora, o personagem medieval mais importante mencionado no filme é, sem dúvida, o inquisidor Bernardo Gui (1261-1331 e.c.), interpretado pelo premiado ator F. Murray Abraham (Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação em Amadeus). Nascido na França como Bernard Guidoni, ele foi o mais importante inquisidor da sua época, ficou conhecido pelo título de Inquisidor de Toulouse contra os Albigenses, seguidores de uma seita cristã considerada herege, nos papados de Clemente V e de João XXII, entre os anos de 1307 e 1323 e.c. Ele foi também um escritor prolífero, sua obra mais conhecida é Practica Inquisitionis Heretice Pravitatis (Guia da Inquisição para a Perversidade Herética), a qual fornece uma lista das heresias do século XIV e orienta os inquisidores sobre a questão. Em gratidão por seus serviços como inquisidor, ele foi feito bispo de Tui, na Espanha, pelo papa João XXII, e depois bispo de Lodève. Bem, é chocante saber hoje que a crueldade com base na intolerância religiosa rendia promoção naquela época. Bernado Gui faleceu em 30 de Dezembro de 1331, no castelo de Lauroux, na atual região de Hérault, sul da França, e não naquele mosteiro no norte da Itália, em razão do tombamento da sua carruagem, quando tentava fugir daquele local, tal como mostrado no final do filme. Este episódio da sua morte é ficção. Todos os três personagens acima foram contemporâneos dos eventos exibidos no suspense, entretanto nenhum deles é conhecido por ter estado em um mosteiro no norte da Itália para aqueles compromissos, portanto, alguns personagens são históricos, já os eventos são ficções.

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A abadia de San Michele, Piedmont, norte da Itália, o complexo religioso imaginado por Umberto Eco para o mosteiro da sua obra, porém as tomadas do filme foram feitas em outros locais.

            Os dolcinianos, seguidores de uma seita considerada herege pela Igreja, originada dentro da Irmandade Apostólica, com fortes influências franciscanas, da qual o monge Salvatore, interpretado pelo formidável ator Ron Perlman, que outrora foi membro, existiram na realidade e foram muito perseguidos pela ortodoxia. Seu fundador, Fra Dolcino de Novara (1250 – 1307 e.c.), foi queimado como herege por ordem do papa Clemente V.

            A abadia de inspiração foi o complexo religioso de San Michele, na região de Piedmont, norte da Itália, construído no século X e que existe até hoje, local visitado por Umberto Eco, no entanto, as filmagens externas aconteceram na fortaleza de Rocca Calascio, na província de L’Aquila, região de Abruzzo, centro da Itália. Uma vez que não existe neve nesta região, a fim de reproduzir o ambiente nevado do norte da Itália, foi utilizado, durante as filmagens, o recurso da neve artificial. Também, pelo fato de não ser um mosteiro, as cenas no interior foram feitas na abadia Eberback na Alemanha, e as cenas da biblioteca no Castel del Monte, Apulia.

            A existência de scriptorium nos mosteiros medievais foi uma realidade, este era o local onde aconteciam a leitura, a cópia manuscrita e a ilustração dos manuscritos pelos monges. Daí a origem da atual denominação de escritório para o local de trabalhos burocráticos. Por outro lado, a existência de encadernação de livros com capas espessas, tal como alguns modelos mostrados no filme, parece-me duvidosa, visto que os exemplares exibidos parecem mais recentes que a forma de encadernação no estilo códex, na qual as folhas de pergaminho eram amarradas com cadarços, muito comum na Idade Média. Também, a utilização de veneno nas páginas de um livro, ou de um códex, a fim de envenenar o curioso que o manuseasse, não encontra exemplo de ocorrência na história medieval, portanto faz parte da imaginação de Umberto Eco.

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A fortaleza de Rocca Calascia, na região de Abruzzo, Itália, local das tomadas externas.

           Por fim, o objeto central da trama, o segundo livro da Poética de Aristóteles, o qual trata da Comédia, cujas páginas foram envenenadas pelo chefe da biblioteca do mosteiro, realmente é um texto perdido até hoje. O fato dele ter existido, antes da Idade Média, é uma possibilidade, mas não uma certeza, uma vez que o próprio Aristóteles afirma o seguinte no capítulo VI do primeiro livro: “Trataremos da arte de imitar em hexâmetros e da comédia mais tarde…” (Aristóteles, 2008: 47). Sua primeira promessa é cumprida nos capítulos 23 e 24 deste primeiro livro, porém o assunto da comédia não é tratado, assinalando para o fato de que a atual Poética de Aristóteles não está completa. Este problema foi tão preocupante para os pesquisadores que ficou conhecido como “a questão do livro II”. Umberto Eco se aproveitou deste mistério para criar a hipótese da existência de um exemplar deste segundo livro da Poética guardado secretamente em um mosteiro no norte da Itália, o qual era objeto de curiosidade dos monges, por isso suas páginas foram polidas com veneno para envenenar os curiosos que as folheassem. O envenenamento acontecia quando o leitor colocava os dedos na língua para molhá-los no momento de virar a página. O chefe da biblioteca cobriu as páginas deste livro com veneno porque entendia que este não devia ser lido, visto que o “riso proporcionava a perda do temor” e, para ele, “não existe fé sem temor a deus”.

Ademais, não existe referência de que existiu a presença de um exemplar do segundo livro da Poética de Aristóteles, tratando da Comédia, durante a Idade Média em algum lugar da Europa, trata-se de uma obra perdida (ver: Aristóteles, 2008: 08), portanto a existência de um exemplar, no mosteiro onde se desenrola o enredo, é apenas imaginação de Umberto Eco, a fim de criar fundamento para a trama.

Obra consultada

ARISTÓTELES, Poética, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, 3ª edição. Tradução: Ana Maria Valente.

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