O Retrato Hostil de Jesus no Toledoth Yeshu

por Octavio da Cunha Botelho

Considerações Iniciais

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Capa do livro da versão latina do Toledoth Yeshu por Johan Christian Wagenseil, publicada em 1681. Tornou-se a versão mais conhecida.

            Atualmente, são muitos aqueles que, além dos evangelhos canônicos, conhecem os evangelhos apócrifos, sobretudo após a publicidade resultante da fantástica descoberta dos treze códices de manuscritos gnósticos, com 48 textos completos ou fragmentados, em Nag Hammadi, Egito, no ano de 1945, uma vez que o número já descoberto destes últimos ultrapassa em muito os quatro evangelhos tradicionais. Por exemplo, uma recente publicação e tradução dos evangelhos apócrifos, editada e traduzida por Bart D. Ehrman e Zlatko Plese, The Apocryphal Gospels: Texts and Translations (Oxford University Press, 2011), reuniu 37 evangelhos preservados na íntegra ou em fragmentos. Muitos destes textos apócrifos já foram traduzidos para muitas línguas modernas, daí a familiaridade.

            Entretanto, diferentemente, são poucos aqueles que já ouviram falar dos evangelhos hostis, também denominados de evangelhos anticristãos. Quem ouve sobre a existência destes evangelhos hostis pela primeira vez é levado a pensar que se trata de textos conspiratórios, que nunca existiram, relacionando-os com zombarias e boatos inventados recentemente pelos ateus debochados. Muito pelo contrário, estes anti-evangelhos existem, foram populares nos guetos judeus da Idade Média, sendo que, cerca de cem manuscritos já foram encontrados. Embora alguns episódios destes evangelhos anticristãos já foram utilizados por ateus, a fim de desmentir ou de polemizar contra os relatos canônicos, o seu conhecimento público, com base nos estudos acadêmicos e na crítica textual, ainda é muito pequeno, sobretudo para os leitores da língua portuguesa, uma vez que não existe tradução destes textos para o português, tampouco estudos acadêmicos sobre o assunto nesta língua citada. Ao conhecê-los, os cristãos radicais certamente se horrorizarão com a sua narrativa satírica, enquanto que os religiosos rivais e os ateus zombadores se divertirão com a comicidade de algumas passagens, bem como poderão conhecer as fontes de alguns argumentos que conspiram contra os evangelhos canônicos.

            Em linhas gerais, as narrativas, resumidamente, alegam que Jesus (Yeshu) foi um filho ilegítimo, que praticou magia e heresia, que roubou o Nome Inefável, enganou o povo de Israel, sofreu uma morte humilhante e teve o seu corpo escondido ao invés de ressuscitar. A intenção de depreciar a vida de Jesus (Yeshu) é notória nos textos.

A Antiguidade das Narrativas Anticristãs

            Assim como os evangelhos apócrifos divergem dos evangelhos canônicos nos relatos da vida e dos ditos de Jesus, porém sem hostilizá-lo, as narrativas anticristãs dos judeus, por sua vez, vão muito mais longe ao depreciarem e zombarem de Jesus. Estes relatos hostis não são criações medievais, tal como muitos cristãos pensam. Pois, existem documentos que confirmam que versões judias dos episódios da vida de Jesus, muito diferentes das versões dos evangelhos canônicos e apócrifos, já circulavam oralmente no segundo século, eles apenas foram ampliados durante a Idade Média. O mais antigo registro aparece na obra Diálogo com Trifon, o Judeu, do apologista cristão Justino, o Mártir, composta provavelmente no ano 135 e.c. Nela, Trifon, um judeu fictício criado por Justino, apenas para efeito literário, afirma que “Jesus, um impostor da Galileia, que nós crucificamos, mas que os seus discípulos o roubaram à noite da tumba, onde ele estava deitado quando solto da cruz, e agora enganam os homens afirmando que ele ressuscitou dos mortos e subiu ao céu” (Dialogue with Trypho, The Jew, capítulo 108 – Praten, 1867: 235). Que o roubo do corpo de Jesus era uma polêmica desde os primeiros anos pode ser confirmado no Evangelho de Mateus 28.12-5, quando os sacerdotes judeus se reuniram com os líderes religiosos e elaboraram um plano. Eles “deram aos soldados grande soma de dinheiro, dizendo-lhes: Vocês devem declarar o seguinte: os discípulos dele vieram durante a noite e furtaram o corpo, enquanto estavam dormindo. (…).  Assim, os soldados receberam o dinheiro e seguiram as instruções. E esta versão se divulgou entre os judeus até o dia de hoje” (NVI-PT, Mt. 28.12-5).

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Busto do pensador grego Celso, um dos primeiros a registrar a versão judia de Jesus.

            Ainda mais hostil é o resumo da vida de Jesus em A Doutrina Verdadeira (gr. Λόγος Αληθής – Logos Alethes) do pensador grego Celso, obra perdida do século II e.c., porém reproduzida em grande parte na heresiologia Contra Celsum (gr. Κατά Κελσου – Kata Kelsou) do cristão Orígenes (século III e.c.), escrita na intenção de refutar as críticas do citado autor grego. Celso acusou Jesus de ter inventado seu nascimento de uma virgem; e adverte Jesus de ter nascido de um vilarejo judeu, de uma pobre mulher do campo, que conseguia o seu sustento com a tecelagem[1], e que foi expulsa de casa por seu marido, um carpinteiro de profissão, porque ela foi condenada por adultério, que após ter sido expulsa por seu marido, ela perambulou por um tempo, então ela desgraçadamente deu à luz Jesus, um filho ilegítimo, que tendo trabalhado como servo no Egito, em virtude da sua pobreza, adquiriu alguns poderes miraculosos, dos quais os egípcios se orgulham muito, retornou ao seu próprio país, altamente entusiasmado por causa deles, e por meio destes poderes proclamou-se um deus (Origen Against Celsus, vol. I, I. 28 e 32 – Donaldson, 1869: 427-8 e 431; ver também: Schonfield, 1937: 132-8 e Cook, 2011: 215s). Celso também revelou a sua suspeita sobre a veracidade dos relatos evangélicos, dizendo que “poderia dizer muitas coisas quanto aos eventos da vida de Jesus que são verdadeiros, e não como aqueles que estão registrados pelos discípulos…” (Origem Against Celsus, vol. II, II. 13 – Donaldson, 1872: 18 e Schonfield, 1937: 132). Mais adiante ele acrescenta que alguns “crentes cristãos, tal como pessoas em um surto de embriagues, corromperam os evangelhos de sua integridade original, a um grau triplo, quádruplo e múltiplo, e os remodelaram de tal maneira que puderam ser capazes de responder às objeções” (Origen Against Celsus, vol. II, II.27 – Donaldson, 1872: vol. II, 33 e Schonfield, 1937: 133).

            Celso desconfiou dos fenômenos milagrosos ocorridos durante o batismo de Jesus, por João Batista, narrados nos evangelhos canônicos, questionando diretamente Jesus da seguinte maneira: “Quando você estava banhando, além de João, você disse que o que tinha a aparência de um pássaro pousou sobre você. Que testemunha confiável presenciou tal aparição, ou quem ouviu uma voz do céu declarando você ser o Filho de Deus? Que prova existe disto, exceto sua própria afirmação e a declaração de um outro daqueles indivíduos que foram punidos juntamente com você? (Origen Agaisnt Celsus, I. 41 – Donaldson, 1869, vol. I: 441). Também, Celso questionou a divindade de Jesus com relação a sua fuga após a condenação, um episódio que não aparece nos evangelhos canônicos, tampouco nos apócrifos, mas conhecido da tradição judia daquela época, do seguinte modo: “Como poderemos nós julgá-lo ser um deus, que não só, em outros aspectos, tal como foi relatado, não cumpriu suas promessas, mas também, após ser sentenciado e condenado, como merecedor da punição, foi pego tentando se esconder e se esforçando para fugir de maneira humilhante, e que foi traído por aqueles que ele chamava de discípulos? (Origen Against Celsus, II.IX – Donaldson, 1872: vol. II, 10-1 e Schonfield, 1937: 137).

            Com o tempo, novos episódios hostis foram sendo acrescidos a esta tradição judia e transmitidos oralmente, de geração para geração, até que alguns trechos foram incluídos, através de menções, no Talmude, talvez por volta do ano 600 e.c., depois no comentário rabínico Midrash, para finalmente serem compilados na forma escrita, através de diferentes versões, durante a Idade Média, em uma coleção conhecida coletivamente por Sefer Toledoth Yeshu (O Livro da História da Vida de Jesus).

O Sefer Toledoth Yeshu

            Tal como mencionado acima, trata-se mais de uma coleção de evangelhos anticristãos, também conhecidos como anti-evangelhos, os quais coincidem ou divergem em algumas passagens de uma versão para a outra, do que um texto com um conteúdo uniforme entre todos os manuscritos até agora encontrados. Alguns autores preferem caracterizar o Toledoth Yeshu como uma coletânea de paródias medievais dos evangelhos cristãos. Esta coleção teve uma ampla circulação nas comunidades judias da Idade Média, embora nunca tenha sido canonizada no Judaísmo, com isso permaneceu sempre como textos populares. Alguns judeus conheciam as narrativas também de memória e as transmitiam oralmente aos seus filhos e aos seus netos. Seus autores são desconhecidos, uma vez que os estudos apontam para o fato desta coleção ser compilações extraídas de narrativas orais e de escritos judeus anteriores, sobretudo de algumas passagens do Talmude e do Midrash, onde Yeshu (Jesus) é mencionado. As datas da compilação para a forma escrita são duvidosas, o manuscrito mais antigo é do século XI e.c., embora seu conteúdo possa ser encontrado em pistas da existência de uma narrativa anti-evangélica, através de menções nas obras de autores do final da Antiguidade, tais como Justino, Celso e Tertuliano.

            Segundo Michael Meerson e Peter Schäfer, a mais antiga menção do Toledoth, como uma composição escrita, é a feita por Agobard, arcebispo de Lion, cerca de 726-80 e.c., e de seu sucessor Amulo, cerca de 849 e.c., a qual coincide com os mais antigos manuscritos do Toledoth Yeshu. O caráter satírico já pode ser visto nesta versão reproduzida por Agobard, onde Jesus (Yeshu) é preso pelo imperador Tibério, e a fim de se livrar da prisão, Jesus promete ao imperador que sua filha ficará grávida, sem a participação de um homem, e dará à luz um menino. Ela realmente fica grávida, mas dá à luz uma pedra. Então Jesus é condenado à morte. Na execução, ao invés de ser afixado em uma cruz, tal como nos evangelhos canônicos, ele é afixado em uma forquilha, assim como era feito com os magos abomináveis (Schäfer, 2014: 03).

            Por nunca ter sido canonizado, ou seja, em razão do seu caráter popular, os compiladores e os copistas dos manuscritos do Toledoth Yeshu tiveram a ampla liberdade de acrescentar, de omitir e de alterar episódios, conforme os seus interesses, no texto escrito, daí a diversidade de versões. Portanto, a fim de facilitar para o leitor e de evitar a longa extensão deste artigo, será utilizada aqui apenas a tradução inglesa da versão mais conhecida, mais editada e mais traduzida, qual seja, a versão Wagenseil, editada em hebraico e traduzida para o Latim por Johann Christian Wagenseil, em 1681 e.c., com o título de Tela Ignea Satanae (A Flecha Flamejante de Satã). Para efeito de comparação, serão incluídas aqui também observações sobre as outras duas versões mais publicadas, a versão Strassburg e a versão Huldreich (1705 e.c.).

            A primeira tradução para uma língua moderna do Toledoth Yeshu foi a versão inglesa de Sabine Baring-Gould, The Lost and Hostile Gospels: an Essay on the Toledoth Jeshu and the Petrine and Pauline Gospels of the First Three Centuries of Which Fragments Remain, de 1874, onde o autor traduziu e analisou as versões Wagenseil e Huldreich. Peter Schäfer e Michael Meerson utilizaram 15 diferentes manuscritos no livro Toledot Yeshu: The Life Story of Jesus, a obra de referência para o estudo do Toledoth Yeshu na atualidade. Para conhecer ou atualizar o conhecimento sobre como os judeus percebiam Jesus, desde os primeiros séculos, consultar Jesus Outside the New Testament: An Introduction to the Ancient Evidence (2000), p. 75-134, de Robert C. Van Voorst e o estudo Jewish Perspectives on Jesus de Michael J. Cook em The Blackwell Companion to Jesus (2011), p. 215-31.

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Na versão Wagenseil, a rainha Solomé Alexandra, esposa do rei Janeus, é confundida com a rainha Helena, talvez a mãe do imperador Constantino.

           Não é possível ter certeza ainda, mas o motivo para o crescimento do tão grande número de novos evangelhos anticristãos nos guetos, durante a Idade Média, pode ter sido em função do ressentimento pelas conversões forçadas, pelas perseguições, pelas condenações e pelas execuções dos judeus pela Igreja. Alguns autores defendem esta hipótese. Ademais, em razão das diferenças nos relatos da vida e dos ditos de Yeshu (Jesus) no Toledoth Yeshu e dos relatos da vida e dos ditos de Jesus nos evangelhos canônicos, tal como veremos mais adiante, alguns cristãos resistem em admitir que o Yeshu do Toledoth, bem como o Yeshu de outras escrituras rabínicas, seja o mesmo Jesus dos evangelhos oficiais, ou seja, eles são dois personagens distintos (Maza, 1992: 801), talvez por motivo da boa diplomacia entre cristãos e judeus, ou da mesma maneira, alguns judeus negam que o Yeshu no Toledoth Yeshu é o mesmo Jesus dos evangelhos canônicos, a fim de evitar atritos com os cristãos. Para os cristãos fanáticos, o Toledoth Yeshu é um amontoado de boatos. A polêmica se Yeshu e Jesus são o mesmo protagonista ainda persiste, embora os estudos históricos mais amplos e aprofundados apontam para a atual conclusão de que o Yeshu do Toledoth é o Jesus dos evangelhos canônicos, apesar das narrativas ora coincidentes e ora divergentes. Pois, é possível perceber uma subjacente intenção depreciativa de criar novas narrativas da vida de Jesus, acompanhando os principais episódios da vida de Jesus dos evangelhos canônicos, tais como o nascimento bastardo ao invés do nascimento divino, os milagres, os discípulos[2], a morte em uma haste de repolho ao invés da cruz, a ocultação do cadáver ao invés da ressurreição, etc.  As diferenças existem em virtude da intenção dos compositores dos evangelhos de exaltar Jesus e a dos compiladores das diferentes versões do Toledoth de depreciá-lo. Estas circunstâncias nos deixam incapacitados de saber, com base em documentação confiavelmente histórica, como foi a vida de Jesus (Yeshu), independente dos mitos e dos boatos acrescidos.

Os Manuscritos do Toledoth Yeshu

            Abaixo a relação dos manuscritos do Toledoth Yeshu utilizados por Peter Schäfer e Michael Meerson, com os locais onde estão depositados e os correspondentes números de registro:

Grupo I

Oriental Antigo A – Cambridge University Library (Schäfer, 2014: 127).

Oriental Antigo A – New York JTS 2529.2 (idem: 135)

Oriental Antigo B – New York JTS 8998 (idem: 137)

Oriental Antigo C – St. Petersburg RNL EVR 2 a 105/9 (idem: 145)

Yemenite Antigo – New York JTS 6312 (idem: 147)

Byzantine – St. Petersburg RNL EVR 1.274 (idem: 155)

Grupo II

Ashkenazi A – Strassburg BnV 3974 (idem: 167)

Ashkenazi B – New York JTS 2221 (idem: 185)

Yemenite Tardio A – New York JTS 2343 (idem: 206)

Oriental Tardio – Jerusalem Benayahu 25.4 (idem: 221)

Italiano A – Leipzig BH 17 1-18 (idem: 232)

Italiano B – Parma 2091 De Rossi 1271 (idem: 275)

Grupo III

Wagenseil – Cambridge MA Harvard Houghton Library 57 (idem: 286)

Huldreich – Amsterdam Hs Ros 442 (idem: 305)

Eslavo A – Princeton Firestone Library (idem: 323).

O Nascimento de Yeshu (Jesus) no Toledoth

            Muito diferente da narrativa canônica, onde Jesus é filho de uma mãe virgem, fenômeno extraordinário que ficou conhecido como Imaculada Conceição, portanto um nascimento divino, o Yeshu (Jesus) da versão Wagenseil do Toledoth é relatado como um filho bastardo (mamzer) de uma relação ilegítima entre sua mãe Miriam (Maria), quem estava noiva de Yohanan, e o soldado José Pandera[3]. O Toledoth Yeshu começa assim: “No ano de 3651 (cerca de 90 a.e.c.), na época do rei Janeus[4] uma certa infelicidade aconteceu em Israel. Um certo homem abominável da tribo de Judá surgiu, cujo nome era José Pandera. Ele vivia em Belém da região de Judá. Perto de sua casa vivia uma viúva e sua amável filha virgem Miriam (Maria). Miriam estava comprometida com Yohanan, da casa real de Davi, um homem erudito na Torá e temente a deus. Próximo a um Sabá, José Pandera, atrativo como um guerreiro na aparência, libidinosamente flertou com Miriam. Então, ele bateu na porta do quarto dela e a enganou fingindo ser o seu noivo, Yohanan. (…). Mais tarde, quando Yohanan veio vê-la, Miriam expressou seu espanto com o comportamento tão estranho ao seu caráter. Assim, ambos vieram a reconhecer o crime de José Pandera e o terrível engano de Miriam (Maria). Então, Yohanan e Miriam foram até o rabino Simon ben Shetah e relataram a trágica sedução. Carecendo de testemunha exigida para a punição de Jose Pandera, e Miriam estando grávida, Yohanan fugiu para a Babilônia. Miriam deu à luz um filho e o denominou Yehoshua, segundo o nome de seu irmão. Este nome mais tarde se deteriorou para Yeshu (Jesus)”[5] (Baring-Gould, 1874: 76-7; Van Voorst, 2000: 123-4 e Schäfer, 2014: 286s).

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Muito diferente da versão canônica, nos anti-evangelhos Yeshu (Jesus) é um filho bastardo, resultante da relação adúltera entre sua mãe Miriam (Maria) e o soldado José Pandera.

            Já a versão Huldreich relata que o nascimento aconteceu na época do rei Herodes, que o nome do noivo de Miriam (Maria) era Papus ben Jehuda e que Miriam era cabeleireira. Na versão Wagenseil, ela residia em Belém, enquanto que na versão Huldreich ela residia em Jerusalém. Em virtude da sua extraordinária beleza, ela era mantida presa em uma casa, porém ela escapuliu através da janela e fugiu de Jerusalém para Belém com José Pandera, de Nazaré. Enquanto que na versão Strassburg, Yohanan (João), noivo de Miriam (Maria), foi sozinho até o rabino Simeon, o qual o orientou que não havia testemunhas do ocorrido, portanto lhe aconselhou: “se ele (José Pandera) fez aquilo uma vez, então ele fará uma segunda vez”, ou seja, sugerindo que Yohanan (João) preparasse um flagrante para surpreender José Pandera da próxima vez. Mas Yohanan não deu ouvidos ao conselho do rabino. Com o passar do tempo, a notícia que Miriam estava grávida e que o filho não era de Yohanan se espalhou, então Yohanan, a fim de evitar o constrangimento, fugiu para a Babilônia[6]. Intencionalmente, esta deve ter sido a versão dos judeus, inimigos do Cristianismo, para justificar a omissão de referências a José, pai de Jesus, a partir de certo momento em diante nos evangelhos canônicos. Enfim, enquanto os evangelhos canônicos procuraram enaltecer o nascimento de Jesus através de uma mãe virgem, ou seja, um espetacular nascimento divino, ao contrário, os anti-evangelhos procuraram depreciar o nascimento de Jesus através de uma abominável relação ilegítima, ou seja, Jesus era um filho bastardo, isto é, um mamzer, segundo a linguagem hebraica (Baring-Gould, 1874: 76-7 e 103-4; Schonfield, 1937: 35-6 e Schäfer, 2014: 45-57).

            Depois de crescido, “foi descoberto que ele (Yeshu) era o filho ilegítimo de José Pandera, e Miriam (Maria) admitiu isto. Quando isto tornou-se conhecido, Yeshu fugiu para a Alta Galileia” (Van Voorst, 2000: 124). A versão Strassburg afirma que ele fugiu para Jerusalém (Schonfield, 1937: 39). Também, esta é a versão judia nos anti-evangelhos do motivo para o sumiço de Jesus, dos 12 aos 30 anos de idade, nos evangelhos canônicos.

O Roubo do Nome Inefável de Deus

            Curiosamente, algumas versões do Toledoth não negam que Jesus (Yeshu) tinha poderes extraordinários, no entanto, a maneira pela qual estes poderes foram obtidos é muito diferente nos evangelhos hostis. Enquanto Celso informou que Jesus obteve os poderes mágicos durante sua estadia no Egito, a versão Wagenseil acusou Yeshu (Jesus) de ter roubado o poderoso Nome Inefável de Deus do templo de Jerusalém através da seguinte trapaça. No interior do templo de Jerusalém se encontrava a Pedra Fundamental, sobre a qual foram esculpidas as letras do Nome Inefável de Deus. Quem aprendesse o segredo do Nome e seu uso seria capaz de fazer tudo que desejasse. Por isso, os sábios tomaram precauções para que ninguém obtivesse este conhecimento. Leões de bronze foram erguidos sobre dois pilares de ferro junto ao portão do local da queima de oferendas. Qualquer um que entrasse e aprendesse o Nome, quando ele saísse do local, os leões rugiriam[7] diante dele e imediatamente o Nome seria apagado da sua memória. No entanto, Yeshu (Jesus), após deixar a Alta Galileia e se dirigir secretamente para Jerusalém, obteve as letras do Nome Inefável de Deus utilizando da seguinte astúcia. Ele as escreveu sobre um pergaminho, o qual ele colocou em um corte na sua coxa e o cobriu com sua própria pele. Quando ele deixou o local da Pedra Fundamental, os leões rugiram e ele esqueceu o segredo. Mas, quando ele chegou em casa, ele abriu o corte na coxa, retirou o pergaminho com as letras do Nome escritas sobre ele, então Yeshu pode conhecer o Nome Inefável de Deus, o que lhe conferiu maravilhosos poderes mágicos (Baring-Gould, 1874: 77-8; para aprofundamento, consultar: Schäfer, 2014: 64-9). Apesar de aparentemente cômica, esta é a fonte dos poderes, segundo os anti-evangelhos, para os milagres de Jesus nos evangelhos.

            O relato deste episódio na versão Strassburg é quase semelhante, exceto que ao invés de leões, os portões do templo eram guarnecidos por cães que latiam[8], a fim de que aqueles que tentavam gravar o Nome na memória, o esquecesse ao saírem do templo. Mais adiante esta versão informa que Yeshu (Jesus), após obter o Nome, conseguiu reunir 310 discípulos e se proclamou o Messias (Schonfield, 1937: 39-40). Já a versão Huldreich omite o relato deste episódio, apenas menciona que Yeshu e sua família retornaram do Egito para Nazaré, e que ele aí aprendeu “o mistério da carruagem[9] e do santo Nome” (Baring-Gould, 1874: 103). Mais adiante, esta versão relata que o rei de Israel, ao saber das façanhas de Yeshu (Jesus), ordenou aos seus servos que o prendessem. Mas Yeshu ficou sabendo antes e fugiu para o deserto. Então, os servos só encontraram Johannus (João), um dos seus discípulos, daí o pegaram e o levaram até o rei. O rei ordenou que Johannus (João) fosse executado. Os servos cumpriram a ordem, Johannus foi morto e sua cabeça dependurada no portão de Jerusalém. Se percebida a partir dos relatos canônicos, esta passagem deixa claro que o seu autor confundiu o apóstolo João com João Batista (Baring-Gould, 1874: 104-5).

Os Milagres de Yeshu

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As versões do Toledoth Yeshu não negam que Yeshu (Jesus) realizou milagres.

            Tal como mencionado acima, as versões do Toledoth não negam que Jesus (Yeshu) tinha poderes extraordinários e realizou milagres, porém a diferença é a seguinte, enquanto nos evangelhos canônicos a fonte dos poderes de Jesus vem do Pai (Deus), no Toledoth os milagres foram realizados graças ao roubo do Nome Inefável de Deus no Templo, portanto para os seus inimigos judeus ele era “um charlatão que enganava o povo de Israel”. Na narrativa da versão Wagenseil, logo após o roubo do Nome, Yeshu proclamou-se o Messias e começou a realizar milagres. O primeiro deles, de certa maneira cômico, foi a restauração da ossada de um morto e sua subsequente ressurreição à vida. Quando lhe pediram que provasse que era o Messias, Yeshu disse; “Traga-me um morto que eu restaurarei sua vida. Os ouvintes cavaram por todas as partes, mas não encontraram um cadáver completo, apenas ossos. Então, Yeshu pediu que lhe trouxessem os ossos. Após lhe trazerem os ossos, Yeshu juntou-os, envolveu-os com pele, com carne e com músculos, de maneira que a ossada se transformou em um homem em pé e com vida. Então, trouxeram-lhe um leproso e Yeshu restabeleceu a sua saúde por meio do Nome Inefável. E quando o povo viu aquilo, todos se maravilharam, oraram para Yeshu e disseram: Na verdade tu és o Filho de Deus” (Baring-Gould, 1874: 79). Depois destes, Yeshu realizou mais milagres, inclusive a transformação de pássaros de barro em pássaros com vida que voaram, bem como fez com que uma mó[10] boiasse sobre a água e sentou-se sobre ela como se estivesse em um barco[11]. Daí então sua fama de milagreiro se espalhou pela Galileia.

A Prisão e a Morte de Yeshu

            As notícias das façanhas de Yeshu chegaram até Jerusalém, então o Sinédrio decidiu prendê-lo. Os líderes enviaram dois mensageiros até a Galileia, os quais se passaram por admiradores e discípulos, e convidaram Yeshu para visitar os líderes em Jerusalém, porém tratava-se de uma armadilha. Yeshu, orgulhoso de saber que a fama dos seus milagres chegou até Jerusalém, caiu na armadilha e aceitou o convite, porém arrogantemente impôs algumas condições. Que os Sinédrios Menor e Maior, e todos aqueles que desprezaram minha origem (referindo-se ao seu nascimento bastardo) venham para me encontrar, e deverão me receber e me honrar tal como os servidores do Senhor deles, quando eu chegar diante deles. Enfim, ambos os lados chegaram a um acordo e Yeshu partiu para Jerusalém ingenuamente sem saber que se tratava de uma emboscada. Estava tão entusiasmado que, no caminho, adquiriu um jumento, a fim de cumprir uma profecia, e entrou em Jerusalém montado nele.

            Quando Yeshu chegou em Jerusalém montado neste jumento, a multidão o aclamou. Então, os líderes judeus se enfureceram e se apressaram em relatar o ocorrido para a rainha Helena, esposa do falecido rei Janeus. Eles relataram a ela que “Yeshu incitava o povo, por isso ele era culpado da maior punição. Dê-nos poder que nós o prenderemos através de um artifício”[12]. A rainha Helena[13] respondeu pedindo que os líderes religiosos trouxessem Yeshu até ela, pois ela desejava ver com seus próprios olhos o que ele fazia. Então, Yeshu foi preso pelos líderes e conduzido até a presença da rainha. Diante da rainha, Yeshu curou um leproso e ressuscitou um morto. Depois de fazer isto, ele disse que realizava aquelas façanhas em cumprimento de profecias. No final, a rainha não viu culpa em Yeshu, o libertou e, em seguida, expulsou os líderes judeus da sua presença.

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Peter Schäfer, da Universidade de Princeton, um dedicado pesquisador da coleção Toledoth Yeshu na atualidade.

           Determinados em continuar a tentativa de prender Yeshu, os líderes elaboraram um plano astuto. Eles escolheram um dentre os seus companheiros, o qual se ofereceu para aprender o uso do Nome Inefável, utilizando do mesmo ardil de Yeshu, este homem escolhido foi Judas Iscariotes. Então, este último foi até o Templo e fez o mesmo que Yeshu, ou seja, escreveu o Nome em um pergaminho e o escondeu em um corte na sua coxa.[14] Depois de aprendê-lo, Judas realizou os mesmos milagres que Yeshu e desafiava o povo dizendo: “Não posso eu, que sou um simples homem de carne e osso, realizar tudo o que Yeshu tem feito”?  As notícias das façanhas de Judas chegaram até os ouvidos da rainha Helena. Então, Judas foi levado até a sua presença. Ela também convocou a presença de Yeshu. Após uma discussão entre ambos diante da rainha, Judas e Yeshu travaram um combate aéreo, no qual ambos utilizaram o Nome Inefável, uma narrativa espetacular no Toledoth que nos faz lembrar as antigas lendas chinesas sobre os heróis marciais (Wuxias), popularizadas através dos filmes chineses de artes marciais, onde os combatentes voam pelo ar durante o combate. Yeshu disse: Foi dito de mim, que eu subirei ao céu”. Então, ele ergueu os braços, como as asas de uma águia e voou entre o céu e a terra, para o espanto de todos. Daí os líderes judeus, que estavam presentes, pediram que Judas Iscariotes realizasse o mesmo. Ele fez e voou até o céu. Judas tentou derrubar Yeshu para a terra, porém nenhum deles foi capaz de superar o outro, pois ambos conheciam o uso do Nome Inefável. Finalmente, Judas derrubou Yeshu, de modo que ambos perderam o poder e caíram na terra.[15] A partir deste momento, Yeshu não conseguiu utilizar o poder do Nome Inefável novamente.

            Então, Yeshu foi levado prisioneiro até o templo de Tibério, onde foi amarrado em um pilar. Sobre sua cabeça, seus inimigos colocaram uma coroa de espinho. Em seguida aconteceu um tumulto, quando seguidores de Yeshu e os líderes judeus se enfrentaram. Em virtude da confusão, Yeshu conseguiu fugir para a região da Antioquia[16]. Após algum tempo, Yeshu tentou conseguir o Nome Inefável novamente, porém, logo que chegou em Jerusalém, antes mesmo de entrar no Templo, foi delatado por Judas Iscariotes. Então, Yeshu foi preso e condenado à morte (primeiro apedrejamento e depois dependura) na véspera da Páscoa e do Sabá. Quando eles tentaram dependurá-lo em uma árvore, a árvore quebrou, pois Yeshu tinha possuído o poder de evitar que fosse morto dependurado em uma árvore, durante o período em que tinha o poder do Nome Inefável. Então, finalmente, ele foi dependurado em uma haste de repolho[17]. De acordo com esta versão, a versão Strassburg menciona que não conseguiram dependurar Yeshu em uma árvore, em razão do feitiço do Nome Inefável que impedia Yeshu de ser dependurado em uma árvore, então ele foi dependurado no tronco de uma alfarrobeira[18] a qual, contraditoriamente, também é uma árvore (Schonfield, 1937: 50). Enfim, esta foi a humilhante morte de Yeshu (Jesus), segundo a versão Wagenseil do Toledoth Yeshu (Baring-Gould, 1874: 80-7).

Provocativamente, ao invés de Filho de Deus, esta versão relata que os inimigos de Yeshu, com o objetivo de satirizá-lo, chamavam-no de Órfão. Quando os líderes judeus estavam escolhendo quem dentre eles iria aprender o Nome Inefável de Deus para desafiar Yeshu, um deles anunciou: “Aquele que aprender o Nome e prender o Órfão receberá uma dupla recompensa na vida futura”. E um pouco mais adiante, no mesmo texto, após Judas Iscariotes roubar o Nome Inefável do Templo, da mesma maneira que Yeshu e aprender o seu uso, ele perguntou sarcasticamente: “Onde estão aqueles que proclamam que o Órfão é o Filho de Deus”? (Baring-Gould, 1874: 82).

A Ocultação do Corpo ao Invés da Ressurreição

            Após o enforcamento de Yeshu, seu corpo foi enterrado no lado de fora da cidade. Logo em seguida, seus seguidores foram até a rainha Helena com a informação de que, aquele que tinha sido assassinado era, na verdade, o Messias, e que ele não estava mais na sepultura, pois tinha ascendido ao céu, tal como profetizado. Então, uma busca cuidadosa foi feita, mas o corpo não foi encontrado. O desaparecimento aconteceu em razão de um jardineiro ter retirado o corpo da sepultura, levado para o seu jardim e o enterrado novamente.

            Ao saber do ocorrido, a rainha Helena exigiu, mediante a ameaça de severa punição, que o corpo de Yeshu (Jesus) fosse encontrado dentro de três dias. Houve um grande desespero. Quando o jardineiro viu o rabino Tanhuma caminhando no jardim e lamentando sobre o ultimato da rainha, ele decidiu revelar o que tinha feito, a fim de evitar que os seguidores de Yeshu roubassem o corpo e daí alegassem que ele tinha ascendido ao céu. Assim, com a descoberta do corpo, os anciões retiraram e o amarraram corpo na cauda de um cavalo, que foi arrastado até a rainha, com a seguinte frase sarcástica: “Este é Yeshu, quem subiu ao céu”[19]. Por fim, percebendo que Yeshu era um falso profeta, que tinha seduzido o povo e o enganado, a rainha Helena humilhou os seus seguidores e louvou os anciões (Baring-Gould, 1874: 87-9 e Van Voorst, 2000: 126).

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Uma coleção digital de músicas evangélicas em língua Hindi na Índia, onde Jesus é conhecido como Yeshu em algumas igrejas cristãs.

Schäfer e M. Meerson observam que as diferentes versões do Toledoth divergem quanto ao fato se Yeshu foi enforcado ou apedrejado, ou ambos (Schäfer, 2014: 92s). Em uma passagem do Talmude (Tratado Sanhedrin 43a), é mencionado que Yeshu foi enforcado: “Na véspera da Pascoa, Yeshu foi enforcado” (ver também: Schäfer, 2014: 92-3). Outras passagens do Talmude mencionam que Yeshua foi apedrejado e depois enforcado (para aprofundamento, ver: Schäfer, 2007: 63-74). A versão Huldriech concorda e discorda em alguns pontos: “Mas, todas as pessoas com um só consentimento declararam que Yeshu deveria morrer. Daí, na véspera da Pascoa, Yeshu foi retirado da prisão, (…). Elas o enforcaram em uma árvore[20] fora de Jerusalém, tal como o rei e os anciões de Jerusalém ordenaram” (Baring-Gould, 1874: 110).

            O restante do texto da versão Wagenseil trata das façanhas dos discípulos. Dois trechos suplementares tratam das tentativas de Nestor[21] de restaurar os costumes judeus entre os cristãos e a história de Simão Kepha, esta última de maneira tão contrastante com os textos canônicos, que os tradutores e os intérpretes divergem se é sobre o apóstolo Pedro ou sobre o apóstolo Paulo, ou uma tentativa de combinar a história de ambos.

Considerações Finais

            As narrativas nas diferentes versões do Toledoth Yeshu são muito mais numerosas do que os poucos trechos traduzidos e comentados acima, em virtude da compilação de muitos manuscritos divergentes durante a Idade Média. Para incluí-las todas aqui, seria necessária a extensão de um livro volumoso. Portanto, foram selecionadas acima apenas algumas das passagens mais importantes dos evangelhos (o nascimento, os milagres, a prisão a morte, o sepultamento e o sumiço do corpo de Jesus), segundo a versão Wagenseil, por ser a versão mais publicada até hoje. Esta seleção acima é suficiente para nos convencer de que o Toledoth Yeshu é, de fato, uma coleção de contos anticristãos.

Então, depois de conhecer este anti-evangelho, uma pergunta imediatamente surgirá na mente. Qual a credibilidade do Toledoth Yeshu como documento histórico? A grande quantidade de anacronismos, os absurdos históricos, as flagrantes contradições, as impossibilidades ridículas (por exemplo, alguém enforcado em uma haste de repolho), o forte caráter satírico e, sobretudo, a subjacente intenção maliciosa de depreciar a vida de Jesus, impossibilitam os historiadores de creditar esta coleção de contos anti-cristãos como documento histórico. Muito mais ainda para uma pessoa, no meio de uma cultura acostumada e viciada a acreditar, a ler e a pregar a vida de Jesus com base nos evangelhos canônicos, o Toledoth Yeshu parece um amontoado de histórias ridículas. Portando, quase todos cristãos ou indivíduos educados em sociedades cristãs o repudiarão imediatamente, antes mesmo de lê-lo na íntegra.

Agora, por outro lado, o arraigado hábito intelectual de acreditar na versão dos vencedores, qual seja, a da Igreja Cristã triunfante nos primeiros concílios e hoje dominante, também é um obstáculo para a percepção de que, o mesmo tanto que os contos do Toledoth exageram na depreciação de Jesus, criando boatos e difamações, os evangelhos canônicos e apócrifos, por sua vez, exageram na exaltação, criando mitos, embelezamentos e ficções. Portanto, a eliminação destes dois extremos é a tentativa dos atuais historiadores de encontrar uma versão histórica, através do importante projeto em andamento “Em Busca do Jesus Histórico”.

Obras consultadas

BARING-GOULD, Sabine. The Lost and Hostile Gospels: an Essay on the Toledoth Jeshu and the Petrine and Pauline Gospels of the First Three Centuries of Which Fragments Remain. London: Williams and Norgate, 1874.

COOK, Michael J. Jewish Perspectives on Jesus em The Blackwell Companion to Jesus. Delbert Burkett (ed.). Malden: Wiley-Blackwell, 2011, p. 215-31.

CUFFEL, Alexandra. Between Epic Entertainment and Polemical Exegesis: Jesus as Antihero in Toledot Yeshu em Medieval Exegesis and Religious Diference: Commentary, Conflict and Community in the Premodern Mediterranean. New York: Fordhan University Press, 2015, p. 155-70.

DE VORAGINE, Jocobus (tr.). The Golden Legend: Readings on the Saints. Princeton: Princeton University Press, 2012, p. 277-83.

DONALDSON, James and Alexander Roberts (trs.). Ante-Nicene Christian Library, Translations of the Writings of the Fathers, The Writings of Origen. Edinburg: T. & T. Clark, vol. X 1869 e vol. XXIII 1872.

EHRMAN, Bart D. e Zlatko Plese (trs.). The Apocryphal Gospels: Texts and Translations. Oxford: Oxford University Press, 2011.

MAZA, Carlos Sainz de la. El Toledot Yeshu Castellano en el Maestre Alfonso de Valladoid em Actas II Congreso Internacional de la Asociación Hispánica de Literatura Medieval. José M. Lucía Megías et. al. (eds). Madrid: Universidad de Alcalá, 1992, p. 787-814.

PRATEN, B. P et. al. (trs). Ante-Nicene Christian Library, Translations of the Writings of the Fathers, vol. II: Justin Martyr and Athenagoras. Edinburg: T. & T. Clark, 1867.

SCHÄFER, Peter. Jesus in Talmud. Princeton: Princeton University Press, 2007.

______________ and Michael Meerson. Toledot Yeshu: The Life Story of Jesus. Tubinger: Mohr Siueck, 2014.

SCHONFIELD, Hugh J. According to the Hebrews. London: Duckworth, 1937.

TRIGG, Joseph W. Origen. London/New York: Routledge, 1998.

VAN VOORST, Robert C. Jesus Outside the New Testament: An Introduction to the Ancient Evidence. Grand Rapids: William B. Eerdman Publishing Company, 2000.

[1] Na versão Huldreich do Toledoth Yeshu ela é mencionada como cabeleireira.

[2] A versão Huldreich menciona os seguintes apóstolos: Petrus (Pedro), Matthias (Mateus), Elikus (Lucas), Mardochai (Marcos) e Pahul (Paulo), ver Baring-Gould, 1874: 104.

[3] Michael J. Cook sugeriu que José Pandera poderia ser um soldado romano e menciona as seguintes variantes do seu sobrenome nos diferentes manuscritos: Pandira, Pantera, Panthera, Pantiri, Panteri e Pantira (Cook, 2011: 222).

[4] Alexandre Janeus, também conhecido como Alexandre Jannai, foi o segundo rei da dinastia hasmoneana, que reinou na Judéia de 103 a.e.c. até 76 a.e.c. Ficou conhecido por sua crueldade.

[5] Uma curiosidade sobre o nome Yeshu é que ele ainda é utilizado amplamente para denominar o Jesus dos evangelhos canônicos em algumas igrejas cristãs da Índia, inclusive com uma diversidade de músicas evangélicas destinadas a louvá-lo. Mas não o Yeshu da versão do Toledoth Yeshu, mais sim o Jesus (Yeshu) dos evangelhos canônicos.

[6] Peter Schäfer e Michael Meerson apresentam uma outra tradução da versão Huldreich, segundo eles “Yeshu mata seu pai, foge para a Galileia na Judeia e começa a expor a Escritura em contradição com a halakhah, lei judaica” (Schäfer, 2014: 64). Entretanto, este relato não aparece na tradução inglesa de Sabine Baring-Gould (1874: 102s).

[7] Peter Schäfer e Michael Meerson observam que, na versão Wagenseil, a tradução correta é “latiriam”, ou seja, os leões são confundidos com cães (Schäfer, 2014: 65).

[8] P. Schäfer e M. Meerson relacionam sete diferentes detalhes sobre esta passagem em sete distintos manuscritos (Schäfer, 2014: 65).

[9] Esta pode ser uma referência ao segredo da Carruagem Celestial, um dos mistérios estimados pelos cabalistas.

[10] Pedra grande e dura, de formato redondo, porém achatada, com que se trituram os grãos no moinho, girando uma sobre a outra.

[11] Foi em pé sobre esta mó, flutuando sobre a água, que a versão Huldrich menciona que Yeshu pregou ao povo e declarou sua missão divina.

[12] Na versão Strassburg: “Este homem é um feiticeiro e ele ilude o mundo” (Schonfield, 1937: 41).

[13] O verdadeiro nome da esposa do rei Janeus era Salomé Alexandra (141-67 a.e.c.), também conhecida por Alexandra de Jerusalém. Muito provavelmente, o autor deste texto confundiu esta rainha com a imperatriz Helena (250-330 e.c.), mãe do imperador Constantino (272-337 e.c.), conhecida também por santa Helena, a qual, apesar de uma personagem histórica, foi envolvida por uma lenda, que narra que ela esteve em Jerusalem, no ano de 326 e.c., e encontrou a cruz na qual Jesus foi crucificado. Para conhecer esta lenda, ver: De Voragine, 2012: 277-83.

[14] Hugh J. Schonfield mencionou uma versão do Toledoth que relata que Judas, ao invés de ir ao templo, roubou o pergaminho com as letras do Nome Inefável da coxa de Yeshu, enquanto este último estava dormindo em sua tenda (Schonfield, 1937: 46).

[15] A versão Strassburg relata que “Judas maculou Yeshu, de modo que ele caiu na terra e judas junto com ele” (Schonfield, 1937: 45).

[16] A versão Strassburg detalha que “quando os insurgentes (adeptos de Yeshu) ficaram sabendo do ocorrido, eles começaram a apedrejar os anciões judeus e aconteceu uma grande luta entres eles (…) e depois os insurgentes conseguiram fugir” (Schonfield, 1937: 47).

[17] Uma clara intenção do autor do Toledoth de representar a morte de Jesus (Yeshu) como ainda mais humilhante do que a morte em uma cruz. Já a versão Strassburg relata que, quando tentaram dependurar Yeshu, ele ainda possuía o poder do Nome Inefável, portanto todas as vezes que tentaram dependurá-lo, as árvores quebravam e não era possível mantê-lo suspenso. Somente quando tentaram dependurá-lo em um tronco de alfarrobeira é que foi possível matá-lo, pois não era uma árvore (Schonfield, 1937: 50). Na verdade, alfarrobeira é uma árvore.

[18] Árvore nativa do Mediterrâneo, também conhecida pelos seguintes nomes: ervilha parda, fava rica, figueira de Pitágoras, figueira do Egito ou pão de são João.

[19] A versão Strassburg não menciona que ele foi amarrado na cauda de um cavalo, apenas que “eles amarraram cordas aos seus pés e o arrastaram pelas ruas de Jerusalém até que eles o trouxeram para junto da rainha” (Schonfield, 1937: 53).

[20] A versão Wagenseil menciona que ele foi apedrejado e depois dependurado em uma haste de repolho (vide supra).

[21] Não está claro se este é o Nestor (386-450 e.c.), fundador da corrente nestoriana do Cristianismo, a qual foi excomungada no concílio da Calcedônia em 451 e.c.

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