O Paradoxo de Malala Yousafzai

por Octavio da Cunha Botelho

PALESTRA MALALA

Malala Yousafzai durante a palestra em São Paulo, 09/07/2018. O uso do hijab (véu) se transformou no símbolo da discriminação da mulher muçulmana nas últimas décadas.

          A ativista pela educação das mulheres, a paquistanesa Malala Yousafzai (20), está no Brasil para palestras e encontros com ativistas brasileiras pelos direitos à educação, a convite de uma instituição patrocinada pelo Banco Itaú. Ela se transformou em um ícone internacional pela luta dos direitos da mulher pela educação, após ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 2014, com apenas 17 anos de idade, a pessoa mais jovem a receber este reconhecimento.

Apesar da sua juventude, sua vida já é muito comovente, pois ela começou o trabalho de luta pela educação das meninas ainda no Paquistão, contrariando as orientações do Talibã, com isso foi alvo de um atentado, no interior de um ônibus, quando voltava da escola, ocasião quando recebeu três tiros na cabeça. Então foi levada para a Inglaterra a fim de se submeter a um tratamento, sobreviveu aos ferimentos, onde vive e estuda (Universidade de Oxford) até hoje. Em 09 de outubro de 2014, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, dividido com o indiano Kailash Satyarthi, um combatente da exploração do trabalho infantil na Índia, o que a elevou ao patamar de ícone internacional da luta pelos direitos à educação das mulheres e das crianças em geral. A partir daí, foi criado o Fundo Malala (Malala Fund) que já financiou investimentos na educação no Quênia, na Nigéria, na Jordânia, no Afeganistão e no Paquistão. Durante a sua palestra para mais de 800 pessoas no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, nesta Segunda Feira (09/07/2018), ela anunciou que o Fundo Malala irá investir na educação de crianças no Brasil, sobretudo na região nordeste.

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Malala Yousafzai, o uso do hijab (véu) confirma sua filiação muçulmana.

O problema da inacessibilidade de meninas às escolas no Brasil é diferente daquele dos países de forte influência muçulmana, tal como o de seu país natal, o Paquistão. Enquanto nestes últimos países o obstáculo é ideológico, em contrapartida, no Brasil, o obstáculo é financeiro, ou seja, algumas meninas não frequentam as escolas por necessidade de trabalhar fora e/ou dentro de casa. Seu país natal, o Paquistão, é o 143º dos 144 países pesquisados, no ranking da Global Gender Gap (Desigualdade Global de Gênero), divulgada pelo Fórum Econômico Mundial em 2016, portanto quase o pior país para a mulher viver, estudar e trabalhar, na frente apenas do Iêmen (144º). O Brasil é o 79º.

O formidável trabalho feito até agora por Malala Yousafzai é digno dos mais merecedores elogios. Como seria proveitoso se tivéssemos milhares de pessoas fazendo o mesmo pelo mundo afora! A educação é o motor da prosperidade. Entretanto, apesar deste maravilhoso trabalho, o que é intrigante em Malala é o fato dela ser muçulmana e sempre se apresentar usando o hijab, aquele véu de uso obrigatório pela mulher muçulmana, o qual, nas últimas décadas, se transformou no mais emblemático símbolo da discriminação da mulher. O hijab (véu muçulmano) assumiu um tal significado simbólico que se tornou objeto de conflitos e de debates em países de minoria muçulmana, sobretudo na França, onde o seu uso está proibido desde 2010 (para conhecer mais sobre o significado e a problemática do véu, consultar: Botelho, 2018: 308-18).

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Malala Yousafzai durante visita a sua terra natal, o Vale do Swat, Paquistão.

Parece paradoxal uma jovem lutar pelo direito da mulher à educação, bem como pelo ensino de qualidade, mas que aparece sempre em público usando o mais significativo símbolo da submissão da mulher muçulmana: o véu, mesmo que seja o mais discreto, o hijab (para conhecer as diferentes formas de velamento das mulheres no Islã, ver: Botelho: 2018: 301-9). Malala nunca foi vista usando as formas de velamento mais radicais, tais como o niqab (aquele véu que cobre o rosto e deixa apenas os olhos descobertos, geralmente de cor preta), a burca (o véu que cobre também o rosto, até mesmo os olhos e as mulheres enxergam através de uma tela) ou o chador (aquele vestido que cobre o rosto e o resto do corpo, ver: idem: 303-5), ela usa sempre o hijab, que é um velamento mais brando.

A questão intrigante que Malala deixa é a de que se uma mulher muçulmana, que para tanto é preciso acreditar nas obsoletas crenças muçulmanas tais como no castigo eterno no inferno, no Dia do Juízo Final, no paraíso de Alá, na criação do mundo por um deus ao invés da evolução, na poligamia e na escravidão aprovadas pelo Alcorão, na santidade dos sanguinários Califas, na obrigatoriedade do uso do véu e em outras crendices, tal como ensinadas no Alcorão e nos Hadiths, merece ser o melhor exemplo internacional e o símbolo por excelência da luta pela educação das mulheres. Pois, não é possível ser muçulmana sem aceitar estes obsoletismos.

Uma resposta poderá ser que Malala é um ícone relativo, pois representa muito para os países onde a religião restringe a educação da mulher, bem como aqueles com altos níveis de desigualdade de gênero, enquanto que, nos países com alta escolaridade das mulheres e altos índices de igualdade entre os gêneros, Malala representa pouco, ou mesmo, ao contrário, poderá ser um exemplo de quem ainda não sabe compatibilizar o seu aprendizado extraído da escola com a sua visão de mundo, em razão da sua juventude, por isso ainda aceita e pratica a obsoleta cultura muçulmana.

Referência

BOTELHO, Octavio da Cunha. A Discriminação da Mulher pelas Religiões: Um Estudo sobre a Magnitude da Culpa Religiosa. São Paulo: AgBook, 2018.

 

Um comentário sobre “O Paradoxo de Malala Yousafzai

  1. Excelente questionamento, Octavio. No entanto, vários estudiosos revelam que o item não faz parte da sharia, isso é, não faz parte das bases da fé islâmica, e que usá-lo ou não é uma escolha pessoal. Imagino que o uso se dê principalmente, pq a figura da jovem com o hijab já virou marca, isso é, está ligada a ela como configuração pública, e mudar isso seria ‘desconfigurá-la’. Haja visto o rebuliço causado quando ela apareceu usando jeans e jaqueta indo pra faculdade. O povo continua pensando pouco e, até pra mudar as coisas, é preciso ir by the book…

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