O Declínio do Budismo no Japão

por Octavio da Cunha Botelho

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Ao invés de monges e devotos, os templos budistas no Japão estão cada vez mais sendo frequentados por turistas.

            Um vício comum entre os pregadores e os apologistas religiosos é o de pensar e o de divulgar que, o que está acontecendo ao seu redor, está acontecendo no mundo todo. Pois, para eles, se na sua região ou no seu país a religião cresce, com o aumento de seguidores, com a construção de novas igrejas, novos templos, etc., estes fatos estão acontecendo no restando do mundo. Portanto, para eles, o crescimento do número de seguidores nas religiões é um fenômeno mundial. Então, aqueles devotos que escutam apenas as pregações do seu líder, de modo a não buscar informações de outras fontes, são levados a acreditar neste crescimento mundial das religiões.

            Entretanto, os acontecimentos recentes não confirmam estas informações. Pois, sabemos que, enquanto em alguns países as religiões crescem em número de seguidores, em outros elas estão em declínio. Através de dados históricos, está bem constatado que o Cristianismo está encolhendo na Europa Ocidental desde o século XVI e.c., ao ponto de, recentemente, as igrejas na Holanda estarem sendo transformadas em hotéis, em boates e em livrarias; enquanto na França as igrejas estão sendo colocadas à venda. Algumas pesquisas, com base nos censos das últimas décadas, estimam que, se a tendência continuar, países tais como a Suécia, a Holanda, a Finlândia, a República Tcheca, a Suíça, a Estônia, a Austrália, a Áustria e a Nova Zelândia não terão mais cidadãos que se declaram religiosos até o final das próximas duas décadas. Em outras palavras, a religião está em processo de extinção em alguns dos países com os mais altos índices de desenvolvimento humano e mais estáveis, enquanto que elas crescem nos países com baixo e médio desenvolvimento humano. Outras pesquisas incluem no rol dos países com a religiosidade em declínio o Reino Unido, a Coréia do Sul, a Irlanda e a Alemanha. Um país com alto desenvolvimento humano que segue também este caminho é o Japão, tal como veremos em seguida.

O Esplendor do Budismo Japonês

            O Budismo se espalhou para todos os países da Ásia oriental e o Japão foi um solo fértil para germinação das doutrinas budistas. Quase todas as correntes chinesas do Budismo foram introduzidas no Japão, vindas da China, e lá prosperaram, mesmo depois delas extintas na Índia e na China. Por isso o Japão foi um conservador de doutrinas e práticas extintas em outras partes da Ásia. Uma das correntes budistas mais conhecidas internacionalmente é o Zen-Budismo, embora não tenha nascido no Japão, pois é um desdobramento do Budismo Chan da China. Agora, o curioso é que quase todos conhecem o Zen-Budismo, mas poucos já ouviram falar do Budismo Chan. Por muitos séculos, o Budismo foi a religião nacional do Japão, ora dividindo, ora disputando o poder com a religião nativa, o Xintoísmo. Das religiões importadas, o Budismo foi a mais florescente.

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Com o tempo, os ritos funerários no Japão se tornaram um negócio milionário.

            A popularidade do Budismo no Japão pode ser medida pela enorme quantidade de templos. Os números não são coincidentes, porém todos eles apontam para uma abundância. Segundo levantamento da Japanese Agency for Cultural Affairs, existiam 85.994 templos budistas em 2006 (Onishi, 2008). Outra estimativa afirma que são 77 mil templos atualmente (McCurry, 2015). Estes números já foram maiores no passado. Ian Reader informou que em 1970 existiam aproximadamente 96 mil templos, enquanto que em 2007 este número caiu para 75.866 templos registrados, uma queda de mais de 20 mil templos em 37 anos, com aproximadamente 20 mil deles carecendo de um sacerdote (Reader, 2011: 242). Esta forte queda no número de templos em atividade é o principal indicador do declínio do Budismo no Japão. Portanto, o Budismo, que outrora fora tão florescente no Japão, atualmente enfrenta a pior crise institucional desde a sua introdução naquela ilha no século VI e.c.[1] Este será o assunto a seguir.

Peculiaridades do Budismo Japonês

            Após se espalhar por quase toda a Ásia, a doutrina de Buda foi influenciada pela cultura local onde frutificou, de modo a assumir características diferentes conforme a região. Daí que o Budismo Japonês possui peculiaridades incomuns ao restante do continente. Por exemplo, no Japão os monges são autorizados por lei japonesa a se casarem, embora seja uma opção, pois o monge pode optar pelo celibato. Enquanto que, quando se retirar do sacerdócio, então poderá se casar. Esta prática acontece desde o período Heian (794-1185 e.c.) no Japão.  Em algumas seitas do Budismo Tibetano, os monges também se casam. A vida de casado para um monge é estranho ao Budismo, uma vez que Buda pregou claramente que um monge deve ser celibatário, prescrevendo a pena de expulsão da ordem (sangha) para aquele que violar a regra. Também, os monges japoneses são autorizados a comer carne e a consumirem bebidas alcoólicas. O casamento e a prática destes hábitos por monges no Japão são apontados pelos budistas de outros países, bem como pelos historiadores como exemplos da decadência do Budismo Japonês. Embora o casamento seja praticado por monges de poucas seitas em outros países, o que é peculiar no Japão é a grande quantidade de monges casados.

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Os templos budistas no Japão sofrem com a falta de sucessores.

            Outra peculiaridade do Budismo Japonês é a sistema danka, ou seja, a filiação da família a um templo próximo. Neste sistema, as famílias sustentam financeiramente os templos que, em troca, atendem as necessidades espirituais da população. Quem não se filiar e não contribuir, não terá direito aos ritos funerários e às cerimônias memoriais subsequentes. A prática começou no período Heian, mas se tornou obrigatória no período Edo/Tokugawa (1603-1868 e.c.), quando os templos emitiam um certificado de filiação (terauke). Este sistema passou a ser obrigatório no período Tokugawa com a intenção de impedir a expansão do Cristianismo no Japão, de modo que o certificado auxiliava na descoberta de cristãos ocultos, ou seja, aqueles que não tivessem o certificado (terauke) eram considerados cristãos e daí perseguidos pelo xogunato (bakufu). A obrigatoriedade da filiação (danka seido) foi abolida no período Meije (1868-1912 e.c.), no entanto, a prática continua até os dias de hoje através de uma relação particular entre os templos e os paroquianos.

            A autorização para os monges se casarem criou uma outra peculiaridade no Budismo Japonês, qual seja, o surgimento do sistema templo familiar. Esta prática foi reforçada durante o período Meije, através da emissão da Lei Mikujiku Saitai, de 1872 e.c., que autorizou os monges a comerem carne e a se casarem.[2] Ou seja, o monge se casava, residia no próprio templo com a família e era sucedido por seu filho. Em outras palavras, um sistema hereditário de linhagem familiar. Com o aumento do desinteresse dos filhos dos monges em assumir as responsabilidades no templo, nas últimas décadas, este sistema está entrando em colapso, pela falta de sucessores.

            Outra peculiaridade do Budismo Japonês é a forte ênfase nos funerais e nas cerimônias memoriais dos falecidos. O sistema de filiação (danka seido) contribuiu para o fortalecimento deste costume, somado ao direito concedido aos templos, pelo governo, de administrar e de executar os funerais e os enterros dos paroquianos. Muitos cemitérios são propriedades dos templos e administrados pelos monges budistas. A importância do funeral chegou a tal ponto que o Budismo Japonês foi apelidado de “Religião Funerária” ou de “Budismo Funerário”, bem como criticado de que cuida mais dos mortos do que dos problemas espirituais dos vivos. Com o aumento da importância dos ritos funerários, o custo de um funeral no Japão chegou a valores muito altos, se transformando em um negócio milionário, o que levou alguns críticos apontarem os monges budistas como “empresários funerários” ou como “comerciantes da morte”.

            Por fim, outra peculiaridade é o recebimento de um nome póstumo (kamyō, hōmyō ou hō-gō, conforme a seita) para um recém falecido. Este novo nome significa que o falecido entrará no mundo do além como um discípulo de Buda, também como prova de sua fé no Budismo. Os nomes póstumos podem ser conforme o nível de contribuição prestado pelo falecido ao templo, durante sua vida, o nível de sua fé no Budismo, a sua contribuição à sociedade, como também a sua personalidade e seu poder financeiro. Os ricos e as celebridades recebem nomes póstumos muitos extensos, de 10 a 15 caracteres. O preço para se conseguir um nome póstumo atualmente é muito alto, o que transformou também este costume em um comércio milionário. A prática começou no século IX e.c., entre os membros da família real, depois se espalhou entre a população. Os nomes póstumos são concedidos pelos templos budistas.

A Crise no Budismo Japonês

            Um dos pesquisadores mais empenhados atualmente no estudo e na divulgação do declínio do Budismo no Japão, Ian Reader, resumiu assim o atual processo de decadência: “Preocupações que o Budismo tradicional dos templos no Japão está em um estado de crise têm sido anunciadas pelos sacerdotes nos últimos anos. (…) existe uma crise muito real encarando o Budismo no Japão moderno, com templos fechando por causa da falta de sustento e da falta de sacerdotes para conduzi-los, e com o desinteresse geral pelo Budismo entre a população japonesa. As populações em queda nas áreas rurais têm levado ao fechamento de muitos templos, enquanto que, nas cidades modernas, as pessoas estão cada vez mais se desinteressando pela área principal com a qual o povo japonês tem tradicionalmente se envolvido, isto é, os ritos funerários e seus ritos subsequentes. Parcialmente, devido à concorrência com as novas empresas funerárias, mas parcialmente também é porque a opinião pública sobre o Budismo, que se tornou superconfiante nos rituais funerários, se tornou altamente negativa nos tempos modernos. Mesmo as práticas que sempre foram vistas como áreas nas quais os templos budistas foram capazes de atrair as pessoas, tal como a peregrinação, estão se mostrando menos bem-sucedidas que no passado, contribuindo ainda mais para um sentido de crise que ameaça corroer as raízes do Budismo no Japão” (Reader, 2011: 233). Logo adiante ele reforçou: “Os dados mostram os significativos declínios nas estruturas de apoio budista, um desinteresse geral do público japonês pelo Budismo, um crescente sentido de que o Budismo é obsoleto e concentrado em questões que não são mais imediatamente relevantes para o povo japonês” (idem: 234).

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Alguns cemitérios no Japão são propriedades dos templos budistas.

            Independente da seita, este declínio afeta todo o Budismo Japonês. Se existir variação de uma corrente para outra, esta variação é muito pequena, pois a crise é epidêmica. Uma assustadora previsão foi feita por um importante membro na Japanese Buddhist Federation (Nihon Bukkyōkai), em 2010, que previu que, dentro de uma década, 50% dos templos budistas do Japão desaparecerão (Reader, 2011: 234). Também, o Contemporary Religious Research Office da seita Nichiren (Nichirenshū), estimou recentemente que 45% dos seus templos estarão vazios em um futuro previsível (idem: 234). A edição de 07 de julho, 2008, da importante revista japonesa Yomiuri Ui-Kurii (Yomiuri Weekly) publicou um artigo com o título: ‘Os templos estão acabando: os sacerdotes estão sofrendo por falta de sucessores e pelo decrescente número de famílias que sustentam os templos’, no qual o fechamento de templos e o decrescente número de sacerdotes são destacados como exemplos das fracas fundações do Budismo tradicional no Japão (idem: 234). Mais impactante internacionalmente foi matéria publicada no New York Times Online Edition, em 14 de julho, 2008, com o sinistro título: “In Japan, Buddhism May Be Dying Out” (No Japão, o Budismo Pode Estar Acabando – Onishi, 2008). Outro importante jornal, o inglês The Guardian, Online Edition, mais recentemente, 06 de novembro de 2015, publicou um artigo com o título: “Zen no More: Japan Shuns its Buddhist Traditions as Temples Close” (Chega de Zen: Japão Evita suas Tradições Budistas Enquanto os Templos Fecham – McCurry, 2015).

Obras utilizadas

CONZE, Edward. A Short History of Buddhism. Oxford: Oneworld Publications, 1996.

COVELL, Stephen G. Japanese Temple Buddhism: Worldliness in a Religion of Renunciation. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2005.

DE BARY, Theodore et. al. Sources of Japanese Tradition: from Earliest Times to 1600, vol. I (second edition). New York: Columbia University Press, 2001.

ELIOT, Sir Charles. Japanese Buddhism. London: Edward Arnold & Co., 1935.

FUMIO, Tamamuro. The Development of the Temple-Parishioner System em Japanese Journal of Religious Studies, 36/01, 2009, p. 11-26.

HORII, Mitsutoshi. Deprofessionalisation of Buddhist Priests in Contemporary Japan: A Socio-Industrial Study of a Religious Profession em Eletronic Journal of Contemporary Japanese Studies, March 14, 2006.

MATSUO, Kenji. A History of Japanese Buddhism. Folkestone: Global Oriental, 2007.

McCURRY, Justin. Zen no More: Japan Shuns its Buddhist Traditions as Temples Close em The Guardian, November 06, 2015, Online Edition.

ONISHI, Morimitsu. In Japan, Buddhism May Be Dying Out em New York Times, July 14, 2008, Online Edition.

READER, Ian. Buddhism in Crisis? Institutional Decline in Modern Japan em Buddhist Studies Review, BSRV 28.2. Lancaster: Equinox Publishing, 2011, p. 233-63.

REISCHAUER, August Karl. Studies in Japanese Buddhism. New York: The MacMillan Company, 1917.

STEINILBER-OBERLIN, E. The Buddhist Sects of Japan: Their History, Philosophical Doctrines and Sanctuaries. London: George Allen & Unwin, 1938.

STONE, Mariko Mamba Walter and Jacqueline I. (eds). Death and the Afterlife in Japanese Buddhism. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2009.

YOSHINORI, Takeuchi (org.). A Espiritualidade Budista, vol. II, São Paulo: Editora Perspectiva, 2007, p. 141-367.

Notas

[1] Existe um livro chinês do século VII e.c., Liang Shu (Livro de Liang), que menciona a viagem de navio de cinco monges budistas de Gandhara (região da atual Kabul, Afeganistão) para Fusang (Japão), em 485 e.c., a fim de propagar a doutrina budista. Porém, ainda não foi possível encontrar vestígios de objetos ou de atividades budistas no Japão antes da data do século VI e.c. Por isso os historiadores ainda confiam na data tradicionalmente atribuída, ou seja, 552 e.c., pelas mais antigas crônicas japonesas: os Kojiki (Registros de Assuntos Antigos – 712 e.c.) e as Nihon Shoki (Crônicas do Japão – 720 e.c.), quando uma comitiva de monges e de monjas budistas, enviada pelo rei Song Myöng (reinado: 523-54 e.c.) de Pekche (Coréia), presenteou o imperador do Japão, Kinmei, com sutras budistas e uma imponente estátua dourada do Buda (Eliot, 1935: 197; De Bary, 2001: 03 e Matsuo, 2007: 16). Entretanto, alguns autores suspeitam: “mas é possível que o Budismo tenha chegado ao Japão mesmo antes através de viajantes da península em uma forma privada e extraoficial” (Matsuo, 2007: 16). Também, Sir Charles Eliot mencionou que “é provável que a corte não fosse inteiramente ignorante dele (o Budismo) naquela época, pois está registrado que no reino do imperador Ojin, um erudito chamado Wang-In instruiu o presumido herdeiro na escrita e na literatura chinesas” (Eliot, 1935; 197).

[2] Alguns autores apontam que o real motivo para a emissão desta lei foi a intenção de enfraquecer o Budismo, uma vez que o período Meije foi um período de revitalização e de fortalecimento da religião nativa, o Xintoísmo, em razão da queda do xogunato e da promoção do imperador.

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