As Irmãs Fox: Falando com os Mortos ou Enganando os Vivos?

por Octavio da Cunha Botelho

Considerações Iniciais

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As irmãs Fox, da esquerda para a direita: Margaret Fox (Maggie), Catherine Fox (Kate) e Ann Leah Fox

Os historiadores fazem a seguinte diferenciação entre as religiões: aquelas que surgiram na escuridão da história e aquelas que surgiram na luz da história. As primeiras são as que apareceram na época quando os registros e a documentação eram muitos precários, período no qual quase toda a população era analfabeta, ou a língua local não possuía escrita, de modo que a documentação escrita era uma raridade ou, em quase todos os casos, não existia. Muitas destas religiões foram preservadas inicialmente na memória dos primeiros seguidores, então transmitidas apenas oralmente, para mais tarde serem transcritas para a forma escrita. Ou aquelas que são conhecidas apenas através da versão dos seus seguidores, não havendo, ou não sobrevivendo registro de autores de fora daquela tradição, com isso somente conhecemos estas religiões através dos olhos dos seus adeptos.

Em contrapartida, as religiões que surgiram na luz da história são as mais recentes, cujo aparecimento aconteceu em uma época quando a capacidade de registro era grande, por isso a documentação é abundante. Quando mais recente, mais farta a quantidade de registros. Pois surgiram em um tempo quando já existiam a impressão gráfica, o jornalismo, o cartório, a fotografia, a filmagem, o documentário, etc., bem como a História já era reconhecida como uma importante ferramenta na compreensão da cultura. Então, estas religiões recentes surgiram cercadas de abundantes registros e de fartos documentos, os quais nos possibilitam conhece-las desde diferentes perspectivas, quais sejam, a dos seus adeptos, a dos seus oponentes, a da imprensa e a dos autores neutros, daí a possibilidade de uma ideia mais ampla do seu surgimento e do seu desenvolvimento.

Este último caso é o que encontramos no surgimento do Moderno Movimento Espírita, através das façanhas executadas pelas irmãs Fox, no século XIX e.c., em um pequeno lugarejo no interior do Estado de Nova York, na época chamado de Hydesville, nos EUA. Por elas terem se tornado uma sensação nacional, com a ocorrência dos então famosos sons de pancadas (rappings) dos espíritos para comunicação com os vivos, o número de publicações de depoimentos, de notícias e de entrevistas em jornais, de relatos e de comentários em livros é abundante, sendo quase todos preservados. A quantidade de publicações na ocasião e nas décadas seguintes foi tão numerosa que, nos anos posteriores, se transformou em uma guerra de informações, entre os simpatizantes e os oponentes do movimento espírita, através dos jornais, dos panfletos e dos livros, tal como veremos mais adiante.

Este é um entre as centenas de exemplos de como as religiões não surgem e tampouco se desenvolvem, bem como não surgiram e se desenvolveram no passado distante, com apenas uma versão dos eventos. Pois, no período quando os registros eram escassos, ou mal preservados, as mesmas controvérsias e a mesma guerra de informações também aconteciam, porém de forma oral. Então, quando as versões dos oponentes não foram registradas, ou não foram preservadas, ou mesmo destruídas pela corrente dominante, a ideia que é perpetuada é a de que tudo naquela tradição é um mar de rosas, ocorrência que percebemos na história das grandes religiões atuais: Hinduísmo, Budismo, Cristianismo e Islamismo.

Em muitos pontos, o estudo abaixo será uma novidade para os leitores da língua portuguesa, uma vez que são raras as publicações sobre as irmãs Fox na língua acima mencionada. Exceto o livro Talking to the Dead: Kate and Maggie Fox and the Rise of Spiritualism (2004), de autoria de Barbara Weisberg, lançado no Brasil com o título: Falando com os Mortos: as Irmãs Americanas e o Surgimento do Espiritismo, em 2013, não existe outro livro em português com aprofundamento no assunto escrito desde a perspectiva de fora do movimento espírita, tampouco do ponto de vista crítico.

            Então, quando lemos este assunto desde apenas uma versão, por exemplo, da perspectiva de autores espíritas ou de simpatizantes do movimento (Capron,1850; Owen, 1865; Underhill, 1885; Doyle, 1926 e Buckland, 2005) ou, pelo outro lado, da perspectiva dos críticos do movimento espírita (Page, 1853; Davenport, 1897; Mann, 1919; Houdini, 2011 e Podmore, 2011), o que parece é que a história é simples e está muito bem resolvida. Entretanto, pelo contrário, quando pesquisamos a partir das duas versões, ou seja, pró e contra, o que encontramos é uma história impregnada de relatos e de interpretações conforme o interesse próprio de cada um que a relata, formando assim um quadro controverso e inconclusivo. Por exemplo, o que um lado enfatiza, o outro omite, o que um lado omite o outro enfatiza. Os depoimentos, as provas e os argumentos que são importantes para um lado são insignificantes e desprezados pelo outro lado.

Portanto, o leitor espírita, ao ler este estudo, estranhará a maneira pela qual ele está escrito, bem como as fontes das quais o material foi extraído, uma vez que não foi preparado a partir somente da perspectiva dos autores espíritas Estes relataram a história das irmãs Fox do ponto de vista daqueles que acreditaram em suas façanhas, porém, tal como veremos adiante, nem todos naquela época acreditaram, e tampouco hoje todos os estudiosos do assunto acreditam, que aqueles sons de pancadas (rappings), utilizados pelos espíritos para se comunicarem com os vivos, podiam ser fenômenos de origem sobrenatural.

A Origem do Espiritismo Moderno

            O Espiritismo encontrou solo fértil para a sua germinação no Brasil. Segundo as estatísticas, metade dos seguidores deste movimento no mundo está neste país sul americano. Apesar de ter uma origem bem antiga (Doyle, 1926 e Podmore, 2011: vol. I, 03-178), o mais comum é encontramos autores e historiadores brasileiros atribuindo o surgimento do Espiritismo Moderno ao lançamento do livro Le Livre des Esprits (O Livro dos Espíritos), de autoria de Allan Kardec (pseudônimo de Hippolyte Léon Dénizard Rivail, 1804-1869), em 1857, na cidade Paris, França, sendo os episódios protagonizados pelas irmãs Fox, nos EUA, apenas antecedentes de pequena importância, merecendo somente uma rápida menção (Lang, 2008: 173-4).  Porém, a história não é assim para os escritores e para os historiadores de língua inglesa. Para estes, o Espiritismo Moderno surgiu com os fenômenos que cercaram as irmãs Fox e tem data precisa, 31 de março de 1848, e local determinado, o pequeno lugarejo de Hydesville, perto da aldeia de Arcadia, condado de Wayne, no estado de Nova York, EUA[1] (ver: Capron, 1855: 33-131; Doyle, 1926: 56-119; Chapin 2004: 31-53; Weisberg, 2004: passim; Buckland 2005: 148-53; Sawin 2008: 113; Houdini, 2011: 01-16 e Podmore, 2011: vol. I, 179s).

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A casa dos Fox em Hydesville, estado de Nova York, quando da ocorrência dos misteriosos fenômenos.

            Para estes autores, as irmãs Fox não apenas marcaram o início do Movimento Espírita Moderno, mas também cunharam, com o gerenciamento de sua irmã mais velha, Ann Leah Fox Underhill, algumas das maneiras e dos arranjos de comunicação com os espíritos que mais tarde se tornariam padrões na forma dos espíritas se reunirem, sobretudo a conhecida sessão espírita (séance). E os poucos autores espíritas que reconhecem a importância das irmãs Fox na história do Espiritismo, atribuem credibilidade aos fenômenos que aconteciam nas suas presenças, ignorando a tumultuada polêmica que cercava e ainda cerca a veracidade ou a falsidade destes eventos. Pois, trata-se de uma inconclusiva história marcada por revelações, por desconfianças, por depoimentos, por delírios de credulidade, por sensacionalismos da imprensa, por acusações de fraudes, por deformações de relatos, por exploração comercial, por criações de boatos, por omissões de ocorrências, por confissões (forçadas ou espontâneas), por retratações (forçadas ou espontâneas) e por desentendimentos.

As Primeiras Ocorrências em Hydesville

            Antes da família Fox se tornar uma atração nacional nos EUA, ela era tal como as tantas outras famílias norte americanas que lutavam para sobreviver nos primeiros anos de 1800 e.c. O Pai, John D. Fox, era filho de um ferreiro e casou-se com Margaret Smith (depois Margaret Smith Fox). O casal tentou inicialmente a vida na cidade de Nova York e depois no extremo oeste do estado de Nova York, próximo da fronteira com o Canadá. Entre os anos 1820 e 1830, eles tiveram quatro filhos: Ann Leah, Maria, Elizabeth e David, antes de John, um alcoólatra compulsivo, abandonar a família nos anos 1820. Então, no início dos anos 1830, John retornou como um homem restaurado e convertido à Igreja Metodista. Margaret o aceitou e eles tiveram mais duas filhas: primeiro Margaret (1833-1893 – também conhecida por Margaretta ou Maggie) e a caçula Catherine (1837-1892 – conhecida por Kate ou Katie), as famosas protagonistas dos misteriosos eventos que as transformariam mais tarde em atração nacional. Durante estes anos, a família perambulou por aqui e ali até se estabelecer em Hydesville, um pequeno aglomerado de casas perto da aldeia de Arcadia, no condado de Wayne, no extremo oeste do estado de Nova York, norte dos EUA, em dezembro de 1947, com apenas as duas filhas mais jovens, Maggie e Kate, e, eventualmente, com a neta Elizabeth Fish (Lizzie), filha do primeiro casamento de Ann Leah Fox, pois os filhos mais velhos já estavam casados e residiam em outros locais.

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Gravura reproduzindo o episódio dos misteriosos sons de pancada (rappings) na noite de 31 de março de 1848, em Hydesville, EUA.

            A intrigante história dos misteriosos sons de pancadas (rappings) começou na noite de Ano Novo de 1848, quando John D. Fox, foi acordado por sons de pancadas que aconteciam em diferentes locais da pequena casa. Uma vez que os sons continuaram nas semanas seguintes, ele imaginou que fossem oriundos do trabalho com martelo de um vizinho, ou de festas nas casas da redondeza ou mesmo que fossem sons provocados por ratos. A senhora Fox não aceitou as hipóteses do marido, pois ela vinha de uma família que acreditava em forças sobrenaturais e começou a supor que os sons viam de forças do outro mundo. À medida que as semanas passavam e os sons continuavam, a senhora Fox tornou-se cada vez mais aflita.

            Então, a tensão alcançou seu clímax na noite de 31 de março de 1848, quando as filhas mais novas, Margaret (Maggie) e Catherine (Katie), com quatorze e onze anos de idade respectivamente, decidiram brincar com aqueles sons de batidas (rappings). Elas disseram para as pancadas: “façam tal como eu faço”, então bateram palmas por quatro vezes, e as pancadas imediatamente responderam com quatro sons de pancadas. A senhora Fox ficou assustada com a resposta, ao perceber que havia uma inteligência por três daqueles sons de pancada e começou a fazer perguntas para que os sons respondessem sim ou não, através de um código conforme o número de pancadas. As respostas lhe informaram que as pancadas eram provocadas pelo espírito de um homem que foi assassinado e enterrado no porão daquela casa. Então, mais assustada ainda com aquelas respostas, ela decidiu chamar os vizinhos.

            Para os crentes espíritas, a principal fonte de conhecimento dos relatos das testemunhas das primeiras ocorrências dos sons de pancadas, acompanhados de respostas inteligentes, é uma coletânea de depoimentos, colhidos por um jornalista, E. E. Lewis, e assinados pelos depoentes em abril de 1848, a qual inclui a senhora Fox, seu marido John Fox e alguns vizinhos, mas exclui as irmãs Fox mais jovens (Maggie e Katie), talvez pela pouca idade de ambas, ou por não imaginarem ainda que os sons só aconteciam com a presença delas, tal como verificado nas semanas seguintes. Logo em seguida, a coletânea foi publicada em um panfleto por E. E. Lewis, um advogado e jornalista de uma cidade vizinha (ver: Lewis, 2005).

Digo a versão dos crentes espíritas que sustentavam e ainda sustentam a caráter sobrenatural destes fenômenos, pois, mais tarde, em 1888, as irmãs Fox fizeram uma confissão pública, amplamente divulgada nos jornais norte-americanos e em um livro bombástico publicado por Reuben Briggs Davenport, confessando que os sons das pancadas (rappings) eram uma brincadeira criada por elas, a fim de assustar sua sobrinha mais jovem Elizabeth (Lizzie), quem residia com elas naquela ocasião, e sua supersticiosa mãe, através do choque de maças, penduradas por um cordão amarrado ao talo da fruta, com o chão do quarto, de uma maneira que pudessem ser rapidamente recolhidas, para que ninguém pudesse descobrir o truque, que depois foi desenvolvida na técnica de provocar os sons das pancadas (rappings) através do choque dos dedos do pé com a madeira da cama (Davenport, 1897: 89-90), tal como veremos no andamento deste estudo. .

A senhora Fox, em seu depoimento ao jornalista E. E. Fox, sobre aquela noite de 31 de março de 1888, relatou: “As crianças, que dormiam na outra cama do quarto, ouviram o barulho e tentaram fazer um barulho semelhante estalando os dedos. A mais jovem (de 12 anos de idade) foi quem fez isto. Tão logo ela produziu os sons com os dedos, o barulho foi seguido no quarto. (…) através do mesmo número de barulhos que a criança fez. Quando ela parou, o barulho também parou por um momento. A outra filha (de 15 anos de idade) então falou assim de brincadeira: ‘agora, faça exatamente do jeito que eu faço, conte um, dois, três, quatro…, batendo uma mão na outra’. Os sons que ela fez foram repetidos como antes. Ela fez isto apenas uma vez. Então, ela começou a ficar assustada; foi aí que eu disse para o barulho: conte até dez, e o barulho realizou dez pancadas ou barulhos. Então, eu perguntei a idade de minhas filhas sucessivamente, e o barulho produziu um número de sons de pancadas correspondente às idades das minhas filhas” (Lewis, 2005: 03-4).

Em seguida, a senhora Fox perguntou se era uma criatura humana que estava fazendo aqueles sons. Mas, não houve resposta. Ela continuou: “Então eu perguntei se era um espírito e, se fosse, que respondesse com dois sons de pancada (rappings). Eu ouvi dois sons tão logo as minhas palavras foram ditas” (idem: 04). Então, ela quis saber quem era aquele espírito que causava aqueles misteriosos sons. Daí ela foi informada que se tratava de um mascate, de 31 anos de idade, que foi assassinado por causa de US$ 500 e, em seguida, enterrado no porão daquela casa. Então, ela perguntou se os sons de pancada continuariam se ela chamasse os vizinhos para testemunhar, e o barulho respondeu que sim. Daí pediu ao seu marido que chamasse os vizinhos. O conteúdo completo dos depoimentos não será reproduzido aqui, uma vez que estes depoimentos são extensos e repetitivos.

Para Margaret Fox Kane (Maggie), E. E. Lewis não era um observador imparcial. Em sua confissão de 1888, ela revelou o seguinte: “muito dos efeitos dos sons de pancada está, em grande parte, exagerado neste depoimento que minha mãe foi obrigada a escrever. Eu digo que ela foi obrigada a escrevê-lo, porque a redação do depoimento, se não foi em grande parte ditado por outros em primeiro lugar, ou seja, por homens que desejavam revelar os detalhes dos sons de batidas e ganharem dinheiro com a venda do panfleto os descrevendo, foi, em seguida, grandemente deturpado, a fim que pudesse ser usado para se ajustar aos objetivos desonestos dos espíritas profissionais” (Davenport, 1897: 90-1; ver também: Chapin: 2004: 37). Por outro lado, neste trecho do depoimento de Maggie, podemos reconhecer o motivo pelo qual a sua confissão e a da sua irmã nunca foram aceitas como depoimentos inteiramente críveis e conclusivos, tal como também em muitas outras das suas afirmações, uma vez que, quando daquelas confissões, ambas já estavam mergulhadas no alcoolismo, consequentemente desacreditadas. Observe que a frase “ser usado para se ajustar aos objetivos desonestos dos espíritas profissionais” revela um anacronismo com a data do depoimento de sua mãe (meados de abril de 1848), uma vez que era o início do Movimento Espírita, portanto não existia ainda “espíritas profissionais”, portanto é difícil saber a quem ela se refere com esta expressão.

No entendimento de David Chapin, nesta fase, a produção dos sons de pancada já era feita pelo estalo dos dedos das irmãs, ao invés do choque da maça com o assoalho da casa. Para ele: “Na noite de Sexta Feira, 31 de março, as meninas decidiram levar o truque mais adiante. Naquela noite, a senhora Fox decidiu ir para a cama logo após o pôr do sol, a fim de colocar o sono em dia. Logo em seguida os sons de pancada começaram. As crianças então imitaram os sons estalando os dedos, para o horror da senhora Fox…” (Chapin, 2004: 31-2). Na confissão de Maggie (Margaret Fox Kane) em 1888, a irmã mais velha que realizava os sons de pancada (rappings), ela confessou como os truques eram realizados: “Agora, esta é a realidade de como nós tivemos, pela primeira vez, a ideia de produzir (os sons) com as juntas (dos dedos) similares aos sons que nós tínhamos feito pelo choque das maçãs com o auxílio de um cordão. Depois de tentar com os dedos (das mãos), nós então tentamos com os nossos pés, e não demorou muito para nós descobrirmos que nós podíamos produzir sons de pancada muito altos com a ação das juntas dos dedos dos pés, quando em contato com algo que fosse um bom condutor de som. Minha irmã Kate foi a primeira a descobrir que nós podíamos fazer tais peculiares sons com os nossos dedos. Nós costumávamos praticar primeiro com um pé e então com o outro, e finalmente nós conseguimos fazê-lo com pouco esforço” (Davenport, 1897: 90 e Chapin, 2004: 32).

Observe que o relato da senhora Fox acima, bem como os dos vizinhos que testemunharam aqueles eventos, carregam os melhores e os mais comuns ingredientes das subsequentes histórias dos filmes de terror, desde a criação deste gênero cinematográfico: casa mau assombrada, sons misteriosos de pancadas à noite, casa recém ocupada por novos moradores, presença de um espírito desencarnado de alguém que foi assassinado e depois enterrado no porão da casa, incapacidade de descobrir a origem e a causa dos eventos assustadores, moradores apavorados com aqueles acontecimentos misteriosos, etc. Enfim, as irmãs Fox não foram apenas as pioneiras do Movimento Espírita Moderno, elas lançaram também as bases e os ingredientes necessários para o roteiro de um bom filme de terror. Ademais, aqui podemos encontrar um dos motivos que levaram as religiões a se tornarem uma cultura tão popular, qual seja, o do grande número de indivíduos que acreditam mais em uma história bem contada do que na percepção da realidade que acontece diante dos seus olhos.

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Capa do panfleto publicado por E. E. Lewis com os depoimentos das testemunhas dos misteriosos fenômenos ocorridos em 31 de março de 1848.

Apesar dos impactos causados nos vizinhos, nem todos naquela região acreditaram que os eventos eram uma forma de comunicação com um espírito. Daí que, pelo fato deste evento sensacional ter acontecido no dia 31 de março, ou seja, na véspera do dia 1º de abril, o Dia da Mentira, um jornal da região, o Newark Herald, que não acreditava na natureza sobrenatural dos episódios, noticiou que tudo aquilo era uma brincadeira de 1º de Abril. Outro jornal da região, o Western Argus, da cidade próxima Lyon, noticiou o seguinte em 12 de abril: “O país inteiro está louco com o alvoroço e centenas estão se dirigindo ao local para ouvir os sons de pancada”. E terminou a notícia com uma sugestão debochada: “a criação de uma hospedaria na vizinhança, para acomodar aqueles que fazem daquele local um local de retiro, poderia ser um bom negócio” (Sawin, 2008: 113; ver também: Chapin, 2004: 36). Também, ao saber da futura publicação do panfleto de E. E. Lewis, o jornal Newark Herald, o acusou de incentivar a excitação sobre os eventos, a fim de aumentar as vendas dos panfletos e, em seguida, o considerou “quer um idiota ignorante ou um velhaco perfeito” (Sawin, 2008: 113). O explícito caráter comercial do panfleto de E. E. Lewis pode ser confirmado primeiro no fato do mesmo ser vendido e, o que é ainda mais promocional, no final do panfleto ele ofereceu uma recompensa de US$ 50 para quem descobrisse se “os misteriosos fenômenos fossem obra de qualquer ser humano” (Lewis, 2005: 33-4). Tal como veremos em seguida, a exploração comercial acompanhou as atividades das irmãs Fox do início ao fim.

Antes das confissões de Margaret Fox Kane (Maggie) e Catherine Fox Jencken (Katie) em 1888, algumas especulações sobre a origem e a autoria dos sons de pancadas foram sugeridas. Em meados de maio de 1848, a maioria dos jornais locais concluiu que os sons de pancadas eram uma brincadeira executada pelo senhor Fox que, sentado em sua cama trêmula, era capaz de produzir os sons com apenas um leve movimento. O jornal Western Argus estava seguro desta evidência, então previu que o caso terminaria em breve e acusou o senhor Fox de enganar os espíritas iludidos (Western Argus, May 17, 1848; Jackson Jr., 1972: 18-20 e Sawin, 2008: 113; ver também: Chapin, 2004: 36). Outro jornal da região, o Rochester Daily American, publicou em 22 de abril: “A excitação que esta incomparável trapaça criou em certa medida diminuiu, e as pessoas que estavam um pouco céticas no princípio, agora estão começando a aprovar a ideia de que elas foram inevitavelmente enganadas”. Este jornal também especulou que talvez a coisa toda fosse uma brincadeira de 1º de Abril (Chapin, 2004: 38).

Agora, o que os céticos não imaginavam era o tamanho da explosão de credulidade que aquele evento seria capaz de desencadear, dando início a uma febre de interesse pela comunicação com os mortos nos EUA e depois em outros países, o que gerou uma proliferação de médiuns desde então.

A Ascenção ao Estrelado

            Tal como previram alguns jornais da época, toda esta excitação poderia ter se extinguido se não fosse a intromissão de Ann Leah Fox Underhill, a mais velha das irmãs Fox, vinte anos mais velha que as irmãs mais jovens, separada do seu terceiro casamento, tinha pouco contato com sua família em Hydesville. Ela, na ocasião dos eventos, residia em Rochester, sobrevivendo com aulas de piano. Ao saber sobre os eventos ocorridos na casa de seus país, através de umas folhas de provas do panfleto de E. E. Lewis, que lhe foi mostrado por um dos seus alunos, filho de um proprietário de gráfica, ela correu para encontrar a sua família em Hydesville, encontrando os seus familiares em pânico. A desconfiança por truques por trás dos eventos cresceu ao ponto de a família temer a multidão, que se aglomerava ao redor da casa exigindo explicações. Então, Leah aconselhou sua mãe e suas irmãs a se retirarem de Hydesville.

            Por algum tempo, as irmãs jovens residiram na casa de Leah em Rochester, ocasião em que Leah percebeu o grande potencial comercial daqueles fenômenos. Usando da sua astúcia, ela se ocupou em gerenciar as atividades das irmãs mais jovens e se apressou em preencher aquilo que aqueles misteriosos fenômenos precisavam para alcançar credibilidade popular, isto é, a criação de um significado religioso para eles. Ao saber do uso do alfabeto em Hydesville, para obter resposta do espírito, ao invés do simples método de resposta sim ou não, ela imediatamente retomou este método e explicou assim a importância da missão em seu livro: “Eu fiz a pergunta: ‘Você deseja dizer alguma coisa para nós’? Houve um tremendo som de pancada em resposta. Eu então comecei invocando o alfabeto, letra por letra em ordem, e a primeira mensagem obtida em Rochester, através dos espíritos, foi esta: ‘Queridas amigas, vocês devem proclamar estas verdades ao mundo. Esta é a aurora de uma nova era e vocês não devem mais escondê-la. Quando vocês fizerem o seu dever, Deus as protegerão e os bons espíritos as vigiarão”. (Underhill, 1885: 48-9 e Sawin, 2008: 113).

            Muito diferentemente, nas confissões de 1888, Maggie e Kate delataram que “os esforços promocionais de Leah eram motivados somente por seu desejo de fortuna e de fama, e que elas, como jovens inocentes, eram vítimas da sua trapaça de fazer dinheiro” (Sawin, 2008: 113: ver mais detalhadamente: Davenport, 1897: 102-20). O seu interesse por dinheiro era tão forte que ela concluiu o seguinte, em seu próprio livro, ao deixar a cidade de Buffalo, após uma visita de uma quinzena: “De um ponto de vista financeiro, nós nunca tínhamos encontrado um sucesso igual” (Underhill, 1885: 196).[2] As irmãs Fox chegaram a arrecadar “mais de US$ 100 por dia, uma soma impressionante para uma época quando o trabalhador normal fazia um dólar por dia. Elas cobravam um dólar por pessoa para as reuniões públicas, as quais incluíam 90 pessoas por dia (3 séances de 30 pessoas cada), e elas habitualmente realizavam reuniões privadas cobrando US$ 5 por cada sessão” (Sawin: 2008: 113 e 113n89; ver também: Underhill, 1885: 120).

Na confissão de Maggie, ela revelou que Leah sabia, desde o início, que os fenômenos dos sons de pancadas eram truques: “uma das primeiras coisas que ela (Leah) fez ao chegarem na casa foi levá-las para um canto, ela e Kate, e fazê-las se despirem e mostrarem a maneira de produzir os sons misteriosos”. Após conhecer como os sons eram produzidos, ela (Leah) tentou fazê-los por si mesma. “Ela encontrou grande dificuldade em produzir o mesmo efeito, uma vez que as juntas dos seus pés não eram mais tão flexíveis como na infância”. Também, que ela “nunca conseguiu alcançar muita habilidade neste método de fraude”. Pois, o som que ela conseguiu produzir, era “um som vago de ser ouvido, era fácil de ser percebido (como fraude) ” (Davenport, 1897: 103-4). Ademais, Maggie revelou o que ela sofria quando elas realizavam sessões juntas: “eu ficava envergonhada e mortificada com a maneira desajeitada pela qual ela (Leah) fazia os fracos sons de pancada, e então eles (os espectadores no auditório) olhavam para mim com a fisionomia de suspeita e de surpresa. Isto exigiu muito da minha habilidade e do meu melhor tato para evitar que eles fossem embora pensando que aquilo era uma impostura” (idem: 104).

            Assim, a fim de levar adiante a missão de “proclamar estas verdades ao mundo”, Leah Underhill apresentou as suas irmãs médiuns para as pessoas influentes e prestigiadas de Rochester e de outras cidades da região, as quais se tornaram apoiadoras do seu projeto. Com esta introdução nas famílias importantes de Rochester, nos próximos meses, diversos cidadãos daquela cidade passaram a acreditar que as irmãs Fox eram capazes de se comunicarem com os espíritos e começaram a vê-las como profetas de uma nova era de relação entre a Terra e o reino do Céu. As primeiras reuniões eram fechadas, o que atraiu pouca atenção da imprensa, pois eram frequentadas por crentes espíritas e por convidados escolhidos. No outono de 1849, portanto dezoito meses após o início dos sons de pancada (rappings), as irmãs Fox desfrutavam do apoio de dezenas de famílias. As sessões (séances) continuavam. Alguns apoiadores levaram Kate até Auburn, a fim de encontrar com crentes espíritas daquela cidade, enquanto Maggie e Leah mantinham uma agenda cheia em Rochester.

            De acordo com Eliab W. Capron, um dos primeiros apoiadores e grande responsável pela divulgação do início do Moderno Movimento Espírita, os espíritos começaram a exigir que suas presenças fossem conhecidas pelo mundo todo, mas o temor das irmãs Fox pela notoriedade as fez resistir ao máximo para que a situação não tomasse aquela direção. Isto aborreceu os espíritos e, consequentemente, durante uma séance conduzida por Maggie e Leah, eles laconicamente soletraram: “Nós nos despediremos de vocês todos agora”, e os sons de pancadas se silenciaram. Dias se passaram e os sons não voltaram (Capron, 1855: 88-9 e Sawin, 2008: 113). Este foi o primeiro desentendimento entre as irmãs Fox e os seus apoiadores. Com base nas confissões, obviamente, não foram os espíritos que disseram aquele adeus na sessão, mas foi Maggie Fox, quem estava insatisfeita com a arriscada situação de ser excessivamente exposta, pois, por trás daquilo tudo, ela temia que os truques fossem descobertos. A versão foi colocada desta maneira, uma vez que Eliab W. Capron era um crente e apoiador do Movimento. A insatisfação era tão evidente que as próprias irmãs Fox declaram logo em seguida “que elas estavam felizes em estarem livres dos espíritos e consideram aquilo um alívio” (Capron, 1855: 89 e Sawin, 2008: 113). Desde que começaram aquela maratona, durante os dezoito meses, as irmãs Fox não tiveram mais infância. Pois, elas se transformaram de crianças de uma família de fazendeiros do pequeno povoado de Hydesville, em um centro de atenção rodeadas por adultos intelectualizados e simpatizantes da ideia de comunicação com os mortos. Enfim, elas eram crianças que levavam vidas de adultas.

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Gravura reproduzindo a fachada do Corinthian Hall,  cidade  de Rochester, onde as irmãs Fox realizaram a primeira demonstração pública dos sons de pancada (rappings).

            Após doze dias de silêncio na casa dos Fox, Eliab W. Capron juntou-se a George Willets em implorar para Leah e Maggie. Diferente dos outros apoiadores, Capron era mais agressivo em seu desejo de promover os espíritos. Foi ele quem levou Kate para Auburn para conseguir convertidos. Então, surpreendentemente, quando ele entrou na casa dos Fox, os espíritos interromperam o silêncio. Mediante aquele tedioso sistema de soletrar as letras via sons de pancada, os espíritos, mais uma vez, exigiram que a sua existência fosse levada proeminentemente diante do público. A essência do plano dos espíritos consistia na seguinte exigência: “alugar o Corinthian Hall”, o mais novo e maior auditório de Rochester (Sawin, 2008: 113 e Chapin, 2004: 46).

            O auditório foi alugado e um espaçoso anúncio foi publicado no jornal Rochester Daily Advertiser com o seguinte título chamativo e sensacionalista: “Maravilhosos Fenômenos no Corinthian Hall”. A programação do evento constava de uma palestra, de uma demonstração dos sons de pancada (rappings) e da formação de um comitê de cinco membros para investigar a autenticidade dos sons, a fim de descobrir se eles eram truques. O preço do ingresso era de US$25 cents (US$50 cents para um homem acompanhado de duas mulheres). E no final do anúncio, um convite estimulante: “Venha e Investigue”. Na primeira noite, 14 de novembro de 1849, quatrocentas pessoas compareceram para ouvir a palestra de Eliab W. Capron. Em seguida aconteceram as demonstrações dos sons de pancada apenas por Maggie, pois Kate estava ausente. Por último, a escolha dos membros do comitê de investigação. As investigações foram feitas no dia seguinte em um escritório cedido por um empresário local.

Na primeira investigação não foram encontrados truques na produção dos sons. Então, os resultados foram anunciados naquela noite, o auditório não ficou satisfeito e outro comitê foi formado. Mais testes foram feitos no dia seguinte e os mesmos resultados, nada encontrado. Um terceiro comitê foi formado e também, não foram encontrados truques na produção dos sons de pancada. Então, na noite seguinte, dois cidadãos de Rochester distribuíram fogos de artifício para alguns arruaceiros que os ascenderam no auditório causando um grande tumulto.  Quando o comitê anunciou o resultado da terceira investigação, diversos homens correram em direção ao palco para agarrarem Maggie e Leah. Embora estes acontecimentos assustaram Maggie, elas eram tudo o que Leah desejava. Maggie mais tarde revelou que Leah tinha planejado isto tudo, sabendo que “qualquer coisa que pudesse gerar algo semelhante a uma perseguição religiosa, promoveria a sua causa, trazendo mais notoriedade e simpatia geral” (Davenport, 1897: 119). Observe os talentos de Leah Underhill para o marketing e para a publicidade. Na noite em que o auditório eclodiu, diversos homens cercaram Maggie e Leah e as escoltaram até sua casa, enquanto a polícia era chamada para acalmar o iminente tumulto (Sawin, 2008: 113). Mais tarde Maggie revelaria que Leah calculou o efeito que estas reuniões teriam e ficou satisfeita com os resultados (Sawin, 2008: 113n30).

Um curioso exemplo de fraude aconteceu logo após estes eventos, quando Kate Fox foi visitada por uma de suas ex-professoras, a senhora Mary B. Allen, uma educadora que estava curiosa para saber sobre o “outro mundo”. Então, a fim de testar Kate, a professou pediu que Kate solicitasse ao espírito de sua avó como se soletra a palavra “scissors” (tesoura). Utilizando daquele método de soletrar através dos sons de pancada, diante dos olhos atentos de Kate, o espirito soletrou “cisser”. Aí, a professora Allen exclamou surpresa: “Ora, este era exatamente o modo como Kate soletrava a palavra “scissors” quando ela era uma aluna em minha escola” (Sawin, 2008: 113). Traduzindo, a resposta não veio do espirito, mas sim da mente de Kate Fox. Casos como estes são alguns dos principais exemplos apontados por aqueles que alegam que as mensagens dos espíritos através dos médiuns são, na verdade, projeções do inconsciente do médium na mensagem supostamente recebida, ou seja, a mensagem não vem do espírito, mas sim da mente do médium.

Tais fatos suspeitos, contudo, não evitaram das pessoas de afluírem para as sessões (séances) das irmãs Fox, trazendo dinheiro com elas. Foi nesta época que Leah começou a sugerir a doação de um dólar por visitante (Sawin, 2008: 113). Segundo Leah Underhill, “o primeiro dinheiro foi recebido em 28 de novembro de 1849” (Underhill, 1885: 103). Com o aumento da popularidade, as irmãs Fox foram levadas para as cidades de Albany e para Troy, em abril e maio de 1850 respectivamente. Elas não eram apenas uma atração local, elas estavam se transformando em uma atração regional. Embora, salvo algumas poucas exceções, a imprensa continuava a apontar as irmãs Fox como trapaceiras, porém discordando sobre como os sons de pancada eram executados. Alguns jornais anunciavam que os sons eram produzidos por uma especial condição elétrica nos corpos dos médiuns, e outros ainda aceitavam as impressões obtidas por aqueles que estiveram no Corinthian Hall, de que as irmãs escondiam bolas de chumbo nas bordas das saias ou estalavam seus joelhos ou seus dedos dos pés.

Pois bem, se as duas irmãs sabiam que aqueles fenômenos eram truques executados por elas, então o leitor poderá estar curioso para saber porque elas não confessaram a brincadeira logo no início, o que teria evitado aquele longo período de enganação. Maggie Fox explicou assim o motivo em sua confissão de 1888: “Quanto mais os sons de pancada continuavam, contudo, mais difícil ficou de parar. Com tantas pessoas, familiares e amigos sendo enganados, confessar o truque tornou-se impossível. Assim, nós continuamos em frente” (Davenport, 1897: 92 e Chapin: 2004: 40).

As Irmãs Fox em Nova York

            Quanto mais a imprensa noticiava, mesmo suspeitando de truques, mais aumentava a curiosidade da população. As notícias começaram a se espalhar para além daquela região e alcançaram as principais cidades norte americanas, inclusive a maior de todas, Nova York. Horace Greeley, editor do jornal New York Tribune, foi um dos poucos jornalistas do país que levou a sério o caso dos sons de pancada, ao ponto de enviar um repórter para Rochester logo após os eventos no Corinthian Hall. Greeley continuou a noticiar sobre as irmãs Fox de uma maneira neutra nos meses seguintes, nem aprovando, nem condenando. Em função destas circunstâncias, Leah decidiu que era a hora de levar Maggie e Kate para a cidade de Nova York. Aproveitando de seus dotes marqueteiros, ela concedeu a H. Greeley privilégios noticiários, garantindo a ele que seria o primeiro visitante às salas de sessões no Hotel Barnum.  As irmãs chegaram em Manhattan em 03 de junho de 1850, e exatamente como Leah esperava, H. Greeley foi um dos primeiros visitantes. Em sua conversa inicial, ele sugeriu a Leah que aumentasse o preço do ingresso para cinco dólares por pessoa, “a fim de evitar a presença da ralé”, porém Leah ignorou a sugestão e manteve o preço de um dólar por cabeça.

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Horace Greeley, editor do jornal New York Tribune, contribuiu muito para a divulgação das irmãs Fox na cidade de Nova York.

            Durante a estadia em Nova York, as irmãs Fox realizaram encontros, agendados por H. Greeley, com intelectuais das letras daquela cidade, os quais foram notícias nos jornais. Os jornalistas de importantes jornais nova iorquinos de circulação em todo o país, que assistiram as palestras e as demonstrações dos sons de pancada, ficaram impressionados com a performance das irmãs. Os autores avaliam os resultados diferentemente, enquanto alguns alegam que as avaliações foram favoráveis às irmãs, outros encontram referencias em jornais que as avaliações não foram unânimes. Por exemplo, em 08 de junho de 1850, o jornal New York Tribune publicou um artigo de duas colunas, escrito por George Ripley, editor literário deste jornal, relatando uma das reuniões com as irmãs Fox. Uma semana depois, M P. Willis, editor do Home Journal de Nova York, publicou um artigo mais longo. Nenhum destes artigos endossou os sons de pancadas (rappings). Eles simplesmente relataram uma história misteriosa e deixou para o público decidir. Ripley terminou o seu artigo “recomendando aos leitores a verem por eles próprios; enquanto Willis concluiu: “não há fim para a especulação sobre o assunto, e nós deixamos isto com os nossos leitores” (Chapin, 2004: 78).

            Apesar das divergências de opiniões dos expectadores e dos jornalistas, a impressão que prevaleceu em Nova York foi a de que as demonstrações foram um sucesso, o que serviu de alavanca para impulsionar as irmãs Fox ao estrelado. Então estava consolidado, elas agora eram uma atração nacional.  Daí choveram convites para demonstrações e sessões em outras cidades importantes dos EUA.

As investigações antes das Confissões

            Da mesma maneira que o aumento das demonstrações públicas fazia crescer a popularidade das irmãs Fox, aumentava também a desconfiança de alguns céticos que se ofereciam em fazer uma investigação minuciosa do fenômeno. Bem como, daqueles que se aventuraram em emitir uma teoria para explicar a origem dos sons misteriosos, o que David Chapin chamou de “anti-espíritas” (Chapin, 2004: 93s). Pois, os resultados das primeiras investigações no Corinthian Hall, Rochester, em novembro de 1849, não convenceram os céticos sobre a natureza sobrenatural daqueles misteriosos fenômenos.

O primeiro anti-espírita importante foi Stanley Grimes, um bem conhecido palestrante sobre mesmerismo[3] e sobre frenologia[4] na época. Curiosamente, ele acreditava no mesmerismo e na frenologia, mas não acreditava no espiritismo. No começo, ele chegou a acreditar que as irmãs Fox eram clarividentes, porém após mais investigações, ele chegou à conclusão que elas eram fraudes astutas. Ele alegou ter extraído uma confissão de uma mulher no oeste do estado de Nova York, a qual aprendeu seus truques com as irmãs Fox. Grimes não pretendeu ter descoberto exatamente como as irmãs enganavam as pessoas, mas ele forneceu um relato cético da maneira que são calculadas para evitar qualquer investigação rigorosa”. Ele usou a frenologia para explicar ambas as coisas: a credulidade de um crente, o formato da cabeça indicava que ele estava bem adaptado para a acomodação de ideias supersticiosas; e a astúcia de Leah Fish, cujo formato da cabeça indicava “coragem, astúcia, ceticismo e pronta habilidade prática” (Chapin, 2004: 93). Em virtude da capacidade de Grimes de mesmerizar outras pessoas, a confissão daquela mulher não foi acreditada por todos, uma vez que ela pode ter confessado sob o efeito da mesmerização.

            Outro anti-espírita daquela época foi C. Chauncey Burr, o editor da revista Nineteenth Century Review. Ele realizava palestras com o tema “Imaginação e Visão de Fantasmas”, nas quais ele demonstrava a suscetibilidade da mente humana às sugestões dos poderes hipnóticos. Desde o início, Burr acreditou que os sons de pancada eram fraudes, mas não ficou tão interessados neles, até quando percebeu o crescente número de pessoas acreditando na autenticidade daqueles truques. Então, passou a visitar médiuns e a investigar a suas demonstrações. Logo em seguida ele descobriu que era capaz de reproduzir os sons de pancadas (rappings) bem alto estalando a junta do dedão do pé e passou a explicar a habilidade do médium de influenciar os participantes através do estudo da imaginação.  Em janeiro de 1851, ele apresentou umas palestras “Sons Espirituais Desmascarados”, por três dias na cidade de Nova York. Burr mostrou como era capaz de produzir os sons de pancada com o dedão do pé, alto o suficiente para todos ouvirem, enquanto seu irmão demonstrava sua habilidade de controlar a imaginação e a vontade do auditório, com espectadores escolhidos ao acaso. O apoiador das irmãs Fox em Nova York, Hoarace Greeley, assistiu as palestras, mas não ficou convencido de que a fraude estava provada. Burr continuou a divulgar a sua mensagem anti-espírita, através da sua agenda de palestras, embora incapaz de convencer aqueles que acreditavam nos sons de pancada como um meio de mudar suas mentes (Chapin, 2004: 94).

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Gravura reproduzindo um dos “Doutores de Buffalo” investigando uma das irmãs Fox.

            Logo em seguida, uma investigação mais aprofundada, ou melhor, a mais minuciosa de todas que temos registros, foi efetuada por três médicos da Universidade de Buffalo, uma cidade no extremo oeste do estado de Nova York, EUA. Estes médicos foram: Dr. C. B. Coventry, Dr. Charles A. Lee e Dr. T. M. Foote, os quais ficaram conhecidos por “os Doutores de Buffalo”. Eles inicialmente assistiram as demonstrações das irmãs Fox no Phelps House, na cidade de Nova York e, em fevereiro de 1851, publicaram um artigo conjunto sobre os resultados dos seus estudos sobre os sons de pancadas, nos seguintes jornais locais: o Buffalo Commercial Advertiser e o Buffalo Medical Journal. Resumidamente, eles concluíram que os sons misteriosos produzidos pelas irmãs eram fraudes e que “os sons deviam vir da ação da vontade, através dos músculos voluntários sobre as juntas”. Eles acharam que a junta do joelho era a mais provável e alegaram ter encontrado uma senhora altamente respeitável em Buffalo que era capaz de produzir tais sons com seu joelho (Chapin, 2004: 95).[5]

            Ao saber desta publicação, Leah Fox imediatamente desafiou os doutores a provar a verdade desta teoria através de uma investigação particular, um desafio que os doutores aceitaram. Mais tarde, em um encontro em Buffalo, as investigações foram conduzidas da seguinte maneira. As irmãs se sentaram em um sofá, logo os sons começaram e continuaram por algum tempo em tons altos e em rápida sucessão. Algumas perguntas foram feitas aos espíritos, os quais responderam através dos sons de pancada. Então, um primeiro experimento controlado foi feito, sentando as irmãs em duas cadeiras, com seus calcanhares sobre almofadas, as pernas esticadas, com os dedos dos pés para cima e os pés separados um do outro. O objetivo era descobrir se os sons eram produzidos pelos pés. O grupo de participantes se sentou em semicírculo e ficou aguardando pela emissão dos sons de pancada, por mais de meia hora, mas os espíritos, geralmente muito barulhentos, permaneceram mudos. Ao reassumiram a posição anterior no sofá, com os pés tocando o chão, os sons de pancada logo ressurgiram.

            Então, outro experimento foi sugerido que fosse feito. Os joelhos das duas irmãs foram firmemente seguros, de modo que qualquer movimento dos músculos ou de ossos pudessem ser percebidos. O objetivo era saber se os sons eram produzidos pelo estalo dos joelhos. As mãos do experimentador foram mantidas na posição, segurando os joelhos, por diversos minutos, e depois repetido frequentemente por uma duração de uma hora ou mais com resultados negativos, ou seja, aconteceram muitos sons quando os joelhos não estavam seguros e nenhum quando as mãos estavam segurando os joelhos, exceto uma vez. Quando a pressão era intencionalmente relaxada, dois ou três sons de pancada foram vagamente ouvidos. Dr. Lee, quem segurava os joelhos, verificou que o movimento do osso era claramente perceptível para ele. A experiência de prender os joelhos, tão rapidamente quanto possível, quando os sons começavam pela primeira vez, foi testada várias vezes, mas sempre com o resultado de colocar uma imediata interrupção nas manifestações dos sons.

            Então, para os doutores, a conclusão pareceu clara que os sons de pancada, das irmãs de Rochester, emanavam da junta do joelho. A isto os doutores acrescentaram que, desde quando esta revelação foi publicada, nós temos ouvido sobre diversos casos nos quais os movimentos dos ossos, entrando em outras articulações, são produzidos por esforço muscular, dando lugar a emissão de sons. Nós temos ouvido falar de uma pessoa que é capaz de desenvolver sons do tornozelo, de diversas pessoas que podem produzir sons com as juntas dos dedos dos pés ou das mãos, de um que pode produzir sons do ombro e um do quadril. Nós temos também ouvido de dois casos nos quais os sons são produzidos pela junta do joelho (Podmore, 2011:  vol.I, 184-5).

            O curioso destes experimentos acima é que os seus resultados são os mais coincidentes, sobre a maneira pelos quais os truques eram executados, com as revelações nas confissões da senhora Norman Culver, em abril de 1851 (Carpenter, 2011: 150-2) e das irmãs Fox, em outubro de 1888 (Davenport, 1897). Por exemplo, na confissão da senhora Norman Culver, ela mencionou que Maggie Fox, uma vez lhe disse “que quando as pessoas insistiam em ver seus pés e seus dedos, ela podia produzir uns poucos sons com seu joelho” (Carpenter, 2011: 151 e Podmore, 2011: vol. I, 186).

            Inesperadamente, as publicações dos resultados destas investigações científicas sobre a natureza fraudulenta dos sons dos espíritos atraíram mais curiosidade do público em conhecer mais sobre este novo fenômeno, do que o sentimento de indignação pela revelação da fraude. Leah Fox Underhill chegou a declarar que, no final, os testes em Buffalo foram uma vitória para o Espiritismo (Sawin, 2008: 113). O Dr. Lee, desapontado pelo fato de que as irmãs Fox estavam conseguindo ainda mais apoiadores, mesmo depois das revelações da fraude, decidiu assumir uma estratégia diferente. Ele encontrou um homem que conseguia estalar os tornozelos e assim dar “uma ilustração mais impressionante aos sons de pancada”. Ele começou viajando pelo interior do estado de Nova York, demonstrando que os sons tinham uma explicação lógica, com aquele homem estalando os seus tornozelos. Para a sua surpresa e desgosto, ele descobriu que diversas pessoas na plateia estavam se convertendo à doutrina do Espiritismo e ainda, o que foi pior, elas mencionavam as suas demonstrações de fraude como o mais forte argumento para as suas conversões. Mais tarde, ele escreveu que estava chocado e horrorizado com os resultados e “abandonou o projeto e pediu para seu assistente não mais produzir os sons” (Sawin, 2008: 113). Em suma, quanto mais se demostrava as fraudes, mais o Movimento Espírita crescia, ou seja, o tiro estava saindo pela culatra.

            Em 1887, foi publicado um relatório sobre algumas demonstrações dos sons de pancadas para a Seybert Commission da Universidade da Pennsylvania. Embora os membros da comissão tivessem desmascarado algumas outras fraudes, eles não foram capazes de desmascarar Maggie Fox, mas isto aconteceu principalmente porque ela simplesmente evitou de produzir os sons de pancada quando a investigação estava próxima demais. O relatório desta investigação foi publicado no Preliminary Report of the Commission em 1887 (Chapin: 2004: 213 e 248n51).[6]

            Frank Podmore avaliou assim o fracasso dos resultados em Buffalo: “Parece claro (…) que as demonstrações em Buffalo não atingiram os objetivos desejados, no que elas falharam em dar uma explicação completa para o caso. É provável que os sons eram produzidos por vários métodos, e que, onde as condições faziam um meio impraticável, um outro era empregado. Seria um pobre médium aquele que não fosse capaz de empregar uma variedade de meios de produzir seus efeitos”. Em seguida, ele citou o anti-espírita Chauney Burr, quem se orgulhava do seu conhecimento de nada menos que dezessete métodos de produzir os sons de pancada (Podmore, 2011: vol. I, 189). A mais frequente justificativa dos espíritas para não acreditarem nos desmascaramentos científicos das fraudes, era que eles demonstravam fraudes, mas não explicavam a natureza correta das respostas dos espíritos durante as sessões, portanto aquelas demonstrações de fraudes não eram uma contestação completa.

A Confissão de Norman Culver

            As irmãs Fox estavam ainda comemorando o sucesso em Buffalo quando um novo golpe as atingiu, desta vez mais de perto, ou seja, proveniente da esposa do cunhado do único irmão das irmãs Fox, David Fox. Conhecida por senhora Norman Culver, quem decidiu confessar as fraudes que aprendeu com as irmãs Fox (através de depoimento publicado no New York Herald, em 17 de abril de 1851),[7] depois de uma temporada lhes auxiliando na execução dos fenômenos fraudulentos. Ela alegou que por dois anos acreditou que os sons de pancada fossem genuínos, mas depois percebendo algumas circunstâncias suspeitas, ela se ofereceu à Katie (Catherine Fox) para auxiliá-la. Maggie (Margaret Fox) estando ausente, Katie aceitou a oferta, pois a senhora Culver era uma pessoa muito confiável, e lhe revelou que os sons eram produzidos pelos joelhos e pelos dedos dos pés, mas principalmente pelos últimos.  Que alguma prática era necessária e se os pés fossem completamente aquecidos, os sons aconteceriam mais rapidamente. A senhora Culver tentou e foi logo aceita (Podmore, 2011: vol. I, 186 e Carpenter, 2011: 150-2).

            Quanto ao argumento dos crentes espíritas de que as investigações científicas não eram capazes de explicar o acerto nas respostas dos espíritos, a senhora Culver confessou como Katie (Catherine Fox) lhe revelou “como conseguia responder as perguntas. Ela disse que era geralmente mais fácil responder acertadamente se aquele que fazia as perguntas escrevesse diversos nomes em um papel, e então apontasse para eles (os nomes no papel) até que o espírito soasse no nome correto, isto era para dar a elas (as irmãs Fox) a chance de examinar a fisionomia e os movimentos da pessoa (que perguntava), e que, deste modo, elas podiam quase sempre adivinhar corretamente” (Podmore, 2011: vol.I, 186; ver também: Capron, 1855: 421-2 e Carpenter, 2011: 150-2). Ela (Katie) também revelou como elas (as irmãs) seguravam e moviam as mesas (a senhora Culver deu umas demonstrações dos truques). A senhora Culver também revelou o seguinte truque: “Ela (Kate Fox) disse que quando meu primo consultasse o espírito, eu deveria me sentar próxima a ela e tocar o seu braço quando a letra certa for solicitada. Eu fiz assim e fui capaz de responder quase todas as perguntas corretamente” (Capron, 1855: 421 e Carpenter, 2011: 150).

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O novelista Arthur Conan Doyle (esq.) e o mágico Harry Houdini eram amigos, porém com visões muito opostas sobre o Espiritismo.

Quanto ao argumento dos espiritas de que os sons fraudentos produzidos pelos dedos dos pés, pelo joelho ou pelo tornozelo não explicavam como os sons aconteciam nas paredes, nos móveis e no teto, a senhora Culver revelou como este truque era feito. “Ela também me disse que tudo que eu deveria fazer para que os sons de pancada fossem ouvidos na mesa seria colocar meu pé no fundo da mesa quando eu produzia o som, e quando eu desejasse fazer os sons soarem distante em uma parede, eu deveria fazê-los mais alto e dirigir meus olhos seriamente para o local onde eu desejava que eles fossem ouvidos. Ela disse que, se eu pudesse colocar meu pé contra a base da porta, os sons seriam ouvidos no topo da porta” (Podmore, 2011: vol. I, 186 e Carpenter, 2011: 150-2).

            A senhora Culver acrescentou que foi informada por Kate de que a sua sobrinha Elizabeth Fish (apelidada de Lizzie, filha do primeiro casamento de Leah, pois ela casou-se três vezes) “acidentalmente descobriu como produzir os sons de pancada, brincando com os dedos do pé contra a madeira de sua cama. Muitas pequenas garotas travessas antes e desde então parecem ter feito a mesma descoberta” (Podmore, 2011: vol. I, 186). Parece que outros familiares e parentes também desconfiavam ou sabiam das fraudes. Por exemplo, o marido de Maggie (depois Margaret Fox Kane), Elisha Kent Kane, um importante explorador da época, nunca se tornou um espírita e sempre afirmava publicamente que a coisa toda era uma trapaça (Sawin, 2008: 113).

            Depois que esta confissão apareceu nos jornais, as irmãs Fox simplesmente negaram as acusações, alegando que a senhora Culver era somente uma parente distante e que ela guardava um ressentimento com a família Fox (Chapin, 2004: 96), para algumas décadas mais tarde, confirmar quase tudo que foi revelado pela senhora Culver nas confissões de 1888. Enfim, a confissão da senhora Norman Culver antecipou, em parte, as confissões das irmãs Fox.

            Esta confissão é contestada por Arthur C. Doyle[8] e Eliab W. Capron, mediante a justificativa de que, quando Catherine Fox (Kate) fez a confissão para a senhora Culver, ela estava residindo na casa do sr. Capron, a setenta milhas de distância (Doyle, 1926: 83). Porém, pelo que está revelado na confissão, a senhora Culver conviveu com a família Fox por um longo tempo, pois era parente, portanto não é especificada a data precisa de quando foi feita a revelação dos truques para a senhora Culver, ou seja, a data das revelações dos truques foi diferente da data da confissão, uma vez que, conforme o relato dos historiadores, as irmãs Fox residiram em diferentes residências após a ocorrência dos primeiros fenômenos em Hydesville.

As Confissões das Duas Irmãs Fox Mais Jovens

            A primeira coisa que deve ser analisada nas confissões (1888) é o grau de credibilidade das mesmas. Esta dúvida dividiu, e continua dividindo, os autores naqueles que acreditam na veracidade do seu conteúdo (Davenport, 1897; Mann, 1919; Houdini, 1924 e Kurtz, 1985), os que as desprezam (Doyle, 1926 e Buckland, 2005), e naquele que atribui a elas apenas relativa importância (Podmore, 2011: vol. I, 187).[9] Estes últimos avaliaram assim em razão, sobretudo, do fato das duas irmãs mais jovens terem retratado as confissões logo no ano seguinte (1889), ou seja, elas desmentiram tudo que foi dito nas confissões de 1888,[10] tal como veremos mais adiante.

            Os motivos que levaram as irmãs a confessarem as fraudes são controvertidos. Lógico, os espíritas e os céticos, cada lado apresenta a sua versão. Quando das confissões, Maggie Fox, na época Margaret Fox Kane, já tinha abandonado as sessões espíritas[11], tinha se convertido ao Catolicismo em 1858, estava pobre e mergulhada no alcoolismo[12], portanto estava afastada e quase esquecida no Movimento Espírita, e viúva de Elisha Kent Kane, quem faleceu na cidade de Havana, durante uma expedição ao Caribe, em 16 de fevereiro de 1857.[13] Enquanto que Kate, na época Catherine Fox Jencken, estava residindo em Londres, pois ela se casou em 1872 com um advogado londrino (Henry Diedrich Jencken), ficou viúva em 1881, também tinha se afundado no alcoolismo, estava travando uma briga com sua irmã mais velha, Leah Underhill, pela guarda dos filhos, uma vez que esta última alegava que Kate não tinha mais condições de cuidar dos filhos em função do alcoolismo, sua  irresponsabilidade com os filhos foi denunciada à Society for the Prevention of Cruelty to Children,[14] acabou sendo presa no inverno de 1888. Irritada com sua irmã mais velha, juntou-se a sua irmã Maggie nas confissões.

            Todos estes problemas geraram insatisfações nas mentes das duas irmãs mais jovens. O clímax aconteceu em 1888. Kate tinha retornado da Inglaterra, após o falecimento do seu marido, ela e Maggie, ambas tinham se tornado estranhas e imprevisíveis. Bem como se transformado em alcoólatras compulsivas e estavam perturbadas. Um repórter do New York Herald descreveu assim o estado mental de Maggie Fox, quando ele a encontrou em sua casa na cidade de Nova York. “Ele a descreveu como uma pequena e carismática mulher de meia idade, cujo rosto exibia os traços de muita tristeza e de uma vasta experiência. Seu comportamento era errático. Ela caminhava pelo assoalho e periodicamente explodia em lágrimas na frente do repórter, quando ela lhe dizia de seus planos de revelar a fraude. Às vezes, ela sentava repentinamente no piano e descarregava intermitentes manifestações desordenadas e incoerentes de melodia” (Chapin, 2004: 214). No relato acima, estão claros os sinais de demência alcoólica[15] e de demência senil[16] de Maggie Fox, com apenas 55 anos de idade.

            Ela, por sua vez, deixou a cidade de Nova York em março de 1888, rumo a Londres, quando soube, através de uma reportagem no New York Herald, sobre o conflito entre Leah e sua irmã Kate, e os esforços de Kate em manter a guarda dos filhos. Ela aproveitou esta ocasião para desabafar a sua insatisfação, em uma carta enviada ao jornal New York Herald, atribuindo todos os problemas dela e de sua família ao Espiritismo. “O Espiritismo é uma maldição. Não importa em que forma o Espiritismo se apresente, ele é, foi e sempre será uma maldição e uma armadilha para todos que se envolvem com ele”, ela declarou assim em 27 de maio de 1888, no New York Herald (Chapin, 2004: 214).

            Entretanto, as palavras de Maggie Fox não tinham mais aquele efeito de antes, seu prestígio, dentro e fora do Movimento Espírita, estava em declínio. Ela tinha se tornado uma personagem quase esquecida, apenas desfrutava de atenção dos jornais por ser uma das fundadoras do Moderno Movimento Espírita. Entre os adeptos espíritas, muitos percebiam em seus desabafos a influência de sua conversão católica.

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Capa do libro publicado em outubro de 1888 com as confissões de Maggie e Kate Fox. O objetivo era o de dar um “golpe de morte” no Espiritismo, mas o resultado não foi alcançado.

           O plano de confessar as fraudes foi levado em frente pelas irmãs em 21 de outubro de 1888, no auditório da Academy of Music de Nova York, respondendo aos cartazes e anúncios sensacionalistas, que prometiam a “morte do Espiritismo”. O evento aconteceu com a presença de um público numeroso e diversificado. Antes do pronunciamento de Maggie, o anti-espírita Dr. Cassius M. Richmond, um dentista que era conhecido por revelar fraudes, subiu no palco e fez uma palestra, na qual ele afirmou que “a era dos milagres acabara”. Kate Fox estava lá, sentada no auditório em silenciosa afirmação das ações da sua irmã. Finalmente, Maggie subiu no palco, “uma pequena mulher, de olhos negros, cabelos escurecidos, vestido preto, usando óculos com uma corrente preta e um aro grande”. Ela, obviamente, estava assustada e parecia tão patética que alguns no auditório começaram a perturbá-la. Ela leu o seu depoimento de que o Espiritismo era uma fraude e, em seguida, se sentou, colocou os seus pés sobre uma tábua e realizou uma exibição de como ela executava os sons de pancada (rappings) com os dedos dos pés parra um auditório lotado.

            A confissão de Maggie não teve tanto efeito assim, pois muitos já a consideravam mentalmente desiquilibrada e viciada em álcool. Quando desta confissão, em 1888, o Espiritismo já tinha se instalado tão solidamente nas mentes dos adeptos crentes que muitos consideravam que os sons de pancada não eram fraudes, mas as confissões das irmãs Fox eram fraudes. O livro publicado logo em seguida, reunindo todas as confissões das irmãs, The Death-blow to Spiritualism (O Golpe de Morte no Espiritismo), de autoria de Reuben Briggs Davenport, que esperava acabar definitivamente com o Espiritismo, foi ignorado pela maioria dos espíritas mais dedicados. Enfim, as irmãs Maggi e Kate Fox desfrutaram de muito pouco sucesso como anti-espíritas, quando comparado com o sucesso como médiuns, mesmo tendo feito um giro pelo país por um tempo, desta vez revelando as fraudes. Parece que a maioria do público, naquela época, preferia se encantar com os truques do que conhecer a maneira como eles eram executados. Isto talvez explique o motivo dos mágicos ainda proporcionarem tanta atração nos dias de hoje, mesmo o público sabendo que a mágica é um truque.

            Aqueles que conheceram o sucesso das duas irmãs Fox mais jovens, nos dias de glória, se horrorizarão ao conhecerem o final triste das suas vidas. Logo antes do seu falecimento, Maggie Fox estava empobrecida, solitária e vivendo de caridade, bem como prematuramente envelhecida. O jornal New York Times noticiou que Maggie Fox estava prestes a ser despejada da casa que alugava em Nova York (New York Times, 05 de março de 1893). Então, ela foi levada por uma simpatizante espírita, a senhora Emily B. Ruggles, apenas para falecer alguns dias depois em 08 de março de 1893, aos 59 anos de idade (New York Times, 10 de março de 1893). O Daily Evening Telegraph da Filadélfia noticiou: “Seu rosto, uma vez tão belo, estava no final marcado pela idade e pelo declínio, e seu único apetite era por bebida alcóolica” (Philadelphia Daily Evening Telegraph, 09 de março de 1893 – Chapin, 2004: 216). Os poucos espíritas que ainda se encontravam com Maggie organizaram o funeral. A cerimônia foi presidida pelo espírito do falecido Benjamin Franklin, quem falou através do médium Charles Hicks em transe. Noticiou-se também que o funeral foi assistido pelos espíritos da irmã mais velha Ann Leah Underhill e de Horace Greeley, já falecidos há alguns anos (New York Times, 11 de março de 1893 – Chapin, 2004: 216). Sua irmã mais jovem, Kate Fox, já estava falecida desde 03 de julho de 1892.

A Retratação (“Desconfissão”)

            Da mesma maneira que os autores espíritas desprezaram as confissões e os autores céticos as enfatizaram, com a retratação de 1889 aconteceu o contrário, ou seja, os autores espíritas a valorizaram, e os céticos a omitiram. Os motivos que levaram as irmãs Fox a retratarem, isto é, a desmentirem as suas confissões, são uma polêmica entre os autores.

            Alguns autores espíritas (Doyle, 1926: 103 e Buckland, 2005: 153) alegaram que Maggie recebeu dinheiro para efetuar as confissões. Nas palavras de Arthur C. Doyle: “ela (Maggie) deveria receber uma soma de dinheiro para a sensação do jornal que ela prometera produzir” (Doyle, 1926: 103). Não é improvável que a precária situação financeira de Maggie pode ter a motivado a efetuar a sensacional confissão, com palestras e demonstração da fraude em grande auditório, pois quem aceitava dinheiro para enganar o público com fenômenos fraudulentos, não terá também constrangimento em receber dinheiro para revelar os truques, ainda mais em situação de necessidade. Este mesmo autor, mais adiante, alegou que Maggie considerou que a quantidade era pouca e então decidiu fazer a retratação (idem: 106), através de uma entrevista para o jornal New York Press, em novembro de 1889. Ela iniciou a entrevista se arrependendo da seguinte maneira: “Quisesse deus, que eu pudesse desfazer a injustiça que eu fiz à cauda do Espiritismo quando, sob forte influência psicológica de pessoas inimigas dele (do Espiritismo), eu pronunciei palavras que não tinham fundamento na verdade” (Doyle, 1926: 106). Sendo que, no ano anterior, em sua confissão, Maggie tinha declarado que “o Espiritismo é uma farsa do começo ao fim. Ele é a maior farsa do século” (Davenport, 1897: 57).

Considerações Finais

            A mais frequente justificativa dos espíritas para a desgraça das irmãs Fox é a de que, uma vez que os fenômenos aconteceram no início do Moderno Movimento Espírita, não era surpresa que as irmãs fossem acidentalmente envolvidas por maus espíritos, que desgraçaram as suas vidas, pois os primeiros médiuns ainda não sabiam diferenciar os bons dos maus espíritos. Mas, esta é uma justificativa que preenche apenas a necessidade do crente espírita, sem fundamento histórico, pois é preciso primeiro acreditar na existência dos espíritos e, em seguida, o que é ainda mais duvidosa, na comunicação com eles, hipóteses que não estão ainda devidamente comprovadas.

            Também, apesar dos exemplos de fraudes, do mau caráter de Leah Fox com seu apetite financeiro, dos resultados das investigações que apontaram as fraudes, das confissões, dos tantos indivíduos que desenvolveram a mesma capacidade de produzir os sons de pancadas (rappings) com os dedos dos pés, com o joelho ou com o tornozelo, sem sequer se apresentarem como médiuns, dos transtornos que levaram ao alcoolismo, do afastamento do Movimento Espírita, da conversão de Maggie Fox ao Catolicismo em 1858, da irresponsabilidade de Kate Fox no cuidado dos filhos que resultou na sua prisão, da briga entre Leah e Kate Fox pela guarda dos filhos desta última, da demência precoce, da confusão mental das duas irmãs mais jovens em confessar as fraudes para no ano seguinte retratá-las, do final de vida na pobreza, etc.; mesmo assim, alguns autores espíritas admiram as irmãs Fox, divulgando-as como verdadeiras médiuns e pioneiras do Moderno Movimento Espírita, (um exemplo: Buckland, 2005: 148-53), extraindo as suas informações apenas com base em historiadores espíritas (um exemplo: Doyle, 1926), os quais valorizam os dados que exaltam as irmãs Fox e desvalorizam os que as incriminam.

Obras Utilizadas

BUCKLAND, Raymond. The Spirit Book: The Encyclopedia of Clairvoyance, Channeling and Spirit Communication. Detroit: Visible Ink Press, 2005, p. 148-53.

CAPRON, Hanry D. Barron and Eliab W. Singular Revelations: Explanation and History of the Mysterious Communion with Spirits compreending the Rise and Progress of the Mysterious Noises in Western New York. Auburn: Capron and Barron, 1850.

CAPRON, Eliah W. Modern Spiritualism: its Facts and Fanaticism, its Consistencies and Contradictions. Boston: Bela Marsh, 1855.

CARPENTER, William Benjamin. Mesmerism, Spiritualism, &c., Historically and Scientifically Considered. Cambridge: Cambridge University Press, 2011 (first published 1877).

CHAPIN, David. Exploring Other Worlds: Margaret Fox, Elisha Kent Kane and the Antebellum Culture of Curiosity. Amherst: University of Massachusetts Press, 2004.

DAVENPORT, Reuben Briggs. The Death-blow to Spiritualism: being the True Story of the Fox Sisters, as Revealed by Authority of Margaret Fox Kane and Catherine Fox Jencken. New York: G. W. Dillinghan Co., Publishers, 1897 (first published 1888).

DOYLE, Arthur Conan, The History of Spiritualism. London: Cassell and Company, 1926.

HOUDINI, Harry. A Magician Among the Spirits. Cambridge: Cambridge University Press, 2011 (first published 1924).

JACKSON Jr., Herbert. The Spirit Rappers. Garden City: Doubleday & Co., Inc., 1972.

KARDEC, Allan, Le Livre des Esprits contenant Les Principes da la Doctrine Spirite. Paris: Didier et C., Libraires – Éditeurs, 1864.

KURTZ, Paul. The Fox Sisters em A Skeptic’s Handbook of Parapsychology. Paul Kurtz (ed). Buffalo: Prometheus Books, 1985, p. 178-85.

____________ Spiritualism Exposed: Margaret Fox Kane Confesses to Fraud em Skeptic’s Handbook of Parapsychology. Paul Kurtz (ed.). Buffalo: Prometheus Books, 1985, p. 225-33.

LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo, Espiritismo no Brasil. Cadernos CERU, série 02, v. 19, n. 02, dezembro 2008, p. 171-85.

LEWIS, E. E. A Report of the Mysterious Noises Heard in the House of Mr. John D. Fox in Hydesville, Arcadia, Wayne County. Eletronic Edition in Psypioneer Eletronic Journal, volume 01, no. 12, April 2005, first published: Rochester, Power Press of Shepard & Reed, 1848

MANN, Walter. The Follies and Frauds of Spiritualism. London: Watts & Co., 1919.

OWEN, Robert Dale. Footfalls of the Boundary of Another World. Philadelphia: J. B. Lippincott & Co., 1865.

PAGE, Charles Grafton. Psychomancy: Spirit-rappings and Table-tippings Exposed. New York: D. Appleton and Company, 1853.

PODMORE, Frank. Modern Spiritualism: a History and a Criticism, vol. I. Cambridge: Cambridge University Press, 2011 (first published 1902).

SAWIN, Mark Metzler. Rapping Spirits: Maggie Fox and the Love Life of Elisha Kent Kane em Transations of the American Philosophical Society, volume 98, issue 03, May 01, 2008, p. 113.

UNDERHILL, A. Leah. The Missing Link in Modern Spiritualism. New York: Thomas R. Knox & Co., 1885.

WEISBERG, Brabara. Talking to the Dead: Kate and Maggie Fox and the Rise of Spiritualism. London: HarperOne, 2004.

Notas

[1] A região fica próxima ao lago Ontário, bem perto da fronteira do Canadá.

[2] Este livro de Leah Fox Underhill, The Missing Link in the Modern Spiritualism, foi definido por sua irmã, Maggie Fox, em sua confissão de 1888, como um “livro mentiroso” (Davenport, 1897: 89).

[3] Uma prática desenvolvida por um austríaco, Franz Anton Mesmer, no século XVIII. Nos anos 1840, já era popular na Inglaterra e nos EUA. O mesmerismo envolvia colocar o sujeito em um estado de transe, que era chamado de mesmerização. Sujeitos mesmerizados mostravam-se muito suscetíveis à sugestão e podiam ser conduzidos a acreditar em quase tudo que o hipnotizador sugeria. Na prática, o mesmerismo frequentemente era usado para aliviar a dor, mas depois ramificou-se para abranger crenças e fenômenos tais como clarividência, a habilidade da mente de deixar o corpo para se comunicar com a mente de outros ou até mesmo ver coisas à distância.

[4] Do grego φρήν (phrēn-mente) e λόγος (logos-estudo), literalmente: estudo da mente. Uma teoria que dizia ser capaz de explicar a personalidade e o caráter de uma pessoa pela forma da cabeça. Foi desenvolvida pelo médico alemão Franz Joseph Gall, por volta do ano 1800 e tornou-se popular no século XVIII. Hoje, esta teoria é unanimemente reconhecida como uma pseudociência pelos cientistas.

[5] Um relato muito diferente dos resultados destas investigações foi feito por Arthur Conan Doyle: “A investigação foi realizada, mas os resultados foram negativos” (Doyle, 1926: 83).

[6] Paul Kurtz e Harry Houdini mencionaram uma investigação, em junho de 1857, por três professores de um Committee da Universidade de Harvard, feita nas irmãs Fox, mas não foi possível localizar a publicação do relatório desta investigação (Kurtz, 1985: 181 e Houdini, 2011: 09).

[7] A confissão completa está reproduzida em Carpenter, 2011: 150-2.

[8] O conhecido novelista e criador da série policial do personagem Sherlock Holmes, ele foi um espírita fervoroso, escreveu The History of Spiritualism, publicado em 1926.

[9] Frank Podmore resumiu assim a credibilidade das confissões das irmãs Fox: “Na falta de evidência, as confissões posteriores das duas irmãs Fox mais jovens, embora não sejam conclusivas, elas são pelo menos pertinentes“, e resumiu as confissões em apenas um pequeno parágrafo (Podmore, 2011: vol. I, 187-8). Enquanto que Paul Kurtz, muito pelo contrário, exagerou na importância das confissões: “… o mais severo golpe que o Espiritismo jamais foi atingido é conhecido hoje através das solenes declarações da maior médium do mundo de que tudo é uma fraude, uma enganação e uma mentira” (Kurtz, 1985: 225).

[10] Algo como uma “desconfissão”.

[11] Parece que a sua última sessão espirita foi feita para a esposa do presidente Franklin Pierce (1853-1857), Jane Appleton Pierce, cujo filho de onze anos (Benjamin Pierce) tinha falecido recentemente em um horrível acidente de trem, no ano de 1853 (Sawin, 2008: 113).

[12] Maggie Fox Kane revelou o seguinte em sua confissão: “Tal como eu costumava dizer para aqueles que desejavam que eu realizasse séance, ‘vocês estão me levando para o inferno’. Então, no dia seguinte eu afundava o meu remorso no vinho” (Davenport, 1897: 36 e Houdini, 2011: 10).

[13] O casamento durou apenas cerca de seis anos, 1852-1858.

[14] Leah Fox Underhill considerava Kate uma mãe incapaz, por isso ela foi parte de uma tentativa amplamente divulgada pela Society for the Prevention of Cruelty to Children de retirar os filhos de Kate.

[15] Uma forma de demência provocada pelo consumo excessivo de álcool, afeta a memória, a aprendizagem e outras funções mentais. O consumo excessivo de álcool pode ter um efeito nocivo nas células nervosas do cérebro. Quando estas são danificadas, várias capacidades e competências são prejudicadas.

[16] Demência própria da velhice, mas que, em alguns indivíduos, acontece antes mesmo da chegada da idade avançada.

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4 comentários sobre “As Irmãs Fox: Falando com os Mortos ou Enganando os Vivos?

  1. Olá.
    Estou lendo aos poucos o artigo. Primeiramente, parabéns pela excelente escrita, pela abordagem séria, pelas informações respaldadas por referências.

    No primeiro parágrafo do título ‘A Origem do Espiritismo Moderno’, penso que não cabe a designação ‘espiritismo moderno’, pois o termo ‘espiritismo’ aparentemente não existia antes de Kardec. Geralmente considera-se ser ele próprio o criador desse vocábulo, assim como do termo espírita / espiritista.

    Note no título da obra de Arthur Conan Doyle, The History of Spiritualism. A palavra spiritualism tem um significado muito mais abrangente do que o vocábulo spiritism, que é a designação específica da doutrina codificada por Kardec.

    O referido livro de Doyle é uma história do espiritualismo, mas não uma história do espiritismo propriamente dito, como erroneamente fora traduzido por algumas editoras aqui do Brasil.

    A meu ver, essa distinção é importante:
    31 de março de 1848 – considerada a data de surgimento do Espiritualismo Moderno (Hydesville, irmãs Fox);
    18 de abril de 1857 – considerada a data de surgimento do Espiritismo ou Doutrina Espirita / Doutrina dos Espíritos (lançamento da obra O livro dos Espíritos).

    Todas as ramificações, sincretismos e dissidências que aconteceram e ocorrem ainda hoje, pós Kardec, podem ser consideradas expressões modernas, releituras contemporâneas do espiritismo original surgido em 1857. Contudo, nunca houve em si um ‘espiritismo moderno’.

    Todo espírita é, forçosamente, um espiritualista. Por outro lado, um espiritualista de forma alguma precisa ser um espírita.

    Um espírita, por exemplo, não se pode furtar de crer na ideia da reencarnação, que constitui um dos dogmas centrais do espiritismo. Já um espiritualista, pode simplesmente ignorar tal dogma e até mesmo confrontá-lo, cair em incoerência.

    Em síntese, o espiritismo ou doutrina espírita codificada por Kardec é apenas uma face, somente uma dentre tantas expressões do espiritualismo, visão de mundo oposta ao materialismo.

    • Prezado Éder Pedroso
      Sempre é uma satisfação receber comentários dos leitores, principalmente quando estes trazem esclarecimentos, por isso são sempre bem-vindos. Portanto, fiquei contente com o seu interesse em esclarecer a diferença entre “Espiritualismo” e “Espiritismo”, isto demonstra o seu esforço pelo estudo, e não apenas a fé nas religiões. A preocupação em diferenciar os significados destes dois termos não é apenas sua, outros autores e adeptos espíritas também fazem o mesmo, a partir da diferenciação feita por Allan Kardec, logo na introdução (p. iii – edição francesa de 1864), do seu livro Le Livre des Esprits (O Livro dos Espíritos).
      A sinonímia e a diferenciação entre estas duas palavras acontecem em razão das línguas nas quais elas são utilizadas. Na língua inglesa, por exemplo, a palavra “espiritualism” tem o mesmo sentido de “espiritisme” (espiritismo), atribuído por A. Kardec em seu livro: “… le spiritisme a pour príncipes les relations du monde matériel avec les Esprits ou êtres du monde invisible” (o espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os espíritos ou com os seres do mundo invisível, p. iii). Em uma passagem logo acima, ele definiu o significado de espiritisme: “… croie à l’existence des Esprits à leurs communications avec le monde visible” (… crença na existência dos espíritos ou nas suas comunicações com o mundo visível, p. iii). Ou seja, aquilo que tem relação com a comunicação com os espíritos é então “espiritisme” (espiritismo), e os autores ingleses utilizam a palavra “sprititualism” para se referirem à comunicação com os espíritos, diferente do sentido de “spiritualisme” atribuído por Kardec, que para os ingleses está mais para o sentido de “ocultism”.
      Para o sentido de “espiritualisme”, tal como atribuído no livro de Kardec, a língua inglesa emprega mais comumente a palavra “ocultism”, em um sentido mais geral que inclui as ideias e as práticas com o mundo oculto (clarividência, adivinhação, viagem astral, materialização, etc.).
      Na consulta aos dicionários da língua inglesa, verifica-se que o termo “spiritualism” é definido como “a system of belief or religious pratice based on supposed communication with spirits of the dead, especially through mediums” (um sistema de crença ou prática religiosa baseado na suposta comunicação com os espíritos dos mortos, especialmente através dos médiuns). Portanto, o significado da palavra “spiritualism”, na língua inglesa, é o mesmo de “spiritisme” em Alan Kardec, e não o de spiritualisme atribuído na língua francesa. Já nos dicionários franceses, spiritualisme é definido ora como a doutrina da superioridade do espírito sobre a matéria ou ora como a doutrina que “admet l’existence d’une âme, de Dieu que est pur esprit, d’une vie aprés la mort, et de façon générale d’um esprit indépendant du corps et de la matiére” (doutrina que admite a existência de uma alma, de Deus que é puro espírito, de uma vida após a morte, e de maneira geral de um espírito independente dos corpos e da matéria), porém nunca no sentido de “croie à l’existence des esprits ou à leurs communications avec le monde visible” (crença na existência dos espíritos e nas suas comunicações como mundo visível). Por isso, religiões como o Cristianismo, o Islamismo, o Hinduísmo e outras são classificadas como espiritualistas nas enciclopédias e nos dicionários franceses. Enfim, a diferenciação entre spiritualisme e spiritisme, feita por Allan Kardec, serve para os leitores da língua francesa e para aqueles que fazem a mesma distinção.
      Uma leitura atenta ao livro “The History of Spiritualism” (dois volumes) de Arthur Conan Doyle revelará que se trata de uma história inicial do Espiritismo, e não de ocultismo (epiritualisme), pois os personagens tratados foram aqueles que praticaram comunicações com os espíritos dos mortos, embora estes médiuns tenham se envolvido, às vezes, com fenômenos sobrenaturais (ou fraudes) diferentes das comunicações com os mortos, por isso são tratados no livro. De uma maneira mais profunda e de uma perspectiva mais imparcial, visto que A. C. Doyle era um crente espírita, lhe recomendo a leitura de Modern Spiritualism: A History and a Criticism (dois volumes) de autoria do historiador Frank Podmore, um formidável relato e uma interessante análise da história inicial do Espiritismo, tão formidável que, apesar de lançado em 1902, foi reimpresso recentemente (2011) pela Cambridge University Press. Neste livro, você poderá perceber o quanto a prática de comunicação com os espíritos (Espiritismo) antecedeu a doutrina codificada por Allan Kardec, de modo que ele não foi o criador do Espiritismo, ele foi apenas um novo organizador de uma doutrina baseada na comunicação com os espíritos. Pois, a pesquisa espírita pré irmãs Fox e pré Allan Kardec, por A. C. Doyle, é muito precária quando comparada com o aprofundamento na obra de Frank Podmore.
      A fim de uma visão mais ampla e de um julgamento mais imparcial, lhe aconselho a leitura sobre o Espiritismo também através de autores de fora da tradição espírita, sobretudo de historiadores. Mais uma vez, grato pelo seu interesse em esclarecer.

      • Excelentes considerações, Octavio. Agradeço muito pela atenção.

        Por momento, ater-me-ei a tua conclusão: “[…] você poderá perceber o quanto a prática de comunicação com os espíritos (Espiritismo) antecedeu a doutrina codificada por Allan Kardec, de modo que ele não foi o criador do Espiritismo, ele foi apenas um novo organizador de uma doutrina baseada na comunicação com os espíritos.”

        Parece-me que estás englobando dois conceitos que, embora ligados, remetem-se a ideias distintas: mediunidade (faculdade, crença na comunicabilidade entre os mundos físico e espiritual) e espiritismo (doutrina religião assentada em diversos dogmas, entre eles a mediunidade.

        Se com a afirmação “Kardec não foi o criador do Espiritismo” tu te referes à prática / crença entre o intercâmbio de ideias entre vivos e mortos, concordo plenamente. Kardec sequer poderia negar isso. Para os seus propósitos, a mediunidade teria que ser uma “verdade” universal e atemporal, isto é, uma lei natural (divina).

        Por outro lado, apesar da comunicação entre vivos e mortos ocorrer em todas as épocas, em todos os continentes, ou seja, serem antecedentes ao espiritismo (doutrina), havia chegado o momento da intensificação dos fenômenos, o start da “invasão organizada”, nas palavras de Doyle. Nessa perspectiva, é compreensível a postura assumida por Kardec em relegar ao segundo plano as experiências das irmãs Fox. Ainda que elas se constituíssem na suposta primeira demonstração efetiva de mediunidade, eram apenas mais uma das tantas expressões de imortalidade da alma e sua capacidade de comunicar com os vivos.

        O que penso ser extremamente problemático nisso tudo é a afirmação de que o boom dos fenômenos estavam subordinados à providência divina. As manifestações por intermédio das mesas girantes, as comunicações das Irmãs Fox, as visões de Swedengorg e de Andrew Jackson Davis, entre outras, já estariam programadas. O espiritismo surgiria pela vontade de Deus (providência), no momento e local por ele estipulado, seria cristão, e, ainda por cima, confirmaria o que já fora anunciado há dois milênios nas palavras dos próprio Cristo, se constituindo no consolador por ele prometido, a terceira revelação. (Não por menos essa justificativa para o surgimento do espiritismo seja tão abominada e combatida por diversas vertentes do cristianismo).

        Assim, o próprio Kardec assume: não foi o espiritismo (doutrina) o criador da mediunidade, assim como também não foi ele, Kardec, o criador do espiritismo. Tal doutrina pertenceria aos Espíritos superiores incumbidos de revelá-la ao mundo por determinação da vontade divina.

        Contudo, historicamente falando, parece-me impensável essa doutrina sem Kardec. Penso que atribuir o início do espiritismo às experiências das irmãs Fox é tomar uma única parte pelo todo, e desconsiderar o conjunto de crenças/dogmas sem os quais a essência da comunicação com os mortos perderia muito do seu sentido nesse contexto.

        Provisoriamente vejo assim, mas seguem as reflexões.

        Abraço!
        Éder

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