Quando o Respeito é Conivência

por Octavio da Cunha Botelho

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Crítica religiosa não é desabafo de ressentimentos

            Após alguns anos escrevendo sobre crítica religiosa, percebo que os leitores poderão estar curiosos em saber sobre a reação mais frequente dos religiosos diante da crítica religiosa. Uma estimativa das centenas de comentários e de insultos, recebidos desde o início dos meus trabalhos, revela que a mais comum de todas é a acusação de que a crítica religiosa é um desrespeito, consequentemente o crítico das religiões é um desrespeitoso. Muitos religiosos pensam que as religiões não devem ou não podem ser criticadas, pois não se deve criticar a fé dos outros. Muitos entendem que a crítica religiosa é uma intolerância.

            Muito conhecido é o fato de que a cultura religiosa sempre esteve envolvida em um sentimento de sacralidade que a diferencia das outras formas de criações culturais, por atribuir a origem de sua experiência e de seu saber ao mundo divino ou ao estado sobre-humano de consciência.  Pois, para o religioso, o saber religioso não é alcançado através da experiência limitadamente humana, mas sim da experiência transcendentemente divina. Com isso, estamos cansados de ouvir o antigo refrão de que a experiência e o conhecimento religiosos são fenômenos extraordinários, os quais, portanto, não podem ser colocados à prova pelos limitados órgãos dos sentidos e pela limitada razão humana. Daí que, para alcançar tal conhecimento excepcional, é preciso receber uma revelação do alto ou se colocar num estado de consciência acima da condição comum da humanidade. Em razão destas atribuições sobrenaturais, a religião é então entendida como um assunto sagrado, ou mais precisamente, composta de elementos sagrados: livros, símbolos, templos, rituais, líderes, locais, etc., os quais não devem ser criticados, mas sim venerados. Enfim, retirar o elemento sagrado e sobrenatural da religião, bem como equipará-la a qualquer outra criação humana, é um aviltamento inadmissível e chocante para o religioso, uma vez que para ele a religião é inseparável da sacralidade.  Com isso, esta excepcionalidade tem funcionado, por séculos, como um escudo sagrado, por trás do qual os religiosos se protegem das críticas da razão e da ciência, sobretudo, para se consolarem da vertiginosa decadência cultural da religião diante do vigoroso progresso científico dos últimos séculos. Enfim, é um consolo confortante para o religioso acreditar que a Ciência não é capaz de alcançar as “elevadas verdades religiosas”.

            Envolvidas e protegidas pela sacralidade, tal como sempre estiveram, as religiões se beneficiaram desta imunidade, pois, para os religiosos, o que é sagrado não deve ser criticado, uma mentalidade que se generalizou, levando até mesmo a criação da seguinte frase popular: “santo não se critica, santo se venera”. Por isso a crítica religiosa é surpreendente e, até mesmo, assustadora para os religiosos. A política, a economia, a sociedade, a pintura, a literatura, a música, o cinema, etc., ou seja, tudo pode ser criticado, menos a religião, pois esta é sagrada, portanto deve permanecer imune às críticas. Quando estes assuntos acima são criticados, entende-se tratar de uma contribuição ao esclarecimento e à cultura, mas quando a religião é criticada, o entendimento dos religiosos é o de que se trata de um desrespeito.

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Muitos religiosos pensam que as religiões não podem ser criticadas

Indubitavelmente, o respeito é um dos sentimentos mais estimados, pois todos nós desejamos ser respeitados e, consequentemente, respeitamos os outros a fim de que sejamos reciprocamente respeitados. Ele é, em muitos casos, o ponto de partida para a moral em muitas circunstâncias, uma vez que, para que exista moralidade é necessária a precedência do respeito, pois o mais comum é não nos comportamos moralmente diante daquilo que desrespeitamos. Então, se o respeito fosse ubíquo, muitos dos desentendimentos e dos conflitos não existiriam, com isso mais amor e mais solidariedade entre os indivíduos. O respeito deve também ser praticado com a família, com a sociedade, com o meio ambiente, com as autoridades e com as diferenças culturais. Um indivíduo respeitoso certamente é mais tolerante. O contrário do respeito é a hostilidade. Enfim, esta é a visão mais comum.

Agora, aprofundando o assunto, resta refletir sobre o que merece ser respeitado, bem como até que ponto se deve respeitar, pois será que não existe respeito equivocado ou respeito exagerado? Afinal, o que deve e o que não dever ser respeitado, e até que ponto? Qual a medida do respeito? Respeitar alguém ou alguma coisa, e até onde, é uma questão de juízo de valores, portanto diferentes indivíduos e distintas sociedades poderão ter divergentes juízos de valores. A mentalidade de um laico é distinta daquela de um religioso. Uma sociedade majoritariamente formada por religiosos poderá estimar a religião como uma cultura importante, enquanto que uma sociedade formada principalmente por laicos poderá estimar a religião como uma cultura inútil. Então, para o indivíduo laico que se convenceu da inutilidade, ou até mesmo, da nocividade das religiões, o respeito pelas mesmas nada mais é do que conivência com algo inútil e nocivo.

A questão de como saber quando o tratamento da religião é respeito ou conivência dependerá da mentalidade do indivíduo ou da sociedade. Um religioso poderá pensar que tudo na sua religião é correto e perfeito, por isso ela merece absoluto respeito, de maneira que qualquer crítica é então intolerância. Quando não se percebe os defeitos e os mal feitos das religiões, o sentimento natural é o de que ela merece total respeito. Por outro lado, quando se percebe que as religiões ensinam mais superstições e charlatanismo do que realidades, bem como o reconhecimento do seu obsoletismo cultural, o respeito parecerá ser um exemplo de conivência com uma cultura retrógada e nociva à educação atual.

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Alguns religiosos têm dificuldades em aceitar a crítica religiosa

Ademais, o que existe de desrespeito ou de intolerância nos comentários daquele que uma vez foi um praticante religioso e se decepcionou com a doutrina e com as práticas, e em seguida expressou suas opiniões a fim de servir de advertência para os novatos? Certamente, suas críticas não são desabafos de desrespeito, mas sim a revelação do outro lado daquilo que a pregação e a propaganda religiosas encobrem. As religiões não informam, mas o número de praticantes que se decepcionam não é tão pequeno quanto o público conhece, a invisibilidade dos dissidentes está no fato de que é imensamente maior, bem como mais estridente, a quantidade de pregadores apaixonados por suas convicções, que alardeiam para os quatro cantos, do que a dos apóstatas decepcionados que muito raramente revelam seus desapontamentos. Se todos os dissidentes escrevessem sobre suas decepções, possivelmente a literatura apóstata seria tão extensa quando a literatura confessional, logo o público teria uma visão diferente sobre as religiões.

Então, o caráter da crítica religiosa depende sobremaneira de como ela é feita. Muitas vezes ela é confundida com insultos, com difamações, com deboches e até mesmo com agressões. Crítica não é desabafo de ressentimentos. Portanto, ela precisa ser impetuosamente controlada a fim de separar a análise racional dos sentimentos pessoais. A crítica só é criminosa quando ela é difamatória ou caluniosa, ou seja, sem a sustentação de provas e de exemplos. Em suma, acima de tudo, a atribuição de desrespeito e de intolerância à crítica religiosa poderá ser, ao mesmo tempo, uma censura do direito à liberdade de expressão, previsto no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH-1948): “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”, e pela nossa Constituição Federal, art. 5º, incisos IV e IX.

Enfim, ao contrário, quando a crítica religiosa é bem fundamentada e esclarecedora, esta poderá funcionar como uma advertência para os principiantes e para as futuras gerações, com isso o crítico não é então alguém desrespeitoso, senão aquele que evita ser um conivente com aquelas ideias e com aquelas práticas que ele julga serem nocivas para a boa condução da educação atual.

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