Jesus no Alcorão

por Octavio da Cunha Botelho

alcorao-livro-sagrado-dos-mulcumanos-53f62a6808928

Jesus (Isa) é reconhecido como Mensageiro de Deus e elogiado no Alcorão.

            Aqueles que nunca leram o Alcorão e conhecem o Islamismo apenas através dos noticiários, ao serem informados que Jesus é mencionado algumas vezes neste livro sagrado dos muçulmanos, pensarão imediatamente que todas as menções são hostilidades. Ou alguém mais informado poderá supor que estas menções se assemelhariam às narrativas hostis na coleção de anti-evangelhos conhecida por Sefer Toledoth Yeshu (Livro da História da Vida de Jesus) dos judeus, onde Jesus é humilhado e debochado ao extremo. Porém, ao contrário, no Alcorão, Jesus é elogiado e reconhecido como um Mensageiro de Deus (Alá) e chamado de Messias, bem como sua mãe é elogiada como uma mulher virtuosa. Seus milagres são admitidos e ele é apontado como um homem de sabedoria. Entretanto, com uma diferença crucial com o Cristianismo: Jesus não é reconhecido como o Filho de Deus, apenas como um dos Mensageiros de Alá (Deus), que veio antes de Maomé. Em suma, na leitura das passagens referentes a Jesus, é possível logo perceber a clara tentativa de assegurar que Jesus foi um importante Mensageiro de Alá (Deus), mas os cristãos alteraram sua mensagem original e então uma nova revelação, através do Arcanjo Gabriel para Maomé, foi necessária a fim de recuperá-la. Esta recuperação inclui a mensagem original da Bíblia Hebraica, a qual os judeus também deformaram. Os judeus e os cristãos são denominados no Alcorão de Povos de Livro.

            Tal como acontece com as traduções de quase todos os antigos livros sagrados, as versões do Alcorão para as línguas contemporâneas divergem consideravelmente de uma tradução para a outra. Então, quando não se domina a língua original do texto religioso, neste caso o árabe, a solução para resolver as diferenças nas traduções torna-se ainda mais difícil. Para este estudo, foram comparadas cerca de dez versões inglesas de diferentes tradutores[1], algumas tão divergentes da maioria que nem sequer foram arroladas na bibliografia.

            Jesus é conhecido no Alcorão pelo nome de Īsā, algumas vezes através da frase: “Īsā ibn Maryam” (Jesus, filho de Maria), em algumas passagens: 3:42-59; 4:157-9; 4:171; 5:72-5; 5:110-17 e 19:30-6. Pelo que é dito de Jesus, nota-se logo que foi extraído de fontes diferentes dos evangelhos canônicos, bem como divergente de outros textos apócrifos, apesar de alguns pontos coincidentes. Maomé não foi capaz de ler os evangelhos canônicos, pois era analfabeto, portanto o pouco que aprendeu foi apenas de ouvido. Enfim, as menções de Jesus no Alcorão são mais um exemplo de como eram divergentes as versões sobre Jesus e seus ensinamentos nos primeiros séculos do Cristianismo. Maomé (570-632 e.c.) viveu na atual Arábia Saudita, naquela época um subúrbio inculto e selvagem do império bizantino, onde quase toda a população era analfabeta.

O Analfabetismo de Maomé

Maomé é literalmente chamado de analfabeto (ummī) no verso 157 da sura 07 (Al-A’raf – As Alturas) do Alcorão, através de um aposto: “Aqueles que seguem o Mensageiro (Maomé), o analfabeto (ummī), quem eles encontram mencionado na Torá e nos Evangelhos…”. Maulana Muhammad Ali explica que a palavra árabe “ummī” significa “aquele que nem escreve nem lê um texto. Por isso os árabes são conhecidos como o povo ummī[2], e o profeta ummī é quer o profeta do povo ummī (isto é, os árabes), porque ele era como eles, ou ele era assim chamado porque ele não sabia ler e escrever” (Muhammad Ali, 2010: 210; ver também: Mohar Ali, 2003: 525 e Haleem, 2005: 105). Outra referência à incapacidade de Maomé de ler e de escrever aparece na sura 29 (Al-Ankabut – a Aranha), verso 48: “Você nunca recitou qualquer escritura antes que nós te revelamos esta (escritura, isto é, o Alcorão), você nunca escreveu uma (escritura) com a mão direita…” (Haleem, 2005: 255; ver também: Mohar Ali, 2003: 1282 e Muhammad Ali, 2010: 497).

Muhammad_with_angel_Gabriel-569fffba5f9b58eba4ae62b7

Maomé recebendo as revelações do arcanjo Gabriel.

Entretanto, o intrigante na primeira revelação corânica é o fato de Maomé ser analfabeto, porém, milagrosamente, conseguiu ler o texto apresentado a ele pelo Arcanjo Gabriel durante uma visão, já que, segundo os registros preservados nos Hadiths (ditos e atos de Maomé) e nas biografias, Maomé era iletrado. Segundo o relato da sua mais antiga biografia, a Sīrat Rasūl Allāh, de autoria de Muhammad Ibn Ishāq (707-773 e.c.)[3], esta primeira revelação aconteceu quando ele estava dormindo numa caverna no monte Hira, quando lhe surgiu, através de uma visão, o Arcanjo Gabriel com uma colcha de brocado, na qual havia algum escrito e disse: recite, no que Maomé perguntou: o que eu devo recitar? Ele não conseguia ler o que estava escrito, pois era analfabeto. Pela sua pergunta “o que devo recitar”, percebe-se que o seu analfabetismo era tão completo que nem sequer foi capaz de identificar que o que estava sobre a colcha era um texto. O arcanjo insistiu por mais três vezes e Maomé deu as mesmas respostas indagando o que deveria recitar, até que ele finalmente leu o texto e depois acordou do sono conseguindo conservar na memória tudo que estava escrito no texto daquela colcha[4] (Guillaume, 2004: 106; ver também: Williams, 1961: 61 e Peters, 1993: 51). Este evento é para os crentes mulçumanos um exemplo do poder do que deus é capaz, já para os céticos, mais uma lenda inventada pela imaginação humana a fim de exaltar Maomé. A primeira revelação nesta Noite do Destino está registrada nos cinco primeiros versos (ayas) da sura 96, denominada Alaq (Coágulo), no Alcorão,[5] quando Alá ordenou que Maomé lesse: “Leia (iqraa) em nome de teu Senhor, que criou, criou o homem de um coágulo de sangue. Leia (iqrā). E teu Senhor é o mais generoso, que ensinou (o uso da) pena…” (Palmer, 1994, vol. 09: 336; Mohar Ali: 2003: 2004; Haleem, 2005: 428 e Muhammad Ali, 2010: 784). Outros tradutores traduziram a palavra iqrā por ‘recita’ (Arberry, 1955: 344 e Peters, 1994: 51). Esta diferença na tradução pode ser explicada pelo fato de que na Antiguidade era comum a leitura em voz alta, uma vez que a maioria da população era analfabeta, então quem sabia ler, lia, quando solicitado, de maneira para os outros ouvirem. Logo, ler poderia ser sinônimo de recitar. Agora, a menção da criação do homem a partir de um coágulo de sangue (alaq), mencionada logo acima, só pode ser uma alusão poética, de alguém ou de uma cultura, bem como de uma época, que não conheciam a origem e o processo de desenvolvimento da humanidade, por isso a necessidade então de criar alusões poéticas para a origem das criaturas que hoje é explicada cientificamente, pois, do contrário, a afirmação é cômica. No entanto, a sura 75 (Al-Qiyāmah – A Ressurreição), versos 37-9, não entende esta afirmação tão poeticamente assim ao dizer: “Não era ele (o homem) uma gota de esperma (manīy) ejaculada? Então, ele era um grudento coágulo (alaqah) e Ele (Deus) criou e perfeitamente o formou. Então, Ele fez dele (do coágulo) o par, macho e fêmea” (Mohar Ali, 2003: 1918; Haleem, 2005: 400 e Muhammad Ali, 2010: 739). Portanto, diferente do mito do Antigo Testamento, que revela a criação do homem a partir do barro e a da mulher a partir da costela (ou lado) de Adão, o Alcorão, nesta passagem, apresenta outra versão mítica, ou seja, a criação do homem e da mulher a partir de um coágulo (alaqah).

O Nascimento de Jesus (Īsā)

            A Anunciação à Maria no Alcorão coincide em alguns pontos e diverge em outros com os evangelhos canônicos e apócrifos, cujo relato aparece em duas passagens (3:42-7 e 19:16-22). No primeiro (3:42-7), é um anjo quem faz a Anunciação: “Maria, Deus (Alá) te escolheu e te fez pura. Ele realmente te escolheu acima de todas as mulheres” (Alcorão, 3:16 – Mohar Ali, 2003: 173; Haleem, 2005: 37 e Muhammad Ali, 2010: 79). Na outra versão (19:16-22), foi o espírito de deus quem anunciou na forma de um homem perfeito: “Ela (Maria) retirou-se de sua família para um lugar no Oriente e separou-se deles por uma cortina. Nós enviamos nosso espírito a fim de aparecer diante dela na forma de um homem perfeito” (Alcorão, 19:16-7 – Mohar Ali, 2003: 954; Haleem, 2005: 192 e Muhammad Ali, 2010: 377). Na sura 03 (Al-Imrān – A Família de Imrān), através de dois versos (45-6) com traduções divergentes entre os tradutores para a língua inglesa, a anunciação é feita assim à Maria: “Os anjos disseram: ‘Maria, Deus dá-lhe as boas notícias de uma palavra dele – seu nome será Messias, Īsā (Jesus), filho de Maryam (Maria), estimado neste mundo e no próximo, e será um daqueles próximos a Deus. E ele falará aos homens ainda no berço e durante a maturidade, e ele será virtuoso” (Mohar Ali, 2003: 173; Haleem, 2005: 37-8 e Muhammad Ali, 2010: 80). A frase “ele falará aos homens ainda no berço e durante a maturidade” é especialmente intrigante. No primeiro caso, Jesus falará ainda bebê no berço, um milagre, até certo ponto cômico, que não aparece nos evangelhos canônicos e somente em um texto apócrifo[6]. O segundo caso, a palavra “maturidade” (árabe: kahl) é motivo de controvérsia entre os tradutores, uma vez que sinaliza para o fato de que Jesus (Īsā) não morreu na cruz ainda no início de sua idade adulta, mas viveu até a velhice. Então, a fim de diluírem a precisão do significado de maturidade, alguns tradutores traduziram a palavra “kahl” por “idade adulta”, o que poderá compreender o início da idade adulta até o fim da mesma, ou seja, a velhice. Enquanto que Maulana Muhammad Ali, diferentemente, traduziu a palavra “kahl” por “velhice” (Muhammad Ali, 2010: 80).

200px-Mariam_and_Isa

Segundo o Alcorão, Jesus nasceu junto ao tronco de uma tamareira.

            O episódio do milagre da fala de Jesus no berço é desenvolvido em 19:29-33, quando Maria mostrou a criança recém-nascida (Īsā – Jesus) ao seu povo. Então, todos ficaram surpresos e alguém exclamou: “Maria, tu tens trazido algo sem precedente[7]. Ó irmã de Arão, seu pai não era um homem mal, sua mãe não era impura”[8]. Maria então apontou para a criança (Jesus) em sua defesa. E eles disseram: “Como poderemos conversar com uma criança no berço? Mas, Īsā (Jesus) falou: “Eu sou um servo de Alá, Ele me concedeu a Escritura, Ele fez de mim um profeta e abençoado. Ele me ordenou que rezasse e doasse esmola até quando eu viver. E ser obediente com a minha mãe. Ele não fez de mim um tirano ou um imoral. A paz estava comigo no dia em que nasci, estará comigo no dia em que eu morrer e no dia em que eu renascer à vida novamente”[9] (Mohar Ali, 2003: 957; Haleem, 2005: 192 e Muhammad Ali, 2010: 379-80). Este milagre também aparece, com uma redação diferente, em um evangelho apócrifo conhecido por Evangelho Árabe da Infância, § 01 (Platt Jr. 1926: 38 e Botelho, 2015: 82).

            O nascimento de Jesus (Īsā) narrado no Alcorão 19:22-60 é diferente da versão canônica de Lucas 2:04-12. Ao invés de nascer em uma manjedoura a caminho de Belém, a fim de atender à convocação do recenseamento, na versão corânica Maria tinha se retirado para um lugar distante e deu à luz Jesus junto ao tronco de uma tamareira, após sentir fortes dores do parto: “Depois de Maria ter concebido, ela se retirou para um lugar distante, e quando as dores do parto conduziram-na a agarrar-se no tronco de uma tamareira, ela exclamou: ‘Eu preferiria ter morrido e esquecido tudo isto há muito tempo’, mas, uma voz falou com ela de baixo: ‘Não se aborreça, seu Senhor colocou um riacho sob seus pés, e se você sacudir o tronco da tamareira em sua direção, cairão tâmaras maduras sobre você, então coma, beba, alegre-se e diga a alguém que encontrar: ‘Eu prometi ao Senhor da Misericórdia abster-me da conversa e eu não conversarei hoje’” (Haleem, 2005: 192).

Jesus (Īsā), apenas um Mensageiro

            O Alcorão reconhece e elogia Jesus (Īsā) como Messias e Mensageiro de Alá, porém não o reconhece como o Filho de Deus ou como o próprio Deus: “São infiéis aqueles que dizem: ‘Alá é o Messias, o filho de Maria’. (Sendo que) o próprio Messias disse: ‘Filhos de Israel, adorai Deus, meu Senhor e seu Senhor’. (…) O Messias, o filho de Maria, foi apenas um mensageiro, outros mensageiros vieram antes dele; sua mãe foi uma mulher virtuosa, ambos comeram comida (tal como os outros mortais). Vê como nós esclarecemos estes sinais a eles (aos cristãos), vê como eles (os cristãos) estão enganados” (Alcorão, 05: 72 e 75 – Haleem, 2005: 75).

            E mais adiante uma censura ainda mais severa aos cristãos: “Ó Povo do Livro[10], não exceda em sua religião e não diga algo sobre Alá exceto a verdade. O Messias, (Jesus), o filho de Maria, foi nada mais do que um Mensageiro de Alá (Deus), sua palavra, dirigida à Maria, um espírito Dele. Assim, acredite em Alá e em seus Mensageiros e não fale de uma Trindade, pare com isso, será melhor para vocês. Deus é apenas o único Deus. Ele está muito acima de ter um filho, tudo nos céus e na Terra pertence a Ele e Ele é o melhor em quem confiar. O Messias (Jesus) nunca faria pouco caso de ser (apenas) um servo de Deus[11]…” (Alcorão, 4.171-2 – Haleem, 2005: 166 e Mohar Ali, 2003: 320-1).

Jesus (Īsā) não morreu crucificado

            Segundo o Alcorão 4:157, Jesus não morreu na cruz: “Alguns dizem: Matamos o Messias, Jesus (Īsā), o filho de Maria, o Mensageiro de Deus. (Mas, na realidade) eles não o mataram, tampouco o crucificaram, embora pareceu que isto foi feito, aqueles que discordam sobre ele estão repleto de dúvidas, sem conhecimento, somente suposição; eles certamente não o mataram” (Haleem, 2005: 65). Outra alegação é a de que ele não chegou a ser crucificado (Ahmad, 2003: 57-62), sendo então substituído por outra pessoa no momento da crucificação, a qual foi crucificada em seu lugar, ou também, que ele sobreviveu à crucificação, não chegando a morrer, mas apenas sofreu um desmaio (Ahmad, 2003: 17), este último caso é conhecido como a “hipótese do desmaio”. Então, em seguida, partiu em viagem para o Oriente, onde faleceu nestas terras distantes em idade avançada (Ahmad, 2003: passim), ou até mesmo que Jesus visitou as regiões orientais tanto na sua juventude como depois da sobrevivência à crucificação (Kersten, 2001). Os mórmons acreditam que Jesus realizou aparições na América depois da sua morte. Também, na tradição islâmica, H. M. Ghulam Ahmad mencionou alguns Hadiths (ditos de Maomé), da coleção conhecida pelo nome de Kanz-ul-Ummal, de que Jesus viveu até a idade avançada de 125 anos, viajou por muitas partes do mundo e ficou conhecido como o “profeta viajante” (Ahrmad, 2003: 62-3). Este autor, que é o fundador do movimento islâmico reformista Ahrmadiyya Muslim Jamat, é um dos primeiros e mais ardentes defensores da tese de que Jesus sobreviveu à crucificação, viajou para a Índia para encontrar as tribos de Israel e, o que é mais surpreendente, do argumento de que o profeta Yuz Asaf, sepultado no santuário de Roza Bal, na cidade de Srinagar, Caxemira, Índia, é o próprio Jesus. Ele foi o principal divulgador desta tradição de Roza Bal, através do seu livro Misih Hindustan Mein, publicado em 1908 na língua urdu, depois publicado em inglês em 1944, com o título de “Jesus in India”.

180px-Virgin_Mary_and_Jesus_(old_Persian_miniature)

Gravura reproduzindo a versão islâmica da Virgem Maria e o menino Jesus

            O assunto sobre a viagem de Jesus à Índia ganhou interesse internacional a partir de 1887, quando o jornalista russo Nicolas Notovitch, durante uma viagem à região do Ladak, no estado da Caxemira, Índia, onde predomina a cultura do Budismo Tibetano, por isso o Ladak é apelidado de “Pequeno Tibete”. Após uma fratura na perna, ele teve de ser assistido por monges do mosteiro budista de Hemis, nesta região, fato que lhe obrigou a estender sua permanência. Na ocasião, ele foi informado da existência de um manuscrito desconhecido com o nome de “A Vida do Santo Issa, o Melhor dos Filhos do Homem” guardado na biblioteca deste mosteiro. Issa é o nome atribuído a Jesus no Alcorão (3:45 e 5:75). Então, com a ajuda de um intérprete, anotou as traduções para, assim, publicá-las depois em Paris com o título de “La Vie Inconneu de Jésus Christ” (A Vida Desconhecida de Jesus Cristo), em 1894. A edição inglesa apareceu logo em seguida, com o nome de “The Unknown Life of Jesus Christ”, em 1895 (Notovitch, 1916: 08-9). O livro, certamente, provocou um alvoroço no meio intelectual. As opiniões se dividiram entre os que acreditaram na publicação de Notovitch e os que perceberam nela uma fraude. O primeiro a contestar foi o então prestigiado orientalista F. Max Müller, no jornal inglês The Nineteenth Century, em outubro de 1894, onde ele denunciou a descoberta de Notovitch como uma fraude, bem como suspeitou até mesmo da visita deste jornalista russo ao mosteiro de Hemis no Ladak (Kerster, 2001: 10). Outro ataque, desta vez de um professor do Government College de Agra, Índia, J. Archibald Douglas, cuja visita ao Ladak em 1895, o levou a investigar a autenticidade da descoberta de Notovitch. Seu relato foi publicado em abril de 1896 no Orientalischen Bibliografie com o título de “Documentos provam a fraude de Notovitch”. Outra publicação do The Nineteenth Century, em 1896, contém a afirmação de J. A. Douglas, durante sua visita ao mosteiro Hemis, de que o abade, ao conhecer a publicação de Notovitch, respondeu que “tudo era mentira” (Kerster, 2001: 11).

            Em 1956, Edgar J Goodspeed usou o primeiro capítulo de seu livro Famous Biblical Hoaxes or Modern Apocrypha (Famosos Boatos Bíblicos ou Apócrifos Modernos) para demonstrar a fraude de Nicolas Notovitch. Mais recentemente, o conhecido e dedicado pesquisador bíblico Bart D. Ehrman escreveu: “Hoje não há um único pesquisador reconhecido no planeta que tenha dúvida sobre a matéria. A história inteira foi inventada por Notovitch, que ganhou muito dinheiro e uma substancial soma de notoriedade por seu boato” (Ehrman, 2011: 282-3). Para James R. Lewis, tudo é uma forja (Lewis, 2003: 79s).

            Por outro lado, Nicolas Notovitch teve defensores, naturalmente da parte dos esoteristas, dos místicos, e de uma que se autoproclamava vidente (Kersten, 2001: 01-18; Abhedananda, 1987 e Prophet, 1987: 92-120 respectivamente). Enfim, somente estas modalidades de pessoas acreditaram em Notovitch, ou seja, ninguém no meio acadêmico e científico. O fato é que, o manuscrito secreto que lhe foi mostrado no mosteiro, do qual Notovich realizou suas anotações traduzidas, nunca foi mostrado publicamente, nem sequer uma cópia, sendo assim, nunca foi entregue para o escrutínio de pesquisadores acadêmicos com conhecimento em Paleografia, em Crítica Textual e em Filologia, para a avaliação da sua autenticidade, do seu significado e da sua credibilidade como documento histórico.

Jesus (Īsā) é como Adão

            Em uma passagem breve, Jesus (Īsā) é comparado com Adão no Alcorão 3:59: “Aos olhos de Alá, Īsā (Jesus) é como Adão. Ele o criou do barro, e disse a ele, “seja”, e ele veio à existência” (Mohar Ali, 2003: 178-9 e Haleem, 2005: 38-9). Portanto, esta passagem compara Jesus com Adão, ou seja, Jesus foi um homem tal como Adão e não uma criatura divina. Sendo assim, segundo a interpretação dos muçulmanos, Jesus não foi nada mais do que um mortal, pois, quem foi criado do barro não pode ser uma criatura divina.

Diálogo entre Deus (Alá) e Jesus (Īsā)

            Em outra passagem do Alcorão (5.109-17), Alá reunirá os mensageiros no Dia do Julgamento e então dirá assim a Jesus (Īsā): “Jesus, filho de Maria, lembra-te de minha graça sobre ti e sobre sua mãe, quando te protegi com o espírito santo, de maneira que falaste ao povo no berço e na maturidade. E quando te ensinei o Livro, a sabedoria, a Torá e o Evangelho (Injil), e quando criastes do barro uma figura de pássaro, com o seu sopro ela se tornou um pássaro de verdade com a minha permissão[12]. E quando curaste o cego de nascença e o leproso com minha permissão, e ressuscitastes os mortos. E quando te protegi dos Filhos de Israel, quando aproximastes deles com as provas e aí eles disseram que não acreditavam nelas: ‘Isto é nada mais do que feitiçaria’ (110).

E quando inspirei os discípulos: ‘credes em mim e no meu Mensageiro’, e eles disseram: ‘cremos, testemunha que somos submissos’ (111).

E quando os discípulos perguntaram: ‘Ó Jesus, filho de Maria, pode teu Senhor nos enviar do céu uma mesa servida’? E ele lhes respondeu: ‘Temei a Deus e sois crentes’ (112).

Disseram: ‘Queremos comer dela para que nossos corações sosseguem e para que saibamos que nos tens dito a verdade e sejamos testemunhas dela’ (113).

E Jesus, filho de Maria, disse: ‘Deus, Senhor nosso, manda-nos do céu uma mesa servida que seja uma festa para todos nós do primeiro ao último e que seja um sinal de ti. E gratifica-nos: és o melhor dos doadores’ (114).

Respondeu Deus: ‘Farei descer. Quem dentre vós descrer depois, será submetido a um castigo, ao qual não submeterei alguém nos mundos’ (115).

E quando Deus perguntou: ‘Ó Jesus, filho de Maria[13], dissestes tu aos homens: ‘Adorem a mim e a minha mãe, como dois deuses em vez de um só Deus’? Jesus respondeu: ‘Glorificado seja! Como diria eu o que não me pertence? Se o tivesse dito, tu o saberias. Sabes o que está em minha alma, e não sei o que está em Tua alma. És tu o conhecedor dos invisíveis[14] (116).

Não lhes[15] disse senão o que me ordenastes: ‘Adorai Deus, meu Senhor e vosso Senhor’. E eu era testemunho do que faziam enquanto vivi entre eles. Quando me chamaste a Ti, eras Tu que os observava. Pois, és testemunha de tudo’[16] (117 – Challita, 2002: 62-3; Mohar Ali, 2003: 384-9; Haleem, 2005: 78-9 e Muhammad Ali, 2010: 161-3).

Obras consultadas

ABHEDANANDA, Swami. Journey into Kashmir and Tibet: with the Life of Jesus by Nicolas Notovitch. Calcutta: Ramakrishna Vedanta Math, 1987.

AL-AZAMI, Muhammad Mustafa. The History of the Qur’anic Text: from Revelation to Compilation. Leicester: UK Islamic Academy, 2003.

ARBERRY, Arthur J. (tr.) The Koran Interpreted. New York: Macmillan, 1955.

AHMAD, H. M. Ghulam. Jesus in India: Jesus’s Deliverance from the Cross & Journey to India. Tilford: Islam International Publication, 2003, (1st edition, 1908).

BOTELHO, Octavio da Cunha. A Comicidade dos Milagres na Infância de Jesus em 40 Anos de Estudos Religiosos, volume II – Cristianismo. São Paulo: AgBooks, 2015, p. 77-86.

CHALLITA, Mansour (tr.). O Alcorão. Rio de Janeiro: ACIGI, 2002.

EHRMAN, Bart D. Forged: Writing in the Name of God. Why the Bible’s Author’s Are Not Who We Think They Are. New York: Harper/Collins, 2011.

GUILLAUME, A. (tr.). The Life of Muhammad: A Translation of Ishāq’s Sīrat Rasūl Allāh. Karachi: Ameena Saiyid/Oxford University Press, 2004.

HALEEM, M. A. S. Abdel (tr.). The Qur’an. Oxford: Oxford University Press, 2005.

KERSTEN, Holger. Jesus Lived in India: His Unknown Life Before and After the Crucifixion. New Delhi: Penguin Books, 2001.

LEWIS, James R. Legitimating New Religions. New Brunswick: Rutgers University Press, 2003, p. 73-88.

MOHAR ALI, Muhammad (tr.). A Word for Word Meaning of the Qur’an: with Explanatory Notes, Word Meanings with Cross References and Grammatical Hints (03 vols.). Ipswich: Jam’iyat ‘Ihyaa Minhaaj Al-Sunnah, 2003.

MUHAMMAD ALI, Maulana (tr.). English Translation of the Holy Quran with Explanatory Notes. London: Ahmadiyya Anjuman Lahore Publications, 2010.

NÖLDEKE Theodor et. al. The History of the Qur’an. Leiden/Boston: Brill, 2013.

PALMER, E. H. (tr.) The Qur’an (Sacred Books of the East, vols. 06 and 09). Delhi: Motilal Banarsidass, 1994.

PETERS, Francis E. A Reader on Classical Islam. Princeton: Princeton University Press, 1994.

PIRBHAI, M. Reza and Reem A. Meshal. Islamic Perspectives on Jesus em The Blackwell Companion to Jesus. Delbert Burkett (ed.). Oxford: Wiley-Blackwell, 2011, p. 232-49.

PLATT Jr., Rutherford H. The Lost Books of the Bible. New York: Alpha  House, 1926, p. 38-62.

PROPHET, Elizabeth Clare. The Lost Years of Jesus: Documentary Evidence of Jesus’ 17-years Journey to the East. Gardiner: Summit Publications, 1987.

RIPPIN, Andrew. Muslims: Their Beliefs and Pratices. London: Routledge, 1997.

ROBINSON, Neal. Christ in Islam and Christianity. Albany: State University of New York Press, 1991.

STARKOVSKY, Nicolas (tr.). The Koran Handbook: An Annotated Translation. New York: Algora Publishing, 2005.

VAN VOORST, Robert C. Jesus Outside the New Testament: An Introduction to the Ancient Evidence. Grand Rapids: William B. Eerdman Publishing Company, 2000.

WARRAQ, Ibn (ed.). The Origins of the Koran: Classic Essays on Islam’s Holy Book. Amherst: Prometheus Books, 1998.

_____________ (ed.). What the Koran Really Says: Language, Text & Commentary. Amherst: Prometheus Books, 2002.

WILLIAMS, John A. Islam. New York: George Braziller, 1961.

[1] A tradução portuguesa do poeta Mansour Challita também foi consultada.

[2] Provavelmente pelos povos mais cultos da vizinhança naquela época, ou seja, os gregos, os romanos e o persas.

[3] Ibn Warraq descredencia esta biografia com base no fato de ter sito escrita por volta do ano 750 e.c., portanto mais de cem anos após a morte de Maomé em 632 e.c., bem como a obra original está perdida e é só disponível hoje através de uma recensão tardia de Ibn Hisham, que morreu em 834 e.c., ou seja, duzentos anos após a morte de Maomé (Warraq, 1998: 37). Mesmo assim, ela é a biografia de maior autoridade entre os muçulmanos, ver: Guillaume, 2004.

[4] Intérpretes céticos desta passagem explicam que, o que Maomé experimentou, naquele momento, foi um surto de alucinação, ao invés de uma visão mística, tal como entende a tradição islâmica.

[5] Cronologicamente, estes são os primeiros versos do Alcorão, por isso deveriam estar no início, porém, uma vez que este texto não segue rigorosamente a ordem cujas revelações foram ditadas, esta passagem aparece entre uma das últimas suras (capítulos) do Alcorão.

[6] Evangelho Árabe da Infância, § 01 (Platt Jr, 1926: 38 e Botelho, 2015: 82).

[7] A tradução da palavra árabe “farīy” (sem precedente, inédito) é controvertida, por isso traduzida com sentidos diferentes nas traduções consultadas. Utilizei aqui a tradução de M. Mohar Ali (2003: 957).

[8] Os intérpretes desta passagem divergem quanto ao fato se a surpresa do seu povo foi em virtude do anúncio de Maria de que seu filho era o Messias, portanto uma afronta aos judeus da época, ou se foi em virtude de ter dado à luz uma criança sem ter sido tocada.

[9] Os intérpretes muçulmanos entendem que esta passagem não se refere à ressurreição de Jesus após a crucificação, pois, tal como veremos mais adiante, o Alcorão sustenta que Jesus não morreu na cruz, mas sim à ressurreição no Dia do Juízo Final.

[10] Referência aos cristãos.

[11] Elogio à humildade de Jesus.

[12] Este foi um milagre efetuado na infância de Jesus que não é narrado nos evangelhos canônicos, mas é relatado no Evangelho Árabe da Infância, § 36 (Platt Jr., 1926: 52-3 e Botelho, 2015: 83).

[13] O Alcorão exagera na repetição da frase: “Jesus, filho de Maria”, enquanto o pai de Jesus não é mencionado em parte alguma.

[14] A intenção aqui é mostrar que os cristãos deformaram os ensinamentos originais de Jesus ao pregarem a divindade da mãe de Jesus.

[15] Aos apóstolos e aos seguidores de Jesus.

[16] Se esta passagem estiver se referindo a morte de Jesus na cruz, então estará em contradição com a passagem 4.157, a qual assegura que Jesus não morreu na cruz.

Anúncios

Um comentário sobre “Jesus no Alcorão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s