A Manipulação que Cria o Poder Paranormal

por Octavio da Cunha Botelho

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Robert De Niro vive o médium Simon Silver em Poder Paranormal (Red Lights, 2012).

            Um assunto que foi popular nos anos 1970 voltou às telas recentemente, a paranormalidade, através do suspense escrito e dirigido pelo espanhol Rodrigo Cortés, Poder Paranormal (Red Lights, 2012). Recheado de estrelas como a premiada Sigourney Weaver, no papel da dra. Margaret Matheson, do também tão premiado Robert De Niro, na pele do médium cego Simon Silver e do jovem físico Cillian Murphy, assistente da dra. Matheson. Antes de escrever o roteiro, Rodrigo Cortés afirmou, durante uma entrevista, que pesquisou o assunto da paranormalidade por um ano e meio, chegando à conclusão de que, ambos os lados, ou seja, paranormais e céticos, omitem as evidências do lado contrário em seus argumentos. E é esta indefinição de qual lado o filme assume é que deixa o suspense atraente até o final. Ele declarou também que não acredita em fenômenos paranormais, mas por se tratar de um filme de entretenimento, ele procurou equilibrar os argumentos dos dois lados, (paranormais e céticos), a fim e tornar o suspense cativante.

            Na trama, a psicóloga dra. Margaret Matheson (Sigourney Weaver) e seu assistente, o físico Tom Buckley (Cillian Murphy), são dois cientistas ocupados em desmascarar médiuns e videntes, sob a alegação de que o que eles executam são truques. Por isso, muitos trechos do filme nos lembram o atual trabalho do canadense James Randi, um mágico ocupado em apontar as fraudes daqueles que alegam terem poderes paranormais. Até uma cena de uma cirurgia, muito utilizada pelos médiuns curandeiros, foi inspirada em um conhecido vídeo onde James Randi realiza a mesma cirurgia através de truques de mágica, provavelmente Rodrigo Cortés conheceu este vídeo. De modo que, este suspense interessa particularmente aos céticos que admiram o atual trabalho daqueles que procuram demonstrar que os supostos fenômenos sobrenaturais são simples truques de mágica. No mundo religioso, a mais recente e espetacular utilização destes truques como milagres foi a realizada pelo santo indiano Sathya Sai Baba (1926-2011), através da materialização da vibhūti (cinza sagrada), a qual os céticos consideram como simples truque de mágica, facilmente executado até mesmo por adolescentes e mostrado em vídeos na web.

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Sigourney Weaver é a psicóloga Margaret Matheson, empenhada em desmascarar os paranormais.

            A paranormalidade esteve muito em voga nos anos 1970, atualmente tornou-se um assunto mais esquecido. Naqueles tempos, o mais destacado paranormal foi Uri Geller (1946-), um israelense naturalizado britânico que se enriqueceu com as exibições públicas e televisivas de seus fenômenos extraordinários. Por outro lado, ele atolou-se em um lamaçal de acusações de fraudes. Por exemplo, o mágico James Randi reproduziu todos os seus fenômenos publicamente, comprovando que todos eram truques de mágica. Uri Geller então processou todos os seus acusadores, mas perdeu todas as ações nos tribunais. Hoje ele está com 69 anos, não se considera mais um paranormal, vive como vendedor de joias e como designer de moda.

            Uma curiosa revelação neste suspense é a exposição dos bastidores por trás do espetáculo dos paranormais, mostrando inclusive os truques fraudulentos, até com o uso de pequenos fones de ouvido, a fim de que o suposto clarividente possa ser orientado desde os bastidores, por uma equipe de auxiliares na fraude. Também, a fortuna que estes espetáculos são capazes de arrecadar, com ingressos sendo vendidos no câmbio negro por US$ 2 mil. Mais revelador ainda é a manipulação da mídia nos bastidores da promoção do espetáculo, mostrando assim a vulnerabilidade dos auditórios e dos telespectadores em acreditar na veracidade dos fenômenos. Outro detalhe mostrado é o frenesi da população diante da expectativa do espetáculo. Muito provavelmente, com a intenção de revelar as armações por trás dos suntuosos espetáculos de vidência dos superstars da paranormalidade, tal como Uri Geller no passado. Enfim, um retrato de como a mídia, através da persuasão e da manipulação, é capaz de transformar a mágica em crença paranormal.

            Este poder da mídia assustou até a cientista envolvida no trabalho de desmascarar os videntes, a dra. Matheson (Sigourney Weaver), quem preferiu se afastar do projeto, quando soube que um poderoso paranormal, Simon Silver (Robert de Niro), voltaria à cena depois de muitos anos afastados dos holofotes. O poder por trás da promoção dos eventos do médium Simon Silver é impressionante, até com tentativa de assassinato do investigador de fraudes, o físico Tom Buckler (Cillian Murphy

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O físico Tom Buckley (Cillian Murphy) experimentou o cruel poder dos paranormais, ao ser duramente espancado.

Agora, o mais surpreendente neste filme é o raro caso da aceitação, pelo médium Simon Silver, de se submeter a um programa de observação controlada por um laboratório de uma universidade. Ele aceitou os testes para comprovar cientificamente a sua paranormalidade, com a duração de duas semanas.

Este suspense não agradou os espectadores desinteressados neste assunto. A confirmação está na baixa arrecadação. O orçamento foi de €16 milhões e a arrecadação mundial apenas de €14 milhões (a produção é espanhola, por isso a arrecadação em euros), portanto prejuízo. Para aqueles que entendem o cinema como apenas entretenimento, certamente este filme não agradará, pois é uma mistura confusa de suspense, terror, drama e até pitadas de comédia, com algumas cenas que acontecem, mas que não surgem efeito. Também, algumas passagens não convencem por falta de aprofundamento, bem como as imagens escuras que permeiam todo o suspense, a fim de transmitir um caráter de obscuridade por trás dos fatos, não agrada muitos espectadores. Em contrapartida, para aqueles que percebem o cinema também como cultura, este filme é revelador e estimula a reflexão. Portanto, mesmo assim, o filme merece ser visto por aqueles que se interessam pelo tema do ceticismo sobre os poderes paranormais, uma vez que é raro o filme que mostra as manipulações por trás dos espetaculares shows de paranormalidade, bem como os dramas e os temores daqueles envolvidos em seu combate, diante do assustador poder dos promotores destes sensacionais espetáculos.  Enfim, no jargão dos críticos, o filme não é um enlatado.

 

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