“Religio” no discurso de Michel Temer

or Octavio da Cunha Botelho

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Durante o seu discurso de posse, Michel Temer citou a origem latina  da palavra religião, “religio” (religação), para exemplificar a necessidade da unificação nacional.

Quem assistiu ao discurso do agora presidente em exercício Michel Temer, percebeu que ele finalizou a sua fala com o tema da religião. Mais especificadamente, citou a etimologia latina da palavra religião, derivada do Latim religio, no sentido atribuído pelo Cristianismo de “religação”. “O que temos de fazer com o Brasil é um ato religioso, um ato de religação de toda a sociedade brasileira”. A fim de esclarecer mais ao leitor, disponibilizo abaixo a seção sobre etimologia e desenvolvimento da palavra religião do meu livro “Afinal, o que é Religião?” (p. 10-5), do qual é possível conhecer a controvérsia que cercava o significado da palavra antes da sua apropriação pelo Cristianismo, a forja do seu significado pelos primeiros cristãos, bem como o embaraço do seu sentido durante o período da expansão colonial, após o contato do Cristianismo com outras religiões distantes (Hinduísmo, Budismo, Taoismo, Confucionismo, etc.). Segue abaixo o trecho do livro.


A etimologia de
religio no Latim é controvertida. O sentido utilizado antes do surgimento do Cristianismo era o de “tremor supersticioso”, ou “superstição”, depois evoluiu para “escrúpulo” e “receio de consciência”.  O orador Cícero, em sua obra De Natura Deorum (A Natureza de Deus – II.72), 45 e.c[1], explica assim a etimologia da palavra: “pessoas que gastam dias inteiros em oração e sacrifício para assegurar que seus filhos devam sobreviver a eles foram denominados “supersticiosos” (de superstes, um sobrevivente), e a palavra mais tarde adquiriu uma aplicação mais ampla. Aqueles, por outro lado, que cuidadosamente revisavam e, por assim dizer, retraçavam toda a tradição de ritual foram chamados “religiosos”, de relegere (retraçar ou reler), como elegante, de eligere (selecionar), diligente (de diligere – cuidar), inteligente (de intellegere – compreender), pois todas estas palavras contêm o mesmo sentido de “escolher” (legere), que está presente nos religiosos. Por isso, “supersticiosos” e “religiosos” vieram a serem termos de censura e aprovação respectivamente” (Cicero: 2000, 193). Para Macróbio (séc. V e.c.), a palavra deriva do verbo latino relinquere, que significa “conservar”, “manter”, ou seja, algo que foi deixado pelos antepassados.A palavra religião é uma apropriação pelo Cristianismo do termo latino religio, o qual, até o ponto que seja possível identificar, não possuía equivalente semântico nas línguas de outras culturas fora da Europa cristã até a expansão europeia a partir do século XV. Não se tem, nem mesmo, informação de que os antigos gregos tiveram um vocábulo correspondente ao religio dos latinos.  Os chineses não conheciam nada semanticamente igual até recentemente. Julia Ching observa: “a palavra religião (Tsung-chiao) não existia no vocabulário chinês até o final do século XIX, quando foi introduzida através das traduções japonesas de obras e terminologia europeias”… “Antes disto, o costume era representar as doutrinas (Chiao) das várias linhagens intelectuais e espirituais como ensinamentos religiosos e filosóficos, uma vez que não havia clara distinção entre ambos” (Ching, 1993: 02). O mesmo aconteceu com a cultura indiana. Os indianos só vieram a conhecer a palavra religião com a chegada dos missionários cristãos durante a dominação britânica na Índia. A palavra sânscrita que mais se aproxima ao significado de religião é Dharma, porém trata-se apenas de uma aproximação semântica, uma vez que possui significados mais diversificados que o de religião e, estritamente falando, está mais para o sentido de um “modo de vida de acordo com a lei divina”. No budismo a palavra Dharma foi utilizada com outros significados, cujo mais próximo é o sentido de doutrina (para conhecer uma discussão mais aprofundada do assunto, ver: Nye, 2003: 14-5).

            Com a difusão do Cristianismo pelo Império Romano, os cristãos apropriaram da palavra religio e, primeiro Tertuliano (160-220 e.c.) e depois Lactâncio (250-320 e.c.) apontaram a origem de religio no verbo latino religare, ou seja, “religar”, argumentando que a religião é um laço que religa os seres humanos a deus. Num primeiro momento, Agostinho de Hipona (séc. IV e.c.), em seu livro A Cidade de Deus, sugeriu a derivação em reeligere, “reeleger”, alegando que através da religião a humanidade reelege de novo deus, do qual se tinha separado. Mais tarde, na obra De Vera Religione, Agostinho retoma a interpretação de Tertuliano e Lactâncio que entendiam a religião como uma relação de “religar” (Wilges, 2002: 15). Porém, alguns autores (Conte-Sponville, 2007: 22 e Taliaferro, 1998: 21-3) entendem que esta re-ligação não é no sentido do homem com deus, e sim uma ligação social entre os membros da comunidade religiosa. Esta última hipótese me parece improvável, uma vez que seria um despropósito os antigos atribuírem um sentido para a religião que não a diferenciasse de outras formas de organização comunitária. Enfim, o sentido de religar, para o verbo religare, é o mais comumente aceito, portanto o significado de religio mais utilizado pelos autores é re-ligação.

Independente da etimologia, a palavra religião (religio) foi, desde o fim da Antiguidade e pela Idade Média, gradativamente assumindo um significado tal, à medida que assimilava as características peculiares do Cristianismo ou das crenças monoteístas (Judaísmo e Islamismo). Então, conforme os cristãos foram tomando conhecimento de tradições diferentes, a denominação religião foi aos poucos sendo estendida às outras crenças. De modo que, quando da expansão colonial europeia para a África, América e Ásia, no século XV, os missionários cristãos tomaram contato e conviveram longamente com crenças, até então conhecidas apenas através de relatos de segunda mão e de informações imprecisas, algumas menos elaboradas (crenças e cultos da África e da América pré-colombiana) e outras mais sofisticadas (Budismo, Hinduísmo, Taoísmo, Confucionismo, etc.). O projeto dos missionários na ocasião, além da missão proselitista, era conhecer estas crenças e compará-las com o Cristianismo. Inicialmente, com a ausência de um nome apropriado, os missionários preservaram a denominação de religião para estas crenças, na expectativa de encontrarem nelas, com o subsequente aprofundamento do conhecimento, as mesmas características e estruturas que moldaram historicamente a religião cristã, ou seja: um livro básico e comum (tal com a Bíblia para os cristãos), uma profissão de fé (tal como um credo), uma organização central com uma hierarquia eclesiástica, um líder maior (tal como o papa), uma ênfase na ortodoxia (crença correta), uma rigorosa censura exegética (com um Índex de heresias), etc. Então, quando se começou a perceber as dimensões das diferenças entres estas doutrinas e o Cristianismo, com o aprofundamento da pesquisa, a denominação já estava tão consolidada e disseminada que não era mais possível voltar atrás. Consequentemente, cultos africanos e da América pré-colombiana, Budismo, Hinduísmo, Taoísmo, Confucionismo, Xintoísmo, Jainismo, etc., continuaram a serem reconhecidos como religião na Europa. Daí a dificuldade atual de se definir religião, pois não é um termo que se originou e se desenvolveu em contato prolongado com crenças diversificadas, mas sim no contexto de uma única tradição: a cristã, e depois se estendeu precipitadamente para a denominação de outras crenças, antes mesmo do aprofundado conhecimento das mesmas. Com isso, é estranho para um cristão conceber, por exemplo, o Confucionismo (a mais antiga e duradoura religião civil) como uma religião. Mesmo depois de percebida a inconveniência da denominação, não foi encontrado outro nome substitutivo, então o termo religião permaneceu como a denominação também para as crenças diferentes do Cristianismo. Em suma, esta denominação generalizada é uma criação dos autores cristãos, que depois foi aceita e utilizada por pesquisadores laicos, filólogos e orientalistas (William Jones, os irmãos Schlegel, Frederick M. Muller, etc.) dos séculos XVIII e XIX, naquela altura já era um caminho sem volta, o nome já tinha pegado.[2]

             Diante disto, pode-se pensar que ao invés de religião a denominação apropriada seria então crença, como sugeriram alguns. A sugestão me parece improcedente, uma vez que é preciso lembrar que a religião não é a única forma de crença existente, pois encontramos artes e tradições que têm a mesma sustentação na credulidade, mas não encerram propriedades tipicamente religiosas, dentre estas, são muito conhecidas o folclore, a astrologia, a lenda, a alquimia, o oráculo, o exorcismo, a numerologia, o I Ching, a simpatia, o xamanismo, etc. 

 

[1] O critério de abreviatura das datas aqui será o mais utilizado nos livros sobre história geral das religiões, ou seja: “a.e.c.” (Antes da Era Comum) no lugar de a.C. (antes de Cristo); e “e.c.” (Era Comum) no lugar de d.C. (depois de Cristo).

[2] Este fenômeno é tão intrigante historicamente que um autor, Ramon Sarró, escreveu um estudo com o curioso título: Como los pueblos sin religión aprenderam que ya tenían religión (Como os povos sem religião aprenderam que já tinham religião), (Dix, 2007: 14).

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