J. Krishnamurti e o Sonho Teosófico por um Instrutor Mundial

por Octavio da Cunha Botelho

Considerações iniciais

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O jovem Jiddu Krishnamurti (1895-1986), adotado e preparado pela Sociedade Teosófica para ser o Instrutor do Mundo

            Jiddu Krishnamurti foi mais conhecido, mais ouvido e mais lido nos anos 1970 e 1980, o auge da sua popularidade. Aqueles que frequentavam as livrarias naquela época lembram-se da presença em abundância de seus livros nas lojas. O número era tão grande que algumas livrarias reservavam uma prateleira exclusiva para os livros de J. Krishnamurti, com uma etiqueta de identificação do assunto com o seu nome. Até certo ponto, ele foi uma febre literária entre os jovens, sobretudo para aqueles que procuravam por uma cultura rebelde e por uma vida alternativa, durante aqueles anos iconoclastas do Movimento Contracultura. Enfim, para muitos jovens, ler Krishnamurti era sinal de intelectualidade ou de inconformidade com o sistema.

            Entretanto, estes leitores de Krishnamurti conheciam apenas as suas ideias relativas ao período posterior à ruptura com a Sociedade Teosófica, em 1929. Portanto, são muito poucos aqueles que conhecem a sua vida e a sua educação nos anos que antecederam a esta data, quando ele foi adotado pela ST e treinado para ser o Instrutor do Mundo (algo como o Messias Universal), bem como presidente da Ordem da Estrela no Oriente (OSE – Order of the Star in the East), fundada em 1911 para preparar a vinda do Instrutor do Mundo.

Recordo-me de conversar sobre este assunto com leitores de Krishnamurti, já nos anos 1990, quando ele já tinha se tornado um autor um pouco mais esquecido, que se surpreendiam com a informação de que Krishnamurti foi um teósofo e, ainda, o que era mais inacreditável para eles, de que ele foi um jovem educado para ser o Instrutor do Mundo pela Sociedade Teosófica. Em uma ocasião, durante uma conversa com um admirador de suas ideias, naquela mesma década, aquele com quem conversava duvidou tanto que exigiu que eu provasse a veracidade da minha informação. Enfim, muitos são os que conhecem o pensamento de J. Krishnamurti que está em seus livros (muitos deles são reproduções de suas palestras), porém poucos são aqueles que conhecem o seu contrastante passado, como um jovem em preparação para ser o Instrutor do Mundo pela Sociedade Teosófica, e este período inicial da sua vida será o assunto do estudo seguinte.

A infância de Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

            Ele nasceu em maio de 1895, em uma pequena cidade no sul do estado de Andhra Pradesh, Índia, conhecida por Madanapalle, cerca de cento e cinquenta milhas ao norte de Chennai (antiga Madras). Por ser o oitavo filho, então, segundo a tradição hindu, recebeu o nome de Krishnamurti (o deus Krishna foi o oitavo filho de Devakī). Seu pai, Narianiah, era funcionário público e constantemente era transferido de uma cidade para outra, o que prejudicava a educação escolar dos filhos. Narianiah se casou com uma prima de segundo grau chamada Sanjivamma, o casal teve onze filhos, dos quais apenas seis sobreviveram à infância, o caçula era retardado. No dia seguinte ao seu nascimento, Krishnamurti foi levado, em cumprimento ao antigo e supersticioso costume hindu, para que fosse traçado o seu horóscopo. O astrólogo previu que ele seria um homem importante, quem ele na verdade foi, mas, o astrólogo não previu o tamanho do desastre que esta sua importância provocaria na Sociedade Teosófica, de modo que, melhor seria, se ele não tivesse sido importante. A família alternou melhores e piores momentos financeiros.

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J. Krishnamurti (dir.), seu irmão Nityananda e Annie Besant, em Londres, 1911.

           Jiddu Krishnamurti pertenceu a uma família de brâmanes, a qual lhe conferiu todos os ritos religiosos da infância. Aos dois anos de idade, ele contraiu malária tão fortemente, que a sua família chegou a pensar que ele não sobreviveria. Durante a infância, ele experimentou, por muitos anos, surtos de febre e também de sangramento no nariz, enfim, sua saúde era frágil. Aos seis anos de idade, ele recebeu a iniciação Upanayana, a investidura do fio sagrado, ou seja, a cerimônia que inicia a educação da criança hindu. Os seus biógrafos observam que ele, desde a sua infância até o fim de sua vida, foi uma pessoa muito generosa. Seu laço com o irmão três anos mais jovem, Nityānanda, foi tão forte que o abalou com sua morte prematura em novembro de 1925. Biógrafos apontam este evento como um dos motivos que levou Krishnamurti a refletir, mais profundamente, sobre a sua artificial posição de Instrutor do Mundo. Sobre os dois irmãos inseparáveis, Mary Lutyens observou: “Nityānanda era tão atento quanto Krishnamurti era distraído e sonhador” (Lutyens, 1975: 09). Esta mesma importante biógrafa de Krishnamurti também observa: “As constantes transferências de Narianiah, como também os surtos de febre de Krishnamurti, interrompiam a educação do menino (durante um ano inteiro efe foi incapaz de ir à escola), de maneira que ele ficou para trás em relação aos outros meninos da sua idade. Ainda mais, ele odiava livros e era tão sonhador quanto a parecer às vezes que era mentalmente retardado” (idem: 10). Ele próprio registrou em suas memórias da infância: “Eu não posso dizer que eu era particularmente feliz na escola, pois os professores não eram muito amáveis e me davam lições que eram difíceis para mim. (…) Eu tinha uma saúde muito delicada” (idem: 11). Diante disto e do que será tratado mais adiante (ele sempre foi mal nos estudos e não conseguiu entrar para a Faculdade), parece que Krishnamurti tinha um QI abaixo daquele das crianças normais.

            A infância de Krishnamurti não foi das mais felizes. Fora outros pequenos infortúnios, sua irmã mais velha, de apenas vinte anos de idade, faleceu em 1904. O evento foi traumático para ele e para sua mãe, ao ponto de ambos experimentarem momentos de alucinação, através do que a família considerava ser visões psíquicas. Em um texto sobre suas memórias da infância, escrito quando ele tinha dezoito anos, Krishnamurti registrou que sua irmã costumava aparecer, depois de morta, em um local especial no jardim de sua casa. “Minha mãe sabia sempre quando minha irmã estava lá e algumas vezes me levava até o local, e me perguntava se eu também via minha irmã. No princípio eu ria com a pergunta, mas ela me pedia para olhar novamente e então eu algumas vezes via minha irmã. Depois, eu pude ver sempre minha irmã”. E acrescentou: “Minha mãe era capaz de ver as auras das pessoas e eu também algumas vezes a via” (Lutyens, 1975: 10; ver também: Jayakar, 1989: 14).

            Para piorar o infortúnio, a sua mãe faleceu em dezembro de 1905, quando Krishnamurti tinha apenas dez anos de idade. Com este novo trauma acrescido, o transtorno aumentou e, consequentemente, as alucinações se tornaram ainda mais psicóticas. Ele registrou em suas memórias: “Com relação à morte de minha mãe, eu devo mencionar que eu frequentemente a via após a sua morte. Eu me lembro uma vez seguindo o vulto de minha mãe quando ela subia as escadas. Eu estiquei a minha mão que pareceu tocar o seu vestido, mas ela desapareceu tão logo ela alcançou o topo da escada. Até pouco tempo atrás, eu costumava ouvir minha mãe me seguindo quando eu ia para a escola. Eu me lembro particularmente disto, porque eu ouvia o som das pulseiras que as mulheres indianas usam em seus pulsos” (Lutyens, 1975: 11; ver também: Jayakar, 1989: 14). Seu pai, Narianiah, confirmou que Krishnamurti tinha visões de sua falecida mãe. Uma vez ele “disse que sua mãe estava com ele no quarto”. Em outra ocasião ele disse assim; “minha mãe está retirando sua roupa molhada e colocando roupas secas” E em outra ocasião “ele disse que sua mãe estava comendo” (Lutyens, 1975: 11).

            Enfim, é este jovem traumatizado, dotado de uma mente lerda e de um corpo débil, que será escolhido para ser, nada menos, que o veículo do Instrutor do Mundo, isto é, o primeiro instrutor que viria para ser o guia espiritual de toda a humanidade. Ou seja, sua missão seria trazer uma mensagem universal, e não uma mensagem particular para um único povo, tal como fizeram os tantos outros instrutores religiosos do passado.

A clarividência de C. W. Leadbeater (1847-1934)

            Segundo a doutrina teosófica, o governo supremo do mundo é formado por uma hierarquia de seres de elevadíssima espiritualidade, conhecida pelos teósofos por Grande Fraternidade Branca. Um destes grandes seres é o senhor Maitreya, o Instrutor do Mundo, o Cristo para os ocidentais. Na revelação teosófica, ele já assumiu corpos físicos, a fim de trazer ao mundo um novo ensinamento em um momento de necessidade. O primeiro foi Krishna e depois foi Jesus. Antes de morrer em 1891, Helena P. Blavatsky tinha anunciado que o senhor Maitreya, uma vez mais, assumiria um corpo humano e revelaria uma nova mensagem ao mundo. Diferente de outros instrutores do passado, que vieram para instruir apenas um povo, esta próxima vinda do senhor Maitreya seria para instruir, pela primeira vez na história humana, toda a humanidade, por isso viria com o título de Instrutor do Mundo.

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Charles W. Leadbeater (1847-1934), o descobridor de J. Krishnamurti (Alcyone) em 1909.

            No relato dos teósofos, enquanto isto, ele vivia nos Himalaias, em uma casa com um jardim maravilhoso, bem perto dos mestres Morya e Koot Hoomi, em um corpo da raça celta, com cabelo e barba de cor vermelha e olhos de cor violeta. O corpo humano que ele escolheria, quando chegasse a hora de vir ao mundo, teria de ser suficientemente sensível para ele ser capaz de atuar através deste corpo humano, portanto um ser humano bem-dotado fisicamente e mentalmente, e ainda nem tão sensível quanto o corpo que ele usava no Tibete, o qual não poderia sobreviver, por muito tempo, no barulho e no estresse de uma cidade (Lutyens, 1975: 14-5). Em 1889, Madame Blavatsky tinha dito, para um grupo de teósofos, que o real propósito de fundar a Sociedade Teósofica foi o de preparar a humanidade para a vinda do Instrutor do Mundo (o Messias Universal), quando ele aparecesse novamente na Terra. Isto foi ainda mais publicamente repetido por Annie W. Besant em 1896, cinco anos após a morte de Blavatsky. Os teósofos também acreditavam que em cada era um grande mestre religioso aparecia para anunciar uma nova sub-raça. Desta vez deveria ser a sexta sub-raça da quinta raça raiz. Em 1909, durante uma palestra pública em Chicago, ela falou sobre o tema “A Próxima Raça e o Próximo Instrutor”. A. Besant anunciou: “nós o aguardamos aparecer no mundo ocidental desta vez, não no Oriente, tal como fez Cristo, dois mil anos atrás” (idem: 15).

            Por trás deste anúncio, um adolescente de treze anos de idade, Hubert van Hook, filho de Weller van Hook de Chicago, Secretário Geral da Sociedade Teosófica nos EUA, já tinha sido escolhido como o Instrutor do Mundo. Entretanto, sem o conhecimento de A. Besant, seu companheiro mais próximo, Charles W. Leadbeater (1847-1934), já tinha escolhido um outro jovem para o veículo do senhor Maitreya. Então, em razão disto, Hubert foi em seguida abandonado. C. W. Leadbeater nasceu no mesmo ano de A. Besant, 1847, porém entrou para a Teosofia cinco anos antes. Pouco se conhece do começo da sua vida, exceto que, ainda garoto, viveu no Brasil, onde seu pai trabalhou na construção de uma ferrovia e levou uma vida de aventuras, durante o período em que seu pai faleceu e seu irmão mais jovem foi assassinado por bandidos. Ao retornar para a Inglaterra, ele entrou para a Universidade de Oxford, mas logo foi obrigado a abandoná-la, em 1866, pois o banco no qual a sua família tinha investido todo o dinheiro faliu. Então, em seguida, ele entrou para a vida religiosa e se tornou vigário. Seu interesse pelo ocultismo o levou à Sociedade Teosófica em 1883. Quando conheceu pessoalmente Helena P. Blavatsky, abandonou a igreja e a seguiu para a Índia. Com o tempo, C. W. Leadbeater ficou conhecido e respeitado entre os membros da ST por seus poderes clarividentes.

            Em 1895, ele e Besant realizaram pesquisas clarividentes sobre o cosmos, sobre o começo da humanidade e sobre química oculta. Eles frequentemente visitavam os Mestres (Mahātmas) através de seus corpos astrais. Durante estas investigações alucinadas, eles se convenceram de que eram capazes de ver as vidas passadas de alguns dos seus devotados discípulos, bem como as suas próprias vidas, momento em que eles afirmaram ter descoberto o quanto eles (Besant, Leadbeater e os discípulos) tinham tido relacionamentos bem próximos nas encarnações passadas, então eles começaram a traçar mapas destas vidas passadas. O resultado destas investigações delirantes foi a publicação de Man: Whence, How and Whither, A Record of Clairvoyant Investigation (O Homem: de Onde Veio, Como Veio e Para Onde Vai, Um Registro de Investigação Clarividente) em 1913, talvez o livro mais exagerado, fantasioso e fictício publicado até hoje pelos esoteristas. Esta fantastiquice revelou mirabolantemente as muitas vidas passadas de um grande número de pessoas, iniciando no ano 70 mil a.e.c., as quais são denominadas segundo o nome das almas re-encarnantes, que misturam nomes das mitologias hindu, grega e romana. Por exemplo, o nome da alma de H. P. Blavatsky é Vajra, o nome da alma de Charles W. Leadbeater é Sirius, o de Annie Besant é Hércules, o de Jesus é Brhaspati, o do mestre Koot Hoomi é Mercúrio, o do coronel H. S. Olcott é Ulisses, o do filósofo grego Platão é Palas, o do imperador Júlio Cesar é Corona, o do sábio chinês Lao tzu é Lira e, por fim, o de J. Krishnamurti é Alcyone (Besant, 1947: 05-8). Então, segundo esta investigação delirante, o coronel Henry S. Olcott, um dos fundadores da Sociedade Teosófica, foi em uma de suas encarnações anteriores o importante imperador Ashoka, o grande patrono do Budismo no século III a.e.c., responsável por levar a doutrina budista para todas as partes da Índia e para o exterior.

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Nos momentos desocupados, J. Krishnamurti apreciava dirigir a sua motocicleta.

            Na esteira desta mesma fantastiquice, A. Besant e C. W. Leadbeater publicaram outro trabalho mirabolante denominado The Lives of Alcyone (As Vidas de Alcyone), onde são relatadas as 48 vidas passadas de Alcyone (Krishnamurti), com as datas em que viveram, começando também em 70 mil anos atrás, informando, com requintes de precisão, o local onde viveram, o sexo, os nomes dos pais, dos irmãos, das irmãs, dos avós e do cônjuge (Besant, 1924: 39-41). A 49ª encarnação foi, claro, Jiddu Krishnamurti.

Agora, colocando os pés no chão e a cabeça no lugar, a data de 70 mil anos atrás corresponde ao período do predomínio dos neandertais sobre a Terra, segundo as atuais datações paleoantropológicas. Portanto, não existia ainda, naquela época remota, rapaz “com nariz aquino e com olhos brilhantes – semelhante ao tipo mais aristocrático entre os árabes e os patamos” (Besant, 1924: 43; para aprofundamento, consultar: Botelho, 2015: 151-78), ou seja, um anacronismo antropológico. Segundo a cronologia do livro, a última encarnação de Alcyone, antes de Krishnamurti, ou seja, a 48ª, foi em um indivíduo de sexo masculino, que viveu na cidade de Kanauj, Índia, no ano de 624 e.c., o nome de seu pai foi Aut e de sua mãe Irene (idem: 41), agora, o intrigante é que estes não são nomes indianos.

O Escândalo Leadbeater (A Masturbação na Disciplina Esotérica)   

            Charles W. Leadbeater construiu para si mesmo, com o tempo, uma grande reputação dentro da Sociedade Teosófica como escritor, orador, clarividente e mestre, particularmente, de pequenos grupos de rapazes, os quais o acompanharam em viagens pelos EUA e Canadá, em 1904, e pela Austrália em 1905, sendo alguns alunos ingleses e outros arrebanhados na América. Porém, logo começou a circular rumores sobre os relacionamentos afetuosos entre C. W. Leadbeater e seus jovens alunos. Ao ouvir tais rumores, o importante teósofo, A. P. Sinnett, suspeitando de seus instintos pedófilos, retirou imediatamente o seu filho dos cuidados de Leadbeater. Em 1906, após o retorno à Inglaterra, o filho de 14 anos de idade do Secretário da Seção Esotérica em Chicago, quem Leadbeater tinha levado com ele para São Francisco, confessou aos pais que “Leadbeater o tinha encorajado no hábito da masturbação” (Lutyens, 1975: 17). Quase simultaneamente, o filho de outro teósofo em Chicago denunciou a mesma prática ensinada por Leadbeater. A alegação deste último era a de que a masturbação era melhor do que o envolvimento com prostitutas, bem como o cultivo de fantasias eróticas (idem: 17).

Então, uma comissão foi formada pelo Comitê Executivo da Seção Americana da Sociedade Teosófica e enviada para Londres a fim de colocar o assunto diante do coronel H. S. Olcott, então presidente, quem não teve outra alternativa senão convocar Leadbeater para responder às acusações. Antes mesmo de ser expulso da Sociedade, C. W. Leadbeater entregou a sua carta de renúncia da sua filiação, a fim de evitar publicidade para o escândalo, após 22 anos de trabalho para a Sociedade (idem: 18). Porém, ele retornaria alguns anos mais tarde, pois era “unha e carne” com Annie Besant, sucessora de H. S. Olcott na presidência da Sociedade. Annie Besant, a princípio ficou chocada e confusa, chegando a se voltar contra Leadbeater. O conflito dela era que, se um dos pré-requisitos para a iniciação é a absoluta pureza sexual, então se Leadbeater era impuro, não poderia ser um iniciado. E se ele não era um iniciado, suas visões devem ter sido ilusões (idem: 18). Este foi o seu conflito logo após o escândalo, o qual não duraria muito tempo, logo em seguida ela retornaria às mesmas ideias anteriores ao escândalo e se reaproximaria de Leadbeater.

A descoberta de Jiddu Krishnamurti (Alcyone)

Perdoado de seu mal feito, C. W. Leadbeater retornou à Adyar em fevereiro de 1909, para residir no mesmo pavilhão onde residiu antes do seu afastamento da ST, ele estava com 61 anos de idade. O pai de Krishnamurti, Narianiah, tinha se mudado, com toda a família, para residir em uma pequena cabana no lado de fora do complexo da ST. A família já era conhecida de alguns membros, os quais até auxiliavam os filhos de Narianiah, sobretudo Krishnamurti e seu irmão mais jovem Nitya, nas lições da escola. Eles costumavam se banhar nos fins de tarde no rio Adyar. Mary Lutyens relatou assim a descoberta de J. Krishnamurti (Alcyone) por C. W. Leadbeater: “Uma tarde, Leadbeater foi com seus ajudantes banhar e no retorno para o bangalô disse a E. Wood que um dos rapazes na praia tinha a aura mais maravilhosa que ele jamais viu, sem uma partícula de egoísmo nela. Wood expressou grande surpresa ao ser informado de que este rapaz era Krishnamurti, pois tenho lhe auxiliado com as lições da escola, ele o considerava ser particularmente estúpido. Leadbeater, inabalado, previu que um dia aquele rapaz se tornaria um mestre espiritual e um grande orador” (Lutyens, 1975: 21; ver também Jayakar, 1989: 16). A exata data do primeiro encontro de Leadbeater com Krishnamurti (Alcyone) é incerta, parece que ninguém anotou, porém deve ter acontecido logo após 22 de abril de 1909.

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J. Krishnamurti com seus tutores Charles W. Leadbeater e Annie Besant.

Não pode ter sido a aparência externa o que impressionou Leadbeater, pois “fora seus olhos maravilhosos, ele não era atraente de modo algum naquela época. Ele era subnutrido, magricelo e sujo, suas costelas podiam ser vistas através de sua pele e tinha persistentes ataques de tose; seus dentes eram tortos e ele usava o seu cabelo no estilo brâmane do sul da Índia, raspado na frente até a coroa da cabeça, caindo até abaixo dos joelhos em forma de rabo de cavalo; também a sua expressão vaga dava-lhe uma aparência de débil mental. As pessoas que o conheceram, antes da sua descoberta por Leadbeater, diziam que havia pouca diferença entre ele e seu irmão caçula Sadanand, que era retardado. Ainda mais, de acordo com E. Wood, ele era tão extremamente fraco que seu pai declarou, mais de uma vez, que ele estava destinado a morrer” (idem: 22). Enfim, uma pessoa nestas condições só podia ter beleza interior, mais nada.

Logo após encontrar Krishnamurti (Alcyone) pela primeira vez, Leadbeater revelou para E. Wood que o rapaz deveria ser o veículo para o Senhor Maitreya “a menos que alguma coisa desse errado” e que ele, Leadbeater, tinha sido instruído para ajudar a treiná-lo para aquele propósito. Leadbeater também revelou para outro teósofo, Mr. R. B. Clarke, que o mestre Koot Hoomi tinha lhe informado que “há um propósito para que aquela família (a de Krishnamurti/Alcyone) estar lá e que ambos os rapazes (Krishnamurti e Nitya) passarão por treinamento…” (idem: 22).

A Ordem da Estrela no Oriente (1911-1927)

            Diante da expectativa da vinda do Instrutor do Mundo, a primeira ordem a ser fundada foi a Ordem do Sol Nascente (Order of the Rising Sun), em 1910, logo após a publicação do livro Aos Pés dos Mestres (At the Feet of the Master), de autoria de Alcyone (J. Krishnamurti), o aguardado Instrutor do Mundo. No ano seguinte, 1911, o nome desta ordem foi alterado para Ordem da Estrela no Oriente, a qual funcionou até 1927, ano em que foi abreviado o nome para Ordem da Estrela, a qual foi extinta em 1929, com o rompimento de J. Krishnamurti. Este último obviamente foi apontado o seu líder, com outros teósofos ocupando outras posições. A filiação estava aberta a qualquer um que aceitasse a doutrina da vinda do Instrutor do Mundo. Muitos membros históricos e importantes se filiaram à Ordem, a qual no auge da divulgação chegou a somar cerca de 40 mil membros espalhados pelo mundo afora.

            Alguns boletins oficiais da Ordem foram publicados, sendo o de vida mais longa o The Herald of the Star (O Arauto da Estrela), o qual funcionou de 1914 a 1927 em Londres. J. Krishnamurti (Alcyone) foi seu editor. Portanto, o programa da Ordem da Estrela no Oriente envolvia a realização de palestras, reuniões, publicação de textos em boletins e revistas teosóficas, bem como a publicação de livros sobre a preparação da vinda do Instrutor do Mundo. A Ordem da Estrela foi definitivamente extinta com a ruptura de J. Krishnamurti com a Sociedade Teosófica, em agosto de 1929, tal como veremos mais adiante. Apesar do entusiasmo dos teósofos, a Ordem da Estrela no Oriente foi marcada por constantes controvérsias e por conflitos tanto dentro da Sociedade Teosófica, quanto fora dela nos círculos hindus e na imprensa indiana.

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Reunião de membros da Ordem da Estrela no Oriente com A. Besant e J. Krishnamurti ao centro.

            Em 1912, o pai de J. Krishnamurti, Narianiah, processou A. Besant, a fim de anular a guarda de seu filho, a qual tinha sido obtida na Justiça pela presidente da Sociedade Teosófica. Entre as justificativas, estava a objeção à deificação de Krishnamurti, em virtude do anúncio por A. Besant de que ele era o Instrutor do Mundo, com isso muitos estavam prostrando diante dele. A. Besant finalmente venceu a ação judicial e permaneceu com a guarda e a tutela de Krishnamurti e de seu irmão Nitya. Também, em 1912, a maioria dos membros da Seção Alemã da Sociedade Teosófica, liderada por Rudolf Steiner, um dos membros mais importantes da Europa na ocasião, se separou da Sociedade Mãe de Adyar, a fim de fundar a Antroposofia, em parte devido às proclamações de A. Besant e de C. W. Leadbeater sobre a posição messiânica de J. Krishnamurti.

Aos Pés do Mestre

            Mencionamos acima que J. Krishnamurti (Alcyone) deixou muitos escritos em revistas e boletins. Dentre as publicações do período teosófico, aquela que ficou mais conhecida foi o livreto At the Feet of the Master (Aos Pés do Mestre), compilado no outono e no inverno de 1909, portanto no mesmo ano da sua descoberta por C. W. Leadbeater naquela praia em Adyar. Ele tinha apenas 14 anos de idade e seu conhecimento da língua inglesa ainda era muito precário. O livro foi publicado em 1910. Em razão do fato acima, fortes suspeitas são levantadas quanto à verdadeira autoria da obra, céticos suspeitam que C. W. Leadbeater foi o verdadeiro autor. A publicação despertou o entusiasmo de muitos teósofos. Por exemplo, George S. Arundale, autor de um comentário sobre Aos Pés do Mestre, proclamou o seguinte entusiasmo delirante na introdução: “De muitas maneiras, o pequeno livro que nós iremos estudar juntos é a mais importante dádiva que o mundo tem recebido por centenas de anos…” (Arundale, 1919: 05).

            O livreto é uma exposição de quatro regras morais: Discriminação, Desinteresse, Boa Conduta e Amor, reproduzido em uma linguagem tão simplória que até parece um texto de catecismo para crianças. Nada é desconhecido para aquele com uma razoável formação moral. Agora, o mais espetacular é a maneira oculta, pela qual a mensagem do livreto foi enviada através do plano astral, tal como revelada no comentário de G. S. Arundale. Os teósofos acreditam que enquanto alguém dorme o seu corpo astral está tralhando. Sendo assim, Aos Pés do Mestre foi escrito com o auxílio do corpo astral de Krishnamurti (Alcyone) enquanto ele dormia. Annie W. Besant escreveu no prefácio de Aos Pés do Mestre: “Marcado por um destino especial, ele (Krishnamurti) é privilegiado por receber instruções diretas dos lábios do Mestre, e ele escrevia cada manhã as frases que resumiam e expressavam os ensinamentos que ele recebia durante a noite” (Arundale, 1919: 06). A justificativa para a linguagem tão simplória do livreto é feita assim por G. S. Arundale: “A linguagem, como será notada, é muito simples, pois o Mestre estava, neste caso, se dirigindo a um cérebro físico que era ainda muito jovem, e assim foi muito cuidadoso com os termos que o jovem cérebro pudesse recordar e entender no próximo dia” (idem: 06).

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J. Krishnamurti (dir.) com seu irmão Nityananda, a morte deste último em 1925 o abalou profundamente.

            A maneira pela qual Alcyone (Krishnamurti) recebia os ensinamentos do mestre Koot Hoomi era ocultamente fantástica. Veja o relato de George S. Arundale: “Provavelmente o Mestre se retirava para dormir cedo, pois ele podia usar todos os seus corpos perfeitamente, e por isso, funcionava tão facilmente fora do corpo físico como dentro do corpo físico (…). Então, se Alcyone não estivesse na casa do Mestre até talvez nove horas ou até mesmo mais tarde, o ensinamento seria dado pelo Mestre em um corpo sutil e, lógico, seria recebido por Alcyone astralmente, isto é, no plano astral” (idem: 06-7). Os poderes do Mestre eram quase ilimitados: “Para o Mestre, todos os planos são igualmente acessíveis, embora desperto e seu plano físico, ele podia ver e conversar com Alcyone através do plano astral, como também ele podia simultaneamente ver e conversar com qualquer um no plano físico” (idem: 07). Segundo este mesmo autor, o Mestre percebia o plano astral tão vivamente quanto o plano físico: “… nosso Alcyone astral seria tão real para ele (o Mestre) como, talvez até mais real que, qualquer objeto físico…” (idem: 07).

            Tal como já mencionamos, os ensinamentos do livreto Aos Pés do Mestre foram escritos, segundo acreditavam os teósofos, através das viagens astrais de Alcyone (Krishnamurti) até a residência do mestre Koot Hoomi em Shigatse, no Tibete, durante a noite. G. S. Arundale informou também que Annie Besant e C. W. Leadbeater também realizavam frequentes viagens astrais até a residência do Mestre. “Noite após noite, os corpos físicos ficavam adormecidos enquanto seus donos viajavam sobre os picos nevados dos Himalaias até a residência de seus mestres. Uma longa viagem que levaria muitos dias se o corpo físico tivesse de realizar a viagem, mas quase tão rápida quanto o pensamento para os habitantes do plano astral”. Quanto à instrução de Alcyone através do plano astral, enquanto dormia, ele descreveu: “Provavelmente, o ensinamento não tomava muito tempo, cerca de quinze minutos, mais ou menos, quando os alunos do Mestre eram dispensados, o restante da noite seria preenchido com toda a espécie de experiência útil no treinamento do corpo astral de Alcyone e de outros corpos para o futuro. Por volta das 5:30 horas na manhã, o corpo físico de Krishnamurti (Alcyone) era despertado, e após um banho, refeição, então exercícios e estudo, Alcyone ia até o quarto de A. Besant, sentava à mesa na varanda. Aí ele escrevia muito cuidadosamente sozinho sobre aquilo que ele tinha sido instruído pelo Mestre (durante o sono). Assim ‘Aos Pés do Mestre’ veio gradativamente a ser escrito” (Arundale, 1919: 08).

            Certamente, os leitores não familiarizados com a literatura teosófica ou espírita ficarão impressionados com a maneira espetacularmente fantástica pela qual este livreto foi escrito, pois para eles parecerá relatos mitológicos. Portanto, fortes suspeitas pairam sobre estes eventos fabulosos que envolveram a preparação do livreto e, ainda o que é mais duvidoso, se foi mesmo o adolescente J. Krishnamurti quem escreveu o mesmo, o qual possuía ainda um precário conhecimento da língua inglesa na ocasião, segundo testemunhas contemporâneas. A veracidade da fantastiquice destes relatos seria confirmada, anos mais tarde, com a dissolução da Ordem da Estrela, da qual ele era o líder, bem como a renúncia ao papel de Instrutor do Mundo, tal como planejado pela Sociedade Teosófica e seu consequente rompimento com a mesma, em função da radical mudança em sua visão de mundo.

O rompimento: “A verdade é uma terra sem um caminho”

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Após o rompimento com a ST, Krishnamurti tornou-se um ativo palestrante autônomo.

            À medida que J. Krishnamurti ia sendo preparado e educado para ser o Instrutor do Mundo, paralelamente, crescia em seu íntimo um descontentamento com aquela situação a qual, aos poucos, transformava a sua visão de mundo. Novas ideias apareceram em suas palestras, em suas discussões e mais explicitamente, em suas correspondências, juntamente com um novo vocabulário que se tornava, cada vez mais, livre da terminologia teosófica. Este desenvolvimento alcançou o seu auge em 1929. Ele afirmou que tinha tomado a sua decisão após “cuidadosa consideração” durante os dois anos anteriores. Contribuiu também sobremaneira para esta decisão, o falecimento de seu irmão mais jovem, Nitya, em 1925, a quem ele era muito apegado, deixando-o muito amargurado. Então, oficialmente, durante uma grande reunião (Star Camp) da Sociedade Teosófica, em Ommen, na Holanda, em 02 de agosto de 1929, na presença de A. Besant e de cerca de três mil membros da Ordem da Estrela e com mais de mil ouvintes pelo rádio, J. Krishnamurti anunciou a dissolução da Ordem da Estrela, através de um discurso bombasticamente antiteosófico e antirreligioso. Este discurso histórico ficou conhecido como “A verdade é uma terra sem um caminho”.  Abaixo um resumo deste pronunciamento.

“Eu sustento que a verdade é uma terra sem um caminho, e você não consegue se aproximar dela por qualquer caminho, por qualquer religião, por qualquer seita. Este é o meu ponto de vista e eu me prendo a isto absolutamente e incondicionalmente. A verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inapropriada por qualquer caminho, não pode ser organizada, nem deve qualquer organização ser formada para conduzir ou coagir as pessoas por um caminho particular…. Este não é um ato grandioso, porque eu não quero seguidores e falo sério. A partir do momento que você segue alguém, você cessa de seguir a Verdade. Isto é o que todos no mundo estão tentando fazer. A Verdade é reduzida e transformada em um brinquedo para aqueles que são fracos, para aqueles que estão apenas momentaneamente descontentes. Eu não importo se você presta atenção ou não ao que eu digo. Eu quero fazer uma certa coisa no mundo e eu vou fazê-la com uma determinação inabalável. Eu estou interessado em somente uma coisa essencial: livrar o homem. Eu desejo livrá-lo de todas as prisões, de todos os temores e não fundar religiões, novas seitas, nem criar novas teorias e novas filosofias”. A reprodução completa deste discurso pode ser encontrada no livro J. Krishnamurti: The Years of Awakening, p. 196-8 (Eletronic Edition).

Os efeitos deste rompimento foram devastadores para a Sociedade Teosófica, pois muitos importantes membros antigos e históricos se afastaram da mesma, em virtude da decepção. A Sociedade nunca mais voltaria a ser a mesma em popularidade e prestígio, tal como foi antes deste episódio.

 A partir daí, J. Krishnamurti viveu uma vida autônoma de palestrante, sobreviveu, em grande parte, da renda da venda de seus livros, a maioria reprodução de suas palestras. Um dos seus livros mais vendidos é The First and the Last Freedom (A Primeira e a Última Liberdade). Nunca fundou uma religião ou procurou arrebanhar seguidores. Suas ideias do período pós rompimento contrastam frontalmente com aquelas que lhe foram infundidas, pela Sociedade Teosófica, no período em que foi educado para ser o Instrutor do Mundo. Alcançou o auge da sua popularidade nos anos 1970 e 1980, quando foi lido por muitos jovens pela mundo afora. Faleceu em 17 de fevereiro de 1986 aos 90 anos de idade.

Obras consultadas

ALCYONE (Krishnamurti). At the Feet of the Master. Chicago: The Rajput Press, 1911.

ARUNDALE, George S. Thoughts on “At the Feet of the Master”. Los Angeles: Theosophical Publishing House, 1919.

BESANT, Annie and C. W. Leadbeater. Lives of Alcyone. Eletronic Edition, 1924.

_______________________________ Man: Whence, How and Whither, A Record of Clairvoyant Investigation. Wheaton: The Theosophical Press, 1947.

BOTELHO, Octavio da Cunha. Os Exageros na Recenticidade ou na Antiguidade das Datações da Criação pelos Religiosos em 40 Anos de Estudos Religiosos: Volume IV – Islamismo e Miscelânea. São Paulo: AgBook, 2015, p. 151-78.

GOODRICK-CLARKE, Nicholas. The Western Esoteric Traditions: A Historical Introduction. New York/Oxford: Oxford University Press, 2008.

JAYAKAR, Pupul. Krishnamurti: Biografía. Buenos Aires: Editorial Kier, 1989.

LUTYENS, Mary. J. Krishnamurti: The Years of Awakening. Eletronic Edition: 1975.

MURDOCH, J. The Theosophic Craze, Its History: The Great Mahatma Hoax. Madras; The Christian Literature Society, 1894.

SANTUCCI, James A. Theosophy and the Theosophical Societies em Odd Gods: New Religions and The Cult Controversy. James R. Lewis (ed.). Amherst: Prometheus Books, 2001, p. 270-89.

__________________ The Theosophical Society em Controversial New Religions. James R. Lewis (ed.). New York/Oxford: Oxford University Press, 2004, p. 259-94.

 

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