“A Tentação”, Quando o Vilão é um Cristão

por Octavio da Cunha Botelho

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Gavin (Charlie Hunnam) prepara-se para o suicídio enquanto o detetive Hollis (Terrence Howard) tenta dissuadi-lo em “A Tentação” (The Ledge, 2011).

           Para o espectador entediado de assistir aos tantos filmes onde a moral e os valores cristãos protagonizam os enredos, a sugestão é o drama, com episódios de suspense, do roteirista e diretor ateu Matthew Chapman, A Tentação (The Ledge, 2011). Recheado de bons atores tais como Charlie Hunnam, no papel do ateu convicto Gavin Nichols, Terrence Howard, na pele do detetive católico Hollis Lucetti, Patrick Wilson, que vive o cristão fanático Joe, Liv Tyler, sua meiga e submissa esposa Shana e Christopher Gorham, no papel do judeu homossexual Chris, este drama/suspense contraria tudo o que temos visto até hoje de exaltação religiosa nos filmes, uma vez que o herói é um ateu racional e o vilão é um cristão fervoroso.

            Tendo como ponto forte o bom desempenho dos atores, nenhum dos protagonistas está com a vida arrumada, pois todos estão consertando suas vidas. Gavin (Charlie Hunnam) há dois anos tenta se recuperar do trágico abandono por sua esposa, Joe (Patrick Wilson) buscou refúgio na religião após a traumática separação do seu primeiro casamento, Shana (Liv Tyler), uma ex-drogada e ex-prostituta que foi salva desta vida vil por Joe, e Hollis (Terrence Howard), um detetive que descobre recentemente que sempre foi estéril, portanto seus dois filhos não são seus, com isso não sabe como se relacionar com a esposa daí em diante.

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Gavin (esq.), um ateu convicto, se envolve em calorosas discussões com Joe, um cristão fervoroso, sobre fé e ateísmo.

            O drama começa com Gavin na beira do terraço de um edifício tentando o suicídio, enquanto o detetive Hollis tanta dissuadi-lo, argumentando que ele, no fundo, não deseja fazer aquilo, pois percebe nele um homem inteligente, bem sucedido e sem mancha de depressão em sua personalidade. Gavin contra argumenta dizendo que não é que ele deseja fazer aquilo, mas que ele precisa fazer aquilo. O motivo pelo qual Gavin é obrigado a se atirar do prédio só é revelado no final do filme. Daí em diante o filme é intercalado por sucessivos flashbacks, contando a história que motiva Gavin a estar naquele terraço tentando se matar.

            Tudo começa quando Shana procura o hotel onde Gavin é gerente para conseguir um emprego. Ele a contrata e descobre que ela reside no andar de baixo do mesmo prédio do seu apartamento. Ele se interessa pela bela Shana desde o primeiro encontro. Então, quando Shana descobre que Gavin reside no mesmo prédio, aparece, com seu marido Joe, em sua porta convidando-o para jantar com eles, em agradecimento pela sua contratação. Gavin aceita o convite e comparece no jantar acompanhado de seu companheiro de apartamento, Chris, que é gay. Ao pensar que ambos formam um casal homossexual, Joe, um cristão fervoroso e pregador compulsivo, inicia uma tentativa de convencê-los a passar por um tratamento de recuperação em sua igreja. Gavin, que não é gay, se enfurece com a ofensa e se retira imediatamente da sala, a fim de retornar para o seu apartamento, o mesmo faz Chris logo em seguida.

            Na manhã seguinte Gavin encontra-se com Joe na portaria do prédio, ocasião na qual ambos se desculpam mutuamente pelas indelicadezas da noite anterior. Após uma rápida discussão sobre fé e ateísmo, eles decidem por uma reunião para discutir assuntos religiosos. O encontro acontece no apartamento de Joe, alguns dias depois, porém, desta vez, acompanhada de uma acalorada discussão sobre religião e descrença, quando Joe pergunta se Gavin é capaz de morrer por sua convicção. Então, Gavin percebe o grau de fanatismo de Joe. Paralelamente às discussões, Gavin cada vez mais se aproxima de Shana, encantado com sua beleza e com o seu charme, tentando lhe seduzir, seus encontros são cada vez mais frequentes e mais longos. A bela Shana, aos poucos, não resiste à tentação e se envolve em um romance paralelo com Gavin. Joe, o marido autoritário de Shana, desconfia do caso e passa a seguir seus passos. Então, ele logo descobre que ambos se encontravam secretamente no hotel onde trabalhavam. Daí, a reação do inconformado e fanático Joe é o motivo que leva Gavin a subir no terraço de um prédio para suicidar-se, porém a natureza desta reação só é revelada no final do filme.

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Shana (Liv Tyler), esposa do fanático cristão Joe, sucumbe à sedução do ateu Gavin e inicia um romance secreto.

            Apesar da superficialidade, pois ambos não são doutores em assuntos religiosos ou seculares, as discussões são capazes de mostrar ao espectador o quanto é difícil discutir sensatamente com um religioso fanático. Também, a cena quando Gavin seduz Shana é particularmente comovente, quando ela lhe fala sobre algo maior do que nós, se referindo a deus, então Gavin lhe convida para deitar sobre um tapete, ao seu lado, com ambos olhando para cima, através de uma claraboia, para o céu estrelado. Com ambos contemplando as estrelas, Gavin lhe fala da infinitude do universo, ou seja, do quando o universo é maior que nós. Uma referência ao atual argumento científico de que nós não somos filhos de deus, mas sim filhos da evolução do universo. O momento encanta Shana, que se deixa ser seduzida por Gavin.

            Por caminhos diferentes, Joe procurou se recuperar do trauma da separação do primeiro casamento através da religião, enquanto Gavin, um ateu irreversível, se recuperava através do gozo das coisas prazerosas da vida, se tornando um bon-vivant. Duas personalidades e mentalidades muito diferentes, as quais dificilmente se afinariam em uma discussão religiosa. Quanto à Shana, o motivo por ter sucumbido à sedução de Gavin, pode ter sido a insatisfação diante do infeliz relacionamento com um marido autoritário e impositor.

            Muitas interpretações podem se extraídas desta história, portanto, dentre tantas, uma interessante abordagem neste drama é o exemplo da tênue linha que separa o fanatismo religioso da violência, ou seja, de como um religioso fanático, que crê e prega o amor, a paz e a salvação, pode atravessar com tanta facilidade esta linha e reagir tão furiosamente diante da adversidade. Também, de como ele pode ser levado à violência em função do inconformismo. Pois, no caso de Joe, ele nem sequer tentou conversar com sua esposa, a fim de saber as causas da sua traição, isto é, não procurou resolver o problema da relação conjugal de ambos através do diálogo, ao contrário, reagiu explosiva e furiosamente, tentando desafogar o seu inconformismo através da violência. Enfim, este drama deixa a ideia de que o religioso fanático pode ser um violento em potencial, apontando assim, através de um exemplo particular, uma das causas do terrorismo fundamentalista.

            Este interessante drama/suspense certamente não agradará àqueles espectadores acostumados aos filmes enlatados, repletos de clichês, de estereótipos e com finais felizes ou desfechos absurdos. Em razão do seu caráter incomum, sua bilheteria foi muitíssimo baixa, apenas US$ 610 mil em arrecadação mundial. Para muitos cristãos fervorosos, o filme não lhes agradará, uma vez que o vilão é um cristão. Em contrapartida, para aqueles que buscam por uma perspectiva diferente, esta é uma rara oportunidade de assistir a um filme no qual os valores e os preceitos cristãos são ofuscados pela coragem e pelo heroísmo dos ateus.

 

 

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