A Deseducação Cívica na Pregação dos Pastores

por Octavio da Cunha Botelho

Manifestações-Populares-protestos-em-SP-destaque

O direito de protestar é garantido por muitos organismos internacionais e pela Constituição Federal do Brasil.

            Quando era adolescente, estudei uma disciplina no então Colegial, que muitos alunos na época davam pouca importância, portanto a desprezavam, conhecida como Educação Moral e Cívica. Esta matéria foi retirada da obrigatoriedade escolar nos anos 1990, sob a principal alegação de que ela atendia aos propósitos do regime militar. Hoje, depois de tantos anos, observo o quanto ela faz falta para certas gerações de jovens e de adultos, que são influenciados pelas exortações de alguns pregadores cristãos da atualidade no Brasil, tal como trataremos abaixo.

            Desde 2013, temos testemunhado a ocorrência de repetidos protestos sociais pelo Brasil afora, estimulados, dentre outros, pelo movimento “Vem pra Rua”. Por outro lado e ao mesmo tempo, aqueles que acompanham as pregações dos pastores são capazes de perceber o aumento no número de sermões e de publicações exortando os fiéis a não participarem de protestos sociais nas ruas, sob a alegação de que esta não é uma prática prescrita pela Bíblia. O exemplo está no fato de que os antigos profetas não participaram de protestos sociais e políticos, tampouco Jesus e seus apóstolos. E para alguns pregadores, mesmo os cristãos atuais devem ainda imitar Jesus, tal como sugerido na passagem 1Col. 11.1: “Tornai-vos os meus imitadores, como eu sou de Cristo”, ou em João 13.15: “Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, assim façais também vós”.

            Apesar do reconhecimento de que o direito ao protesto está previsto na Constituição Federal do Brasil (art. 5, XVI), portanto um exercício de cidadania, alguns poucos pastores alegam que o mais importante para o cristão não é exercer a sua cidadania aqui no mundo terreno, mas sim buscar o Reino dos Céus, o qual não é deste mundo. Algo como exercer uma forma de cidadania celestial que acumule méritos na cidade de deus, pois tal como disse Jesus: “meu reino não é deste mundo”. De modo que alguns pregadores entendem que a paz que Jesus prometeu, este nosso mundo não pode nos dar (João, 14.27). Também, para eles, o Reino dos Céus está em frontal oposição ao nosso mundo, sendo que este último é governado pelo Maligno (Satanás), tal como em: “Sabemos que somos de Deus, e que este mundo todo jaz sob o Maligno” (1João, 5.19). E que, ao converter-se, o cristão passa a ser um novo cidadão, um cidadão celestial: “Mas nós somos cidadãos dos céus… ” (Fil, 3.20). De modo que a luta do cristão deve ser pela cidade celestial, luta que é travada nas regiões celestiais, e não nas ruas, contra as autoridades, sendo assim, a esperança do cristão jamais pode estar na cidade deste mundo.

            Agora, percebendo de outra maneira, buscar um mundo imperceptível, do qual ninguém, após quase dois mil anos de Cristianismo, conseguiu sequer uma prova concreta de sua existência, tampouco alguém que tenha estado lá e depois regressado para nos confirmar se o Reino dos Céus existe, ou se confirmada a existência, se ele é melhor que o nosso mundo aqui; em detrimento do exercício do direto de protestar pacificamente, que está bem ao nosso alcance, é o que pode se definir como deseducação cívica em favor de uma crendice. Em suma, o que estes deseducadores cívicos estão fazendo é colocar a superstição acima da cidadania.

Herodes

Os judeus dos tempos bíblicos não viviam em uma Democracia, seus líderes eram reis e não governantes eleitos pelo voto popular.

            A inexistência da menção de protestos pacíficos na Bíblia é natural, uma vez que os judeus dos tempos bíblicos não praticavam a Democracia, seus líderes eram reis, os quais não eram eleitos pelo voto do povo, senão sucedidos pela hereditariedade. Visto que o protesto pacífico, quer seja social, político ou econômico só tem efeito em uma sociedade democrática, as contestações populares que aconteciam naquela época e região, ocorriam através de rebeliões e de revoltas violentas. Uma sociedade democrática se divide em governantes e cidadãos, enquanto que em um reino, tal como em quase todos os episódios da narrativa bíblica, a sociedade se divide em rei e súditos. Tal como o nome indica, um súdito é um submisso, de modo que nunca existiu uma Carta ou uma Convenção tal como “Direitos dos Súditos”, assim como existe hoje a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, para todas as sociedades democráticas. O súdito existe para venerar e obedecer ao rei. Com o passar do tempo, o sistema de governo monárquico se transformou hoje em “peça de museu”, pois, com poucas exceções, quase todas as nações do mundo adotam atualmente o regime democrático, onde o líder é eleito pelo voto popular. Até mesmo os poucos países que ainda adotam o regime monárquico possuem parlamento e ministérios, exemplo, o Butão, um pequeno reino, na região dos Himalayas, entre a Índia e a China. Enfim, a Democracia só veio a existir em uma sociedade judaica com a formação do estado de Israel em 1948 e.c.

            Então, como os profetas do Antigo Testamento, bem como Jesus e os apóstolos do Novo Testamento poderiam participar de protestos sociais ou políticos, de maneira pacífica, se nem sequer viviam em uma sociedade democrática? E também, como imitá-los agora, sendo que vivemos em circunstâncias políticas muito diferentes, ou seja, em um estado democrático? Não podemos imitá-los politicamente hoje, pois eles eram súditos de um reino, e nós hoje somos cidadãos de uma democracia. Na época de Jesus, aquela região estava dominada pelos romanos, a qual era governada por um representante nomeado por Roma (Pôncio Pilatos), e sobrevivia também o rei judeu, Herodes, que era apenas uma figura simbólica. Sendo assim, os protestos pacíficos, os quais talvez nem sequer eram conhecidos pelos judeus, não poderiam ter efeito social e político. Agora, imagine o anacronismo, bem como a comicidade, que seria uma manifestação pacífica, bem como um processo de impeachment para retirar Pôncio Pilatos do poder. O impeachment é um dispositivo democrático que exige manifestação pacífica da população.

            No Direito Internacional, os protestos estão protegidos mediante três direitos essenciais ao indivíduo e aos sistemas democráticos: o direito à liberdade de expressão, o direito à livre reunião e o direito à livre associação pacífica. A liberdade de expressão é um direito amplamente garantido pelos padrões e dispositivos internacionais, sendo parte integrante e essencial para os sistemas democráticos das sociedades contemporâneas, além de significar o direito de todo indivíduo de ter liberdade de opinião e de expressão. A liberdade de expressão é crucial porque carrega com ela a capacidade de trocar informações e ideias sobre qualquer natureza e por qualquer meio de comunicação, propiciando um ambiente plural e representativo.

            O direito de reunião, por sua vez, é um pressuposto para que o intercâmbio de ideias aconteça e também consiste em uma maneira de expressão, como os protestos. A Organização das Nações Unidas (ONU) define o termo “reunião” como manifestações, greves, marchas, comícios e até protestos sit-ins (protestos não violentos em que os manifestantes permanecem sentados em lugares estratégicos). Os seguintes organismos internacionais se pronunciam sobre o tema relativo aos protestos e às manifestações:

– a Organização das Nações Unidas (ONU)

– o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos

– a Corte Europeia de Direitos Humanos

– a Comissão Africana dos Direitos Humanos

– a Convenção Americana

– a Convenção Interamericana de Direitos Humanos

– a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem

– a Corte Internacional de Direitos Humanos

– e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

            No que se refere à liberdade de expressão, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, em seu artigo 19 determina que a liberdade de expressão é um direito humano universal: “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão, este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentes de fronteiras”. Sobre o direito de reunião, este mesmo importante dispositivo, em seu artigo 20, determina: “Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas”. Quase todas as nações do mundo são signatárias da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

manaus-amazonas-amazonia-Movimentos-organizam-manifestacoes-protestos-vem_pra_rua-politica-corrupcao_ACRIMA20130626_0010_15

O direito de reunir-se para protestar está garantido pela Constituição Federal do Brasil no artigo 5º, inciso XVI.

            Na Constituição Federal do Brasil, o direito de protestar está garantido no artigo 5º, inciso XVI: “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

            Voltando ao assunto dos deseducadores cívicos, o efeito de suas exortações dependerá, sobretudo, do grau de instrução cívica do público que as recebe. Evidentemente, em uma sociedade com uma população com baixa escolaridade, com pouco desenvolvimento humano, sem educação cívica e vivendo em uma democracia instável e precária, a tendência é do público ser mais receptivo a estas pregações. Enquanto que, em uma democracia estável, com alto desenvolvimento humano e alta escolaridade da população, justa distribuição de renda e com consistente formação cívica, um pregador (deseducador cívico) desta natureza pregaria este assunto apenas para as paredes.

            Enfim, para concluir, deixar de confiar no poder do protesto, um exercício democrático e efetivo da cidadania, a fim de mudar a sociedade, em favor da crença na superstição de construir uma paranoica cidadania celestial em um incerto reino dos céus é, dentre tantas outras imbecilidades que podem ser concluídas desta decisão, trocar o certo pelo duvidoso.

Anúncios

Um comentário sobre “A Deseducação Cívica na Pregação dos Pastores

  1. Concordo plenamente que os pastores evangélicos, e mais direcionadamente os pentecostais, deseducam o seu rebanho quando não os incitam a uma cidadania ativa. Contudo, não associo esta despolitização com eventos do Antigo Testamento. No livro “História da Cidadania”( Editora Contexto-2003) há um capítulo escrito por Jaime Pinsky intitulado de “Os profetas sociais e o Deus da cidadania”. Nesta parte da obra Pinsky relata como os profetas Amós e Isaías contribuíram para o questionamento das condições desfavoráveis de seu povo impactando em uma cidadania ativa. Particularmente, gostei muito do ponto de vista traçado por este autor.
    Penso que as origens da deseducação dos pastores está firmada em um universo de carência social, política e educacional de um povo que não suportando mais viver diante de tantas mazelas só consegue ver saída através do místico e do fantástico. O passado longínquo da tradição cristã tem menor importância nas explorações do crente do que a nossa atualidade caótica. Eis o meu contraponto.
    Valeu pelo texto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s