O Poder da Persuasão em “Querido Companheiro”

por Octavio da Cunha Botelho

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Momento no drama Querido Companheiro (2012) quando Beth (Diane Keaton) e sua filha Grace (Elisabeth Moss) encontram o cão Freeway.

            Filmes com a presença de animais, sobretudo cachorros, são comoventes e, consequentemente, agradam as famílias, por isso constitui uma fórmula quase segura para se alcançar uma alta bilheteria, daí que o número de produções com o tema animal é grande. Esta foi também a tentativa do drama Querido Companheiro (Darling Companion-2012), do consagrado roteirista e diretor Lawrence Kasdan, quem escreveu roteiros para filmes famosos tais como: Caçadores da Arca Perdida (1980), O Império Contra Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983), bem como escreveu e dirigiu outros conhecidos tais como: Silverado (1985), O Turista Acidental (1988) e Wyatt Earp (1994). Ele já recebeu quatro indicações ao Oscar, mas nunca ganhou a estatueta.

            Querido Companheiro é um drama recheado de atores talentosos como Diane Keaton, no papel da afetuosa Beth Winter, Kevin Kline, como o bem sucedido cirurgião Joseph Winter e marido de Beth, Dianne Wiest, irmã de Joseph, Sam Shepard, no papel do xerife Morris e a bela Ayelet Zurer, na pele da bela cigana Carmen. O roteiro foi escrito pelo próprio Lawrence Kasdan e sua esposa Meg Kasdan. Apesar de todos estes ingredientes que comumente levam ao sucesso de bilheteria, tal como os mencionados acima, o resultado da arrecadação foi um desastre, pois o orçamento ficou em US$ 12 milhões e a retorno em apenas US$ 793 mil, portanto um prejuízo de cerca de US$ 11 milhões.

            Então, qual a razão de comentar aqui sobre um drama tão fracassado? A resposta é que o filme retrata um curioso fato, o qual é interessante para aqueles que se interessam pela Psicologia da Persuasão. Mais especificadamente, as circunstâncias nas quais as pessoas se tornam mais vulneráveis à credulidade em experiências sobrenaturais e, consequentemente, à manipulação por dominadores que se aproveitam destas circunstâncias, ocorrências muito comuns no relacionamento entre os religiosos.

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Cena em que o cão Freeway desaparece, enquanto Joseph (Kevin Kline) falava ao celular.

            O drama começa com Beth (Diane Keaton) e sua filha Grace (Elisabeth Moss) viajando por uma rodovia, em um dia nevado de inverno, quando Beth avista um cachorro abandonado ao lado do acostamento, sofrendo em função do frio sobre o chão coberto de neve. Então, elas decidem parar o carro a fim de socorrer o pobre animal. O vira lata é levado em seguida para uma clínica veterinária, onde então é tratado por um veterinário, de origem indiana que, desde a primeira vista, se apaixona por Grace. Beth decide levar o animal para sua casa, o que encontra a desaprovação do seu marido Joseph (Kevin Kline), mas Beth afirma que a permanência do animal será apenas temporária, até que ela consiga encaminhá-lo para outro lar. Por ter sido encontrado perto de uma rodovia, Beth batiza o cachorro com o nome de Freeway (auto-estrada). O tempo passa e o afeto da família por Freeway aumenta, de modo que até mesmo o relutante Joseph aceita a sua permanência definitiva, assim transformando Freeway no centro de afeto da família. A paixão do veterinário por Grace rende frutos e eles decidem se casar. O casamento acontece na casa de campo da família de Joseph, na região das Montanhas Rochosas, no estado do Colorado, EUA, para onde Freeway também é levado. No dia seguinte à cerimônia de bodas, Joseph leva o vira lata para passear no bosque que circunda a sua casa de campo e, durante um momento de distração, enquanto falava ao celular, Freeway desaparece no meio das árvores. Joseph tenta encontrá-lo em vão, daí retorna a sua casa de campo e informa Beth sobre o desaparecimento do cão. Beth fica desesperada levando todos os parentes hospedados em sua casa a uma frenética e desesperada busca pelo animal.

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O desaparecimento do cão desencadeia uma frenética busca pelo seu paradeiro através da mata.

            A busca se estende pela noite adentro até que todos estão muito cansados. A busca é retomada no dia seguinte, mas, tal como o dia anterior, sem sucesso. O desaparecimento é anunciado pela estação de radio local e na Internet, Beth até oferece recompensa em dinheiro para quem encontrá-lo. As buscas continuam sem resultados favoráveis e, quanto mais o tempo passa sem sucesso, o desespero de Beth, do seu marido e dos parentes aumenta, até criar um clima de animosidade onde cada um começa a desabafar ressentimentos reprimidos. Uma hostil discussão passa a tomar conta do relacionamento entre Beth e Joseph, quando ela manifesta sinceros argumentos, tal como o de que ele gosta mais de si mesmo e do seu trabalho do que de sua própria família, e com isso não entende o sofrimento dela e dos outros pelo desaparecimento do cão, responsabilizando-o, cada vez mais hostilmente, por sua negligência. No meio deste clima de desespero e de desesperança de encontrar o animal, depois de alguns dias de procura, é que entra em cena a bela Carmen, a empregada da casa de campo, quem afirma ser uma cigana descendente de iogues indianos com poderes clarividentes. Talvez os roteiristas tenham extraído o nome da personagem Carmen da ópera de Bizet, quem é uma cigana atraente que desperta a inveja de suas companheiras de trabalho. Então, ela revela, em uma noite em que todos estão reunidos na sala, que em suas visões clarividentes o cão está vivo e, em seguida, informa algumas pistas vagas de onde ele pode estar. Todos acreditam nas experiências sobrenaturais de Carmen, exceto Joseph, um cirurgião inteligente e bem sucedido, o único que ainda permanecia racionalmente lúcido na família, então mergulhada na desesperança e no desespero, quem critica dos demais pelo absurdo de acreditar em uma cigana paranóica. Apesar dos argumentos de Joseph, todos, partindo das pistas informadas pelas visões de Carmen, partem a fim de encontrar as pessoas e os locais vagamente indicados pelas experiências da cigana.

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O diretor Lawrence Kasdan conversa com a atriz Diane Keaton durante as filmagens de Querido Companheiro.

            Depois das primeiras pistas reveladas por Carmen resultarem em fracassos, ela revela novas pistas, resultantes de mais experiências clarividentes, depois mais pistas sucessivamente, todas fracassadas, com uma ocorrência de acidente com lesão corporal de Joseph, até que, cansados e impacientes com as informações equivocadas de Carmen, todos se revoltam contra ela, alegando que ela se aproveitou do momento de vulnerabilidade de todos para manipulá-los. Os diálogos e as discussões entre os personagens, durante os trabalhos de buscas, são muito bem executados pelos atores, são pontos fortes do filme. Melhor ainda, para aqueles que apreciam a narrativa cinematográfica, é a forma como é sequenciada e intercalada as cenas de buscas, quando a família está dividida em grupos, pois a edição é muito bem arranjada. Um formidável trabalho do editor.

            Agora, refletindo sobre a questão da persuasão, a maneira pela qual os familiares acreditaram e depois foram manipulados pela cigana Carmen é muito bem retratada no filme, o que nos leva a refletir sobre as circunstâncias pelas quais as pessoas esclarecidas e mesmo as bem sucedidas profissionalmente, antes racionais e céticas, são vulneráveis à persuasão em experiências sobrenaturais. Não apenas este exemplo especificadamente, mas este fenômeno psicológico e outros semelhantes são atualmente estudados pela Psicologia da Persuasão. Ciência que iniciou no começo da Guerra Fria, com o estudo sobre as causas, as técnicas e os efeitos da Lavagem Cerebral, para em seguida se estender para outros objetos, bem como outras interpretações, até receber mais atenção e interesse dos psicólogos a partir das últimas décadas. Os pesquisadores desta área alegam que uma das circunstâncias mais favoráveis para a penetração da persuasão em outra pessoa acontece nos momentos de dúvida e de desespero, pois alguém que está sob estas circunstâncias se sente na necessidade de confiar em alguém para aliviar a sua tensão. A circunstância é tão vulnerável que até existem livros e cursos de técnicas de persuasão para vendedores que ensinam o método de conduzir a mente do comprador para um estado de dúvida, colocando-o assim em um estado de confusão, para que este então se renda à sugestão do vendedor.

            Enfim, apesar do fracasso de bilheteria, este drama não é desprezível, pois depende do que o espectador pretende extrair do filme. Se percebido apenas como entretenimento, o filme é apenas mais um drama como tantos outros, porém se observada a questão do poder da persuasão, o filme poderá ser objeto de reflexão e, até mesmo, instrutivo.

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