A Marcha para Jesus e a Transformação do Cristianismo de Religião em Delírio de Fé

por Octavio da Cunha Botelho

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Delírio do público durante a Marcha para Jesus 2015, São Paulo

            Ontem aconteceu a 23ª Marcha para Jesus em São Paulo-SP. A convocação foi feita pelo bispo Estevam Hernandes Filho, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, aquele mesmo pastor que foi preso, juntamente com sua esposa Sônia Hernandes, nos EUA, em 2007, tentando entrar naquele país com US$ 56 mil, sendo que apenas US$ 10 mil estavam declarados, portanto o casal foi preso no aeroporto de Maimi por tentar entrar com US$ 46 mil não declarados. O casal cumpriu pena de dois anos e meio nos EUA, inclusive, durante algum tempo, usando aquela vergonhosa tornozeleira de prisioneiro. Também, dois anos depois o casal foi denunciado pelo promotor Marcelo Mendroni, que pediu o bloqueio dos bens, por entender que a Igreja comportava como uma organização criminosa, que praticava lavagem de dinheiro, evasão de divisas, falsidade ideológica e estelionato. A Justiça chegou e emitir a ordem de prisão, mas o casal conseguiu um Habeas Corpus, com isso ganhou o direito de se defender em liberdade. Para piorar ainda mais, o teto da Igreja Renascer desabou em 2009, matando nove pessoas. Mesmo depois destes absurdos, ainda existem muitos cristãos que acreditam e seguem este pastor. Prova disto foi a grande multidão presente no evento deste ano. Os organizadores informaram da presença de dois milhões de pessoas. Já a Polícia Militar estimou em apenas 340 mil participantes.

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Jovem em um delírio de fé durante a Marcha para Jesus 2015

            O tema deste ano foi a obsoleta ideia “Exaltando o Rei dos Reis”, frase que podia ser vista estampada nas camisetas de muitos fiéis. Este é um obsoletismo próprio dos tempos em que a relação entre rei e súditos era muito diferente da atual relação entre governante e cidadãos. Em alguns povos do passado, o rei era considerado o representante de deus na Terra (por exemplo: os faraós do Egito), por isso o rei era venerado religiosamente. Nos dias de hoje, os governantes eleitos democraticamente não são adorados religiosamente, fato que, se acontecesse, seria comicamente ridículo. Imagine a comicidade que seria a prática de um culto para adorar a presidente Dilma. De modo que, o papel de um rei atualmente é muito diferente do que foi no passado. Apenas persistem com esta ideia de relação submissa, aqueles que ainda tiram vantagem desta forma de relação rei/súdito do passado, ou seja, o auxílio que esta ideia proporciona para a manutenção da submissão, pois, de certa maneira, a preservação desta ideia, na mente dos fiéis, auxilia muito no poder de manipulação do séquito pelos líderes religiosos. Em outras palavras: se Jesus é rei, então você é um súdito, portanto comporte-se como um submisso.

            Outra frase que podia ser vista nas camisetas dos participantes era a estranha mensagem: “O Leão da Tribo de Judá Venceu”, extraída do livro do Apocalipse 05:05. O que é preciso ser esclarecido, em primeiro lugar, é que a palavra “venceu”, nesta frase, é uma tradução controvertida. Nem todas as versões bíblicas traduzem neste sentido. Ela é a tradução do verbo grego νικαω (nikao), que pode significar: “subjugar”, “conquistar” ou “prevalecer”. Alguns tradutores preferem traduzir por “prevaleceu”, ao invés de “venceu”. Pois, no contexto do Apocalipse 05:05, poderá significar que não existiu uma vitória sobre um derrotado. A tradução por “venceu” segue a tradução latina (Vulgata) de Jerônimo, que traduziu por “vivit” (venceu).

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Fiéis vestindo a camiseta do tema da Marcha : “Exaltando o Rei dos Reis”.

            Ademais, o que pode ser dito do livro do Apocalipse é que este foi um dos últimos textos a ser reconhecido como canônico pela corrente dominante dos primeiros séculos, a prova mais clara é a de que ele não está incluído nos mais antigos códices de manuscritos cristãos. Também, a sua autoria ainda é objeto de debate. Diferente da versão tradicional, alguns pesquisadores, inclusive o importante historiador bíblico e crítico textual da atualidade Bart D. Ehrman, alegam que ele não é de autoria do apóstolo João, mas sim de outro João, conhecido por João de Patmos (uma ilha grega do Mediterrâneo), contemporâneo do imperador Domiciliano.

            A marcha foi recheada de shows de música gospel, cerca de 30 bandas se apresentaram (rock, axé, rap, músicas infantis, etc.), com palcos semelhantes aos dos mega shows, com a participação até de dançarinas, ainda mais, sete trios elétricos acompanharam a marcha, tudo isto aos pulos delirantes do público. Diante disto, as imagens do evento confirmam como algumas correntes do Cristianismo estão, cada vez mais, se transformando, de uma religião, tal como era no passado, em um delírio de fé. Este Cristianismo extravagante e delirante difere tanto do Cristianismo dos primeiros séculos que até parece duas religiões distintas. A resposta mais comum dos cristãos para estas transformações é a necessidade de se adaptar aos tempos atuais, que é uma época predominantemente secular, o que então pode ser traduzido como que o secularismo venceu, e não o Leão da Tribo de Judá. Esta transformação da religião cristã em espetáculo funciona também como uma armadilha para atrair ainda mais seguidores, a qual, por conseguinte, satisfaz com deleite o voraz apetite proselitista dos pastores.

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