“Cafundó” e o Alcoólatra que Virou Santo

por Octavio da Cunha Botelho

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João de Camargo (1858-1942), mais conhecido como Nhô João .

            Quase todos conhecem a palavra cafundó no sentido de “fim de mundo”, entretanto, ela, originalmente, é o nome de uma comunidade negra, ainda sobrevivente, conhecida no passado como Quilombo Cafundó, situada no município de Salto de Pirapora, perto da cidade de Sorocaba, São Paulo, Brasil. Ela é também o nome de um filme de 2005, dirigido por Clóvis Bueno e Paulo Betti, inspirado na vida de João de Camargo (1858-1942), mais conhecido como Nhô João, um ex-escravo e alcoólatra compulsivo, o qual, após ser traído por sua mulher branca, aprofundou-se na depressão e no alcoolismo até ter uma visão mística do aparecimento de Nossa Senhora, a partir daí decidiu abandonar a bebida, se tornar um religioso e construir uma igreja. Atualmente, ele é um conhecido pai de santo e milagreiro, venerado por muitos brasileiros.

            O papel de João de Camargo, sobrenome que herdou de seu ex-dono, após ser libertado da escravidão pela Lei Áurea, é representado por Lázaro Ramos e o de sua esposa Rosário, por Leona Cavalli. O casamento não durou muito, pois ela é flagrada lhe traindo amorosamente na fazenda onde moravam. Então, desapontado e traumatizado, João mergulhou-se em uma profunda depressão, ao mesmo tempo, que era obrigado a ouvir os deboches vindos de seus concidadãos por ter sido traído e de ter se casado com uma mulher branca, bem como, para piorar, se afogou ainda mais no alcoolismo. Tudo muda quando ele, em condição de quase morte, tem uma visão de Nossa Senhora, quem o consola e o estimula. Então, ele decide construir uma igreja, com o nome de Igreja do Bom Jesus do Bonfim das Águas Vermelhas, a qual ainda existe, após reformas e ampliações, na cidade de Sorocaba, estado de São Paulo, Brasil. O desempenho de Lázaro Ramos é o ponto forte do filme. Agora, por outro lado, divertido é ver o ator Francisco Cuoco, quem estamos acostumados a ver em papéis de galã, atuando como um bispo no filme. Este drama foi bem recebido pela crítica, pois recebeu ao todo dezenove prêmios, inclusive cinco no Festival de Gramado.

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Lázaro Ramos no papel de João de Camargo, em uma cena de Cafundó (2005).

            Com o tempo, a fama de João como milagreiro se espalha e sua igreja não comporta mais o número de frequendadores, então é feita uma ampliação. Acredita-se em diversas curas e muitos milagres realizados por ele. Por ter recebido influência de diferentes religiões, a igreja de João misturava Cristianismo com cultos afro-brasileiros, portanto o altar abrigava imagens de Jesus, de santos católicos e de santos da Umbanda. Este ousado sincretismo consequentemente provocou a ira dos católicos da época, os quais o denunciaram às autoridades, sob a acusação de curandeirismo. João então foi preso diversas vezes, até que, para se legalizar, fundou a Associação Espírita e Beneficente Capela do Senhor do Bonfim, com a obtenção da personalidade jurídica em 1921. Fato interessante é que o filme mostra a intolerância religiosa da época, por parte dos católicos, em uma época quando ainda não existia a lei de liberdade religiosa no Brasil.

            Agora, o que neste filme interessa para a crítica religiosa? Sobretudo, o fato de mostrar, apesar de superficialmente, como as novas religiões são formadas, ou seja, a partir da credulidade popular em curas e em milagres até que, quando difundida e consolidada a crença, os relatos destes supostos fatos milagrosos passam a ser acreditados como fatos reais por aqueles que não testemunharam os eventos, ou seja, tornam-se uma crença consolidada para muitos que não mais duvidam dos relatos. Então, o exemplo e a mensagem do santo passam a exercer um poder persuasivo sobre as gerações subsequentes, formando assim uma religião institucionalizada com um séquito de seguidores, promovendo com isso o crescimento do culto. De modo que, o surgimento e o desenvolvimento de uma nova religião então se devem, sobretudo, ao tanto de credulidade que é depositada inicialmente na mensagem ou na conduta milagrosa do visionário ou do santo respectivamente.

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A Igreja do Bom Jesus do Bonfim das Águas Vermelhas em Sorocaba-SP, após ampliações e reformas.

            Se as experiências visionárias de Nhô João foram alucinações resultantes de seus transtornos depressivos ou dos delírios provocados pelo excesso de álcool no seu cérebro, não é possível diagnosticar agora, uma vez que ele não foi clinicamente examinado na época. Embora, a maneira pela qual o filme mostra as suas experiências alucinógenas assinala para o diagnóstico acima. Entretanto, o que podemos avaliar agora é a sua mensagem, a qual reproduz, naturalmente, a precariedade cultural de um ex-escravo analfabeto e transtornado que, às vezes, não falava com sentido lógico, por não ter sido escolarizado. Em suma, é uma comunicação de analfabeto para analfabeto, embora, atualmente, muitas pessoas instruídas o admiram e, com isso, são suas devotas, inclusive o próprio diretor do filme, o também ator Paulo Betti.

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