Os Exageros na Recenticidade ou na Antiguidade das Datações da Criação pelos Religiosos

por Octavio da Cunha Botelho

 Considerações iniciais      

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Em quase todos os mitos da criação, o mundo foi criado junto com a humanidade.

            O desejo de conhecer a idade do mundo foi uma curiosidade que ocupou a mente dos historiadores e dos religiosos desde a Antiguidade. Juntamente com este sentimento, somou-se a intenção dos autores de construir uma antiguidade, para a sua religião ou para a sua civilização, que ultrapassasse a dos povos vizinhos. Foi assim com os egípcios, com os mesopotâmicos, com os indianos, com os chineses, com os judeus e com os gregos. Cada povo gabava-se de ter a civilização mais antiga e de ser a origem de todos os povos da Terra. O recurso para se alcançar tal antiguidade era a criação de mitos que narravam eventos ocorridos em um passado muito remoto. Com isso formou-se até uma rivalidade entres os povos e entre as religiões, bem como um sentimento de ciúme pela antiguidade de outros povos. Um exemplo pode ser visto em uma passagem onde o cronista bizantino, George Syncellus (morto em 810 e.c.), ao citar um comentário despeitado de Eusébio de Cesareia (260-339 e.c.), um autor cristão, em sua obra Chronica (Chronicon), sobre a antiguidade dos reis da dinastia divina dos egípcios descrita pelo sacerdote Manetho (século III a.e.c.) na Aegyptiaca (História do Egito): “Com relação aos deuses, aos semideuses, aos espíritos dos mortos e aos reis mortais, os egípcios têm uma longa série de mitos idiotas”. Em seguida Syncellus acrescenta: “Assim, Eusébio escreveu com justa razão, criticando os egípcios por sua conversa idiota” (Waddell, 1964: 11).

            O despeito de Eusébio de Cesareia pela antiguidade dos egípcios era tão forte que ele criou uma explicação para a longa duração dos reinados de cada rei egípcio, ou seja, de que os anos não eram anos solares de 365 dias, mas sim anos lunares de 30 dias. Com isso, ele reduziu a duração dos reinados dos reis da primeira dinastia divina, ao transcrever o relato (Aegyptiaca) de Manetho em sua Chronica. Então, ele reduziu a soma total da duração dos reinados dos primeiros reis divinos do Egito, que era de 24.900 anos, que ele considerou como anos lunares, para apenas 2.206 anos solares (Waddell, 1964: 07; veja esta mesma redução por Syncellus em: Wilkinson, 1851: 08). Eusébio fez isto a fim de que as dinastias egípcias não fossem mais antigas do que os relatos bíblicos, pois os religiosos bíblicos acreditavam que Ham (Cam), filho de Noé, era o pai do povo egípcio, de modo que os primeiros reis divinos do Egito não podiam anteceder ao Dilúvio Bíblico (Waddell, 1964: 05-7, ver também: Wilkinson, 1851: 07-9).

            As especulações e os cálculos para datação do momento da criação do mundo eram feitos, no passado, a partir de dados dos textos mitológicos e religiosos, por isso a grande divergência com as atuais datações da Geologia, da Paleoantropologia e da História Natural.

Egito

            Deixando de lado a rivalidade religiosa, sabemos que através das cronologias dos antigos reis é possível pelo menos supor que os autores destas listas pretendiam informar que o primeiro rei, destas séries cronológicas, correspondia ao início da criação. Isto é, para alguns povos antigos, a criação inicia-se com o aparecimento do primeiro soberano. Segundo informa Diógenes Laercio (século III e.c.) em sua obra Lives and Opinions of Eminent Philosophers, Hefeto, o primeiro rei da dinastia divina do Egito, conhecido pelos gregos por Ptah, viveu no ano 48.863 antes de Alexandre da Macedônia (Hicks, 1959: 03). Este último nasceu no ano 356 a.e.c., portanto este precursor egípcio viveu em 49.219 a.e.c. (a.C.), se for assim, então, o atual ano de 2015 corresponde ao ano 51.234 A.M. (Anno Mundi – ano desde a criação).

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Estátua de Hefeto (Ptah), o primeiro faraó mitológico do Egito: 49 mil anos atrás.

            De acordo com a cronologia atualmente mais consensual da Paleoantropologia, o ano de 49 mil a.e.c. corresponde à época da florescência dos Neanderthals e dos Homo Sapiens, portanto a antiguidade atribuída por Laercio é exagerada em comparação com a datação científica (ver as cronologias paleoantropológicas de Tattersall, 2008: 126 e Leonard, 2012: 143). Ademais, o número acima diverge da cronologia dos reis egípcios na Aegyptiaca (História do Egito) de Manetho, tal como na transcrição de Eusébio, sem a redução para anos lunares. Segundo a versão deste último, a soma dos reinados de todos os reis divinos, dos semideuses, dos espíritos dos mortos e dos reis mortais é de 24.900 anos até o reinado de Menes (3.050 a.e.c.), portanto corresponde ao ano 27.950 a.e.c. (a.C.), somado ao atual ano 2015, então estaríamos no ano 29.965 A.M. (Anno Mundi, ano desde a criação), com base na cronologia de Manetho na Aegyptiaca. O ano de 27 mil a.e.c. é estimado pelos paleoantropólogos como o ano aproximado da extinção dos Neanderthals, e o ano 28 mil a.e.c. o dos primeiros vestígios de sepultamentos elaborados pelos Cro-Magnons, os ancestrais mais próximos dos humanos modernos (Tattersall, 2008: 126 e Leonard, 2012: 143). Portanto, segundo a atual cronologia paleoantropológica, se o Egito era habitado naquela época, certamente seria por hominídeos, porém não foi encontrado até agora vestígios destes primatas naquela região.

Suméria e Babilônia

            A determinação da idade do mundo desde a criação é muito mais difícil de ser alcançada através dos textos sumérios e babilônicos, uma vez que as listas de reis foram preservadas em tabuletas de escrita cuneiforme, com vários trechos mutilados. Também, as listas são divergentes, às vezes relacionando reis que reinaram simultaneamente em regiões diferentes, portanto não correspondem exatamente a uma ordem cronológica. Algumas são muito extensas, bem como com trechos danificados, tornando difícil o cálculo da idade total (ver: Jacobsen, 1973: 69-126). Comparativamente, as durações dos reinados dos reis sumérios são muito mais longas do que as dos reis egípcios. Veja as extensas durações dos reinados dos primeiros reis sumérios do período pré-diluviano: “Quando o reino baixo do céu, o reino era em Eridu. Em Eridu, Alulim tornou-se rei e reinou por 28,8 mil anos. Alalgar reinou por 36 mil anos. Dois reis reinaram por 64 mil anos. De Eridu seu reino foi para Badtibira. Em Badtibira, Enmenlu Annak reinou por 43,3 mil anos. Enmengal Annak reinou por 28 mil anos. O divino Dumuzid, um pastor, reinou por 36 mil anos. Três reis reinaram por 108 mil anos…” (Jacobsen, 1973: 71). Alguns autores acreditam que estas sejam contagens através de anos lunares de 30 dias, e não de anos solares de 365 dias, porém a discussão ainda está aberta entre os pesquisadores, no entanto, o que podemos dizer com certeza é de que se trata de relatos mitológicos, uma vez que, mesmo com a redução para anos lunares, o tempo de vida destes reis foi longo demais. Por exemplo, o primeiro rei Alulim reinou por 28,8 mil anos, se reduzido para anos lunares o resultado será de aproximadamente 2,4 mil anos solares, o que ainda é absurdamente exagerado.

            As durações destes reinados podem chegar a números astronômicos. Alexander Polyhistor (escritor grego escravizado pelos romanos no século I a.e.c.), citando Berossus (sacerdote e escritor babilônico que escreveu em grego no século III a.e.c.), afirmou que os reinados dos dez primeiros reis dos caldeus “consistiram coletivamente de 120 sars (um sar corresponde a 3.600 anos), ou 432 mil anos, até a época do Dilúvio” (Hodges, 1876: 60). Este é um período (500 mil a 400 mil anos atrás) tão remoto que corresponde, segundo a cronologia paeloantropológica aceita por Ian Tattersall, como a época do surgimento do hominídeo Heidelbergensis na Europa, foi nesta época que os hominídeos começaram a caçar grandes mamíferos. Também, o hominídeo Homo Erectus habitou a região da China. A domestificação do fogo tornou-se difundida, os primeiros abrigos artificiais foram construídos e as primeiras lanças foram feitas. (Tattersall, 2008: 125 e Leonard, 2012: 143). Esta época antecede até mesmo ao surgimento dos hominídeos Neanderthals (cerca de 200 mil anos atrás) e dos Homo Sapiens (cerca de 160 mil anos atrás), ver as cronologias em: Wong, s/ data:14-5, Tattersall, 2008: 125 e Leonard, 2012: 143.

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O crânio do Sahelanthropus Tchadensis, o mais antigo hominídeo encontrado, 7 milhões de anos atrás.

           Mesmo se este número gigantesco (432 mil anos solares) for reduzido para anos lunares, tal como sugerem alguns autores, o resultado seria aproximadamente 36 mil anos solares, o que ainda é remoto demais para o surgimento das civilizações da Suméria e da Babilônia. Na datação paleoantropológica atual, esta época corresponde ao período em que os hominídeos Homo Sapiens e os Neanderthals dominavam o planeta. Tempo (34 mil anos atrás) no qual aparece a primeira pintura em caverna, surge os primeiros instrumentos musicais, os primeiros figurinos e as primeiras anotações são feitas por hominídeos na Europa (Tattersall, 2008: 126).

            Se, tal como em outras tradições, os sumérios pensavam que a criação começou com o primeiro rei, Alulim, então o número 432 mil anos mencionado acima é remoto demais para o surgimento a humanidade e recente demais para a criação do mundo (a estimativa mais consensual é de 4,56 bilhões de anos atrás – Langmuir, 2012: 154s). Do mesmo modo, se considerarmos a data de 36 mil anos atrás, esta é remota demais para o surgimento da civilização e recente ainda mais para a criação do mundo.

Grécia e Roma

            A obra “Trabalhos e Dias” de Hesíodo menciona a existência de cinco raças, tal como cada uma representando uma era que segue, à maneira da doutrina hindu dos yugas (ciclos), um sentido degenerativo, conforme a qualidade do metal piora. Estas são as raças de Ouro, de Prata, de Bronze, dos Heróis e de Ferro sucessivamente (Works and Days, 87-199; Hine, 2005: 26-30; ver também: Metamorfoses de Ovídio I.89-150 – Melville, 1998: 03-8). Também, o diálogo Político de Platão fala destas eras (Político, 269c-272a; Shemp, 1961: 1034-8 e Eliade, 1992: 106-7). Entretanto, diferente da doutrina hindu, não é mencionada a duração destas eras em todos estes textos.

            Já, alguns cronistas gregos e romanos se ocuparam em datar os eventos. Os mitos gregos falam de dois dilúvios, o de Ógigo antecedeu ao de Deucalião, por isso é considerado por alguns cronistas antigos como a linha divisória entre a era obscura (adelon) e a era mítica (mythikon), a terceira era é a histórica (historicum), esta última começou com a primeira Olimpíada em 776 a.e.c., segundo o escritor romano M. Terêncio Varro. Para ele, Ógigo foi o primeiro rei da Beócia, com ele deu-se o início da era mítica (mythikon), a qual ele datou em 2100 antes da sua época (37 a.e.c.), portanto no ano de 2137 a.e.c. Outro autor antigo, Censorinus, datou o Dilúvio de Ógigo em 1600 anos antes da primeira Olimpíada (776 a.e.c.), portanto em 2.376 a.e.c. (Möller, 2005: 256-7). A datação do período obscuro (adelon) era um problema, os que tentaram datar foram criticados pelos outros.

            Entretanto, até mesmo estas tentativas de datar a criação a partir da era mítica (mythikon) não foram bem recebidas por outros autores gregos e romanos, uma vez que eles acreditavam na existência de infinitos ciclos da existência, portanto, para eles o universo era eterno, de modo que aquelas datas não representavam o início de tudo. Apesar dos números mais modestos, as datações dos autores gregos e romanos sobre a criação repetem as mesmas incompatibilidades em relação à datação científica atual, tal como vimos acima.

Zoroastrismo

            Com certa semelhança com a mitologia grega, um texto zoroastrico, o Bahman Yast, menciona quatro períodos: o período de ouro, o de prata, o de aço e o misturado com ferro (Bahman Yast, I.03-5 – West, 1860: 192-3), mas não são mencionadas as durações destes períodos. Mais explícito é outro texto pahlavi, o Bundahishn I.16-20, onde o espírito do bem Ohrmazd (Ahura Mazda) faz um pacto com o espírito do mal Ahriman (Angra Mainyu) com duração de nove mil anos, o qual corresponderá ao período de duração do mundo (West, 1860: 07). Outros textos falam da duração do pacto de doze mil anos (ver: Boyce, 1975: 286-8 e para aprofundamento: Zaehner, 1961: 249s). Alguns seguidores do Zoroastrismo alegam que atualmente estamos vivendo nas últimas centenas de anos deste período, portanto o mundo está perto do fim.

Anno Mundi (A.M.)

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Placa judia mencionando a data 5664 A.M. (Anno Mundi).

            Este calendário foi utilizado até o século XVIII e.c. pelos bizantinos. Conhecido também como Calendário Juliano, ele colocava a data da criação do mundo em 1º de Setembro do ano 5509 a.e.c. Portanto, se ainda fosse utilizado, o ano de 2015 corresponderia ao ano 7524 A.M. (Anno Mundi – anos desde a criação do mundo).

            Das tradições vivas, apenas duas ainda utilizam o calendário Anno Mundi, o Judaísmo e a Maçonaria, esta última com uma denominação diferente, Anno Luci (anos desde a luz). Para os judeus ortodoxos, a criação do mundo aconteceu em 06 de Outubro do ano 3.760 a.e.c. (Solomon, 2000: 19), portanto em seu calendário estamos no ano 5.775 A.M., esta é a data mais consensual entre os judeus.

Anno Luci (A. L.)

            Este é o nome dado pelos maçons para o cálculo dos anos desde a criação do mundo (ano desde a luz, ou seja, desde a criação). O calendário maçônico segue aproximadamente a data calculada pelo arcebispo James Ussher (1581-1656 e.c.), na qual a criação do mundo aconteceu no ano 4004 a.e.c., com a diferença que os maçons, ao usarem o calendário, arredondam esta data para 4000 a.e.c. Por exemplo, na primeira constituição maçônica, o autor, James Anderson, concorda com James Ussher e coloca o ano um da criação do mundo em 4003 a.C. (Anderson, 1734: 07), porém na primeira página da edição de 1723 e.c. aparece: “in the year of Masonry 5723, Anno Domini 1723″ (Cerinotti, 2004: 240), o mesmo aconteceu na edição de 1734 (Anderson, 1734), de modo que, ao fazer as contas, ele considerou o ano da criação em 4000 a.e.c. Então, para os maçons, estamos atualmente no ano 6015 A. L. (Anno Luci).

            James Anderson, autor da Primeira Constituição Maçônica, além de maçom era pastor protestante, por isso inventou a origem da Maçonaria com base na ideia da criação tal como descrita no Gênesis do Antigo Testamento e na cronologia de James Ussher, acrescentando por sua conta os elementos maçônicos aos elementos bíblicos. Em um surto de delírio anacrônico, tal como muitas outras passagens bíblicas, ele imaginou que “Adão, nosso primeiro pai, criado segundo a Imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, devia ter possuído as Ciências Liberais, particularmente a Geometria, escritas em seu coração, pois mesmo desde a Queda, nós encontramos os princípios delas nos corações de seus filhos…” (Anderson, 1734: 07). E mais adiante ele acrescenta: “Sem dúvida, Adão ensinou Geometria para os seus filhos, e o uso dela, nas diversas artes e ofícios convenientes, pelo menos para aqueles tempos primitivos, pois, nós sabemos, Cain construiu uma cidade…” (idem, 08).

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Capa da primeira Constituição Maçônica mencionando a data 5723 A.L. (Anno Luci).

            Bem, James Anderson deve ter acreditado que Adão herdou o conhecimento de Geometria do Grande Arquiteto do Universo, pois ele foi criado a sua imagem e semelhança, apenas com base no ditado popular; “filho de peixe, peixinho é”. Pois, dizer que o primeiro homem criado nasceu já com conhecimento de Geometria, no lugar de outras formas de conhecimento e de habilidades mais úteis para os tempos primitivos, é de uma comicidade digna de ser incluída no filme de comédia História do Mundo de Mel Brooks. Também, não deixa de ser menos cômica a afirmação de que Caim, filho de Adão, construiu uma cidade. Para quem residir, pois o mundo acabou de ser criado e só existia a família de Adão? Mais adiante ainda ele delira novamente afirmando que Set tinha conhecimento de Astronomia e que Noé construiu a arca com conhecimentos de Geometria, e de acordo com as Regras da Maçonaria (idem: 08-9).

            Agora, o surpreendente é o fato de muitos maçons, que se considerarem filhos do Iluminismo, isto é, da era da razão, quando o esclarecimento substituiu a crença, no entanto, ao mesmo tempo, ainda acreditam na criação do mundo em 4000 a.e.c., por isso até hoje utilizam o calendário Anno Luci (Ano da Luz, ou seja, ano desde a criação do mundo).

Texto hebraico e Septuaginta

            O Antigo Testamento pode ser dividido em quatro versões mais conhecidas: o texto hebraico (texto masorético), a tradução grega (Septuaginta), o texto samaritano e a versão latina (Vulgata). Uma importante razão para a tamanha divergência nos muitos cálculos das datas da criação e das cronologias, a partir do Antigo Testamento, está na fonte utilizada para o cálculo, quer seja a partir do Texto Hebraico (masorético) ou da Septuaginta (tradução grega). O trecho mais problemático está no capítulo 05 do Gênesis, onde é mencionada uma longa série de idades dos descendentes de Adão, nem sempre coincidentes entre os textos hebraico, grego e samaritano. Quanto a este trecho, a versão latina (Vulgata), curiosamente seguiu os números da versão hebraica, sendo que seu tradutor, Jerônimo, traduziu a partir da versão grega.

            Por exemplo, na versão hebraica é mencionado que Adão tinha 130 anos (meyah sheloshim shaneh) quando gerou Set e viveu mais oitocentos anos (shemoneh meyah shaneh) até falecer com 930 anos de idade. Já na versão Septuaginta, ele tinha 230 anos (διακοσια και τριακοντα ετη – diakosia kai triakonta ete) quando gerou Set e viveu mais 700 anos (επτακοσια ετη – eptakosia ete) até falecer aos 930 anos (Gênesis, 05:03-5). A Vulgata, apesar de traduzida da Septuaginta (versão grega), segue os números da versão hebraica (centum triginta anni, 130 anos e octingenti anni, 800 anos), e a genealogia continua com divergências até que aconteçam anacronismos curiosos, tal como o caso de Matusalém e o Dilúvio. Segundo a versão hebraica (texto masorético), Matusalém nasceu no ano 687 A. M., e na versão Septuaginta ele nasceu no ano 1287 A. M. Em ambas as versões ele viveu até os 969 anos (Gênesis, 05:27), portanto até o ano 1656 A. M., segundo a versão hebraica e até o ano 2256 A. M., segundo a versão Septuaginta; sendo que, Noé nasceu no ano 1056 A. M., segundo a versão hebraica, e no ano 1642 A. M., segundo a versão Septuaginta. Ao fazer as contas, descobre-se que Matusalém viveu além do Dilúvio, o que é impossível, uma vez que ele não estava na Arca com Noé. Em outras palavras, segundo a Septuaginta, Noé tinha 600 anos (Gênesis, 07:06) quando aconteceu o Dilúvio, portanto o ano de 1656 A. M., então, se Matusalém nasceu no ano de 1287 A. M. e viveu por 969 anos, ele viveu até o ano 2256 A. M., o que é 600 anos após o Dilúvio. Uma vez que Matusalém não estava na Arca, ele não pode ter sobrevivido estes anos após o Dilúvio, com isso deve ter morrido afogado com apenas 369 anos de idade, e não com 969 anos. Já a versão hebraica (texto masorético) corrige estas incoerências e evita que Matusalém e seu filho Lamec morram afogados durante o Dilúvio, ao fazermos os cálculos, antes mesmo do tempo de vida atribuído a eles.

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Reprodução artística de como seria a aparência de um Neanderthal

            Os números da genealogia começam a ficar ainda mais divergente a partir da época de Lamec, filho de Matusalém. Por exemplo, a versão hebraica fala que ele viveu 777 anos (sheba meyah shibiym sheba), mais uma vez, a versão latina de Jerônimo (Vulgata) seguiu a versão hebraica (777 anos – septingenti septuaginta septem anni); enquanto a versão Septuaginta lhe atribui 753 anos (επτακοσια και πεντηκονια τρια ετη – eptakosia kai pentekonia tria ete) de vida (Gênesis, 05:31), e as divergências continuam.

            Outra curiosidade é o fato que as mais recentes traduções da Bíblia Cristã, para as línguas modernas, reproduzem os números da genealogia do Capítulo 05 do Gênesis de acordo com a versão hebraica, e não os números da versão grega (Septuaginta), da qual foi traduzida. A razão é que a maioria dos tradutores e dos estudiosos da Bíblia atualmente considera que a versão hebraica é mais correta. No entanto, esta correção acontece apenas quando comparadas uma versão bíblica com a outra, pois quando comparadas as versões bíblicas com a História e as datações científicas dos eventos do passado, atribuídas por geólogos, por paleoantropólogos e por historiadores, as diferenças das datas podem ser enormemente contrastantes ou, o que pode ser mais certo, que muitos relatos bíblicos nem sequer aconteceram, por se tratar de mitos.

James Ussher (1581-1656)

            Ele é, sem dúvida, o cronologista bíblico mais conhecido entre os cristãos, visto que se tornou famoso por calcular com uma ousada precisão a data da criação do mundo em um Domingo, 23 de Outubro do ano 4004 a.e.c. (Ussher, 1658: § 01). Um arcebispo de Armagh, Irlanda, respeitado pela sua erudição na época, sua cronologia, calculada desde a criação do mundo, a partir de dados bíblicos, ainda é acreditada e seguida por muitos cristãos, inclusive por intelectuais cristãos inconformados com as datações científicas e as versões dos historiadores (para exemplo, ver: Jones, 2009: 07-8), ao mesmo tempo em que é alvo de críticas e de deboches por céticos e por cientistas.

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O arcebispo James Ussher (1581-1656 e.c.) calculou a data da criação em 4004 a.e.c.

            Todavia, ele não foi o primeiro cristão a calcular e sugerir datas para a criação e elaborar cronologias a partir da Bíblia. Antes dele, o primeiro cristão a calcular e a propor uma cronologia do Antigo Testamento, de quem temos conhecimento, foi Teófilo da Antioquia (115-181 e.c.), que datou a criação em 5529 a.e.c. Depois dele, Sexto Julio Africano (200-245 e.c.) sugeriu o ano de 5501 a.e.c. Mais tarde, Eusébio de Cesareia (260-340 e.c.) e Jerônimo (século IV e.c.) sugeriam o ano de 5199 a.e.c. Muito depois, o cristão bizantino George Sincellus (século IX e.c.) propôs a data da criação em 5492 a.e.c. Portanto, James Ussher certamente deve ter consultado os trabalhos destes cronologistas anteriores para elaborar seus cálculos. Para se ter idéia das divergências nos resultados dos cálculos do ano da criação do mundo, Floyd N. Jones, o mais conhecido cronologista bíblico da atualidade, relacionou 34 cronologistas bíblicos em seu livro, com suas respectivas datas da criação do mundo, as quais vão desde o ano 5501 a.e.c. até o ano 3836 a.e.c., em que apenas três resultados são coincidentes (Jones, 2009: 26).

            A cronologia de J. Ussher foi escrita originalmente em Latim, Annales Veteris Testamenti, a Prima Mundi Origine Deducti (Anais do Antigo Testamento, Deduzidos das Primeiras Origens do Mundo), publicada em 1650, no entanto, é mais conhecida internacionalmente através da sua tradução inglesa publicada em 1658: Annals of the World (Anais do Mundo).

            Da mesma maneira que James Anderson, James Ussher também delira em seus cálculos, ao ponto de até afirmar que “o número de pessoas na Terra na época deste assassinato (de Abel por Caim) poderia ter sido de 500 mil” (Ussher, 1658: § 13). Como é possível, se o mundo tinha acabado de ser criado e a população já ter alcançado tão elevado número? Nem mesmo um processo industrial de clonagem em grande e rápida escala é capaz de reproduzir tantas pessoas em tão curto prazo.

Os longos e infinitos ciclos budistas e hindus

            Enquanto as datas da criação do mundo tratadas acima são marcadas pelo exagero na recenticidade, em relação às atuais datações científicas, os ciclos budistas e hindus, ao contrário, exageram na duração e na infinidade. Os números atribuídos para a existência do mundo extrapolam não apenas a datação científica da formação da Terra (4,56 bilhões de anos atrás), mas também a data da formação da Via Láctea (cerca de 12,5 bilhões de anos atrás) e até mesmo da formação do Universo (cerca de 13,5 a 16 bilhões de anos atrás) atribuídas pela Astronomia (Langmuir, 2012: 162). O planeta Terra e o Universo são muito jovens quando comparados com a antiguidade e a infinidade de ciclos cósmicos atribuídas pelos budistas e pelos hindus. Ademais, nenhuma outra tradição religiosa criou especulativamente um mito das eras cósmicas com tanta elaboração como os hindus, tal como será visto mais adiante.

As kalpas/kappas (eras) budistas

            Quando lemos os mitos sobre os ciclos cósmicos (Sânscrito: कल्प  kalpa – Páli: कप्प kappa) dos budistas e dos hindus, a impressão inicial do leitor é a de que parece ter havido uma competição entre eles, no passado, com a intenção de que cada um alcançasse uma maior antiguidade para a sua tradição, bem como uma maior quantidade de ciclos, cujo número pode chegar até o infinito. No caso do Budismo, tal como acontece com muitos outros assuntos, os dados não são coincidentes nos textos das diferentes correntes sectárias. Quanto à tradição preservada na língua Páli, especificadamente nos Suttapitakas (coleções de sermões), Buda não especifica a duração das kappas (eras) em números, apenas enfatiza que as mesmas são incalculáveis (asankheyya). “Bhikkhus (monges), uma kappa (era) perdura por muito tempo e quanto tempo uma dissolução do mundo continuará, quando tempo a dissolução, quanto tempo a formação, quanto tempo a continuação do mundo formado, dessas coisas, discípulos, alguém dificilmente poderia dizer que abrange tantos anos, ou tantos séculos, ou tantos milênios ou tantas centenas de milhares de anos” (Samyutta Nikāya, II.181 – Cohen, 2008: 107 e 353). Na passagem de outro texto da mesma coleção, Buda novamente não menciona a duração, mas especifica que existem quatro kappas (eras). “Bhikkhus (monges), existem essas quatro kappas (eras) incalculáveis. Quais quatro? Quando uma kappa está em involução, não é fácil calcular isto e dizer que abrange tantos anos, ou tantas centenas de anos, ou tantos milhares de anos, ou tantas centenas de milhares de anos. Quando a kappa (era) de involução está em fase estática, não é fácil calcular isto e dizer que abrange tantos anos… ou tantas centenas de milhares de anos. Quando a kappa está em evolução, não é fácil calcular isto e dizer que abrange tantos anos… ou tantas centenas de milhares de anos. Quando a kappa em evolução está em fase estática, não é fácil calcular e dizer que abrange tantos anos… ou tantas centenas de milhares de anos. Estes, bhikkhus, são as quatro kappas (eras) incalculáveis” (Anguttara Nikāya, II.142-4 – Cohen, 2008: 107 e 352).

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Segundo os mitos budistas, a expectativa de vida humana na época do Buda Vipassi era de 80 mil anos.

            O conjunto destas quatro eras (kappas) forma o que é denominado de uma mahākappa (grande era), por sua vez, cada mahākappa consiste de quatro sankheyya kappas. Entretanto, os dicionários divergem quanto à tradução para as línguas modernas dos nomes destas quatro kappas (sanvatta kappa, sanvattatthāyi kappa, vivatta kappa e vivattatthāyi kappa). Para o Pali-English Dictionary, de autoria de T. W. Rhys Davids e de William Stede, a era (kappa) em evolução é a sanvatta kappa e a era (kappa) em involução é a vivatta kappa. Pois, para os autores deste dicionário, a palavra sanvatta significa “rolar para frente”, portanto “o desenvolvimento do universo e do tempo, evolução” (Rhys Davids, 1997: 636) e vivatta, significa o oposto, “rolar para trás” (Rhys Davids, 1997: 656), portanto involução do universo. Enquanto que, para o The Princeton Dictionary of Buddhism, de autoria de Robert E. Buswell Jr. e de Donald S. Lopez Jr., os significados são o contrário, sanvarta (Páli: sanvatta) significa “eon da destruição, um dos quatro períodos no ciclo da criação e da destruição do sistema do mundo” e vivarta (Páli: vivatta) significa “eon da formação ou eon de criação” (Lopez Jr., 2014: 2398 e para uma discussão, ver: Hiltebeitel, 2011: 247). Por seu turno, o The Practical Sanskrit-English Dictionary de V. S. Apte traduz a palavra vivarta (Páli: vivatta) por significados bem diferentes: “giro”, “meia-volta”, “rolar para frente” e “rolar para trás, também por “alteração”, “mudança de forma” e “retorno”, e acrescenta a observação de que no pensamento Vedānta significa “uma forma aparente e ilusória, uma aparência irreal causada por avidyā (erro humano)” (Apte, 1978, 873).

            Explicando mais claramente através da interpretação mais aceita, a cosmologia budista em Páli reconhece a existência de três principais tipos de kappas (eras):

1- mahākappas (grande eras)

2 – asankheyyakappas (eras incalculáveis)

3 – antarakappas (eras intermediárias)

            A mahākappa está formada de quatro sub-eras, sendo duas asankheyyakappas (eras incalculáveis) e duas antarakappas (eras intermediárias). Existem quatro tipos de asankheyyakappas (eras incalculáveis), conforme a concepção de Buda no Anguttara Nikāya, II.142-4 (Cohen, 2008: 352):

1 – sanvattakappa: era de destruição

2 – sanvattatthāyikappa: era de estabilização da destruição

3 – vivattakappa: era de criação

4 – vivattatthāyikappa: era de estabilização da criação (Hiltebeitel, 2011: 246; também: Rhys Davids, 1997: 187; Dayal, 1999: 78-9; Cohen, 2008: 107, 352-3, 355 e Lopez Jr., 2014: 1021).

            Bhaddanta Vicittasārābhivamsa, um monge birmanês, apresenta uma divisão em seis kappas: 1) mahākappa (grande era), 2) asankheyyakappa (era incalculável), 3) antarakappa (era intermediária), 4) āyukappa (era de acordo com a expectativa de vida), 5) hāyanakappa (era de decadência) e 6) vaddhanakappa (era de crescimento).  Este autor apresenta algumas explicações cômicas sobre a maneira como o universo é dissolvido através de uma grande chuva que, segundo ele, cai “sobre todo o universo que tem de ser dissolvido” (até hoje, após anos de pesquisas astronômicas, só foi possível encontrar água líquida no planeta Terra, então onde encontrar tanta água para destruir o Universo inteiro com chuva?), de modo que o Dilúvio Budista não acontece apenas no nosso mundo, tal como o Dilúvio Bíblico e o Mesopotâmico, mas sim em todo o Universo. Sendo assim, esta grande chuva deve apagar o sol, as estrelas, as supernovas, as estrelas de nêutron, bem como tapar com água todos os buracos negros. Também, ele afirma que “não é uma chuva qualquer, mas uma chuva incomum, pois ela tem o poder de esmagar até mesmo uma montanha rochosa em estilhaços” (Vicittasārābhivamsa, 1991: 05-6). Ele deve ter encontrado fundamento para esta última explicação no ditado popular: “água mole em pedra dura, de tanto bate até que fura”. Mais adiante ele acrescenta, ao tratar da hāyanakappa (era da decadência), que à medida que o tempo passa, as pessoas são tomadas por impurezas mentais, e com isso a sua expectativa de vida diminui gradualmente “até que ela é reduzida para apenas dez anos” (idem: 06, para conhecer uma exposição mais extensa sobre o mito budista das kappas, consultar esta mesma obra, p. 04-12).

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Reprodução artística de como seria a aparência de um Cro-Magnon, o ancestral mais próximo do humano moderno.

            Assim, a partir desta ideia de eras incalculáveis (asankheyyakappas), a imaginação budista delirou com números astronômicos. Por exemplo, se você acha que Matusalém viveu muito (969 anos), isto é pouco comparado com a expectativa de vida humana do passado budista, pois “de acordo com o Dīghanikāya, II.2-7, na época do primeiro Buda, Vipassi, que fez sua aparição há 91 kappas, a duração da vida humana era de 80 mil anos; na do segundo Buda, Sikhi, (há 31 kappas), de 70 mil anos, e assim por diante. O sétimo Buda, Gautama, fez sua aparição quando a vida humana era apenas de cem anos…” (Eliade, 1991: 63). Também, os exageros nos números de Budas. Dos sete Budas que já apareceram (já o Buddhavamsa relata as vidas de 25 Budas), “os três primeiros (Vipassi, Sikhi e Vessabhū) são os últimos três dos mil Budas que apareceram no precedente ‘eon glorioso’ (vyūhakalpa) (…) e os restantes quatro Budas são os primeiros quatro dos mil Budas durante o atual Bhadrakalpa” (Lopez Jr., 2014: 1899). Outro anacronismo exagerado aparece no comentário introdutório dos contos Jātaka, o Nidānakathā (as Três Épocas), onde é dito que a “tradição nos conta que quatro asankheyyas e cem mil anos atrás havia uma cidade chamada Amaravati…” (Rhys Davids, 1880: 02). Sem considerar o tempo das asankheyyas, o qual não foi especificado acima, os cem mil anos bastam para demonstrar o exagero na antiguidade, pois cem mil anos atrás correspondem à época do predomínio dos Neanderthals e dos Homo Sapiens sobre a Terra, os quais habitavam cavernas e viviam da caça, não havia cidade ainda (consultar as atuais cronologias paleoantropológicas da evolução humana em Tattersall, 2008: 125 e Leonard, 2012: 143).

            Então, a kalpa/kappa se transformou em uma palavra para ser usada também quando alguém desejava mencionar um tempo exageradamente longo: “tendo empilhado karma sobre karma, ele (Devadatta) passaria por uma infinita série de kalpas de tormento a tormento, e de perdição a perdição…” (Milinda Panha, IV, I, 29 – Rhys Davids, 1992: vol. I, 164). Os números são tão grandes que os hindus e os budistas criaram nomes de números de tamanhos astronômicos, tais como koti, que é equivalente a 10 milhões, outro nome é ayuta, que equivale a 100 kotis, portanto 1 bilhão e 100 ayutas equivale a 1 nayuta, portanto 100 bilhões (Dayal, 1999: 77). Har Dayal menciona alguns autores que se aventuraram em estabelecer a duração de uma asankheyyakappa (era incalculável). Por exemplo, Rémusat atribuiu a duração de 10 elevado a 17, ou seja, o número 1 seguido de 17 algarismos, W. Kirfel interpretou como 10 elevado a 140, ou seja, 1 seguido de 140 algarismos, S. Hardy pensa que é equivalente a 10 elevado a 133, ou seja, 1 seguido de 133 algarismos. L. de la Vallée Pousin calculou, de acordo com os dados fornecidos pelo Avatamsala Sūtra, que uma asankheyya é equivalente a 1 seguido de 206 algarismos e J. E. Carpenter adotou o valor de 1 seguido de 140 algarismos (Dayal, 1999: 77-8). Mais adiante em sua obra, Har Dayal afirma, contrariando os números dos autores acima, que “a duração de uma mahākalpa é quatro vezes 320 milhões de anos” e que “a carreira de um Boddhisattwa dura 3 X 10 elevado a 51 kalpas, ou seja, 3 mil bilhões bilhões bilhões bilhões de kalpas” (Dayal, 1999: 78). Valores deste tamanho nos deixam até atordoados. Enfim, por trás destes números astronômicos, o fato é que os monges e os intérpretes budistas desenvolveram a concepção destas eras, com durações gigantescas, com a clara intenção de anunciar o Budismo como uma tradição mais antiga do que o Hinduísmo e o Jainismo, suas principais religiões rivais, porém, em todas as fontes, tudo é mito.

As yugas (eras) hindus

            Então, a fim de não ficar para trás, os hindus também desenvolveram suas especulações sobre os gigantescos ciclos cósmicos, na tentativa de superar as versões budistas sobre o mesmo tema. Diferente dos budistas, os hindus não imaginaram as eras cósmicas como incalculáveis (asankheyyas), contrariamente, eles atribuíram durações específicas para cada ciclo (era), os quais começam com os de menor duração para os de maior duração. O menor ciclo é a yuga (युग). Existem quatro yugas (eras), denominadas conforme os nomes dos arremessos do jogo hindu de dados (Eliade: 1991: 59-63 e Zimmer, 1993: 18-21):

1) Krta Yuga: krta é o particípio perfeito do verbo “kr”, que significa “fazer”, portanto “feito”, “realizado” ou “perfeito”. Este é o lance de dados que concede a vitória total do jogo, pois vale quatro pontos. De acordo com a visão hindu, a ideia de totalidade é associada ao número quatro (chatur). Qualquer coisa completa é vista como possuidora de quatro “quartos” (pādas), ou seja, de “quadruplicidade” (Manusmrti, I.81 – Buhler, 1993: 22), então ela estará bem equilibrada sobre quatro pernas (chatur pāda), tal como a vaca sagrada dos hindus. Assim, krta yuga, a primeira era, é a yuga perfeita, a yuga dos quatro-quartos. Nesta yuga, o Dharma, a ordem moral do universo, equilibra-se durante este período sobre os quatro pés (pādas), com cem por cento, ou seja, quatro-quartos, portanto todo o seu poder impera no mundo. Sobre a Krta Yuga, o Yuga Purāna diz: “Em uma época agradável, surgiu uma yuga de suprema virtude, aí nasceram homens de grande felicidade. Não havia temor entre eles sobre como se sustentar na vida, nem havia morte, nem ladrões, eles tinham árvores que davam frutos à vontade e a terra era repleta de milho. A expectativa de vida deles se estendia por 100 mil anos no Krta Yuga, não havia cobiça entre eles, nem ódio nos corpos dos seres criados. Não havia paixão nem fraude, nem depravação nem mesquinharia, nem contato carnal nem união sexual, nem superioridade pela força” (versos 06-9 – Mitchiner, 1986: 87-8). Entretanto, à medida que o tempo passa, a virtude se enfraquece, desfazendo-se gradualmente (quarto por quarto) o predomínio do Dharma (virtude) no mundo (Manusmrti, I.82 – Buhler, 1993: 22-3).

2) Tretā Yuga: Tretā deriva da palavra sânscrita “tri”, que significa “três”, é a triplicidade. Nesta yuga (era), apenas três quartos do Dharma vigora no mundo. Este é o lance de dados de três pontos. A vaca sagrada do Dharma equilibra-se apenas em três pés (pādas). Sobre esta era, o Yuga Purāna informa: “A expectativa de vida das raízes, das frutas e das flores foi reduzida para a décima parte, a expectativa de vida humana na Tretā Yuga foi estabelecida em 10 mil anos” (verso 21 – Mitchiner, 1986: 89).

3) Dwāpara Yuga: esta é a era do perigoso equilíbrio entre a perfeição e a imperfeição. Seu nome deriva da palavra sânscrita “dwi“, que significa “dois”, portanto a duplicidade. Nesta era, apenas dois quartos do Dharma vigora no mundo e a vaca sagrada da Virtude equilibra-se apenas em dois pés (pādas), ou seja, apenas dois quartos do Dharma têm efetividade no mundo dos homens. Este é o lance do jogo de dados que vale apenas dois pontos. “Aí, então, começou o terrível terceiro Dwāpara Yuga. Aí a duração da vida dos seres foi encurtada pela décima parte, as tristes pessoas deixavam seus corpos após mil anos. Não havia entre eles restrições e assassinatos, terríveis por cauda do emprego da violência. No terceiro yuga, os homens e a terra eram possuídos de Dharma livres de tristeza. Os senhores dos homens, os guardiões, eram hábeis como protetores das pessoas, e havia verdade, retidão e sacrifícios no renomado Dwāpara Yuga” (Yuga Purāna, versos 24-6 – Mitchiner, 1986: 89).

4) Kali Yuga: esta é a era atual, a idade das trevas. Sobrevive miseravelmente com apenas um quarto da força total do Dharma (Virtude). Nesta era, os elementos egoístas, vorazes, cegos e negligentes triunfam e regem a vida. No jogo de dados, kali é o lance perdido. Durante a Kali Yuga, o homem e o mundo alcançam o limite do que têm de pior. Nas palavras de Heirinch Zimmer resumindo um trecho do Vishnu Purāna: “Quando a sociedade atinge o estágio no qual a propriedade confere posição, a riqueza torna-se a única fonte de virtude, a paixão o único elo a unir marido e mulher, a falsidade é a fonte de sucesso na vida, o sexo a única razão de deleite e quando os ornamentos externos são confundidos com a religiosidade interior, estamos, como no mundo atual, atravessando a Kali Yuga” (Zimmer, 1993: 19). Segundo este autor, a Kali Yuga começou “numa Sexta Feira, em 18 de Fevereiro do ano de 3102 a.C.” (idem: 19). Sobre a passagem da Dwāpara Yuga para a Kali Yuga, o Yuga Purāna informa: “E no fim daquela yuga (Dwāpara), a Terra irá para a destruição, os homens, agora sob o controle do tempo, cozinharão para a sua sobrevivência. Keshava (Vishnu) aparecerá no fim da Dwāpara, a fim de destruir cavalos e elefantes, príncipes e homens. Então, quando a destruição dos homens tiver ocorrido e o ciclo dos reis terminado, haverá a quarta e final yuga, chamada Kali” (versos 28-9 e 37 – Mitchiner, 1986: 90). Este último episódio refere-se à guerra do Mahābhārata, quando o deus Vishnu se encarnou como Sri Krishna (Keshava), este evento aconteceu, segundo alguns textos hindus, no intervalo entre o Dwāpara Yuga e o Kali Yuga.

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O Manu Vaivaswata segurando o deus Vishnu encarnado na forma de um peixe (Matsyavatara), no início do atual Manvantara.

            O Manusmrti (Leis de Manu) I.86 resume assim as principais características destas quatro eras; “Na era Krta, a principal virtude é declarada ser a execução de austeridades, no Tetrā o divino conhecimento, na Dwāpara a execução de sacrifícios, na Kali somente a liberalidade” (Bühler, 1993: 24). Este texto (I.83) apresenta números diferentes para as expectativas de vida humana nestas eras, mencionados em anos divinos. Um ano divino corresponde a 360 anos humanos, portanto, segundo o texto acima, a expectativa de vida na Krtā Yuga é de 400 anos divinos, ou seja, 144 mil anos humanos. Nas yugas subsequentes, a expectativa é diminuída em um quarto em cada uma, então seria: 300 anos divinos na Tetrā, 200 anos divinos na Dwāpara e 100 anos divinos na Kali, os quais correspondem a 108 mil anos humanos na Tetrā, 72 mil anos humanos na Dwāpara e 36 mil anos humanos na Kali (Buhler, 1993: 23). Diante de uma expectativa de vida de 144 mil anos, o tempo de vida de Matusalém (969 anos) corresponde apenas à infância.

            O restante do texto do Yuga Purāna, que é um relato do deus Shiva para o deus Skanda, trata dos eventos que acontecerão durante o Kali Yuga, tanto os que já aconteceram, como os que acontecerão no futuro, uma vez que estamos no meio desta era. Agora, o curioso sobre estes relatos é que, tal como no caso de quase todas as narrativas mitológicas de outros povos, os fatos relatados se limitam à região da Índia e à cultura hindu, de tal maneira como se não existisse mais outra região no mundo além da Índia e outro povo além dos hindus. Então, a pergunta que fica é a de que, se os deuses são infinitamente mais sábios que os humanos, tal como pregam os religiosos, por que seus relatos mitológicos sempre se limitam aos restritos conhecimentos humanos conforme uma região e uma época? A conclusão que chegamos é a de que os deuses antigos não viajavam para outros continentes, portanto não faziam intercâmbio, ou não eram oniscientes, pois só conheciam a cultura e a região do povo que os criou, de modo que os conhecimentos dos deuses sempre se limitavam aos restritos conhecimentos humanos da própria região.

            Cada ciclo destas quatro yugas forma um Mahayuga (Grande Era) sendo que cada yuga é precedida e seguida por períodos de intervalo conhecidos como Sandhyā, cada intervalo com a duração correspondente a 1/10 da duração da yuga. Então, as durações das yugas são assim (Wilson, 1840: Book I: p. 23):

Krtā Yuga……………………………… 4.000 anos divinos

Sandhyā precedente………………    400 anos divinos

Sandhyānsa subsequente……….   400 anos divinos

                                  Total………. 4.800 anos divinos X 360 = 1.728.000 anos humanos

Tetrā Yuga……………………………. 3.000 anos divinos

Sandhyā precedente………………   300 anos divinos

Sandhyānsa subsequente……….  300 anos divinos

                                 Total………. 3.600 anos divinos X 360 = 1.296.000 anos humanos

Dwāpara Yuga……………………… 2.000 anos divinos

Sandhyā precedente……………  200 anos divinos

Sandhyānsa subsequente…….  200 anos divinos

                                 Total……. 2.400 anos divinos X 360 = 864.000 anos humanos

Kali Yuga…………………………… 1000 anos divinos

Sandhyā precedente……………  100 anos divinos

Sandhyānsa subsequente…….  100 anos divinos

                                 Total……. 1.200 anos divinos X 360 = 432.000 anos humanos

        Total do Mahāyuga……… 12.000 anos divinos X 360 = 4.320.000 anos humanos

            Mil Mahāyugas (Grande Eras), ou seja, 4,320 bilhões de anos humanos constituem um kalpa, 14 kalpas formam um Manvantara (intervalo de Manu), ou seja, 60,480 bilhões de anos humanos, cada um precedido pela vinda de um Manu (Pai da raça humana) e terminado com um dilúvio. Atualmente estamos no sétimo Manvantara, o Manu deste Manvantara foi Manu Vaivaswata. Daí em diante, até alcançar o ciclo máximo que é o Dia de Brahmā, quando em seguida o universo todo se dissolve na Pralaya (Noite de Brahmā), os dados e os números divergem muito de uma fonte para a outra, portanto para conhecer as divergências, ver: Wilson, 1840: book I: p. 24n. Segundo H. Zimmer, o ciclo mais longo pode chegar a 311,040 trilhões de anos (Zimmer, 1993: 21). Enfim, tal como os budistas, os hindus também deliraram com números astronômicos na criação de seus mitos sobre as eras cósmicas (para os ciclos cósmicos no Hinduísmo, consultar: Wilson, 1840: Book I, 23-6; Mitchiner, 1986: 87-97; Tagare, 1986: part I, 280s; Eliade, 1991: 59-63; Buhler, 1993: 20s; Zimmer, 1993: 18-21 e Hiltebeitel, 2011: 243s e 273s).

Considerações finais

            Entre todas as tradições religiosas que especularam sobre a data da criação ou sobre o início de um ciclo cósmico, um fato comum nos chama a atenção: o fato de que todos os relatos afirmam que a criação do mundo aconteceu junto com a criação da humanidade. Por não terem ainda os recursos da pesquisa científica, os antigos não foram capazes de imaginar o tão longo período de tempo que distanciou a formação da Terra do surgimento da humanidade, isto é, cerca de 4,56 bilhões de anos (ver: Langmuir, 2012). De modo que, na história total da Terra, o período ocupado pela humanidade corresponde a um período comparativamente muito curto, 165 mil anos apenas com o surgimento do Homo Sapiens, ou com o predomínio dos Cro-Magnons há cerca de 28 mil anos atrás (Tattersall, 2008: 126), ou apenas cerca de 8 mil anos atrás com o aparecimento das primeiras civilizações. Portanto, a humanidade ocupa um espaço muito pequeno na história da Terra, porém, não menos importante. Então, com tantos cristãos acreditando que o mundo foi criado em 4004 a.e.c., tal como a data calculada pelo arcebispo James Ussher, o importante paleoantropólogo da atualidade, Ian Tattersall, escreveu o livro: The World from Beginnings to 4000 BCE (O Mundo desde o Começo até 4000 a.e.c.), a fim de mostrar, desde o ponto de vista da evolução humana, o tanto de história existente antes desta data fantasiosa (Tattersall, 2008).

            Agora, outro fato que chama a atenção é o número de pessoas que ainda acreditam nas versões religiosas sobre a criação do mundo ou na gigantesca duração dos ciclos cósmicos. Todavia, isto passa a não ser mais surpresa quando conhecemos os resultados das pesquisas já divulgados que revelam que é muito maior o número de pessoas que acreditam que o mundo foi criado por deus do que ele seja produto da Evolução. Parece que, para a maioria das pessoas, quando um assunto não envolve a religião, a tendência é acreditar na versão científica, mas quando um assunto tem tanto uma versão científica quanto uma versão religiosa de muita importância (por exemplo, a criação do mundo, sobretudo quando o tema envolve o significado, o sentido, a causa e a finalidade da vida), ainda é grande o número daqueles que acreditam mais na versão religiosa.

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