“A Ponte de San Luis Rey” e a Biografia como Heresia

por Octavio da Cunha Botelho

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Robert De Niro é o arcebispo de Lima, Peru, em A Ponte de San Luis Rey (2004).

            Em um Domingo chuvoso de Carnaval a opção foi assistir um filme e uma dica foi ver o drama “A Ponte de San Luis Rey” (The Bridge of San Luis Rey, 2004), dirigido por Mary McGuckian, exibido em um canal de TV por assinatura. Esta produção é a terceira adaptação para a tela da premiada novela homônima de Thornton Wilder (1897-1975), lançada em 1927, ganhadora de três prêmios Pulitzer. As versões anteriores foram de 1929, estrelada por Lili Damita (versão muda) e de 1944, estrelada por Lynn Bari. Em grande parte, a novela se baseia na vida da atriz peruana de teatro Micaela Villegas, apelidada de La Perricholi, quem também inspirou a realização de outro filme de 1953, Le Carrosse d’or (A Carruagem de Ouro), de Jean Renoir.

            Recheado de grandes estrelas do brilho de Robert de Niro, no papel do arcebispo de Lima, de Harvey Keitel, como o tio Pio, de F. Murray Abraham, na pele do vice rei do Peru, de Kathy Bates, como a Dona Maria, Marquesa de Montemayor, de Gabriel Byrne, como o monge Juniper, de Geraldine Chaplin (filha de Charles Chaplin), no papel da abadessa do convento de Santa Rosa de las Rosas (a mais conhecida santa peruana) e da bela Pilar López de Ayala, como Camilla Villegas (La Perricholi), mesmo assim o filme foi um desastroso fracasso de bilheteria, uma vez que o orçamento investiu US$ 24 milhões e a arrecadação mundial de apenas US$ 1,8 milhão. Apesar de a história acontecer no Peru, as filmagens foram feitas na Espanha.

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Gabriel Byrne é o monge franciscano Juniper, acusado de heresia por seu livro biográfico.

            A trama é ambientada em Lima, Peru, do século XVIII, quando cinco pessoas estão atravessando uma ponte sobre um abismo, construída pelos incas um século antes, e esta se desmorona levando os cinco transeuntes à precipitação. A tragédia é assistida pelo monge franciscano Juniper (Gabriel Byrne) que, comovido com a cena, reflete sobre a causa dos acontecimentos, se estes acontecem em razão de um plano divino ou são resultados do acaso. Então, decide em seguida realizar uma pesquisa sobre a vida das cinco pessoas vitimadas. Os resultados das suas pesquisas de seis anos concluem na publicação de um livro. No entanto, as conclusões do monge franciscano não agradam a Igreja, de modo que então o seu livro é levado a julgamento pelo Tribunal da Inquisição peruana. Assim, a história se passa em dois momentos, ou seja, no Tribunal da Inquisição, onde o arcebispo de Lima (Robert De Niro) promove a acusação e o monge Juniper (Gabriel Byrne) luta em sua defesa para se livrar da condenação à fogueira, ao mesmo tempo em que, voltando ao passado, narra a vida daquelas cinco pessoas vitimadas na ponte. São nestas narrativas biográficas que aparecem os personagens do vice rei (F. Murray Abraham), da atriz Camilla Villegas, La Perricholi (Pilar López de Ayala), do seu tio Pio (Harvey Keitel) e de Dona Maria, Marquesa de Montemayor (Kathy Bates).

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Capa do livro de uma edição inglesa de A Ponte de San Luis Rey, de Thornton Wilder

            Ambientado quase que o tempo todo em recintos interiores, esta produção mostra um estilo de iluminação diferente do habitual, quando as luzes das velas, em filmes passados antes da invenção da lâmpada elétrica, apenas decoram a cena, pois a iluminação é feita através de outros artifícios, a fim de que a cena não se torne muito escura e dificulte a identificação dos atores e dos acontecimentos pelos expectadores, enquanto que neste filme esta iluminação extra não é utilizada, tornando as cenas muito escuras. Este recurso torna o filme mais fiel ao ambiente do século XVIII, porém impede a percepção da expressividade dos atores o que torna o filme um tanto frio. Outra desvantagem do filme está na lentidão no desenvolvimento do roteiro. Em razão destes detalhes e de outros, este drama recebeu fortes críticas dos jornais e das revistas nos EUA, cuja pergunta mais comum foi: “Por que atores tão bons se envolvem com filmes tão ruins”?

            Enxergando por outro lado, a avaliação de um filme pode depender fortemente do interesse do expectador pelo assunto, de maneira que, sendo assim, o filme em questão é mais interessante para aqueles que têm curiosidade sobre o tema da Inquisição, do que para os cinéfilos que percebem nos filmes apenas um meio de entretenimento, cuja beleza comove mais do que a temática, pois, apesar dos problemas com a direção e com a produção, a história é muito envolvente. Vivido em um período da história em que tudo era cercado de superstição e de religiosidade, o filme estimula o curioso debate, mesmo hoje quando ainda se discute tanto sobre a existência de um design divino, entre os teólogos e os céticos, sobre as causas dos acontecimentos no mundo, se estes são resultados do plano divino ou do mero acaso.

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A ponte de San Luis Rey mostrada no filme

Um ponto forte no filme é a riqueza do texto, o que leva a diálogos formidáveis. Sendo assim, durante o debate no Tribunal da Inquisição, a argumentação é conduzida por uma retórica erudita, fiel à época e ao ambiente teológico, às vezes levada ao extremo, com aquela eloquência mais elogiosa do que argumentativa, muito comum na Teologia, o que leva o acusador, o Arcebispo de Lima, a ser advertido pelo Vice rei, então presidente do júri. Outro destaque é o figurino, o qual está bem inserido na época, da mesma maneira a ambientação, além da fiel retratação, reproduz a dimensão do temor pela Inquisição sentida nos círculos intelectuais, sobretudo quando o assunto era conhecimento científico. Também, apesar da lentidão, a trama é desenvolvida de um modo cativante, pois mesmo narrando a biografia de muitas pessoas, das quais quaisquer cinco poderiam ser as vitimadas na ponte, o que deixa uma expectativa durante todo o filme e um suspense sobretudo nos momentos finais, enquanto as cinco vítimas só são conhecidas nos últimos minutos. Então, vale a pena assistir.

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2 comentários sobre ““A Ponte de San Luis Rey” e a Biografia como Heresia

  1. Olá Octavio! Vi o filme e confesso que gostei muito da história; pertinente o comentário a seguir : “Em razão destes detalhes e de outros, este drama recebeu fortes críticas dos jornais e das revistas nos EUA, cuja pergunta mais comum foi: “Por que atores tão bons se envolvem com filmes tão ruins”?
    Enxergando por outro lado, a avaliação de um filme pode depender fortemente do interesse do expectador pelo assunto, de maneira que, sendo assim, o filme em questão é mais interessante para aqueles que têm curiosidade sobre o tema da Inquisição, do que para os cinéfilos que percebem nos filmes apenas um meio de entretenimento, cuja beleza comove mais do que a temática, pois, apesar dos problemas com a direção e com a produção, a história é muito envolvente. Vivido em um período da história em que tudo era cercado de superstição e de religiosidade, o filme estimula o curioso debate, mesmo hoje quando ainda se discute tanto sobre a existência de um design divino, entre os teólogos e os céticos, sobre as causas dos acontecimentos no mundo, se estes são resultados do plano divino ou do mero acaso.
    Como me interesso pelo tema e amo biografias, achei-o muito interessante. Grande elenco, realmente.
    Obrigada!
    Rita Gonçalves

  2. Gosto de assistir filme, gosto de filme de época, gosto de história e gostei muito desse filme. Não tinha lido nada sobre ele e, inicialmente, tive dificuldade de entender algumas partes, acho que devido ao número de personagens. Tive que assistir uma segunda vez para ter uma melhor percepção do enredo. E foi um prazer assistir novamente. A música, ah, que música linda.

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