“Hair”, um Retrato Fiel do Movimento Contracultura

por Octavio da Cunha Botelho

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O balé hippie ao som de “Aquarius” no início do filme: cena para ficar na história do cinema.

            Momento gostoso aquele em que podemos rever os bons filmes do passado. Recentemente, tive a oportunidade de re-assistir um dos meus favoritos, o filme musical Hair (1979) do diretor tcheco Milos Forman (premiado por Amadeus), baseado na peça musical homônima, de grande sucesso no final dos anos 1960. Apesar da enorme diferença com a peça teatral, quando muitas músicas foram eliminadas (cerca de dez), o roteiro (de Michael Weller) muito alterado e os personagens com papéis diferentes do original, o filme, mesmo assim, é encantador e, além de comovente, representa, instrutivamente, o mais fiel retrato do Movimento Contracultura mostrado no cinema até hoje, com uma primorosa ambientação nos anos 1960.

             Enquanto a peça musical, cuja estreia aconteceu na Broadway em 29 de Abril de 1968, depois alcançando um monstruoso sucesso internacional, focava mais em mostrar o movimento pacifista dos hippies, o roteiro do filme se ocupa mais com o seu cotidiano, através de uma trama cujo teatro não é capaz de reproduzir, pois não tem os recursos do cinema. No filme, o movimento pacifista é mostrado apenas com cenas de fundo, nunca através de imagens protagonistas. Talvez este tenha sido o motivo pelo qual o filme não recebeu grandes premiações, talvez em razão da proximidade da produção cinematográfica logo após o giro internacional da peça musical, que não permitiu aos críticos descolarem a relação desta com o filme, vendo assim na versão cinematográfica uma distorção da peça musical.

            O elenco está formidável, John Savage no papel do caipira de Oklahoma, que vem à Nova York para se juntar ao exército norte americano, Treat Williams é George Berger, o líder de um grupo de hippies, a bela Beverly D’Angelo no papel da riquinha Sheila, Annie Golden (que também trabalhou na peça musical) na pele da ingênua Jeannie, Don Dacus no papel do cabeludo Woof e Dorsey Wright, o idealista LaFayette que abandona sua noiva e o filho para se juntar ao grupo hippie. Eles encontram Claude (John Savage) no Central Park e desenvolvem uma forte amizade entre eles. Já, a coreografia da dançarina e coreógrafa Twyla Tharp é esplêndida, e o figurino fidelíssimo à época. A cena inicial do balé hippie no Central Park de Nova York, misturando vários estilos, inclusive movimentos de Tai Chi Chuan, ao som de Aquarius, cantada por Ren Woods (33º lugar no ranking das cem músicas mais belas do cinema), é de tirar o fôlego, sobretudo para quem viveu os anos do Movimento Contracultura. Em suma, esta produção é capaz de transmitir o que foi mais essencial no Movimento Contracultura: a rebeldia, pois, tudo no filme transpira este sentimento.

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Treat Williams dançando sobre a mesa de um jantar de gala, outra cena memorável que depois foi imitada em outros filmes.

            Para que o mesmo seja entendido com precisão é preciso conhecer o que foi o Movimento Contracultura dos anos 1960 e 1970, bem como o seu desdobramento no Movimento New Age dos anos 1970 e 1980. Também conhecido como Movimento Hippie, os historiadores, por seu turno, preferem a denominação Movimento Contracultura, em vista do termo ‘hippie’ estar muito estigmatizado pela geração atual, a qual o considera como “um movimento de vadios consumindo drogas”. Muito diferente disto, O Movimento Contracultura tem, cada vez mais, chamado a atenção dos historiadores para as revoluções que provocou na cultura ocidental, a partir dos anos 1960, de modo que a sua importância e a sua influência são estudadas academicamente agora, existindo até historiadores especialistas neste assunto. Em resumo, o Movimento Contracultura foi uma atitude de rebeldia contra a cultura vigente da época, quando os valores tradicionais e autoritários imperavam, a fim de que outros valores tivessem mais espaço neste mundo e suas vozes pudessem ser ouvidas também. O Movimento teve um forte impacto de transformação cultural e social no Ocidente, cujo mais extraordinário, para a juventude, foi a consolidação de uma cultura jovem, a qual vinha tentando ser formar desde os anos 1950, porém não conseguia impor-se. Assim, a partir do Movimento Contracultura, o jovem passou a ter sua própria cultura, sua própria linguagem, seus próprios filmes, sua própria música, sua própria literatura, etc. Pois, antes disto, a juventude e a adolescência eram fases pré-adultas, quando o jovem era educado exclusivamente para se tornar um adulto. Portanto, não existia vida adolescente tal como a conhecemos hoje, o adolescente e o jovem eram pessoas se preparando para serem adultos.

            No meio deste grito de rebeldia, o Movimento abriu-se para diferentes culturas de épocas e lugares distintos, então, daí, uma avalanche de gurus orientais invadiu o Ocidente. Esta foi a época em que praticar meditação, fazer yoga, exercitar-se no Tai Chi Chuan, exercer Medicina Oriental, etc., entraram na moda. Então, com tanta abertura para diferentes formas de misticismo, o Movimento Contracultura pavimentou o caminho e, com isso, semeou a germinação de outro movimento que, em parte se fundiu e, em parte, se manteve separado, o Movimento New Age (Nova Era), que floresceu nos anos 1970 e 1980. Ambos tiveram muitas ideias e propósitos em comum, por isso a parcial fusão. Um exemplo desta fusão pode se visto no próprio filme, bem como na peça musical, trata-se da canção “Aquarius” que, com o tempo, se tornou o hino do Movimento Contracultura. Porém, a sua letra tem mais de Movimento New Age do que de Movimento Contracultura, pois seu tema é o anúncio da chegada de Era de Aquários, a qual deveria suceder a então Era de Peixes. O anúncio aparece bem claro no início da música: “When the moon is in the seventh house, and Jupiter aligns with Mars. Then the peace will guide the planets and love will steer the stars. This is the dawning of the Age of Aquarius…” (Quando a lua estiver na sétima casa, e Júpiter em linha com Marte. Então, a paz guiará os planetas e o amor guiará as estrelas. Esta é a aurora da Era de Aquários…). O Movimento New Age (Nova Era) se fundamentou na Astrologia. Esta é a posição astrológica que os seguidores do New Age determinaram para o início da Era de Aquários, cuja data inicial deveria ter sido em torno do ano 2000, porém, as transformações que a chegada desta Nova Era causariam não aconteceram até agora. Para saber mais sobre o Movimento Contracultura e o Movimento New Age, consultar o livro “Afinal, o que é Religião?”, p. 135-42.

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Annie Golden (Jeannie) e John Savage (Claude) durante uma concentração hippie.

             Agora, voltando ao filme, como explicado acima, o Movimento teve envolvimento com o misticismo oriental, por isso temas orientais são mostrados, sendo que a mostra mais explícita é a experiência alucinógena de Claude (John Savage) com LSD, em uma cerimônia de casamento numa igreja, mas que misturava ritual católico com culto hindu, onde quem conduz a cerimônia de casamento não é um padre, mas sim uma deusa hindu, sobre uma flor de lótus, em uma postura semelhante ao do deus Shiva Nataraja, quem, por sua vez, pergunta aos noivos se aceitam um e o outro como marido e mulher. Então os noivos são quase atropelados por uma fileira de dançarinas gopis (vaqueiras companheiras de Sri Krishna) executando danças vaishnavas. Tudo à moda psicodélica da época. No final da cerimônia, George Berger (Treat Williams) sai da igreja dançando o mahamantra atrás de um grupo de monges Hare Krishnas.

            Falando em dança, uma cena para ficar na história do cinema é a dança executada por George Berger (Tread Williams) sobre uma comprida mesa durante um luxuoso jantar em homenagem à jovem e riquinha Sheila (Beverly D’Angelo), cujos convidados têm o maior cuidado de retirar louça por louça, a fim de que os talheres e os pratos não sejam pisoteados, cena esta depois imitada em outros filmes. O filme nunca se tornou muito popular, mas, mesmo assim, foi lucrativo, visto que o orçamento foi de US$ 11 milhões e a arrecadação mundial US$ 15 milhões.

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James Rado (ao centro), um dos autores da peça musical, desaprovou a versão cinematográfica de Milos Forman.

            Apesar dos elogios acima, os autores da peça musical James Rado e Gerome Ragni não aprovaram a versão cinematográfica de Milos Forman, dirigindo-lhe fortes críticas, achando que Forman retratou os hippies como ‘algum tipo de aberração’ sem qualquer ligação com o movimento pacifista, falhando em transportar para a tela a essência original da obra. Eles declararam que qualquer semelhança entre o filme e o musical se limita a algumas canções, o título em comum e o nome dos personagens. Na opinião dos autores do musical, a verdadeira versão cinematográfica de Hair ainda não foi feita. Em defesa de Michael Weller (roteirista do filme) e de Milos Forman (diretor), pode ser dito que, o que eles fizeram foi transformar a peça musical Hair em um autêntico filme de cinema, agradável de ser assistido, com isso alteram muitos pontos, a fim de que o filme não parecesse um teatro filmado. Enfim, para aqueles que gostam do gênero musical, esta é mais uma obra prima do cinema, portanto imperdível e, depois de assistida, merece um lugar na prateleira daqueles filmes que devem ser vistos bem mais do que apenas uma vez.

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Um comentário sobre ““Hair”, um Retrato Fiel do Movimento Contracultura

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