O Problema Fonológico da Palavra Ham (Cam) e sua Identificação com a Cor Negra

por Octavio da Cunha Botelho

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Pintura da Capela Sistina no Vaticano reproduzindo o episódio da embriagues de Noé

            O curto estudo abaixo foi extraído do capítulo sobre a escravidão, em algumas das principais religiões do mundo, do livro sobre crítica religiosa que estou escrevendo no momento, com a previsão de lançamento para o terceiro trimestre deste ano. Aproveitei o assunto da escravidão no Antigo Testamento para analisar a conhecida Maldição de Ham (Cam), sobretudo a sua identificação com a cor negra da pele, bem como a sua condenação à eterna escravidão. O episódio é relatado em Gênesis 9:18-27, onde Ham, o filho caçula de Noé, pecou ao ver seu pai nu, em um momento de embriaguês, mas surpreendentemente foi o seu filho Canaã, neto de Noé, quem foi amaldiçoado à escravidão por Noé. Com isso, Ham foi identificado com a cor negra da pele pelos intérpretes bíblicos subsequentes. Assim, o estudo seguinte pretende analisar quando e como esta identificação aconteceu.

            Por conveniência e em razão de se tratar de um assunto que, por mais absurdo que pareça, mesmo depois da abolição da escravatura em todos os povos do mundo e dos avanços nos conhecimentos antropológicos da genealogia da ração humana, ainda existem religiosos que acreditam na historicidade deste mito bíblico, pareceu-me então apropriado publicar este trecho do capítulo separadamente aqui, a partir do instrutivo estudo de David M. Goldenberg: The Curse of Ham: Race and Slavery in Early Judaism, Christianity and Islam (A Maldição de Ham: Raça e Escravidão no Início do Judaísmo, do Cristianismo e do Islã), Princeton University Press.

 A Maldição de Ham (Cam)

            Com base em mais um dos arraigados vícios dos religiosos, que é o de confundir mito com história, Ham (הם), transliterado por Cam nas bíblias em português, um dos filhos de Noé, foi identificado com a cor da pele negra e com a condenação à escravidão eterna, conforme a passagem do Gênesis, 9:25, tal como acreditam muitos cristãos, desde o início da Idade Média, até mesmo para alguns cristãos retrógrados nos dias de hoje. Assim, o nome Ham (הם) foi identificado etimologicamente com os significados de “escuro”, “negro” ou “quente” (Goldenberg, 2005: 141). Em seguida, uma prolífera literatura exegética sobre este assunto surgiu a partir do início dos tempos medievais, para fundamentar esta identificação. Também, tal fundamentação foi utilizada pelos cristãos, judeus e muçulmanos para sancionar divinamente a escravidão dos negros africanos. Enfim, uma ideia fortemente enraizada na mente dos povos seguidores das religiões abraâmicas por muitos séculos.

            O episódio com a maldição de Ham (Cam) acontece logo após o pouso da arca depois do Dilúvio:

            “Os filhos de Noé que saíram da arca foram Sem, Cam (Ham) e Jafé. Cam (Ham) era o pai de Canaã. Estes foram os três filhos de Noé, a partir deles, toda a Terra foi povoada.

Noé era agricultor, o primeiro a plantar uma vinha. Bebeu do vinho, embriagou-se e ficou nu dentro da tenda. Cam (Ham), pai de Canaã, viu a nudez do pai   e foi contar aos dois irmãos que estavam do lado de fora.

Mas Sem e Jafé pegaram a capa, levantaram-na sobre os ombros e, andando de costas, para não ver a nudez do pai, cobriram-no.

Quando Noé acordou do efeito do vinho e descobriu o que seu filho caçula lhe havia feito, disse:

‘Maldito seja Canaã! Escravo de escravos seja para os seus irmãos’

Disse ainda:

‘Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem. e seja Canaã seu escavo. Amplie deus o território de Jafé, habite ele nas tendas de Sem, e seja Canaã seu escravo” (Gênesis, 9:18-27 – NVI-PT).

A palavra Ham significa negro?

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A identificação de Ham com a cor negra da pele legitimou divinamente a escravidão dos africanos

             O fato que chama a atenção, logo na primeira leitura do trecho acima, inevitavelmente, é o absurdo de ter sido Ham (Cam) quem cometeu o pecado (de ver o pai nu), mas foi seu filho Canaã que foi amaldiçoado. A explicação mais frequente dos intérpretes bíblicos para este contra senso é a de que Ham (Cam) já tinha sido amaldiçoado antes, por outro motivo, portanto só restou Noé amaldiçoar o filho de Ham, Canaã, seu neto. Agora, o motivo para que um filho que viu o pai nu seja um pecado grave, ao ponto de merecer uma maldição tão humilhante, é difícil de ser explicado sensatamente. Um filho que vê o pai despido não está vendo nada do que já não tenha visto antes, nenhuma surpresa, portanto nada obsceno. Então, qual a razão de ser pecado ou de ser alguma forma de imoralidade?

            Ainda, o mais ridículo é que muitos seguidores das religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) consideraram este mito como um fato histórico e, através de uma interpretação precipitada, forjaram um jeito de identificar a etimologia da palavra הם (Ham) com a cor negra ou escura e, por conseguinte, consideraram Ham como o pai da raça negra e, também, em razão da maldição de Noé sobre Canaã, filho de Ham, encontraram aí então uma sanção divina para a eterna escravidão dos negros africanos. Ademais, acreditar que “a partir de Sem, de Ham e de Jafé, toda a Terra foi povoada”, é tão ingênuo como acreditar que os contos infantis são relatos históricos. Com o passar do tempo a ideia se fixou tanto que quase todos os cristãos tinham certeza. David M. Goldenberg cita a convicção que alguns religiosos tinham alcançado no século XIX: “não deve haver dúvida de que, desde os mais antigos tempos, a pele negra de alguns dos descendentes de Noé era conhecida. Ham, tal como parece, era de pele mais escura do que a de seus irmãos”. “Que a raça negra (…) são os descendentes de Ham, não deve haver dúvida”. “Ninguém duvida, Ham foi o progenitor dos negros africanos”, pois a noção de negros como os filhos de Ham era uma crença bem arraigada (Goldenberg, 2005: 142). Agora, o mais inacreditável é o fato de que, mesmo depois da abolição da escravatura pelo mundo todo, bem como do avanço nos conhecimentos antropológicos sobre a genealogia da raça humana, ainda existem religiosos que atualmente acreditam na historicidade deste relato bíblico.

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A letra hebraica Het escrita na variante Serifa; pivô da identificação de Ham com a cor negra.

            Ainda outra peça do quebra cabeça etimológico contribuiu para aprofundar a identidade dos negros com o filho caçula de Noé, qual seja, a de que a palavra hebraica הם (Ham) significava também “quente”, daí a oportuna associação com os países quentes da África. Então, para os intérpretes bíblicos da Idade Média até o início da Era Contemporânea, ficou cada vez mais evidente que Ham era negro e que, por conseguinte, os povos africanos de pele escura eram descendentes dele e de seu filho Canaã, amaldiçoados a levarem uma vida de eterna escravidão. Enfim, uma vez “que Ham significava ambos, “negro” e “quente”, os descendentes tinham de vir da África. Esta linha de interpretação forneceu a sustentação para a Maldição de Ham” por muitos séculos (Goldenberg, 2005: 144). Com isso, em qualquer dicionário, glossário ou enciclopédia desde o início do período medieval em diante, a palavra הם (Ham) aparecia com os significados de “negro”, “escuro” ou “quente”.

            Uma sustentação para a identidade de Ham com os negros da África foi, ou ainda é para alguns religiosos, extraída das passagens dos Salmos 105:23 e 27 e 106:22, onde o Egito é chamado de “a terra (ארצ – arets) de Ham (הם)”. Apesar da menção acima, a rigor, o texto bíblico não menciona nenhum dos filhos de Noé como negro, portanto a associação de Ham com a raça negra foi uma interpretação posterior.

 O resultado dos atuais estudos etimológicos

             Então, depois de analisar várias teorias etimológicas que tentaram explicar a origem da palavra hebraica הם (Ḥam), David M. Goldenberg observa: “Apesar da atratividade das várias teorias, contudo, nenhuma destas sugestões etimológicas é aceitável. A pesquisa recente mostrou conclusivamente que o antigo hebraico mantinha dois sons distintos do proto-semítico, o som ḫ (uma consoante fricativa velar) e o som ḥ (uma consoante faríngea fricativa), tal como o Árabe moderno ainda usa. O alfabeto que os antigos hebreus herdaram dos fenícios, entretanto, tinha somente um caractere para o som ḥ. Então, o caractere ḥ (hebraico ה), portanto, teve de fazer o duplo papel de representar ambos os sons, o ḥ, como também o som ḫ e, com isso, restou aos antigos leitores saber quando pronunciar o sinal de um jeito ou o outro de outro jeito”. (Goldenberg, 2005: 146-7). Em outras palavras, existiram então no passado duas palavras hebraicas muito semelhantes: ḥam, com a inicial consoante fricativa faríngea, que é a palavra para o significado de ‘negro’ e ‘quente’; como também a palavra ḫam, com a inicial consoante fricativa velar, para o significado do filho de Noé, porém foi utilizada apenas uma letra (ה) para representar as duas consoantes que iniciavam palavras com significados diferentes, quando o alfabeto hebraico foi criado. Concluindo, com o uso de apenas uma letra (ה) para representar as duas palavras, a palavra ḥam (negro, escuro, quente) passou, com o tempo, a ter o mesmo significado da palavra ḫam (filho de Noé), quando o conhecimento da diferença entre as pronúncias destas duas consoantes iniciais se perdeu.

                Adiante, David M. Goldenberg detalha mais ainda: “O nome bíblico Ham não significa “escuro, negro ou quente”. O nome não tem relação com km(t) “negro” ou com as palavras semíticas para “escuro, negro ou quente”. a palavra Ham, que começa com ḥ, deriva de uma raiz diferente que estas palavras, que começam com kor h respectivamente. Quando o hebreu foi passado para a forma escrita, portanto, os dois fonemas diferentes ḫ e ḥ foram representados por um único sinal gráfico (a letra ה) e, como uma consequencia, a distinção entre o nome ḫam e as palavras baseadas nas raízes ḥwm “escuro e negro, e ḥmm “quente” foi perdida, e foi eventualmente admitido que estas palavras eram relacionadas, visto que eram escritas com ה. Nós não sabemos quando a admissão destas hipóteses aconteceu pela primeira vez, mas nós começamos a ver a confusão com a palavra “quente” no primeiro século e com as palavras “escuro e negro” aproximadamente entre os séculos segundo e quarto” (Goldenberg, 2005: 156).

 Obra consultada

GOLDENBERG, David M. The Curse of Ham: Race and Slavery in Early Judaism, Christianity and Islam. Princeton: Princeton University Press, 2005.

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