Os Deuses e suas Iconografias Étnicas

por Octavio da Cunha Botelho

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A Anunciação de Jan Van Eyck.

            O canal de TV Arte1 exibiu ontem (18/12/14) um documentário sobre um dos quadros de pintura mais valiosos do mundo. Trata-se da obra “A Anunciação” do pintor holandês Jan Van Eyck, pintado entre os anos 1434-6 e.c., sobre o tema do episódio da aparição do arcanjo Gabriel para a Virgem Maria, a fim de comunicar a sua concepção imaculada, a qual traria ao mundo o Salvador (Lucas: 1:26-38). Encontra-se exposto na National Gallery of Art de Washington, DC, EUA, desde 1931 quando foi confiscado da coleção de arte do grande milionário norte americano da época, Andrew Mellon, durante um processo judicial por sonegação de impostos, mede 93 cm de altura por 37 cm de largura. Seu formato exageradamente vertical se deve ao fato de poder ter sido uma peça da parte esquerda de um tríptico (pintura em painel de madeira com três peças presas por dobradiças, a qual podia dobrar-se ou ser exposta na posição aberta), as outras duas partes do tríptico foram perdidas.

            Deixando para os críticos de arte o comentário sobre o fabuloso valor artístico desta obra, o que nos interessa aqui é que seu tema também reproduz a habitual prática, muito comum entre os artistas religiosos de quase todas as tradições, de representar os seus deuses, as suas deusas e os seus anjos conforme a fisionomia, o figurino e as características étnicas do povo que os criou. No caso da pintura de Van Eyck, o contexto judeu da Anunciação, século I e.c., é transplantado para um contexto europeu da Idade Média. As fisionomias do Arcanjo Gabriel e da Virgem Maria não são de personagens judeus, senão de pessoas de aparência européia. Alguns críticos sugerem que a fisionomia de Maria foi extraída dos traços de Isabel de Portugal, esposa de Felipe, o Bom, Duque de Burgundy, quem provavelmente encomendou a pintura para Van Eyck. O vestuário não é próprio de judeus do século I e.c., mas sim trajes da realeza, sobretudo do norte da Europa. O templo onde eles estão situados não é um templo judeu, senão uma igreja gótica da Idade Medieval.

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O arcanjo Gabriel na iconografia muçulmana: fisionomia e vestuário árabes.

            A comum tendência de representar os deuses conforme a sua própria etnia já era observada desde a Antiguidade. Xenófanes de Cólofon (570 – 475 a.e.c.), um filósofo pré-socrático da Escola Eleata, zombou deste instinto artístico da seguinte maneira: “Os etíopes dizem que seus deuses são negros e de narizes achatados. Os trácios que seus deuses são de olhos azuis e de cabelos vermelhos. Mas, se os cavalos, os bois ou os leões tivessem mãos, ou pudessem desenhar com suas mãos, e realizar tais tarefas como os homens, os cavalos desenhariam as figuras dos deuses semelhantes a um cavalo, e os bois, como idêntico a um boi…” (Fragmentos 14 a 16).

            No antropomorfismo religioso, as religiões teístas frequentemente criam sua iconografia conforme as características étnicas do seu próprio povo. Sendo assim, os deuses hindus recebem a aparência do povo indiano. Os deuses escandinavos são representados com a aparência dos povos nórdicos. O arcanjo Gabriel, o anjo que ditou o Alcorão para Maomé, é representado com fisionomia e vestuário árabes, diferente da sua iconografia na arte cristã. Os deuses das religiões africanas são de pele negra, conforme a sua raça. Após a chegada do Cristianismo à Europa, a fisionomia de Jesus recebeu um traço europeu: cabelos loiros, olhos azuis e pele clara. Ao ser levado para a China, Jesus assumiu traços chineses. Buda, natural da Índia, ao ser levado para a China, recebeu a fisionomia de um chinês.

            Veja abaixo uma seleção de iconografias étnicas:

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O arcanjo Gabriel ditando o Alcorão para Maomé; fisionomia oriental

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Depois de ser introduzido na Europa, Jesus recebeu pele clara, cabelos loiros e olhos azuis.

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Jesus na iconografia africana

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Uma representação hipotética de como seria a fisionomia de um judeu do primeiro século, antes da Diáspora.

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O episódio do batismo de Jesus por João Batista no Cristianismo chinês.

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A Última Ceia na iconografia do Cristianismo Chinês

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O Buda, que era natural da Índia, depois de introduzido no China, recebeu fisionomia chinesa.

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O deus hindu Vishnu ladeado pela deusa Lakshmi e pelo deus Shiva; fisionomia e figurinos indianos.

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Um Jesus africano

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Iemanjá na Iconografia africana

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No Brasil, Iemanjá, às vezes, é representada com a pele clara.

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A Virgem Maria e o Menino Jesus na iconografia do Cristianismo Chinês.

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O deus Thor da religião escandinava; fisionomia conforme a raça nórdica.

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