O Perigo do “Cristianocentrismo”

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A equipe de produção do documentário Brasil Místico gravando na sede da religião Oomoto do Brasil.

            O canal de TV por assinatura +Globosat exibiu ontem (08/12/14) mais um episódio da série de documentários denominada ‘Brasil Místico’. Desta vez o assunto foi ‘Ateísmo e Agnosticismo’. Surpreende-nos o fato deste tema entrar na pauta desta série, sobretudo por ser exibido em um canal da rede Globo, um grupo de comunicação tendenciosamente católico. Os mais experientes perceberão como este assunto não tinha oportunidade nos canais de televisão no passado. Tudo indica que o ateísmo alcançou mais notoriedade nos últimos anos, ao ponto de agora entrar na pauta da programação de temas dos documentários sobre religiões no Brasil. Com isso, parece que os ateus estão sendo mais respeitados no momento, conseguindo, por conseguinte, remover gradativamente aquela antiga imagem estigmatizada de que são imorais e desumanos.

            O episódio foi intercalado com depoimentos de uma antropóloga, de um neurologista, de um ex-pastor, de alguns religiosos e de ateus. O dirigente da ATEA, Daniel Sottomaior, falou sobre o ateísmo. O comentarista esportivo, Juca Kfouri, desabafou seu ateísmo: “gostaria muito de acreditar em deus e na vida após a morte, seria muito bom se tudo isto fosse verdade, mas não consigo acreditar”.

            Agora, o que gostaria de observar nesta nota é um detalhe da declaração de um dos depoentes de que “ninguém se converte ao ateísmo, pois todos nós nascemos ateus”. A minha observação é a de que esta declaração reproduz a antiga e viciada prática, entre ateus e religiosos, de entender a religião no restrito sentido do ambiente religioso em que vive, ou de onde recebeu sua educação religiosa, ou do ponto de vista da religião que possui mais conhecimento, projetando assim esta perspectiva para o entendimento das religiões em geral. Em outras palavras, no caso das pessoas residentes no Brasil, de entender a cultura religiosa, como um todo, apenas do ponto de vista do Cristianismo. Pois, pelo fato desta última ser uma religião proselitista, ou seja, aberta à conversão, muitos pensam que todas as religiões do mundo são assim, por isso imaginam que “todos nós nascemos ateus e somos transformados pela conversão religiosa”. Exemplos de religiões proselitistas são: Cristianismo, Islamismo e Budismo.

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No Hinduísmo, uma religião hereditária, o status religioso é obtido no nascimento.

            Para quem vive em um mundo cristão, a declaração acima parece satisfatória e aplicar-se às religiões em geral, entretanto, este não é o caso das religiões hereditárias: Hinduísmo, Jainismo, Zoroastrismo, Yezidismo (uma religião da etnia curda) e algumas correntes do Judaísmo, cuja conversão não é possível, uma vez que é preciso nascer como filho ou filha de um casal de uma destas religiões para obter o status religioso. Portanto, a filiação religiosa é obtida com o nascimento. Por exemplo, ninguém pode se converter ao Hinduísmo, a religião hereditária com o maior número de seguidores no mundo, pois para ser um hindu é preciso ser filho ou filha de um casal de uma das castas (varnas) do Hinduísmo (Brâmane, Kshattriya, Vaishya ou Sudra). De modo que, o hindu obtém o status de hindu ao nascer, portanto é um hindu desde o nascimento. Mesmo assim, cabe-lhe o direito de abandonar a religião, caso não deseje seguir a tradição dos pais. Em razão disto, por ser muito numeroso, o Hinduísmo é a religião hereditária com o maior número de dissidentes.

            Enfim, o conhecimento sobre a diversidade e a transformação religiosas é essencial para evitar tal “cristianocentrismo”, isto é, o de impedir a projeção do conhecimento que alguém tem do Cristianismo para o entendimento das religiões em geral. A percepção deste vício cultural, presente em muitos autores, foi uma das razões que me levou a decidir que o assunto do meu primeiro livro deveria ser sobre o controvertido conceito de religião, tratando de suas diversidades e transformações, tal como discuti em “Afinal, o que é Religião?”, lançado no primeiro semestre deste ano (para conhecer como o “cristianocentrismo” contamina alguns autores, ver páginas 16-21).

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2 comentários sobre “O Perigo do “Cristianocentrismo”

  1. Eu sempre considerei que a declaração original se refere a conversão ativa. Algumas religiões serem atribuídas hereditariamente não muda o fato que a pessoa só passa a compreender a religião que lhe foi atribuída após anos de doutrinação.

    • Concordo com o André e vejo com preocupação esse “egocentrismo cultural”, onde as pessoas nem percebem que seguem determinada religião, ideologia ou conceito de moral unicamente pelo meio e tempo em que vivem. A humanidade só teria a ganhar se as pessoas debatessem qualquer assunto sem tabus, com bom senso e inteligência e percebendo o viés cultural de suas ideias.

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