A Controvérsia sobre a Afixação de Jesus em uma Cruz ou em uma Estaca

por Octavio da Cunha Botelho

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A ideia de que o que Jesus carregou na Via Dolorosa foi uma cruz tornou-se uma imagem quase generalizada.

            Neste último Domingo (09/11), o canal de TV Arte1 exibiu o clássico brasileiro “O Pagador de Promessas” (1962), do diretor e roteirista Anselmo Duarte (1920-2009), drama baseado na peça teatral de Dias Gomes (1922-1999), o filme com a mais alta premiação da história do cinema brasileiro, visto que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962, aliás, o único filme brasileiro a alcançar tal triunfo. Também, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1963, mas perdeu para o filme francês “Les Dimanches de Ville d’Avray“.

            O drama narra a história de um ingênuo camponês, apelidado de Zé do Burro, que fez uma promessa para santa Bárbara (Iansã no Candomblé), a fim de que seu burro de estimação ficasse curado de uma doença após ser atingido por um raio. O animal se curou e a promessa consistia em carregar uma cruz, tal como a de Jesus, desde a sua propriedade rural, no interior da Bahia, até a igreja de santa Bárbara em Salvador, para então colocá-la no altar. Chegando lá, ele é impedido pelo padre de entrar na igreja, pelo fato da promessa ter sido feita em um terreiro de Candomblé, resultando assim em um conflito entre Zé do Burro e o religioso, bem como o surgimento de um reboliço na cidade, o que atraiu o envolvimento de outras pessoas.

             Zé do Burro carregou uma cruz nas costas, semelhante àquela comumente reproduzida na arte cristã e nos filmes sobre a vida de Jesus, por um percurso de sete léguas, isto é, o equivalente a 46,2 km, portanto um trajeto bem mais longo do que aquele percorrido por Jesus na Via Crucis, cuja extensão é de cerca de um km. A reprodução artística de Jesus carregando a cruz, na sua trajetória para a crucificação no Calvário, se tornou tão comum, que quase todos atualmente a consideram como a maneira pela qual tudo deve ter acontecido, tornando impossível imaginar este trajeto pela Via Dolorosa diferente daquele de Jesus carregando uma cruz. Enfim, mais precisamente, o que quase todos imaginam é que o que Jesus carregou em seu percurso pela Via Crucis, até a crucificação no Calvário, foi exatamente uma “cruz”.

            Apesar desta difundida aceitação da imagem de Jesus carregando a cruz pela Via Crucis, alguns pesquisadores e cristãos protestantes contestam esta interpretação tão disseminada, mediante a alegação de duas razões: primeira, a de que a palavra grega, traduzida para as línguas modernas como cruz nos evangelhos, não possui este exato sentido quanto investigada mais cuidadosamente e, segunda, a de que, conforme experimentos já realizados, é humanamente impossível uma pessoa carregar uma cruz, nas dimensões daquela reproduzida na arte cristã e nos filmes, cujos intérpretes cristãos pesam ser o modelo usado pelos romanos naquela época (com dimensão, consistência e resistência necessárias para suportar o peso do condenado por muitos dias, portanto uma cruz muito pesada – pesquisas apontam que a morte através da crucificação não acontecia imediatamente, o processo era gradual, podendo se estender por dias até o crucificado falecer completamente), por toda extensão da Via Crucis (cerca de um km), uma vez que o peso e a dificuldade de arrastá-la exigiria um esforço sobre-humano e um tempo bem mais longo do que aquele narrado nos evangelhos.

CALVÁRIO

De acordo com alguns experimentos, a cruz, tal como retratada na arte cristã e nos filmes, é impossível de ser carregada por um longo percurso como a Via Crucis, em razão do peso e da dificuldade em arrastá-la.

            A primeira alegação discute o significado da palavra grega “stauros“, comumente traduzida como “cruz” nas traduções modernas e como “crux” na tradução latina de Jerônimo do Novo Testamento. A argumentação é a de que esta palavra grega não significa “cruz”, na maneira tal como a entendemos hoje, pois o significado original de “stauros” é “estaca”, “poste”. A passagem onde a menção sobre Jesus ‘carregando a cruz’ aparece com mais clareza é no Evangelho de João 19: 17: “Ele próprio (Jesus) carregava a sua cruz (stauros) para fora da cidade, em direção do lugar chamado Calvário…”. Os defensores da hipótese de que Jesus não foi afixado em uma cruz, mas sim em uma estaca (stauros), apontam, como reforço para o seu argumento, a seguinte passagem dos Atos dos Apóstolos (5: 30), onde é mencionado que “o deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-o numa madeira (xylon)”. Em algumas versões do Novo Testamento a palavra grega xylon é traduzida como árvore. A questão é controvertida, em virtude dos múltiplos significados das palavras gregas “stauros” e “xylon“. A palavra “xylon” pode também significar “tronco de lenha”, então, em razão disto, alguns defendem que Jesus morreu, mais precisamente, afixado em um tronco, com apenas um tronco vertical, e não em uma cruz com dois troncos, um vertical e outro horizontal. Alguns seguidores das igrejas protestantes são fervorosamente defensores desta hipótese, com a intenção de contestar a versão católica da morte de Jesus em uma cruz.

            Já os que defendem que Jesus foi mesmo preso em uma cruz, explicam que a razão para se traduzir a palavra grega stauros por estaca ou estaca de tortura e não por cruz é que, originalmente, stauros significa poste, conforme se pode ver em Homero, Esíquio e outros. Porém, passou a significar duas traves (uma vertical e outra horizontal) atravessadas uma na outra. É possível encontrar nos escritos dos autores cristãos e dos não cristãos que a cruz, no tempo de Jesus, usada para punir os criminosos, possuía uma trave vertical chamada staticulum e outra trave horizontal denominada patibulum. Então, o criminoso era preso na trave horizontal (patibulum), com os braços abertos, e depois ele era afixado na trave vertical, formando assim a cruz. Sendo assim, os defensores da hipótese acima explicam que, o que Jesus carregou no trajeto da Via Crucis, não foi exatamente a cruz completa, mas sim apenas a trave horizontal (patibulum) da cruz, para então ele e a trave horizontal (patibulum) serem colocados na trave vertical (staticulum), em forma de cruz, quando Jesus chegou ao Calvário.

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Segundo alguns cristãos e historiadores, o que Jesus carregou na Via Crucis foi, na verdade, apenas a trave horizontal (patibulum), a qual depois foi afixada à trave vertical (staticulum) no Calvário, a fim de formar a cruz.

            Ya’cub H. Saadeh e Peter H. Madros se defendem assim dos que alegam que o que Jesus carregou na Via Crucis foi uma estaca vertical, para depois ser afixado nela: “Nos evangelhos, é evidente que Cristo saiu carregando sua cruz, mas se esta cruz (stauros) fosse apenas uma longa peça de madeira, teria sido impossível carregá-la, porque teria de ser arrastada para frente e não carregada, e nós somos informados pelos evangelistas que Simão de Cirene foi obrigado a ‘carregar a cruz de Jesus’. Portanto, Cristo não carregou a peça vertical de madeira conhecida como stauros pelos gregos, mas apenas o patíbulo (patibulum). Os evangelistas empregaram o termo cruz (stauros) para designar a ambas as peças, a vertical e a horizontal. Portanto, quando dizem que Jesus carregou a cruz, estão se referindo ao patíbulo (peça horizontal). Quando dizem que ele foi crucificado na cruz, estão se referindo a ambas as peças” (Madros, 1995: 59).

            No entanto, John Denhan Parsons já argumentava, em seu livro de 1896, The Non-Christian Cross (A Cruz Não Cristã), que “não existe uma única sentença nos numerosos escritos que formam o Novo Testamento, que no original grego forneça, mesmo sequer uma evidência indireta, no sentido de que o stauros usado no caso de Jesus fosse diferente do stauros comum, muito menos no sentido de que consistisse não em um só pedaço de madeira, mas em dois pedaços pregados juntos em forma de uma cruz… É um tanto enganoso da parte de nossos mestres traduzirem a palavra ‘stauros‘ por ‘cruz’, ao verterem os documentos gregos da Igreja para a nossa língua nativa, e apoiarem tal medida por incluírem ‘cruz’ em nossos léxicos como sendo o significado de stauros, sem explicarem cuidadosamente que esse, de qualquer modo, não era o significado primário desta palavra nos tempos dos apóstolos, e que se transformou neste significado muito tempo depois” (Parsons, 1896: 23-4). Mais adiante, ele observa que quatro palavras gregas reproduzem o significado de ‘crucificar’ e ‘crucificado’ no Novo Testamento, estas são: prospegmini, anastauroo, sustauroo e stauroo, e reitera que nenhuma delas tem o significado de ‘crucificar’. Também, que dentre estes verbos gregos o que mais aparece é ‘stauroo‘, quarenta e quatro vezes no Novo Testamento, porém ele reforça que, em nenhum caso, tem o significado de ‘crucificar’, mas sim de ‘afixar em uma estaca’ (Parsons, 1896: 24-6).

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Para alguns pesquisadores e cristãos protestantes, Jesus não foi afixado em uma cruz, mas sim em uma estaca (stauros).

            A avaliação da discussão acima é que, a única certeza que esta controvérsia, tal como as centenas de outras, nos proporciona é a de que estas polêmicas acontecem em razão do alto grau de imprecisão dos relatos bíblicos, e o Novo Testamento não é diferente. Temos de reconhecer que os autores dos evangelhos não eram historiadores, portanto as suas intenções não eram as de narrar os atos e os ditos de Jesus com extrema fidelidade aos acontecimentos, e sim, de outro modo, divulgar a sua mensagem e as suas façanhas na medida da admiração que estes autores evangelistas tinham por seu salvador, com a interpolação de embelezamentos e de mitos, a fim de aumentar a carga dramática da narrativa. De maneira que, para eles, o mais importante era a persuasão, e não o relato fiel dos fatos e da mensagem. Ademais, precisamos nos lembrar de que o Cristianismo surgiu entre as camadas culturalmente baixas da sociedade, em um local na periferia cultural do Império Romano, a Palestina, com isso a dificuldade inicial de encontrar cristãos alfabetizados e capazes de registrar as mensagens e os atos de Jesus com habilidade. Por fim, outro fato que deve ser observado é que estes autores evangelistas, com pouca instrução, não imaginavam que aquilo que estavam registrando naquela época iria, no futuro, despertar tanto interesse dos estudiosos subsequentes, ou seja, com o tempo a pormenorização dos estudos do Novo Testamento chegou a um grau de interesse por detalhismos tão minuciosos nos dias de hoje, o que a transformou em um rigorismo muito distante da despreocupação e do descuido iniciais com detalhes dos autores dos evangelhos e dos outros textos do Novo Testamento, mesmo depois das inúmeras correções e melhorias manipuladas pelos copistas dos manuscritos, nos séculos seguintes, tal como confirmam as pesquisas da Crítica Textual da Bíblia.

Obras citadas

MADROS, Peter H. e Ya’cub H. Saadeh. Fé e Escritura: Desafios e Repostas. São Paulo: Edições Loyola, 1995.

PARSONS, John Denhan. The Non-Christian Cross. London: Simpkin, Marshall, Hamilton Kent & Co., 1896.

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