“Além da Vida” Fica Aquém da Expectativa

por Octavio da Cunha Botelho

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Matt Damon vive o papel de um operário atormentado com o seu dom clarividente, o qual, ao contrário, ele considera uma maldição.

            Os filmes sobre a vida depois da morte são geralmente produzidos com o objetivo de atrair o público espírita, esotérico e new ager. No entanto, surpreendentemente, este parece não ter sido o caso do drama Além da Vida (Hereafter, 2010), dirigido pelo ator e diretor Clint Eastwood. Despido de mensagem catequética, tão comum nos filmes baseados em livros e relatos espíritas, esta produção, escrita pelo roteirista Peter Morgan (Frost/Nixon e A Rainha), omite a pretensão de doutrinar o espectador, em favor de uma abordagem cujos protagonistas até duvidam de suas experiências sobrenaturais. Ademais, dramas com este tema, diferentes dos filmes de terror e de comédia sobre o mesmo assunto, onde o tema é encarado como fantasia, são percebidos com mais realismo, de modo que a concepção religiosa do espectador participa mais acentuadamente no julgamento do roteiro.

            Este drama, protagonizado por três personagens envolvidos e também interessados na vida além da morte, é estrelado por Matt Damon, que vive o papel do operário norte americano George, um rapaz que possui o dom da vidência desde criança, porém se encontra em constante conflito com esta experiência, entendendo-a como uma maldição e não como um dom. Também, por Cécile de France, que vive o papel de uma jornalista francesa (Marie), a qual atravessa uma experiência de quase morte durante o tsunami de 2004 na Ásia, para então retornar à Paris com sua visão de mundo inteiramente alterada após a catástrofe.  E por fim, o jovem ator Frankie Mclaren, no papel do adolescente Marcus, que perde seu irmão gêmeo durante um atropelamento em Londres, ocorrência que o transforma em um obcecado por respostas sobrenaturais sobre a sua perda. Enfim, três personagens, George, Marie e Marcus, residentes em distantes cidades, São Francisco, Paris e Londres respectivamente, porém ligados por um interesse comum, a vida sobrenatural. Nenhum dos três tem antepassado e convívio religiosos, todos são ateus, fato que procurou mostrar a pretensão de neutralidade religiosa do filme. Com o desenrolar do drama, os acontecimentos nas vidas dos três sinalizam para um possível encontro entre eles, situação que nos faz lembrar o filme francês Retratos da Vida (Les Uns et les Autres, 1981) de Claude Lelouch, com a diferença de que, enquanto o elo de ligação entre os personagens no filme do cineasta francês é a música, no filme de Eastwood, o elo é a vidência.

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Cécile de France é Marie, uma jornalista francesa que passa por uma experiência de quase morte durante o tsunami de 2004 na Ásia.

             Um fato que chama a atenção no filme é a maneira pela qual o vidente George (Matt Damon) realiza as suas sessões de vidência, as quais ele as denomina de conexões, ao invés da convencional incorporação mediúnica, utilizada pelos espíritas, o seu método de comunicação com os mortos acontece apenas com o toque do vidente nas mãos do participante, portanto diferente do tradicional transe mediúnico. Este pode ser outro exemplo da preocupação com a neutralidade religiosa.

            Outro episódio curioso é quando George (Matt Damon) decide fazer um curso noturno de culinária. As aulas acontecem em pares de alunos, então ele é acompanhado por Melanie (Bryce Dallas Howard), uma jovem por quem ele tem uma passageira atração. Durante as aulas, os alunos são obrigados a experimentar diferentes sabores de pratos de comida com os olhos vendados, um fato que nos leva a imaginar que o argumento do filme poderia se encaminhar para uma curiosa associação entre a visão sobrenatural e o distúrbio da sinestesia, fenômeno estudado pelos neurologistas nos casos de pacientes que, entre outras razões, alegam possuírem dons de clarividência. Sinestesia é um fenômeno neurológico que consiste na produção de duas sensações de natureza diferente por um único estímulo sensorial. Ou seja, são sensações correspondestes a certo sentido sensorial que são associadas a outro sentido sensorial. Em outras palavras, sinestesia é uma condição neurológica que implica que o cérebro interpreta sensações sensoriais diferentes em simultâneo, ou seja, o som pode representar uma cor ou um odor, um cruzamento de sensações em um único estímulo. Assim, uma cor pode ter um sabor, ou um som pode ter uma forma. Esta desordem neurológica pode ser a causa de muitos casos de visões e de alucinações. Porém, nada disto acontece e o roteiro permanece naquela mesma banalidade convencional.

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Marie (Cécile de France) e George (Matt Damon) se encontram em Londres: “atração sobrenatural”.

            Por se tratar de um drama, o foco do roteiro está mais dirigido para a angústia vivida pelos personagens atormentados por conta das visões sobrenaturais, do que para a discussão da realidade ou não da vida depois da morte, tal como este último foco é sempre prioridade nos filmes espíritas. Mesmo assim, após um trabalho comparativo, o balanço consensual da crítica apontou que “apesar de uma premissa que provoca reflexão e do talento típico de Clint Eastwood como diretor, Além da Vida deixa de gerar muita força dramática, vacilando entre o sentimentalismo comovente e o tédio barato”. De fato, a premissa do filme é interessante, o que nos prende no início, no entanto, com o desenrolar do filme, a banalidade predomina, transformando algumas passagens do filmes em momentos entediantes para o espectador. Apesar das críticas, o resultado da bilheteria foi lucrativo, pois o orçamento custou US$ 50 milhões e a arrecadação somou US$ 105 milhões.

            Se a pretensão do roteirista foi deixar em aberto a discussão sobre a realidade da vidência, colocando-se numa posição neutra na posição pró crença ou pró ceticismo quanto às visões sobrenaturais, tal como alguns comentaristas perceberam, esta proposta poderá não convencer a todos, uma vez que a veracidade das experiências de vidência, mostradas durante as sessões clarividentes de George, apesar dos seus conflitos pessoais, é muito explicita para que deixe dúvida, embora, em outras passagens, são mostrados exemplos de charlatanismo. Enfim, após um balanço de todas as circunstâncias, o filme se apresenta mais como pró-ocultismo do que contra.

            Agora, se percebido desde uma perspectiva didática, a contribuição deste filme para a discussão sobre a realidade da vida após a morte é mínima, pois tudo que é mostrado já é muito conhecido. Tampouco o drama é capaz de nos emocionar o suficiente para que o mesmo tenha um lugar na prateleira dos filmes que merecem ser vistos mais de uma vez.

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