A Superstição no Futebol e a Sanção Presidencial

por Octavio da Cunha Botelho

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Durante a cerimônia de entrega da taça, Dilma Rousseff fez o gesto supersticioso de bater na madeira para afastar o azar durante a Copa.

            Um fato que chamou a atenção na semana passada foi a ‘batida na madeira’, efetuada pela presidente Dilma Rousseff, durante a entrega da taça da Copa do Mundo (02/06/14), ao lado do ex-capitão Cafu, do presidente da Fifa e do Ministro dos Esportes. Trata-se de uma superstição antiga, praticada para afastar o azar. Após alguns dias, ela confirmou, em entrevista ao jornalista Fábio Pannunzio, que é supersticiosa.

            Bem, que o futebol quase sempre está envolvido com a superstição é um fato que todos sabem, até aí nada anormal, agora, o surpreendente é o gesto de crendice partir da chefe do poder executivo brasileiro, fato que nos leva a pensar sobre o tipo de exemplo cultural que é esta prática, proveniente de uma presidente, é capaz de deixar para a população brasileira, quando nos lembramos da antiga frase ensinada pelos nossos país e avós: “o exemplo vem de cima”. Será que Dilma deu um bom exemplo?

            Antes de continuar com este assunto, é preciso informar a origem controvertida desta superstição. Durante a pesquisa não foi possível encontrar uma fonte unânime, entretanto a mais mencionada é a de que ela se origina dos antigos celtas que batiam na madeira das árvores, onde residiam os bons e maus espíritos, para afastar a má sorte. Também, não foi possível encontrar um registro, contemporâneo ou pelo mesmo próximo, sobre esta prática, uma vez que os sacerdotes celtas (druidas) eram proibidos de passarem seus ensinamentos para a forma escrita, portanto somente muitos séculos depois da sobrevivência da tradição é que os primeiros textos foram anotados. Não foi possível também encontrar um registro latino pelos escritores romanos sobre esta superstição. Bem, qualquer que seja a origem, o fato é que ela tem significados e propósitos diferentes em distintos povos atualmente. Curioso notar que o significado e o objetivo na Bulgária, terra dos ancestrais de Dilma Rousseff, são muito parecidos com os atribuídos no Brasil.

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Bater na madeira, superstição antiga com significados e propósitos diferentes em distintos povos.

            Ademais, o conceito de superstição, tal como o de religião, é controvertido, depende, sobretudo, de quem e da posição onde se encontra quem a define. Na maioria das definições, a influência cristã na conceituação é notória. A origem etimológica do latim também é obscura, ‘superstitio‘ (super: em acima, sobre, por cima; e stiti (statum): estar, ficar, portanto ‘estar sobre’, ‘estar acima’. Mas, pode originar-se também do verbo ‘superstitare‘, que significa preservar, conservar ou sobreviver. Apesar da controvérsia, os sentidos mais comuns são que superstição é “a crença cega, arraigada e exagerada em alguma coisa, alguma regra ou algum princípio, que se adora ou se segue sem questionar”, ou também: “crença sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas”. Destas definições são possíveis perceber o quanto o entendimento, bem como o que está e o que não está incluído nas superstições, podem divergir na percepção entre um religioso e um cético. Para os cristãos, por exemplo, religião se diferencia claramente da superstição, enquanto os ateus reúnem religião, adivinhação, simpatia, crendice, magia, horóscopo, etc., em uma mesma categoria.

            Agora, voltando ao exemplo da Dilma, o que ocorre quando o mau exemplo vem de cima, ou melhor, vem bem de cima? Se o futebol já é supersticioso, um gesto, tal como este da presidente, só contribui para aumentar, para oficializar e para legitimar, através da sanção presidencial, o caráter supersticioso da cultura futebolística. Representa um incentivo ao seu aumento. Então, a partir de agora, a superstição não é mais apenas uma cultura acrescida ao futebol pela população já tão supersticiosa do Brasil, passou a ser também uma cultura reconhecida, aprovada e legitimada pela presidência da república. Assim, com esta ratificação presidencial, somos levados a pensar em seus efeitos, de modo que esta poderá ser a copa mais supersticiosa de todas, se não bastasse a tão grande quantidade de superstições das copas anteriores. Depois de todo este espetáculo supersticioso, fica a seguinte pergunta: qual a contribuição da superstição para a cultura atual de uma nação, para que a mesma seja motivo de exemplo pela líder maior do executivo?

 

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Um comentário sobre “A Superstição no Futebol e a Sanção Presidencial

  1. Os governantes tentam ganhar simpatia mostrando que são iguais as classes menos abastadas. Por isso, muitos deles utilizam de jargões, gírias, superstições etc… Tudo para criar a ilusão de que são pessoas simples e iguais ao eleitorado. Essa analise do gesto da presidente me remontou a outros pirações: o que faria um presidente evangélico em tempo de copa do mundo para agradar o povo?

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