“Irmãos de Fé” e o Catecismo no Cinema

por Octavio da Cunha Botelho

2004---no-mesmo-ano-que-encenou-a-paixao-de-cristo-em-pernambuco-thiago-lacerda-fez-outro-drama-religioso-o-filme-irmaos-de-fe-de-moacyr-goes-que-tinha-aind

O ator Thiago Lacerda em uma cena de “Irmãos de Fé” (2004); o apóstolo Paulo com pose de galã.

            Os religiosos dizem que os dias santos são melhores guardados quando praticamos alguma modalidade de sacrifício. Por exemplo, os cristãos não comem carne vermelha na Sexta Feira Santa, para eles esta abstinência é um sacrifício. Não sou cristão, mas também realizei um sacrifício nesta última Sexta Feira Santa, qual seja, o de assistir, na íntegra, o filme Irmãos de Fé (2004), exibido em um canal de TV por assinatura, uma tarefa que exige muito esforço e paciência, em vista da mediocridade cinematográfica da produção.

            Trata-se de um filme produzido exclusivamente para o público católico, pois é impossível gostar deste melodrama carola sem ser um cristão alienado, ou um ignorante a respeito de cinema. O filme parece uma lição de catecismo na tela. Dirigido por Moacyr Góes, um diretor especializado em introduzir celebridades em filmes enlatados, tais como Luciano Hulk, Angélica, Xuxa e padre Marcelo Rossi, ele já dirigiu outra bomba do mesmo gênero: Maria, a Mãe do Filho de Deus (2003). O elenco é tão mau selecionado que até o padre Marcelo Rossi trabalha como ator. Também, o papel do apóstolo Paulo é estrelado pelo galã de novela Thiago Lacerda, quem contribuiu sobremaneira para estragar ainda mais o filme. Pior ainda, e até cômico, é a participação do ator paraibano José Dumont no papel do apóstolo Tiago, ou seja, um personagem judeu interpretado por um ator com aparência e sotaque de nordestino brasileiro. Não consegui conter o riso. Enfim, tudo no filme é precário, desde o elenco, passando pelo roteiro e pela direção, até a ambientação e o figurino. Uma produção dirigida para o público que não conhece cinema. Portanto, faça um teste, assista-o e constate, se gostar é porque você não entende de cinema, se não gostar é porque seus conhecimentos e sua capacidade de avaliação estão bem.

POSTER-Irmaos-de-fe

Cartaz do filme “Irmãos de Fé”, melodrama carola no formato de catecismo dramatizado.

            Sendo assim, será desperdício de tempo comentar sobre este melodrama carola aqui, pois mais proveitoso será analisar o tema do filme, qual seja, a conversão de jovens criminosos através da leitura da Bíblia. No roteiro, um menor é preso durante um sequestro relâmpago e levado para uma casa de recuperação de menores infratores. Estando lá, é visitado por um padre (Marcelo Rossi) que lhe entrega uma Bíblia de presente, o jovem revoltado atira o livro contra a parede da cela que, ao cair, permanece aberto nas páginas do início do episódio da vida do apóstolo Paulo. Com o tempo, o garoto se interessa pela leitura, cuja história é exibida através da encenação da sua vida, interpretada pelo ator Thiago Lacerda. Portanto, o filme se passa em duas épocas diferentes.

            Agora, diante destes fatos, os cristãos se alegram e se orgulham toda vez que um criminoso é convertido. Para alguns, estas conversões são milagres, que confirmam o poder da religião, porém, sem levarem em consideração o fato de que cada bandido convertido corresponde à quantidade de dez novos jovens criminosos que entram no mundo do crime diariamente no Brasil. Portanto, o efeito é mínimo. Em contrapartida, para os céticos, ou para aqueles mais informados sobre os problemas sociais brasileiros, a necessidade do trabalho da religião para recuperar criminosos é, por outro lado, uma vergonha e um sinal de atraso social, em virtude da omissão do Estado e da sociedade. Precisar da religião para auxiliar na recuperação de jovens criminosos é artifício de país com baixo desenvolvimento humano. Esta necessidade, certamente, não ocorre na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na Holanda, no Japão e em outros países com baixo índice de violência e alto desenvolvimento humano. Enquanto que, nos países com alto índice de violência, a América Latina (reduto do Catolicismo por excelência) lidera o ranking dos países mais violentos, a religião preenche o lugar do Estado, em muitas circunstâncias, na tarefa de recuperar jovens criminosos.

163162-3810-ga

O padre Marcelo Rossi, o diretor Moacyr Góes e o ator Thiago Lacerda na apresentação do filme “Irmãos de Fé”: direção e elenco precários.

            Recentemente, foram divulgados dados da ONU, nos quais o Brasil concentra 11% do total de homicídios no mundo, onde existem cerca de 180 países, portanto, em números absolutos, é o país mais violento do mundo, com números acima até mesmo dos países em guerra. A maneira pela qual o filme mostra a recuperação de um menor criminoso é até comovente, no entanto, na prática, os resultados são insignificantes diante do tamanho da violência praticada por jovens aqui.

A rigor, o Catolicismo existe há cerca de dois mil anos, porém nunca conseguiu por fim a violência no mundo, aliás, em certas ocasiões da sua história, até a incentivou e a promoveu. Portanto, não será agora que ele irá conseguir baixar o índice de violência no Brasil e em outros países violentos da América Latina, pois já teve o prazo suficiente de quase vinte séculos para realizar este objetivo. Por que então irá conseguir logo agora?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s