Nietzsche, o “Desmaio” de Deus e a Proliferação dos Novos Movimentos Religiosos

por Octavio da Cunha Botelho

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Friedrich W. Nietzsche (1844-1900) cunhou a frase “deus está morto”.

Quando certas palavras ou frases são repetidas abusivamente, costumam ser chamadas, pela estilística e pela retórica, de clichês ou de chavões, em virtude do excesso repetitivo, que as fazem perder o poder expressivo. Ou podem até passar a ter o papel de lugar-comum, ou seja, uma palavra ou uma frase de aceitação comum que, quando utilizada, possui poder persuasivo, artifício muito empregado pelos oradores e pregadores em seus discursos ou sermões, bem como pelos autores eloquentes em seus textos, a fim de persuadirem com facilidade, sem a necessidade de argumentar racionalmente, o seu auditório ou os seus leitores respectivamente. De modo que, aqui iremos falar de mais um chavão, que se tornou muito frequente nos escritos dos ateístas das últimas décadas, trata-se da frase “deus está morto”, cunhada pelo filólogo e filósofo Friedrich W. Nietzsche, na obra A Gaia Ciência, § 125 (O Louco). Portanto, é comum quanto um ateísta deseja falar do declínio ou do suposto fim da religião, ele emprega a expressão “deus está morto”, cujo efeito persuasivo em outros ateus é efetivo, uma vez que esta frase se tornou um lugar-comum na comunicação ateísta. Enfim, a frase “deus está morto” se tornou um chavão, cujos ateístas ainda a entendem como uma frase de efeito poderosa, tal como a frase “a religião é o ópio do povo”, que também se tornou um clichê.

Agora, pior ainda é quando estes chavões, além do desgaste repetitivo, não possuem fatos históricos que comprovem a sua realidade, e isto é o que iremos tratar neste texto aqui. Primeiro de tudo é preciso esclarecer que o conceito de deus é muito amplo e diversificado, assim como também a definição de religião não possui consenso entre os autores, para que seja simplificado em uma singela frase como “deus está morto”. Existem inúmeras maneiras de entender o teísmo (Politeísmo, Monoteísmo, Dualismo, Henoteísmo, etc.). Em segundo lugar, é preciso especificar a qual concepção de deus Nietzsche se referia. Embora tenha sido um filólogo, com um certo conhecimento até das religiões orientais, pois foi amigo e companheiro de estudos de Paul Deussen, um dedicado orientalista alemão do século XIX, porém hoje considerado um autor desatualizado; muito provavelmente ele se referia ao deus da teologia cristã da sua época, a qual ele percebia como decadente e desacreditada. Sendo assim, não podia estar se referindo a deus em geral. Pois, mesmo dentro do Cristianismo existiram e ainda existem diferentes interpretações teológicas de deus. Poucos sabem, mas já existiram até concepções dualistas de deus no Cristianismo, por exemplo: os Gnósticos e os Cátaros eram dualistas. Mais especificadamente, ele se referia ao deus da teologia, ou melhor, ao deus da metafísica, o qual lhe parecia desfalecido com o gradual desmoronamento da filosofia metafísica, e não ao deus da devoção e da fé. Estritamente falando, “Nietzsche não mata deus, mas limita-se a constatar a ausência do divino na cultura do seu tempo, acusando, pelo contrário, por essa ausência e morte, o pensamento metafísico” (Penzo, 2002: 32). Estritamente falando, a frase “deus está morto” foi utilizada antes por Gerard de Nerval na obra “Les Chimeres” (As Quimeras) em 1854: “Dieu est mort. Le ciel est vide. Pleurez enfants, vous n’avez plus a père” (Deus está morto. O céu está vazio. Chorem crianças, vocês não têm mais um pai).

Assim, devemos refletir sobre o fato de que o repetitivo emprego do chavão “deus está morto” é um exemplo, dentre tantos outros, de quando a retórica sobrepuja a realidade histórica no entendimento de muitos estudantes e até mesmo de autores. Esta frase tem efeito de verdade apenas para aqueles que não conhecem a história das religiões contemporâneas, bem como a sua popularidade e influência na sociedade do século XX, período quando ocorreu a grande explosão de surgimento de um fenômeno que os historiadores contemporâneos das religiões denominam de proliferação dos Novos Movimentos Religiosos.

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Swami Vivekananda (de turbante ao centro) durante o Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, 1893: abertura das portas para a invasão de gurus no Ocidente.

Sabemos que a religião não é um bloco monolítico e inalterado no tempo, ao contrário, sofreu muitas alterações no passado, continua sofrendo na atualidade e continuará a sofrer, pelo que se percebe na atualidade, até com mais velocidade, no futuro. A partir do século XX, quando a população mundial começou a crescer mais velozmente do que antes, a proliferação de visionários e de intérpretes religiosos com a fundação de novos grupos religiosos alcançou uma velocidade nunca vivida antes. A evolução das tecnologias de comunicação e de transporte contribuiu também para esta multiplicação. Por outro lado, o sincretismo, que sempre foi um processo constante no contato das tradições, nunca foi tão atuante e diversificado como no século XX. O avanço das comunicações favoreceu a propagação de visões de mundo por novos intérpretes que passaram a serem difundidas com uma velocidade espantosa, graças aos recursos modernos da propaganda. Enquanto que no passado se esperava por séculos para uma doutrina alcançar as longas distâncias da sua terra natal, enquanto que na era contemporânea, os novos visionários já se apresentam como instrutores globais e seus ensinamentos são divulgados por uma rede de publicidade numa rapidez quase instantânea. Enfim, antigamente os lideres religiosos pregavam para seu povo, com a gradual globalização das comunicações as pregações são dirigidas agora para o mundo.

O estudo acadêmico deste recente fenômeno de proliferação religiosa se deu a partir dos anos 1990 e o conjunto destas novas religiões recebeu a denominação técnica de ‘Novos Movimentos Religiosos’ (New Religious MovementsNRMs em inglês). Se a denominação é apropriada ou não, bem como a partir de quando se deve considerar o início deste fenômeno, os pesquisadores continuam divididos. A denominação foi criada para substituir o antigo termo ‘culto’, o qual na ocasião se encontrava muito estigmatizado, em virtude dos ataques das grandes religiões aos emergentes movimentos rebeldes, que eram então denominados cultos, sobretudo nos anos 1970 com a difusão dos movimentos Contracultura e New Age. Para se livrarem deste sentido pejorativo, os pesquisadores acadêmicos cunharam a expressão inglesa New Religious Movements (NRMs).

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Uma cerimônia da Igreja da Unificação: o novo movimento cristão mais internacionalmente difundido no século XX.

Portanto, parece ter sido a assustadora rapidez da proliferação e a aparência de ilimitada capacidade de diversificação em reunir diferentes ideias numa única doutrina religiosa, bem como a mensagem dirigida para toda a humanidade ao invés de apenas um povo, como no passado, somado ao aumento da globalização da comunicação, que levou os pesquisadores e os historiadores a considerarem este fenômeno como singular na história.  Em suma, o surgimento de novas e alternativas correntes, seitas marginais e cultos rebeldes, em contestação à tradição dominante, sempre aconteceu na história das religiões, a diferença está na mensagem universal dirigida para toda a humanidade, na velocidade e na capacidade de maior abrangência encontrada no período a partir do início da Era Contemporânea. Quanto ao início deste fenômeno religioso, os pesquisadores mantêm opiniões divergentes. Alguns atribuem aos anos 1950, logo após a Segunda Guerra Mundial, outros após a realização do histórico Parlamento Mundial das Religiões (World’s Parliament of Religions) em 1893, na cidade de Chicago, quando alguns palestrantes, após este evento, se tornaram gurus internacionais, sobretudo Swami Vivekananda (1863-1902), fundador da Missão Ramakrishna (Ramakrishna Mission) e Anagarika Dharmapala (1864-1933), fundador do centro budista Maha Bodhi Society. Foram a partir daí que tiveram início as levas de imigração de gurus orientais para o Ocidente, que alcançarão seu clímax no Movimento Contracultura dos anos 1960-70. Enquanto ainda outros sugerem que, aparentemente com mais acerto, o novo fenômeno retrocede aos meados do século XIX, com o surgimento da Fé Baha’i e da Sociedade Teosófica, dois movimentos com planos de difusão global.

Uma vez que são muito numerosos, serão citados em seguida apenas alguns dos mais conhecidos movimentos que alcançaram maior propagação internacional, estes são: a Sociedade Teosófica, a Igreja da Unificação (Moonismo), a Fé Baha’i, a Igreja da Cientologia, o Movimento Hare Krishna (ISKCON), o Rajnishismo, a Organização Sai Baba, o Espiritismo Kardecista, a Seicho-No-Ie, o movimento religioso Rastafari, a Soka Gakkai International (SGI), a Renovação Carismática, Movimento Pentecostal, a Escola Arcana de Alice Bailey, a Missão Ramakrishna e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons). Dentre estes, alguns se organizaram institucionalmente, porém outros não, os quais poderiam ser classificados assim:

a) Os movimentos inspirados pelas tradições orientais: Sociedade Teosófica, Hare Krishna (ISKCON), Sathya Sai Baba, Missão Ramakrishna, Meditação Transcendental de Maharishi Maheshi Yogi, Self Realization Fellowship, Rajnishismo (agora Movimento OSHO) e Brahma Kumaris.

b) Os que surgiram no contexto cristão: Igreja da Unificação, Movimento Pentecostal, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Renovação Carismática e Espiritismo Kardecista.

c) Os que surgiram em países em rápido processo de modernização, tal como o Japão: Soka Gakkai, Seicho-No-Ie e AUM Shinrikyo (Suprema Verdade AUM).

d) Os inspirados na hipótese extraterrestre: Igreja da Cientologia, Raelismo, Academia Uranius, Sociedade Aetherius, Heaven’s Gate (Portal do Céu) e Triguerinho.

e) Os grupos fronteiriços de desenvolvimento do potencial humano inspirados no clima dos Novos Movimentos Religiosos: Quarto Caminho de Gurdjieff e Ouspensky, Silva Mind Control e Logosofia.

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Os Beatles com o guru Maharishi Mahesh Yogi, divulgador da Meditação Transcendental; até a banda mais popular da época foi atraída pelo misticismo oriental.

            Pois, o número de novas religiões é incontável, poucos sabem que, se reunidos, este movimentos somam cerca de 600 milhões de seguidores no mundo, portanto em conjunto representam a quarta maior religião do mundo na atualidade, atrás apenas do Cristianismo 1,9 bilhão, do Islamismo 1,2 bilhão e do Hinduísmo 900 milhões, com um séquito mais numeroso que o Budismo (cerca de 360 milhões) que o Judaísmo, que o Sikhismo e que outras conhecidas religiões tradicionais. Para uma ideia do tamanho da difusão de alguns Novos Movimentos Religiosos, a Missão Sathya Sai Baba, por exemplo, no auge da sua popularidade, nos anos 1980-90, reunia cerca de 50 milhões de seguidores e de simpatizantes no mundo, este número é maior do que o número de judeus e de sikhs juntos.

Portanto, é preciso entender bem definidamente a que e a quem Nietzsche se referia, quando cunhou a frase “deus está morto”, no século XIX, para não utilizá-la indiscriminadamente agora para se referir a qualquer fato que tenha aparência de declínio ou de desaparecimento do poder da religião. Pois, se for entendido de modo tão generalizado, tal como muitos ateístas fazem no momento, será mais exato afirmar que Nietzsche deveria ter dito então que “deus está desmaiado”, ao invés de “deus está morto”, e ter profetizado que “ele retomará a consciência em breve para voltar com mais energia e então gerar um número incontável de Novos Movimentos Religiosos no próximo século”. Enfim, Nietzsche anunciou a morte de deus na véspera da explosão dos Novos Movimentos Religiosos do século XX, o que nos leva a pensar que deus não estava morto, na realidade, ele estava apenas desmaiado, em seguida recuperou a sua consciência, então mudou seus planos e decidiu se manifestar mais diversificadamente fora das grandes religiões tradicionais.

Obras consultadas

BROMLEY, David G. (ed.). Teaching New Religious Movements. Oxford: Oxford University Press, 2007.

LEWIS, James R. (ed.). The Oxford Handbook of New Religious Movements. Oxford:Oxford University Press, 2004.

PENZO, Giorgio. Friedrich Nietzsche (1844-1900) – O Divino como Problematicidade em Deus na Filosofia do Século XX. Giorgio Penzo e Rosino Gibellini (orgs.). São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. 23-35.

REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

ROHDEN, Luiz. O Poder da Linguagem: A Arte Retórica de Aristóteles. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.

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