Dilúvio, Muita Água e Pouca Historicidade

por Octavio da Cunha Botelho

Considerações iniciais

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Gravura reproduzindo a Arca de Noé logo após o Dilúvio, um mito que é acreditado por muitos religiosos como evento histórico.

            A quantidade de narrativas sobre um dilúvio no passado é tão grande nos mitos religiosos, folclóricos e tradicionais, que um estudo que inclua todos eles parece uma tarefa impossível. Se forem somados os relatos curtos e as menções em trechos incluídos dentro de outros mitos maiores, em que alguns sobrevivem apenas em fragmentos ou em narrativas curtas e incompletas, muitas preservadas apenas oralmente, o número se torna ainda maior[1]. Entretanto, em meio a esta imensidão, se destacam pela extensão narrativa e pela influência cultural os relatos do dilúvio bíblico (o mito de Noé no Genesis do Antigo Testamento, na Bíblia Hebraica, nos apócrifos judaicos e no Alcorão)[2], as narrativas dos dilúvios mesopotâmico e sumério (o mito de Atrahasis, a tabuinha XI do Épico de Gilgamés, o Dilúvio Sumério e a narrativa do sacerdote Berossus no livro Babiloniaka)[3], o Dilúvio Grego (Deucalião e sua esposa Pirra sobrevivem ao dilúvio enviado por Zeus) relatado no Livro 1 do poema Metamorfoses de Ovídio e em outros textos da Mitologia Grega e o mito hindu de Matsya Avatara (o deus Vishnu encarnado como peixe), relatado no Matsya Purana, e em trechos do Satapatha Brahmana, do Mahabharata e do Bhagavata Purana (Tagare, 1987: 1116n e Noort, 1999: 01s).

            Com tantas narrativas de inundações no passado, fica conosco a curiosidade em saber o motivo por tanto interesse dos antigos por estas histórias catastróficas. Stephanie Dalley esclarece: “A história do Dilúvio foi um dos contos mais populares dos tempos antigos e é encontrada em diversas línguas, reelaborada para se ajustar a diferentes áreas e culturas, de maneira que diferentes contextos e detalhes são encontrados em cada versão” (Dalley, 2000: 01). Mais adiante ela complementa: “Todas estas histórias de dilúvios podem ser explicadas como derivadas de uma história mesopotâmica original, usada nos contos dos viajantes por mais de dois mil anos, através das grandes rotas de caravanas da Ásia Ocidental: estas foram traduzidas, enfeitadas e adaptadas aos gostos locais para criar uma multiplicidade de versões diferentes, um pouco das quais chegou até nós. Contudo, a possibilidade de diversas origens independentes não deve ser descartada, pois a ideia de um dilúvio universal pode ter surgido para explicar as observações, em diferentes locais, de fósseis marinhas em rochas bem acima do nível do mar. Em um tempo quando não havia a ideia de como as mudanças geológicas acontecem, tampouco a tão longa escala de tempo da evolução, ainda mais quando a criação do homem era geralmente suposta ter sido simultânea à criação da Terra em sua forma atual, um enorme dilúvio, no qual o homem acidentalmente sobreviveu, seria o único modo de explicar a presença de tais fósseis marinhas, e pode ter sido concebido por mais de uma única mente investigadora” (Dalley, 2000: 29). A explicação acima é a de que certas regiões foram inundadas por um grande dilúvio e, com o gradual declínio do nível da água, alguns animais marinhos morreram quando a água secou definitivamente. Isto é geologicamente confirmado em muitas regiões do planeta, daí a imaginação dos antigos foi levada a criar histórias que justificassem a presença desses vestígios fósseis. Por esta razão, o trecho final do título do presente estudo aparece como “pouca historicidade” ao invés de “nenhuma historicidade”, pois as narrativas mitológicas de um dilúvio reproduzem sempre um fenômeno natural acompanhado de uma causa cultural (moral e religiosa), este último não tem confirmação científica, enquanto o primeiro tem constatação histórica, sendo assim a historicidade confirmada apenas nos eventos naturais e não nos eventos culturais do dilúvio. E mesmo nas ocorrências naturais, os eventos não tiveram as proporções catastróficas da maneira relatada nos mitos religiosos. Enfim, os antigos revestiram os fenômenos naturais do dilúvio com um sentido religioso e uma narrativa dramática. Embora não existam registros que confirmem que os antigos tentaram justificar a presença de fósseis marinhas acima do nível do mar, através da criação de mitos diluvianos, a explicação acima parece ser a mais plausível dentre as tantas outras sugeridas pelos pesquisadores, quando comparada com as justificativas fantasiosas propostas pelos religiosos.

O Dilúvio como fenômeno natural e as mudanças geológicas da Terra

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O Monte Ararat na Turquia, local onde a Arca de Noé pousou quando as águas do Dilúvio baixaram, porém alguns sugerem que, na verdade, a região do Ararat corresponde à atual Armênia.

           Já aconteceram milhares de inundações em nosso planeta, agora uma de proporções globais é ainda objeto de discussão entre geólogos. Recentemente, pesquisadores australianos propuseram a hipótese de que há 2,5 bilhões de anos a Terra estava totalmente coberta pela água, mas não existiam ainda os peixes, somente bactérias e algas. A explicação é que, naquela época, o manto da Terra era bem mais quente do que o atual, o que fazia com que a crosta terrestre fosse mais fina, tornando as bacias dos oceanos mais rasas, daí cobrindo toda a superfície da Terra com água. À medida que o manto foi esfriando, em proporções desiguais, formaram-se bacias mais fundas e outras mais rasas, o que fez com que a superfície da Terra começasse a emergir, formando assim os oceanos, e na superfície do planeta os relevos, durante um período de mais de dois bilhões de anos (Langmuir, 2012: 205).

            Durante este longo período, muitas mudanças geológicas continuaram a acontecer na superfície terrestre, cujas regiões, então secas, se inundaram e regiões no fundo dos oceanos emergiram para a superfície, em virtude das contínuas movimentações das placas tectônicas. De modo que, as tantas descobertas de fósseis marinhas em regiões acima do nível do mar, até mesmo no alto de montanhas, são vestígios destes períodos de transformações geológicas, quando estas regiões estavam no fundo dos oceanos, antes de emergirem para a superfície. Portanto, em tempos quando não existia a Ciência da Geologia, os povos antigos que residiam em áreas constantemente inundadas ou não, encontraram somente uma explicação para a presença de fósseis marinhas em terras acima do nível do mar, a de que aconteceu um grande dilúvio no passado.

            Atualmente, uma sugestão discutida é a da Hipótese do Dilúvio do Mar Negro, proposta por William Ryan e Walter Pitman, em 1996 (com grande repercussão na mídia internacional), ambos da Universidade Columbia, a qual propõe que a inundação repentina e catastrófica da área do Mar Negro (Wilford, 1996), antes seca e povoada, através da súbita abertura de uma fenda no Estreito de Bósforo, que inundou a região do Mar Negro no ano 5.600 a.e.c., é a origem da história do dilúvio de Noé da Bíblia (Skeptic, 2000: 16). Pesquisas posteriores, por outros geólogos e arqueólogos, confirmaram que a área já foi seca e povoada, mas que a inundação não aconteceu subitamente, ou seja, ela ocorreu lentamente durante 30 mil anos, portanto sem o caráter catastrófico, tal como narrado na Bíblia.

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Gravura do Mar Negro, onde dois cientistas sugerem que seja a origem do Dilúvio Bíblico.

           Agora, o curioso é que muitos cristãos se aproveitam das comprovações da existência de inundações no passado para alegarem a historicidade do dilúvio bíblico. Com sensatez, é preciso separar bem definidamente uma inundação de caráter exclusivamente natural dos relatos de inundações (dilúvios) acompanhados de causas culturais (religiosas, morais, mitológicas, etc.), tais como nos inúmeros mitos existentes sobre estes eventos. A ocorrência de dilúvios na pré historia não é prova automática de que as narrativas, sobretudo as com o objetivo de exterminar os humanos e os animais, nos livros sagrados, recheadas de significados e de objetivos religiosos, sejam também eventos históricos. Enfim, o fenômeno natural do dilúvio é uma coisa, agora o envolvimento do dilúvio em um contexto cultural, atribuindo-lhe uma causa moral e religiosa, é outra coisa muito diferente. De modo que é desde a perspectiva de separação do caráter entre ambos os dilúvios que este estudo prosseguirá.

O dilúvio desencadeado por uma causa cultural (dilúvio mitológico) 

            Esta combinação de dilúvio natural com uma causa cultural é o conteúdo das narrativas de centenas de mitos sobre um grande dilúvio, de proporções universais, ocorrido em um passado distante, de muitas tradições do mundo. Quando estes mitos são incorporados aos cânones das religiões, os mesmos passam a ser percebidos como eventos históricos pelos seguidores, daí não são relatos fictícios, tal como os laicos entendem, senão considerados como doutrina religiosa, portanto tema de catequese. Para muitos cristãos, judeus e muçulmanos, os relatos do Dilúvio de Noé na Bíblia Cristã, na Bíblia Hebraica e no Alcorão respectivamente, são relatos acreditadamente históricos e fazem parte de suas concepções de como o mundo foi criado e recriado por deus. Um fato comum nos relatos da criação nos textos religiosos em geral é a simultaneidade da criação do homem e da Terra, ou seja, ambos foram criados no mesmo instante, de modo que o planeta foi criado em função do homem e para o homem, algo como o Princípio Antrópico. Não existe sequer um relato religioso da criação que atribui um longo período de existência da Terra antes do surgimento do homem, quanto mais ainda a menção de que se passaram bilhões de anos antes do aparecimento dos primeiros hominídeos, para depois então, de mais alguns milhões de anos, surgirem os primeiros homens modernos. Mais precisamente, a diferença é monstruosa, pois segundo a história natural, a Terra foi criada há cerca de 4,5 bilhões de anos e os primeiros homens modernos só vieram a aparecerem desde aproximadamente 50 mil anos, portanto o homem moderno existe desde um tempo ínfimo, quando comparado com o tempo de existência do nosso planeta (Langmuir, 2012: passim). Ademais, a afirmação de que a Terra foi criada em função do homem não tem mais sentido e veracidade na atual era das pesquisas dos exoplanetas (planetas extrassolares), ou seja, planetas que orbitam uma estrela fora do Sistema Solar, pois já foram confirmados cientificamente a existência de 1.779 exoplanetas até 14 de Março de 2014, e a suposição de muitos astrônomos é a da existência de bilhões.

As causas dos dilúvios mitológicos (religiosos)

            Ed Noort observa: “Embora existam diversas tentativas de demonstrar a unidade das histórias do Dilúvio Bíblico, os argumentos resultantes não são convincentes” (Noort, 1999: 02). Portanto, antes de falar sobre o dilúvio bíblico é preciso informar sobre as fontes textuais que compõem o Gênesis (Bereshit para os judeus). Apesar dos esforços em contrário dos tradicionalistas, a grande maioria dos pesquisadores e dos historiadores está de acordo de que o livro do Gênesis é formado por três principais fontes mais antigas, conhecidas pelos autores de língua inglesa como fontes Jeovástica (J), Eloinista (E) e Priestly (P), esta última será traduzida aqui como Sacerdotal, “as quais foram cuidadosamente combinadas por um ou mais autores e depois acrescidas de algum material adicional, para então criar o livro do Gênesis” (Hendel, 2013, 17-8, ver também Noort, 1999: 02). Nos trechos relativos ao dilúvio, é possível identificar estas fontes, sobretudo quando tratando da causa da catástrofe. Neste último, observe que o trecho do Gênesis 06:05-7 corresponde à narrativa da causa para o Dilúvio extraída da fonte Jeovástica (J), enquanto que no trecho 6:11-13, o mesmo assunto da causa para a destruição das criaturas e da Terra é repetido em outras palavras, esta última é a justificativa para o Dilúvio extraída da fonte Sacerdotal (P). Um dos principais pontos que caracterizam cada uma das fontes é o respectivo emprego do nome de deus, na fonte Jeovástica (J), predomina o nome de Jeová para deus, enquanto na fonte Eloinista (E), o nome de deus como Eloim e na fonte Sacerdotal (P), uma combinação de ambas anteriores. Joseph Blenkinsopp menciona uma quarta fonte, conhecida pela sigla ‘D’ (Blenkinsopp, 2003: 181). O motivo destas diferentes fontes está no fato de que os textos foram compostos em regiões e épocas diferentes.

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Matsya Avatara, o deus Vishnu encarnado como peixe para auxiliar o sábio Manu a sobreviver a um grande dilúvio.

Vejamos a justificativa para o envio do Dilúvio na redação de cada uma destas fontes. “Jeová viu que a maldade do homem era grande na Terra, e que todos os pensamentos de seu coração eram continuamente maus. Jeová arrependeu-se de ter criado o homem sobre a Terra e isto o aborreceu em seu coração. E Jeová disse: ‘Eu destruirei da superfície da Terra o homem que eu criei, homem e animal, os répteis e as aves do céu, eu me arrependo de os haver criado’. Mas, Noé encontrou graça nos olhos de Jeová” (Gênesis, 06:05-7). Este trecho é extraído da fonte Jeovástica (J). Logo em seguida no Gênesis, o mesmo assunto, mas extraído da fonte Sacerdotal (P). “A Terra estava corrompida diante de Eloim, e a Terra estava repleta de violência. E Eloim olhou para a terra, e a contemplou, ela estava arruinada, pois todas as criaturas tinham corrompido seu caminho sobre a Terra. E Eloim disse a Noé: ‘O fim de todas as criaturas chegou, pois a Terra está repleta de violência por causa delas. Eu as destruirei juntamente com a Terra’” (Gênesis, 06:11-3).

            Estas fontes textuais do Gênesis, bem como de todo o Pentateuco (Blenkinsopp, 2003: 181-8), somente são percebidas quando lidas no texto hebraico (Masorético), enquanto que, os trechos acima, quando lidos nas traduções grega (Septuaginta) e latina (Vulgata) não distinguem estas fontes, uma vez que os nomes divinos Jeová e Eloim são traduzidos como Theos, na versão grega (Septuaginta) e como Deus ou Dominus (Senhor) na versão latina, para todos os casos. Nas traduções para as línguas modernas, predominam os termos deus e senhor, de modo que também não é possível distinguir as fontes textuais do livro de Gênesis.

A causa na Bíblia

            Quanto às causas, as narrativas das diferentes tradições (mesopotâmica, bíblica, muçulmana, grega e hindu) ora coincidem ora divergem. Na versão bíblica, a causa é a corrupção dos homens: “Jeová viu que a maldade do homem era grande na Terra” (Gên. 06:05), ou “A Terra estava corrompida diante de Eloim, e a Terra estava repleta de violência”. 06:11). Daí deus (Jeová ou Eloim) se arrependeu de ter criado os homens, em virtude da sua falta de previsibilidade, e então desabafou sua fúria através da insana decisão de destruir tudo, até mesmo as criaturas inocentes, quais sejam, os recém nascidos, as crianças, os idosos, os enfermos, os aleijados, os animais e os insetos. “Eu destruirei da superfície da Terra o homem que eu criei, homem e animal, os répteis e as aves do céu, eu me arrependo de os haver criado” (Gên. 06:07). Também: “O fim de todas as criaturas chegou, pois a Terra está repleta de violência por causa delas. Eu as destruirei juntamente com a Terra” (Gênesis, 06:13). Tal como em todos os outros mitos, onde a ênfase é sobre a lição moral e não sobre a reprodução da realidade, as incoerências são frequentes. No caso do Dilúvio Bíblico, as frases “o fim de todas as criaturas chegou” (Gên. 06:13), bem como “… e eu exterminarei da superfície da Terra todos os seres que eu fiz” (Gên. 07:04) não correspondem à realidade, uma vez que não é possível exterminar todas as criaturas do planeta através de um dilúvio, já que os peixes de água salgada e outros animais marinhos (baleias, tubarões, pinguins, focas, polvos, lulas, etc.) sobreviverão. Os peixes e animais de água doce certamente perecerão, visto que não conseguem sobreviver por muito tempo em água salgada, diante da predominância da maior quantidade de água salgada no planeta. Porém, os peixes de água salgada e os animais marinhos sobreviverão, ou mais precisamente, até engordarão, pois com a inundação, muitos outros animais serão lançados nas águas, inclusive humanos, o que, ao contrário, aumentará a disponibilidade de alimentos. Enfim, os tubarões seriam imensamente beneficiados. Ademais, qual a razão em exterminar os animais da superfície da Terra (poupando apenas um casal de cada espécie) e poupar os peixes, os tubarões, as baleias e todos os outros animais marinhos?

 As causas em outras tradições

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A tabuinha XI do Épico de Gilgamés em escrita cuneiforme, este trecho relata o Dilúvio Mesopotâmico.

            No poema Metamorfoses de Ovídio, o Dilúvio aconteceu em razão dos pecados dos homens. “… não só uma casa merece morrer, no mundo todo o pecado reina, com conspiração de crime. Logo, sobre todas elas minha sentença está mantida”. E mais adiante: “… uma punição diferente, enviar as chuvas para caírem de todas as direções do céu e em seu dilúvio afogar a raça humana” (Melville, 1998: 08). Enquanto que, em outras narrativas, a causa chega a ser cômica. Por exemplo, no mito de Atrahasis, o dilúvio é enviado em razão do barulho que a humanidade fazia, quando a população cresceu e passou a incomodar os deuses. “E o país tornou-se grande demais, as pessoas numerosas demais. O país era tão barulhento quanto um boi rugidor. O deus ficou impaciente como o barulho delas, Ellil tinha de ouvir o barulho delas. Ele dirigiu-se aos grandes deuses assim: ‘O barulho da humanidade tornou-se demais. Estou perdendo o sono com a balbúrdia dela…’” (Mito de Atrahasis, tabuinha II – Dalley, 2000: 20; Noort, 1999: 31 e Hendel, 2013: 28). Agora… os deuses incomodados com o baralho da humanidade, só mesmo na mitologia, pois, aqui no mundo real, só em filmes de comédia. Já no relato do Mahabharata, o Dilúvio acontece para que fosse possível iniciar um novo ciclo (Kalpa) da evolução humana.

            Enquanto que, no Alcorão, o Dilúvio é motivado pela descrença do povo: “Foi revelado a Noé, ‘Ninguém do seu povo acreditará, exceto aqueles que já acreditam, então não se aflijas com o que fazem. Construa a arca sob nossos olhos e com a nossa inspiração. Não argumente comigo em favor daqueles que têm feito o mal, eles serão afogados’” (Alcorão, 11:36-7 – Haleem, 2005: 138-9). Em outra passagem é dito que a causa foi que o povo não ouviu as pregações de Noé, conhecido como Nuh no Alcorão (sura 71). Noé (Nuh) disse: “Senhor meu, exortei meu povo dia e noite, mas quanto mais eu os exortava, eles se afastavam mais ainda” (Alcorão, 71:06). E Noé (Nuh) acrescentou em seguida: “Senhor, rebelaram-se contra mim e seguiram aqueles cujas riquezas e filhos somente servirão a apressar-lhes a perdição” (Alcorão, 71:21).

Semelhanças entre o Dilúvio no Épico de Gilgamés e o Dilúvio Bíblico

            Os contos do Gênesis são derivados de tradições mais antigas, “transmitidos através de gerações, relatados pelos sacerdotes, pelos anciões, pelos viajantes e pelos poetas que eram as vozes autorizadas da tradição”. (…) “A maioria dos pesquisadores concorda que as versões bíblicas derivam das versões babilônicas, presumivelmente intermediadas pelas tradições orais, uma vez transmitidas ao solo israelita, (…) elas foram adaptadas à tradição israelita” (Hendel, 2013: 26). De maneira que a versão do Dilúvio na tabuinha XI da Versão Padrão do Épico de Gilgamés (cerca de 1100 a.e.c.) possui muitas similaridades com o Dilúvio Bíblico extraído da fonte J (Jeovástica). No Épico de Gilgamés, o sobrevivente do dilúvio é Utnapishtim, o qual também construiu uma arca, a qual pousou, após a diminuição do nível das águas, no monte Nimush, no norte da Mesopotâmia (Kovacs, 1989: 101 e Dalley, 2000: 114). No relato bíblico, o sobrevivente é Noé, sua arca pousou nas montanhas do Ararat[4] (Gênesis. 08:04). Já no Alcorão, “a arca pousou no monte Judi” (Alcorão 11:44 – Haleem, 2005: 139). Nos mitos hindus do dilúvio, o sobrevivente é Manu e sua embarcação pousou no topo de uma montanha nos Himalayas no relato do Mahabharata (Vana Parva, seção 186 – Ganguli, 1873-96: 376), enquanto que, nos relatos do Bhagavata Purana e do Matsya Purana, o evento ocorreu no sul da Índia (Tagare, 1987: 1116n).

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Relevo reproduzindo Utnapishtim, o herói que sobreviveu ao Dilúvio Mesopotâmico no Épico de Gilgamés

            Logo antes da passagem do épico Mahabharata mencionada acima existe um trecho que, em vista do exagero anacrônico, chega parecer cômico na tradução de Ganguli: “… jogada pela tempestade sobre o oceano, a embarcação rodopiava como uma prostituta bêbada. E, nem terra, nem os quatro pontos cardeais da bússola podiam ser percebidos” (Ganguli, 1873-96: 375). Bem, se não bastasse a comicidade do exemplo da prostituta bêbada, a menção de uma bússola em um evento que aconteceu no Kalpa (ciclo) passado é um anacronismo monstruoso, uma vez que um Kalpa corresponde a mil Yugas, ou seja, a 4,32 milhões de anos (Stutley, 1977: 139). Não existiam ainda os humanos modernos na Terra nesta época, somente hominídeos, portanto mais absurdo ainda a existência de uma bússola, a qual foi inventada na China no século III a.e.c., como instrumento de adivinhação, para então passar a ser utilizada como instrumento de navegação somente a partir do século XI e.c. pelos chineses.[5] Pela passagem acima é possível vislumbrar que, quanto à cronologia da criação, a versão do Hinduísmo é o contrário das versões das religiões bíblicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), quando comparados aos conhecimentos da história natural e científica, pois enquanto as cronologias bíblicas exageram na recentidade da criação da Terra e da humanidade, o Hinduísmo, por seu lado, exagera na antiguidade, em comparação com as datações das Ciências atuais.

            Outras passagens semelhantes são os episódios quando termina o Dilúvio e as águas começam a baixar. Na tabuinha XI do Épico de Gilgamés, Utnapishtim soltou três aves para checarem se a Terra já estava seca, uma pomba, uma andorinha e por último um corvo, os dois primeiros retornam para a arca e a terceira ave não retorna, sinalizando que as águas já tinham baixado (Kovacs, 1989: 102 e Dalley, 2000: 114). Na narrativa bíblica, Noé soltou primeiro um corvo, o qual retornou logo em seguida por não ter encontrado onde pousar. Em seguida soltou uma pomba, esta também não encontrando onde pousar retornou para a arca. Depois de sete dias soltou a pomba novamente, esta, desta vez, retornou trazendo uma folha verde de oliveira. Esperou mais sete dias para soltar a pomba novamente, desta vez ela não retornou, constatando que a Terra já estava seca (Gênesis 8:06-12 e Hendel, 2013: 26-8). A rigor, não eram necessários os envios das aves para verificar se a Terra já estava seca, bastava abrir a janela da arca e olhar para checar, já que as arcas (de Utnapishtim e de Noé) estavam pousadas no topo de montanhas (Numish e Ararat respectivamente), portanto a visibilidade era panorâmica. Entretanto, uma vez que os mitos, em muitas de suas passagens importantes, enfatizam mais o embelezamento poético e dramático, do que o relato frio da realidade, este episódio ficou poeticamente mais comovente com este recurso retórico.

Diferenças entre o Dilúvio Bíblico e o Dilúvio Alcorânico

            Diferente da narrativa bíblica, a sura 11 (Hud) do Alcorão deixa uma pista de que o Dilúvio não foi generalizado, mas somente na região onde residia Nuh (Noé), pois em uma passagem, logo após o Dilúvio, é dito que Hud (neto ou bisneto de Noé, as fontes islâmica divergem sobre o grau de descendência, o qual talvez estivesse na arca) é enviado ao povo Ad para pregar (Alcorão, 11:50). Outras diferenças são quanto ao número de pessoas na arca. No Alcorão, um número bem maior de pessoas ocupa a arca, enquanto na Bíblia, somente os familiares de Noé, bem como o número de animais no Alcorão é menor, somente os animais domésticos de Nuh (Noé). Também, no Alcorão, um quarto filho de Nuh (Noé), cujo nome não é conhecido, é mencionado como se recusando a entrar na arca e acaba morrendo afogado (11:43). Depois deus revela a Nuh (Noé) que este seu filho era um descrente, por isso foi castigado (11:46). Também, em outra sura, a mulher de Nuh (Noé) é mencionada como uma descrente e foi então enviada para o inferno (66:10). Ademais, enquanto Nuh (Noé) construía a arca, seus concidadãos zombavam dele, provocação esta que Nuh respondia com uma cruel ameaça: “Zombai de nós, zombaremos de vós da mesma forma. Em breve sabereis sobre quem cairá um castigo que o aviltará e não mais o abandonará” (11:38-9). Existe um número maior de informações sobre Nuh (Noé) e o Dilúvio, desde o ponto de vista islâmico, em outros textos da tradição muçulmana, conhecidos como Hadiths, os quais divergem ainda bem mais da narrativa bíblica (ver: Brinner, 2002: 92s).

  Considerações finais

            Existe, óbvio, uma diferença muito grande em considerar o Dilúvio como um mito ou, por outro lado, considerá-lo como um fato histórico, tal como acreditam os cristãos, os judeus, os muçulmanos, etc. Diante de tal crença, os céticos reúnem e apresentam argumentos científicos a fim de demonstrar a impossibilidade meteorológica, geológica e física de um dilúvio sobre a Terra, por meio de uma grande chuva. Dos argumentos, os mais evidentes comprovam que não existe água suficiente no planeta para cobrir toda a superfície seca, sobretudo as áreas mais altas, uma vez que a água a ser utilizada para tal chuva torrencial é a dos oceanos, dos lagos e dos rios, portanto a água que precipitará sobre a Terra é a mesma que será evaporada, de modo que o volume de água continuará sempre o mesmo, ou seja, o ciclo de evaporação e de precipitação de chuvas continuará sempre com a mesma quantidade de água disponível para este processo.

Então, para que seja possível uma inundação global, as duas possibilidades mais viáveis são, primeiramente, um deslocamento geral das placas tectônicas da Terra, de maneira que toda a crosta terrestre se alinhasse no mesmo nível, assim os oceanos ficariam mais rasos, projetando suas águas sobre a superfície seca e, simultaneamente, a superfície seca baixasse o seu nível, permitindo assim que as águas a inundassem, tal como alguns geólogos acreditam que já aconteceu há bilhões de anos. A outra é com o recebimento de mais água de fora do planeta, tal como a colisão com um cometa gigante, portador de muito gelo, ou com muitos cometas com a mesma característica gelada. Outra ainda, porém parcial, poderá ser com o aquecimento global, o qual derreterá as geleiras dos polos e daí inundará as áreas costeiras dos continentes e cobrirão algumas ilhas. Enfim, somente através de chuvas, com água da própria Terra, é fisicamente impossível um dilúvio global.

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WISNER, Ben et al. At Risk: Natural Hazards, People’s Vulnerability and Disasters. London/New York: Routledge, 2004, p. 201-42.

Notas

[1] Para conhecer uma extensa lista com resumos de antigos relatos de dilúvios, visitar: “Floods Stories from Around the World”: http://www.talkorigins.org/faqs/flood-myths.html

[2] Também, trechos de alguns manuscritos gnósticos encontrados em Nag Hammadi mencionam Noé e o Dilúvio, mostrando que os gnósticos tinha sua própria versão do Dilúvio, porém nenhum texto tratando somente deste assunto e tampouco um trecho extenso foram encontrados (Luttikhuizen, 1999: 109-23).

[3] Atrahasis é o herói que sobreviveu ao Dilúvio nos relatos mesopotâmicos (Dalley, 2000: 04-8 e 29-35). No Épico de Gilgamés ele recebeu o nome de Utanapishtim (Kovacs, 1989: 97-108 e Daley, 2000: 109-20), na Narrativa Suméria ele é conhecido como Ziusudra ou Zi-ud-sura (ETCSL Project, 2006) e no relato do sacerdote Berossus (Cory, 1878: 24-31), o rei sobrevivente do Dilúvio foi Xisuthrus (Noort, 1999: 01-2 e Dalley, 2000: 01). Alguns autores apontam que Xisuthrus é a grafia helenizada de Ziusudra.

[4] O monte Ararat é geralmente reconhecido hoje como estando na atual Turquia, com o tempo se transformou até em ponto turístico, no entanto, alguns pesquisadores sugerem que a região do Ararat, mencionada na Bíblia, corresponde à atual Armênia. Recentemente, os jornais noticiaram a ocorrência de mais uma fraude, ou seja, mais uma descoberta, desta vez por historiadores chineses, de grandes fragmentos de uma embarcação no monte Ararat. Porém, pelo vídeo é possível perceber que se trata de uma fraude muito amadora, através de truques de montagem e de edição. Especialistas desconfiaram que a fraude foi criada para aumentar o turismo na região.

[5] Se forem verdadeiros os relatos, foi Marco Polo quem fez a bússola ser conhecida na Europa no século XIII e.c., trazida da China. Seus relatos estão envolvidos em muitas lendas.

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