O Obsoletismo da Reedição da “Marcha da Família com Deus para a Liberdade”

por Octavio da Cunha Botelho

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Manifestantes durante a reedição da “Marcha da Família com Deus para a Liberdade” em SP: presença da religião e reivindicações obsoletas.

Depois dos laicos serem obrigados a aguentar tantas edições da Marcha para Jesus, um encontro que geralmente mistura religião e política, acompanhamos neste fim de semana a notícia de uma ocorrência surpreendente, próxima a este gênero de marcha, qual seja, grupos de alienados retrógrados puseram nas ruas, neste último Sábado em São Paulo e no Rio de Janeiro, a reedição da histórica Marcha da Família com Deus para a Liberdade, ocorrida em Março de 1964. Em vista da imensa diferença na quantidade de participantes entre aquela e esta, é mais preciso afirmar que a nova edição ficou mais para uma mera tentativa de reeditar a Marcha de 19 de Março de 1964 em São Paulo, do que uma reedição propriamente, sendo que esta última reuniu cerca de 300 a 500 mil pessoas, enquanto que a tentativa, ocorrida neste Sábado em São Paulo, congregou apenas de 1.000 a 1.300 pessoas. Estritamente falando, a Marcha da Família com Deus para a Liberdade de 1964 não aconteceu em apenas uma edição, senão foram diversas marchas, nas quais algumas chegaram a reunir um milhão de participantes, tal como a Marcha da Vitória em 02 de Abril no Rio de Janeiro, durante o período de 19 de Março a 08 de Junho de 1964. Portanto, antes e depois da subida dos militares ao Poder em 31 de Março. Ao todo foram 49 marchas em várias cidades do país, sendo as mais numerosas as ocorridas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Assim, esta série de marchas conhecidas como Marcha da Família com Deus para a Liberdade foi um conjunto de manifestações populares contra a ameaça comunista, na tentativa de derrubar o então presidente João Goulart, o qual tinha tomado recentes decisões que alguns seguimentos da sociedade brasileira entendiam como uma sinalização para um regime cada vez mais socialista no Brasil, fatos que desagradaram a elite e a classe média. A Igreja também se mobilizou, sobretudo, em virtude do discurso de João Goulart em 13 de Março de 1964, quando ele afirmou que “não é com rosários que se combatem as reformas”, o que imediatamente resultou na organização da Marcha do Desagravo ao Santo Rosário. Porém, o nome não agradou ao então governador de São Paulo, Ademar de Barros, daí a deputada Conceição da Costa Neves propôs o nome “Marcha da Família com Deus para a Liberdade”, cuja primeira edição aconteceu em 19 de Março (dia de São José, padroeiro da família) de 1964, na capital de São Paulo, com a participação de mais de 300 mil pessoas.

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Participação feminina na Marcha de 1964, o povo se mobilizou através da religião.

Os historiadores apontam que os objetivos destas marchas foram mostrar o apoio popular a intervenção militar no governo do Brasil, bem como os interesses de vários seguimentos da sociedade brasileira em impedir a introdução do Comunismo, tão forte nos anos 1960, quando este era florescente em algumas partes do mundo e a Guerra Fria estava no auge da sua ebulição. Sendo desta maneira, a Igreja estava no centro destas manifestações, uma vez que tinha fortes interesses em combater o comunismo ateu.

A reedição da Marcha reproduziu o mesmo trajeto da Marcha de 1964, começando na Praça da República e terminando na Praça da Sé, em São Paulo, com a repetição de muitas reivindicações da Marcha de 1964, sobretudo o pedido de imediata intervenção militar no Brasil, para limpar o país. Tal como na marcha anterior, alguns religiosos estiveram presentes.

Bem, desde um ponto de vista histórico, esta reedição da Marcha de Família com Deus para a Liberdade, 50 anos depois, é, sem tirar nem pôr, um obsoletismo caduco. Pois, atualmente, a realidade social brasileira é outra, a consciência política do povo brasileiro é outra, a experiência da Ditadura Militar deixou traumas, o Cristianismo é muito diferente do daquela época (após o Concílio Vaticano II), as derrocadas dos blocos da União Soviética e da Iugoslávia mostraram o que é o Comunismo radical, bem como o exemplo do atual atraso da Coréia do Norte, de modo que o Socialismo é entendido e praticado de maneira muito diferente na atualidade e o Capitalismo Selvagem teve seu colapso em 2008, portanto muitas coisas mudaram desde então, para que as reivindicações daquela época tenham lugar nos dias de hoje. Para completar o obsoletismo, só faltaram os manifestantes comparecerem nas manifestações de chapéu-coco e as manifestantes vestidas de espartilhos durante esta reedição.

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Manifestantes pedem a intervenção militar já

Acima de tudo, é preciso apontar com ênfase que a onda de manifestações que acontecem neste país, desde meados do ano passado, não tem incluído em sua pauta reivindicações pela mudança do atual regime político da nação, ou seja, ninguém deseja mudar o sistema atual de democrático para ditadura, ou para comunismo ou para um socialismo radical, etc.; senão, e tão somente, propõem mudanças na qualidade dos serviços públicos e no caráter dos governantes e dos parlamentares. Trata-se mais de uma crise de representatividade do que uma crise no regime político. Aí, então, de repente, surgiu esta reedição da Marcha de 1964, desentoando abruptamente todo o recente espírito reivindicatório do povo brasileiro, com a descabida proposta de ‘intervenção militar’ já. Ademais, apesar do nome de “Marcha da Família”, esta reedição não teve nada de família, ninguém levou seus familiares.

Agora, o que cabe uma observação aqui, apesar do pequeno número de participantes nesta recente reedição da Marcha parecer uma despreocupação, é o fato de que tanto nas marchas de 1964, quanto nesta reedição, a religião esteve no centro das mobilizações populares. Fato que pode ameaçar a laicidade, uma vez que o povo se mobiliza através da religião, ou seja, é movido pela religião; sendo assim a religião poderá se transformar, mais uma vez, em uma catalisadora de energia para a movimentação popular, tal como em 1964, fazendo com que esta cresça em poder e influência na sociedade brasileira, e daí a PEC 99 (Proposta de Emenda à Constituição que pretende incluir o direito das religiões de contestar dispositivos constitucionais) crescerá em poder de aprovação. Não é certeza de que este fato venha a acontecer, mas não deixa de ser mais uma possível ameaça à laicidade, visto que, se algum manipulador espertalhão perceber o poder desta ideia, poderá então utilizá-la para mobilizar o povo brasileiro para outros objetivos políticos, ou seja, com o uso da extraordinária capacidade de coesão da religião para unir um povo na direção de um fim comum. Ficando assim, a imagem de que a religião é a heroína das reformas no Brasil.

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