“Os Últimos Passos” do Cristianismo

por Octavio da Cunha Botelho

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Sean Penn e Susan Sarandon em uma cena de “Os Últimos Passos de um Homem” (Dead Man Walking, 1995), atuações formidáveis que resultaram em importantes premiações

Como em outras vezes, o feriadão é uma oportunidade de ver e de rever alguns filmes. Desta vez revi o drama “Os Últimos Passos de um Homem” (Dead Man Walking, 1995), dirigido pelo consagrado Tim Robbins, quem também escreveu o roteiro adaptado a partir do livro da irmã Helen Prejean. Neste longa, a autora é interpretada por Susan Sarandon, quem contracena com Sean Penn, no papel do assassino condenado à morte, Matthew Poncelet. As formidáveis atuações de ambos mereceram as seguintes premiações: Susan Sarandon ganhou os prêmios de Melhor Atriz no Oscar 1996 e no Prêmio David Di Donatello (1996), e Sean Penn os prêmios de Melhor Ator no Festival de Berlim (1996) e no Independent Spirit Awards (1996), além da grande quantidade de indicações em outras categorias nestes e em outros festivais. O resultado do investimento foi lucrativo, visto que o orçamento ficou em US$ 11 milhões e a arrecadação mundial faturou US$ 83 milhões.

A irmã Helen Prejean (Susan Sarandon) decide ajudar um prisioneiro no corredor da morte, Matthew Poncelet (Sean Penn), condenado como coautor no cruel assassinado de um casal de namorados em Louisiana, EUA, estado onde existe a pena de morte. Apesar da surpresa e da desaprovação de alguns de seus colegas, sobretudo do capelão do presídio, em virtude da sua inexperiência nesta tarefa, mesmo assim ela decide levar em frente a sua intenção de consolar espiritualmente o condenado, nos sete dias que antecedem a sua execução, prática exercida habitualmente apenas por sacerdotes. Inicialmente, o contato é frio e, às vezes, hostil, em razão do caráter insensível, irreverente e agressivo de Matthew, porém ele percebe na freira uma esperança de livrar-se da condenação, quando ela consegue um novo advogado para tentar, mais uma vez, a reversão da sentença, após ela acreditar na afirmação dele de que é inocente para, depois, pouco antes de sua execução, ele decidir falar a verdade e então confessar a sua autoria, bem como perceber algumas falhas no processo judicial. À medida que os contatos entre ambos acontecem, o relacionamento torna-se mais simpático e amistoso, bem como, com os fracassos das tentativas de apelação, os assuntos das conversas entre ambos alteram da esperança na reversão da pena para o consolo espiritual, quando a freira passa a falar-lhe mais de Jesus e a incentivar-lhe a ler a Bíblia. Ele aceita a leitura, mas tem sua própria interpretação esdrúxula.

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Susan Sarandon no papel da irmã Helen, a atuação primorosa lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Oscar 1996.

Além da primorosa atuação dos protagonistas, o diretor Tim Robbnis conduziu o desenvolvimento do roteiro de tal maneira que, ao passo que se aproxima o momento da execução do condenado, o ritmo do filme torna-se cada vez mais lento, ao ponto dos minutos que antecedem a aplicação da injeção letal, se aproximar ao tempo real do espectador. Ou seja, a partir dos 60 minutos finais, o filme começa gradativamente a diminuir os intervalos episódicos entre as cenas e a aumentar a duração das cenas, fazendo com que, aos poucos, o desenvolvimento do roteiro se aproxime ao tempo do espectador até que, nos últimos minutos, quanto se inicia a contagem regressiva para a execução, os dois tempos, o do filme e o do espectador, se tornam idênticos, algo como se os relógios do filme e o do espectador estivessem sincronizados, proporcionando ao filme um ganho de realismo e de dramaticidade. O último diálogo entre a irmã Helen (Susan Sarandon) e o condenado Matthew (Sean Penn), na tarde do dia da execução, esta marcada para meia noite, é um show de interpretação de ambos, que justifica com muito mérito as premiações que receberam. Extremamente comovente, é preciso esforço para segurar as lágrimas, para que as mesmas não aflorem.

Entusiasmada com a nova tarefa, a irmã Helen, ingenuamente, procura contato com as famílias das vítimas, decisão que, lógico, resulta em uma situação constrangedora e desagradável, ao ponto de ser até hostilmente solicitada a se retirar durante uma das visitas. O título original do filme, Dead Man Walking (Homem Morto Caminhando), é uma gíria usada pelos guardas dos presídios quando escoltam os condenados no corredor da morte, desde a cela até a câmara de execução, em vista da certa e iminente morte.

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Matthew Poncelet (Sean Penn) no momento da execução por injeção letal afirma: “que minha morte seja um alívio para as famílias das vítimas”.

Agora, qual a relação da história deste filme com o atual papel limitado do Cristianismo na cultual da atualidade? A relação está no fato de que o Cristianismo, o qual no passado exerceu uma dominação cultural, política, legal e social sobre a vida, tanto pública como privada, da população em geral, foi aos poucos perdendo esta dominação para um mundo cada vez mais secular, ao ponto do seu papel e da sua importância hoje, na sociedade secularizada, se limitarem à mera função de um assistente social, ou seja, um servente subordinado à cultura e às leis da vida secular. A assistência social é a única tarefa na qual a religião ainda pode ser útil em algumas das circunstâncias da vida dominada pela cultura laica, pois suas ideias e seus costumes não possuem mais influência na vida civil. Em outras palavras, o Cristianismo passou da posição de dominação para a de subordinação. O trabalho como assistente social da irmã Helen reproduz esta redução do papel da religião em um mundo secular dos dias de hoje. Diferente do passado, quando a religião em sua posição imponente, elaborava as leis a partir das ideias cristãs, a irmã Helen, subordinando-se à lei do estado laico, mesmo não sendo a favor da pena de morte, pois a religião não tem mais o poder de influenciar na legislação de algumas sociedades mais secularizadas, se oferece, no papel de assistente social, para a tarefa de consolar espiritualmente um insensível e cruel criminoso nos últimos dias que antecedem a sua execução.

As modalidades de funções nas quais as religiões ainda têm utilidade nos dias de hoje mostram como, cada vez mais, as mesmas se aproximam ao mesmo papel das ONGs. Estas últimas, por sua vez, substituíram a religião em muitas tarefas nas décadas recentes, fazendo com que o Cristianismo pareça atualmente muito mais como uma ONG do que antes. Sendo assim, os últimos passos do Cristianismo, estão sendo executados de uma maneira tão diferente do seu passado, que se torna difícil definir se o que existe hoje ainda é Cristianismo ou se, com todas as transformações, será preciso redefini-lo. E se, ao redefini-lo, a redefinição apresentar alterações demais em relação ao que tradicionalmente se reconhece como religião, então, não será surpresa que apareça um ateu jocoso sugerindo, tal como existe a gíria “dead man walking” (homem morto caminhando), a criação da gíria “dead religion walking” (religião morta caminhando) para o Cristianismo.

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