O Analfabetismo de Hui-neng, o Principal Patriarca do Budismo Chan (Zen)

por Octavio da Cunha Botelho

huineng__great_master_of_buddhismf38e097a832a2c1e20fc

Hui-neng (638-713 e.c.), o vendedor de lenha analfabeto que se tornou o Sexto Patriarca do Budismo Chan (Zen)

Considerações iniciais

            Frequentemente ouvimos a afirmação de que o Zen (Chan em chinês) não é uma religião, senão “um conjunto de técnicas para se alcançar a iluminação (satori)”, ou mesmo simplesmente que é “um modo de vida espiritual”, ou até mesmo que é “uma filosofia de vida”, uma vez que ele não preserva os traços do que mais comumente se reconhece como religião. Sendo assim, o Zen transformou-se em uma alternativa para muitos ocidentais, com vocações espiritualistas, porém descontentes com as grandes religiões tradicionais, sobretudo com o Cristianismo, visto que muitos aspirantes consideram que a decadência cristã não é mais capaz de satisfazer as suas aspirações em busca da autêntica espiritualidade.

            Entretanto, a aceitação do Zen como não sendo uma religião depende, acima de tudo, de quais fontes são utilizadas para o entendimento do que é o Zen. Por exemplo, aqueles que o conhecem apenas através das obras filtradas (cuja história do Zen às vezes até parece um conto de fadas), a fim de se adaptar ao gosto e à aprovação ocidentais, de autoria de D. T. Suzuki, de Alan Watts, de Christmas Humphreys e de tantos mestres Zen que se instalaram no Ocidente a partir do século XX, certamente, são levados a entender que o Zen não é uma religião. Este é um caso semelhante à noção que muitos ocidentais têm atualmente do Budismo Tibetano, quando conhecido unicamente através da mensagem do atual Dalai Lama, cuja diferença é muito grande quando conhecido através das obras dos autores que estiveram no Tibete durante o século XIX, antes da ocupação chinesa, quando esta região foi definida, por alguns daqueles poucos que conseguiram entrar naquela terra quase impenetrável na época, como o “reduto da superstição e da magia”. A obra Tibetan Buddhism, de L. Austine Waddell, por exemplo, é um interessante estudo de Antropologia Cultural do Tibete do século XIX, quando sua cultura religiosa florescia sem a censura chinesa, portanto no auge da superstição. Da mesma maneira, existe outra face do Zen, pouco conhecida do público em geral, a qual está aos poucos sendo mostrada pela recente pesquisa histórica, que revela a sua aproximação às ideias, aos costumes, aos protocolos e aos vícios da religião, tais como: a criação de lendas, a veneração por mestres da linhagem, a prática de rituais, o apego à tradição, o registro de diálogos que depois se tornaram escrituras canonizadas (Yu-lu), as brigas entre facções rivais, as disputas por poder, a arrecadação ardilosa de fundos financeiros, etc. Assim, o estudo seguinte tratará de alguns destas questões, sobretudo da imaginação e da astúcia dos monges Chan na criação de lendas que lhes asseguraram autoridade e prestígio, expondo desta maneira uma interpretação da história inicial do Chan (Zen) diferente em muitos pontos do relato tradicional. A palavra Chan (Zen em japonês) deriva do termo sânscrito Dhyana (meditação).

zen-ritual

Diferente do que muitos pensam, os seguidores do Zen Budismo praticam rituais.

            Outra imagem, que foi passada por esta versão filtrada do Zen, muito disseminada no Ocidente, é a de ser o exemplo de serenidade e de passividade, ao ponto de ter sido popularizada a atribuição de Zen para alguém de temperamento calmo e tranquilo, ou seja, quando alguém é visto como muito sereno e pacífico, se diz que “fulano é Zen”. Porém, o estudo abaixo mostrará que a pesquisa histórica não confirma este caráter calmo e pacífico do Zen (Chan) em todas as circunstâncias da sua trajetória, pois, foram muitos os casos de envolvimento de monges Zen com a violência, desde o mais importante personagem, Hui-neng, que teve de fugir e de permanecer por algum tempo escondido, logo após receber a atribuição de Sexto Patriarca concedida por seu mestre Hung-jen (o Quinto Patriarca), para não ser assassinado pelos monges rivais, segundo o relato no Sutra da Plataforma, o mais importante texto do Chan (Zen); até os tempos dos samurais no Japão, quando monges do Zen Budismo se juntaram aos exércitos, a fim de lutarem pelos senhores feudais (para conhecer o envolvimento Zen com os samurais, ver: Leggett, 2003).

Linhagens

            Um interesse comum nas religiões em geral é assegurar a originalidade dos seus ensinamentos e das suas práticas com o passar dos anos, bem como legitimar o seu processo sucessório, daí a existência de linhagens canonicamente reconhecidas de líderes religiosos. De maneira que o Catolicismo tem o Papado, o Islamismo tem o Califado, a Igreja Ortodoxa o Patriarcado, as diferentes correntes do Hinduísmo o Guruparampara, o Budismo Tibetano Gelugpa a linhagem dos Dalai Lamas, etc. No Budismo Chan (Zen) não é diferente, Bodhidharma (séculos V e VI e.c.) é o 28º patriarca desde Buda e o primeiro patriarca do Chan, segundo a tradição. Algumas religiões possuem até ritos sucessórios para tal ocasião. Além do cerimonial, a homologação pode acontecer através da transmissão de algum objeto do atual líder para o sucessor: um bastão, uma túnica, etc. Nos tempos dos primeiros patriarcas do Chan (Zen), os objetos transmitidos aos sucessores eram a túnica e a tigela de Bodhidharma, segundo os relatos tradicionais. Nas tradições muito antigas, estas linhagens chegam a ser longas e numerosas, por exemplo, o atual papa Francisco é o 266º papa, o número é grande, visto que existiram muitos papas que exerceram o papado por apenas poucos meses, ou por somente algumas semanas, ou até mesmo por poucos dias.

Os seis primeiros patriarcas do Chan (Zen)

Daruma-by-Josoku-Yotoku-in-Kyoto

Gravura reproduzindo Bodhidharma (séculos V e VI e.c.), o Primeiro Patriarca do Chan (Zen).

            A tradição Chan (Zen) afirma que sua linhagem descende desde Buda, passando por 27 patriarcas indianos até Bodhidharma, o 28º patriarca e o primeiro patriarca do Chan, portanto o fundador da tradição na China. Depois de Bodhidharma, mais cinco patriarcas chineses o sucederam. Quanto à historicidade de Bodhidharma, as versões dos adeptos e simpatizantes budistas divergem das conclusões dos historiadores atuais, os primeiros asseguram que ele existiu de fato, que seus relatos são históricos e, por isso, utilizam seus relatos para fins catequéticos de novatos. Já, as interpretações dos últimos se dividem entre os que negam a sua historicidade por completo, e os que reconhecem a sua existência, mas atribuem que, quase tudo em seus relatos são lendas gradativamente criadas mais tarde, à medida que a tradição adquiria prestígio dentro da vida religiosa da China. Dentre os céticos está Cheng Chien, quem reconhecia Bodhidharma apenas como “o presumido fundador da escola Chan na China”, e mais adiante acrescenta: “a maioria das informações sobre Bodhidharma é de uma origem mais tardia e não é muito confiável”. E conclui: “embora seja difícil verificar as contribuições históricas de Bodhidharma, é impossível negar o grande impacto da sua lenda na subsequente história do Chan” (Cheng, 1993: 07). Agora, quanto aos patriarcas indianos antes de Bodhidharma, D. T. Suzuki observa: “A origem tradicional do Zen (Chan) na Índia antes de sua introdução na China, que é registrada na literatura Zen, está tão misturada com lendas que nenhum fato confiável pode ser extraído dela” (Suzuki, 1961: 163).

Abaixo a lista dos seis primeiros patriarcas do Chan, segundo os relatos tradicionais:

1º Patriarca: Bodhidharma, morto por volta de 530 e.c.

2º Patriarca: Huike (Hui-k’o), talvez 487-555 e.c.

3º Patriarca: Seng-tsan, morto talvez em 606 e.c.

4º Patriarca: Tao-tsin, 580-651 e.c.

5º Patriarca: Hung-jen 601-74 e.c.

6º Patriarca: Hui-neng, 638-713 e.c.

A explicação do motivo para a criação dos relatos lendários da origem do Chan (Zen) poderá ser que naqueles dias deve ter havido alguma necessidade de inventar uma lenda tal, para a legitimação do Chan (Zen) Budismo, pois à medida que o Chan crescia em prestígio, as outras escolas rivais do Budismo aumentavam o ciúme de sua influência popular e o atacavam como não tendo nenhum registro canônico de sua descendência desde Buda, que era alegada pelos seguidores do Chan (Zen), mas ainda não estava elaborada na forma de uma linhagem sucessória. Philip Yampolsky resumiu assim a maneira como estes relatos surgiram: “A precisão histórica era uma preocupação menor dos compiladores; as lendas antigas eram repetidas, novas histórias eram inventadas e reiteradas até se tornarem lendas também” (Yampolsky, 2007: 06). E John R. McRae completa: “O que importa no esquema de transmissão do Chan não são os ‘fatos’ que aconteceram nas vidas de Sakyamuni, Bodhidharma, Hui-neng e outros, mas, mais exatamente, como estes personagens foram percebidos em termos de mitologia Chan”. De modo que “o que os textos dizem ter acontecido, quase certamente não aconteceu” (McRae, 2004: 05).

P1027097-China-Dunhuang-Mogao-caves-cuevas-silk-road-silk-route-ruta-seda-cave-17-580x800

A biblioteca de manuscritos de Tunhuang, a fantástica descoberta no ano de 1900, onde foram encontrados alguns manuscritos do Sutra da Plataforma.

Não só os relatos dos primeiros patriarcas, mas também muitos dos Koans (Gong’an em chinês) e dos Yu-lu’s (Registros de Encontros) são considerados, pela recente pesquisa histórica, como diálogos fictícios. Pesquisadores recentes têm mostrado que os textos dos registros do Zen em geral não surgiram de uma só vez, mas evoluíram lentamente com o passar dos séculos através de um processo de alterações e de acréscimos. Nos primeiros dias dos estudos do Zen, era comumente acreditado que os Koans eram documentos históricos válidos, que refletiam o que os mestres disseram. Atualmente, está claro que os conteúdos das coleções de Koans, juntamente com outros textos sobre os primeiros patriarcas, são resultados de um longo processo de seleção e de edição de registros que vieram a serem conhecidos depois como Yu-lu’s e Koans (Heine, 2008: 22-3).

Hagiografia

            Trata-se de um estilo de biografia de santos, em regra geral de natureza elogiosa e nem sempre comprometida com a fidelidade histórica, composta a fim de comover os leitores religiosos e os simpatizantes daquele santo ou daquela santa, cujo rigor histórico não é levado tão a sério, pois, o mais importante é a exaltação. De maneira que, na maioria dos casos, lendas, ficções, boatos, dramatizações e exageros são compulsivamente incorporados durante a composição do texto pelos autores deste estilo literário. Escrita geralmente por um adepto ou por um admirador é muito utilizada pelas religiões no processo de catequese de novatos, sobretudo para sensibilizá-los. A mais conhecida coleção de hagiografias de santos católicos é a Legenda Aurea (A Lenda Dourada), compilada por Jacobus de Voragine (1229-98 e.c.) e publicada em Latim no ano de 1260, com cerca de 180 biografias de santos e de santas.  Sendo assim, esta modalidade de obras é normalmente publicada por editoras religiosas.

Analfabetismo no passado

            Em geral, a história antiga da educação não é muito conhecida, por isso quando os leitores conhecem os eruditos autores gregos e romanos, dos períodos clássicos na Antiguidade, se comovem com as suas erudições, daí são levadas a pensar que estas civilizações eram disseminadamente alfabetizadas. Assim, tomando como parâmetro a escolaridade atual, imaginam que as populações que tiveram grandes mentes no passado, tais como Platão, Aristóteles, Isócrates, Cícero, Sêneca, etc, ou grandes centros de cultura, tais como a Academia de Atenas, a Biblioteca de Alexandria, etc., só podiam ter tido uma população predominantemente escolarizada. Entretanto, pesquisas históricas e levantamentos recentes apontam para um quadro muito diferente deste. Um importante estudo por William V. Harris, publicado no livro Ancient Literacy, revela que, desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, até o início da Era Contemporânea, o índice de analfabetismo no mundo era altíssimo, em relação aos dias de hoje, mesmo nas populações das eras clássicas da Grécia e de Roma. William V. Harris observa: “O provável nível geral de analfabetismo no Império Romano é quase certo ter sido acima de 90%” (Harris, 1991: 22). Tampouco este quadro mudou muito na Europa com o passar dos séculos, pois mesmo mais recentemente: … “na Inglaterra do período 1580-1700, quando é provável que bem menos de 20% dos adultos conseguiam ler e escrever…” (idem, p. 22). Em seguida, este autor apresenta um quadro, com base em levantamentos da UNESCO e de outras fontes, revelando que, por exemplo: na Rússia, em 1850, de 90% a 95% da população não sabia ler; na Espanha, em 1857, 75% da população não conseguia ler; na Itália, em 1871, 69% da população não sabia ler; e mesmo no século XX, em Portugal, no ano de 1950, 44,1% da sua população não sabia escrever (idem, p. 23).

            De modo que, na Antiguidade, fora do Império Romano, a situação era pior ainda. Meir Bar-ilan, após uma pesquisa, concluiu: “Assim, não é exagero afirmar que o índice provável de alfabetismo, na terra de Israel, naquela época (século I e.c.), era provavelmente de menos de 3%” (Meir, 1992: 46). A China, palco dos eventos que serão analisados no estudo abaixo, onde a educação era muito valoriza, desde os tempos de Confúcio, e a caligrafia uma arte altamente admirada, por isso o povo mais culto do Oriente e a região mais próspera do mundo até a Revolução Industrial, não foi uma exceção. Como serão vistas em seguida, a corrente do Budismo Chan (Zen) de Hui Neng, que suplantou as demais (se for histórico o relato no Sutra da Plataforma), foi fundada por um vendedor de lenha analfabeto que depois se tornou mestre, bem como a escola Hung-chou de Ma-tsu, de origem rural, após o fechamento das escolas metropolitanas do Chan na China, suas doutrinas e práticas se consolidaram hegemonicamente para sempre naquilo que hoje é reconhecido como Zen Budismo.

 A vida de Hui-neng, fato ou lenda?

            A afirmação de que Hui-neng, o sexto patriarca do Chan, é uma lenda soa tão assustador para um monge ou para um adepto do Zen, da mesma maneira que assustaria um católico que ouvisse a declaração de que Santo Agostinho é uma lenda. Ou seja, a tradição Zen acredita tanto na historicidade de Hui-neng, como os cristãos acreditam na historicidade do santo de Hipona. A diferença é que, quanto a este último, as pesquisas históricas não apontam para uma mitificação, enquanto que, o primeiro, está cada vez mais sendo apontado, pelos pesquisadores recentes, como sendo um personagem fabricado pelo resultado da propaganda de Shen-hui (684-758), que alegava ser o seu herdeiro e seu legítimo sucessor, portanto o Sétimo Patriarca, durante um período de disputa sucessória com o rival Shen-hsiu, de maneira que Hui-neng precisou ser exaltado ao máximo pelos seus partidários, daí o surgimento da sua lenda, a qual foi acreditada como fato histórico pela corrente do Chan que sobreviveu, e depois se tornou aquilo que hoje conhecemos como Zen Budismo, ou seja, a corrente dos seguidores de Hui-neng, mencionada nos livros como a Escola do Sul. A animosidade da rixa chegou ao ponto de Shen-hui, discípulo de Hui-neng e pretendente a Sétimo Patriarca, acusar Pu-chi, discípulo de Shen-hsiu (pretenso Sexto Patriarca e rival de Hui-neng), o qual se autoproclamou Sétimo Patriarca, de enviar pessoas para cortar a cabeça do corpo mumificado de Hui-neng e substituir a inscrição na estela de Hui-neng por outra que designava Shen-hui como o Sexto Patriarca (Yampolsky, 2007: 09). Para efeito de esclarecimento, na ocasião dois monges alegavam ser o Sexto Patriarca, Hui-neng da Escola do Sul e Shen-hsiu da Escola do Norte, com dois sucessores que alegavam ser o Sétimo Patriarca, Shen-hui, sucessor de Hui-neng, e Pu-chi, sucessor de Shen-hsiu. Então, sobreviveu a tradição de Hui-neng e Shen-hui, as tradições rivais desapareceram com o tempo, de modo que tudo que temos hoje sobre Zen é a herança da tradição que descende de Hui-neng, de Shen-hsiu e de seus sucessores. Daí a razão do Sutra da Plataforma ser o texto mais importante do Zen (Chan) Budismo.

huineng

Estátua de Hui-neng (638-713 e.c.).

A interpretação lendária de Hui-neng está cada vez mais sendo aceita pelos pesquisadores e pelos historiadores do Chan (Zen), sobretudo após a monumental obra de John Jorgensen, Inventing Hui-neng,The Sixth Patriarch: Hagiography and Biography in Early Chan (Jorgensen, 2005). Para este autor, Shen-hui, que alegava ser o legítimo sucessor, foi “o inventor original da lenda de Hui-neng” (Jorgensen, 2005: 05). Também, foi o resultado de uma “campanha para idolatrar Hui-neng”, através de uma “propaganda de Shen-hui, que alegava ser o seu verdadeiro herdeiro” (Jorgensen, 2005: 09). Ele acrescenta: “Os contos sobre ele (Hui-neng) certamente não refletem eventos históricos, até o ponto que podemos determiná-los. Similares dúvidas se aplicam ao Sutra e seus sermões (Plataforma Sutra). Na verdade, grande parte da história inicial do Chan foi descrita como uma criação imaginária, uma pseudo-história” (idem, 09).  Para conhecer a maneira como os budistas veneram as relíquias, as imagens e as estátuas de Hui-neng, consultar Jorgensen, 2005: 190-321.

Mesmo antes da obra de J. Jorgensen, alguns pesquisadores já desconfiavam da natureza lendária dos relatos sobre Hui-neng no Sutra da Plataforma. Cheng Chein observou: “A maioria dos fatos sobre a vida e sobre o ensinamento de Hui-neng não é muito confiável e é mais lendário em sua natureza; estudos críticos das várias edições do Sutra da Plataforma, o qual é a fonte básica de informação sobre Hui-neng, mostram que o texto foi muito editado e ter recebido numerosas interpolações” (Cheng, 1993: 10). Quanto ao ensinamento, ele acrescenta: “Embora, de uma perspectiva histórica, seja difícil afirmar a exata natureza do ensinamento de Hui-neng e sua influência durante a sua vida, mais tarde ele transformou-se no mais conhecido dos patriarcas, principalmente devido aos esforços de seu discípulo Shen-hui, o qual assumiu a tarefa de estabelecer Hui-neng como o Sexto Patriarca do Ch’an” (Idem, 11). Quanto à rivalidade entre as Escolas do Norte e do Sul, ele contesta: “A história do ataque de Shen-hui à Escola do Norte, a qual não existia naquela época como tal e a designação foi uma criação de Shen-hui, (…) forma um dos menos inspiradores eventos na história da escola Ch’an. Quaisquer que sejam os motivos, Shen-hui conseguiu estabelecer Hui-neng como Sexto Patriarca e, do fim do século VIII em diante, a escola Ch’an veio a ser identificada com os seguidores de Hui-neng” (idem, 11).

Philip Yampolsky também observou: “Hui-neng, o Sexto Patriarca, é venerado como uma das maiores personagens da história do Budismo Ch’an. Uma biografia elaborada se desenvolveu em torno dele, boa parte de natureza lendária” (Yampolsky, 2007: 10). Estritamente falando, é difícil dizer com segurança o que é história e o que é lenda nos relatos sobre Hui-neng, uma vez que as pesquisas ainda estão em andamento e o material disponível até agora é escasso, daí que “os estudiosos se dividem com relação ao quanto de invenção existe nas histórias sobre Hui-neng” (Yampolsky, 2007: 10-11).

Um resumo do relato da vida e do ensinamento de Hui-neng no Sutra da Plataforma é o seguinte. Seu nome de família era Lu, ele nasceu em Hsin-chou, na região de Ling-nan, no sul da China. Seu pai foi rebaixado do status de funcionário do governo para o de plebeu como punição e faleceu quando Hui-neng ainda era criança. Então, ele teve de sustentar sua mãe viúva vendendo lenha no mercado local. Em uma ocasião, ouviu um comprador entoar o Sutra do Diamante, fato que o comoveu e, logo em seguida, foi aconselhado a procurar o mosteiro de Hung-jen, o Quinto Patriarca. Chegando lá, Hui-neng foi admitido como servente na execução de serviços braçais. Após algum tempo, ficou sabendo que Hung-jen tinha aberto um concurso de composição de versos para que fosse escolhido o Sexto Patriarca. Hui-neng se interessou e pediu para um monge ler o aviso sobre o concurso, pois era analfabeto. Ele compôs seu verso e derrotou o então favorito e prestigiado Shen-hsiu (o qual depois se tornaria o seu grande rival), o que provocou a ira de muitos monges, em razão do fato dele ser um trabalhador braçal e analfabeto. Então ele, aconselhado por Hung-jen, fugiu e permaneceu por alguns anos escondido, até reaparecer ministrando seus ensinamentos inovadores.

John R. McRae comenta resumidamente: “Como um bárbaro analfabeto do extremo sul, o miserável filho de um desafortunado ex-funcionário do governo, Hui-neng tornou-se o Sexto Patriarca do Budismo Chan Chinês com nenhum dos usuais pré-requisitos de reconhecimento de um mestre religioso. Ele não era nem mesmo um monge, mas era tratado (…) como um rebaixado trabalhador braçal” (McRae, 2000: xiii). A escolha de Hui-neng, um ex-vendedor de lenha analfabeto, como o Sexto Patriarca foi uma drástica ruptura com a então tradição do Chan, bem como uma radical inovação, que marcaria o futuro do Chan (Zen) para sempre, ou seja, de um Chan intelectualizado e formal para um Chan ‘desintelectualizado’ e espontâneo.

O barbarismo e o analfabetismo de Hui-neng no Sutra da Plataforma

            Desde os primeiros parágrafos do Sutra da Plataforma, Hui-neng faz um relato autobiográfico, onde ele revela sua origem humilde, bem como o sofrimento que passou, durante a sua infância e a sua juventude, para sustentar sua mãe viúva: “Enquanto eu ainda era criança, meu pai faleceu e minha velha mãe e eu, uma criança solitária, mudamos para Nan-hai, na região de Ling-nan. Nós sofremos extrema pobreza e eu vendia lenha no mercado” (Yampolsky, 1967: 125; ver também: McRae, 2000: 17). Logo em sua primeira entrevista com Hung-jen, o Quinto Patriarca e abade do mosteiro, Hui-neng é advertido pelo mestre; “O Mestre então me reprovou dizendo: ‘Se você é de Ling-nan, então você é um bárbaro. Como pode você se tornar um Buda’”? (Yampolsky, 1967: 127). Na tradução inglesa de John McRae, a palavra chinesa correspondente a ‘bárbaro’ é traduzida como ‘caçador’: “… então você deve ser um caçador” (McRae, 2000: 18). As traduções inglesas de Philip Yampolsky e de John McRae, bem como outras traduções inglesas, divergem em muitos trechos, uma vez que a primeira foi traduzida de um manuscrito de Tunhuang e a segunda da edição ortodoxa, esta última é mais extensa por estar repleta de interpolações tardias, portanto para conhecer os estudos comparativos entre as diversas versões do Sutra da Plataforma, consultar: Schlutter, 2007 e Anderl, 2013.

mogao-caves (1)

Uma das estátuas gigantes de Buda nas cavernas Mogao Caves, em Tunhuang, China, onde foi encontrada uma biblioteca com cerca de 50 mil manuscritos no ano de 1900, atualmente o local está aberto à visitação turística.

            A confirmação de que Hui-neng não era monge e por isso executava trabalho braçal no mosteiro aparece na passagem: “Mais tarde, um discípulo me conduziu até o cômodo de debulha, onde eu passei mais de oito meses trabalhando com o pilão” (Yampolsky, 1967: 128). Quando Hui-neng ficou sabendo sobre o concurso de composição de verso, ele pediu a um rapaz que lhe conduzisse até o corredor, uma vez que ele nunca esteve naquela ala do mosteiro, onde já estava fixado na parece um verso composto por Shen-hsin, Chegando lá, “porque eu era analfabeto, eu pedi alguém para lê-lo para mim”. Então, logo em seguida, ele compôs o seu próprio verso e pediu “alguém que era capaz de escrever para colocá-lo na parede do corredor…” (Yampolsky, 1967: 132). Após Hui-neng compor o seu verso, ele foi escolhido o Sexto Patriarca, então, em virtude das ameaças, Hung-jen o aconselhou: “Se você permanecer aqui, algumas pessoas lhe farão mal. Você deve partir imediatamente” (Yampolsky, 1967: 133).

 Em seguida, ele permaneceu um tempo escondido, para depois reaparecer pregando o Dharma para muitos ouvintes. O nível intelectual e o refinamento da linguagem em seus discursos são surpreendentes e suspeitos para alguém que era um rude vendedor de lenha analfabeto e que não tinha recebido educação de monge no mosteiro, pois era um trabalhador braçal, que não podia nem sequer entrar no recinto dos monges. Até parece que ele aprendeu por telepatia. Em razão disto, pesquisadores recentes sugerem que os sermões das suas pregações foram palavras sábias posteriormente colocadas em sua boca por seus seguidores, como que ditas por ele, depois transcritas para a forma escrita no Sutra da Plataforma, com o fito de exaltar Hui-neng como o legítimo Sexto Patriarca e, com isso, consequentemente, legitimar também a linhagem de seus seguidores. Uma manipulação textual muito frequente na literatura das religiões em geral.

 

Obras consultadas

ANDERL, Christoph. Was the Platform Sutra Always a Sutra? Studies in the Textual Features of Platform Scripture Manuscripts from Dunhuang em Studies in Chinese Manuscripts: from Warring States Period to the 20th Century, Imre Galambos (ed.). Budapest: Institute of East Asian Studies, Eotvos Lorand University, 2013, p. 121-75.

BROUGHTON, Jeffrey L. (tr.). Bodhidharma Anthology: The Earliest Records of Zen. Berkeley: University of California Press, 1999.

CHENG, Bhikshu Chein (tr.). Sun-face Buddha: The Teachings of Ma-tsu and the Hung-chou School of Ch’ an. Berkeley: Asian Humanities Press, 1993.

HARRIS, William V. Ancient Literacy. Cambridge: Havard University Press, 1991.

HEINE, Steven. Zen Skin, Zen Marrow: Will the Real Zen Buddhism Please Stand Up? New York: Oxford University Press, 2008.

HOOVER, Thomas. The Zen Experience. New York: The New American Library, 1980.

HUA, Tripitaka Master (tr.). The Sixth Patriarch’s Dharma Jewel Platform Sutra. Burlingame: Buddhist Text Translation Society, 2001.

HUMPHREYS, Christmas. O Zen Budismo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

JORGENSEN, John. Inventing Hui-neng, The Sixth Patriarch: Hagiography and Biography in Early Chan. Leiden: Brill, 2005.

KASULIS, Thomas P. A Espiritualidade Ch’an em A Espiritualidade Budista, vol. II. Takeuchi Yoshinori et. al. (eds.). São Paulo: Editora Perspectiva, 2007, p. 24-32.

LEGGETT, Trevor. Samurai Zen: The Warrior Koans. London/New York: Routledge, 2003.

MEIR, Bar-ilan. Illiteracy in the Land of Israel in the First Centuries C. E. em Essays in the Social Scientific Study of Judaism and Jewish Society. New York: Ktav, 1992, p. 46.

MCRAE, John R. (tr.). The Platform Sutra of the Sixth Patriarch. Berkeley: Numata Center for Buddhist Translation and Research, 2000.

_______________ Seeing Through Zen: Encounter, Transformation and Genealogy in Chinese Chan Buddhism. Berkeley: University of California Press, 2004.

POCESKI, Mario. Ordinary Mind as the Way: The Hongzhou School and the Growth of Chan Buddhism. Oxford: Oxford University Press, 2007.

SCHLUTTER, Morten. Transmission and Enlightenment in Chan Buddhism Seen Through the Platform Sutra (Liuzu tanjing) em Chung-Hwa Buddhist Journal, no. 20. Taipei: Chung-Hwa Institute of Buddhist Studies, 2007, p. 379-410.

__________________ How Zen Became Zen: The Dispute over Enlightenment and the Formation of Chan Buddhism in Song-Dinasty China. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2008.

SHI, Hu. Ch’an (Zen) Buddhism in China: Its History and Method. Honolulu: Philosophy East and West, Vol. 03, No. 01, January 1953, p. 03-24.

SUZUKI, Daisetz T. Manual of Zen Buddhism. New York: Grove Press, 1960.

_______________ Essays in Zen Buddhism, First Series. New York: Grove Press, 1961.

WRIGHT, Dale S. Os Quatro Grandes Mestres da Tradição Ch’an em A Espiritualidade Budista, vol. II. Takeuchi Yoshinori et. al. (eds.). São Paulo: Editora Perspectiva, 2007, p. 33-43.

YAMPOLSKY, Philip (tr.). The Platform Sutra of the Sixth Patriarch. New York/London: Columbia University Press, 1967.

_____________________ Ch’an: Um Esboço Histórico em A Espiritualidade Budista, vol. II. Takeuchi Yoshinori et. al. (eds.). São Paulo: Editora Perspectiva, 2007, p. 03-23.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s