“Dúvida” e as Reações dos Religiosos ao seu Sintoma

por Octavio da Cunha Botelho

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A irmã Aloysius (Meryl Streep) e o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) protagonizam o drama “Dúvida” (Doubt, 2008) dirigido pelo próprio autor da peça teatral, o então estreante na direção John Patrick Shanley

Logo após o recente anúncio da morte do ator Philip Seymour Hoffman e no mesmo dia em que uma comissão da ONU solicitou ao Vaticano o afastamento dos padres acusados de pedofilia, para que os mesmos sejam entregues às autoridades, a fim de serem investigados, um canal de TV por assinatura exibiu o filme Dúvida (Doubt, 2008), drama escrito e dirigido por John Patrick Shanley, baseado em uma premiada peça de teatro, Doubt: a Parable, de sua autoria. Recheado por estrelas ganhadoras do Oscar, tais como o próprio Philip Seymour Hoffman, no papel do padre Flynn, por Merryl Streep, na pele da irmã Aloysius e por Viola Davis no papel da Sra. Miller, este drama, contando também com a participação da jovem atriz Amy Adams, no papel da ingênua irmã James, relata uma história totalmente ambientada em uma escola católica para adolescentes, durante o ano de 1964, no Bronx, Nova York.

Com formidáveis atuações, o que levou todos os protagonistas a receberem indicações ao Oscar 2009: Melhor Atriz (Meryl Streep, sua 15ª indicação), Melhor Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e Melhores Atrizes Coadjuvantes (Amy Adams e Viola Davis), bem como a indicação de Melhor Roteiro Adaptado (John Patrick Shanley), porém não levou estatueta, este drama psicológico é envolvente, sem precisar de dramatizações espalhafatosas e de clichês convencionais, com base em um roteiro inteligente, o que leva a uma expectativa psicológica curiosa, quando quase tudo é dúvida. O resultado do investimento foi lucrativo, uma vez que o orçamento do filme foi de US$ 20 milhões e o retorno em arrecadação mundial foi de aproximadamente US$ 50 milhões.

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A diretora Aloysius (Meryl Streep) e a jovem irmã e professora James (Amy Adams) desconfiam do relacionamento afetuoso entre o padre Flynn e o novo aluno negro da escola.

Na trama, a irmã Aloysius (Meryl Streep) é uma diretora rígida, sistemática, obcecadamente detalhista, implicante, ao ponto de implicar até com o uso de canetas estereográficas e com as unhas compridas dos outros, quem dirige com punhos de ferro uma escola de adolescentes, esta instituição, pela primeira vez, aceita um aluno negro, Donald Miller (interpretado pelo jovem Joseph Foster). Na igreja da paróquia junto à escola, está o padre Flynn (Philip S. Hoffman), um carismático e eloquente orador, com ideias progressistas e inovadoras para a Igreja, cujos sermões comoventes são capazes de envolver a plateia. Entretanto, o bom relacionamento entre ambos começa a se abalar quando ele profere um eloquente sermão sobre a dúvida, fato que deixa a irmã Aloysius desconfiada e, mais ainda, quando a jovem irmã e professora James (Amy Adams) informa à diretora Aloysius (Meryl Streep) o fato do novo aluno negro, Donald Miller, de apenas 12 anos de idade, ter retornado para a sala de aula, depois de ser chamado à sala do padre Flynn, com odor de álcool no seu hálito. A desconfiança soma-se ao suspeito relacionamento afetuoso, dos últimos dias, entre o padre e o novo aluno negro. Em seguida, ao saber deste incidente, a diretora Aluysius coloca em ação uma obsessiva cruzada para derrubar o padre Flynn, mesmo não tendo provas concretas de suas suspeitas. A partir daí, uma batalha entre ambos é iniciada, porém, curiosamente, tudo no filme é conduzido com base em dúvidas, tanto das situações, quanto das mentes dos protagonistas, envolvendo este drama em uma névoa de suspense, o que o torna interessante de assistir. As formidáveis atuações de Meryl Streep e de Philip S. Hoffman contribuem para o aumento do efeito psicológico da trama.

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Amy Adams (esq.) e Meryl Streep conversam com o autor e diretor John Patrick Shanley, durante um intervalo das filmagens do drama “Dúvida”.

Do ponto de vista da crítica religiosa, o que neste filme interessa àquele, curioso sobre a cultura religiosa, é o fato do mesmo mostrar os efeitos psicológicos da dúvida na mente dos religiosos, sobretudo quanto ao processo, muito frequente no comportamento religioso, de transformar a dúvida em convicção, a partir mesmo de incertezas, para então aliviar a pressão sufocada que lhes incomoda, e daí enfim, transformá-la em alguma forma de obsessão.  Este é o transtorno da irmã Aluysius (quem já tinha sido casada, e agora se transformou em freira) e do padre Flynn (quem demonstra ser reincidente). As reações de dúvida e de ingenuidade da irmã James (Amy Adams), diante daquela situação suspeita de pedofilia, também são curiosas de serem observadas. Em suma, este drama, em muitos pontos, é o retrato do transtorno causado pela dúvida na mente do religioso, o qual pode ora levar o religioso a se fechar em um rígido conservadorismo, para que a sua dúvida não seja percebida pelos outros, tal como no caso representado pela diretora Aloysius ou, por outro lado, se abrir para ideias inovadoras, anunciadamente, e daí abraçar um projeto de mudanças, para aliviar a tensão causada pela dúvida, tal como reproduzido no exemplo do padre Flynn.

Outra interpretação possível de se extrair do filme é a sua ambientação no ano de 1964, logo após o término do Concílio Vaticano II, o qual decidiu por grandes reformas na Igreja Católica. Parece que o padre Flynn representa a corrente que apoiava estas mudanças, enquanto que a irmã Aloysius representa aqueles que se opunham às decisões deste concílio.

Enfim, este é um drama pouco conhecido do público, mas que deve ser assistido por aqueles que se interessam pelos filmes que tocam nas feridas do Catolicismo.

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