Marcha para Jesus, “Quem Não Marchar Direito Vai Preso para o Inferno”

por Octavio da Cunha Botelho

 

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Multidão de fieis durante uma Marcha para Jesus

            Todos já ouviram falar da Marcha para Jesus, quando fiéis cristãos se aglomeraram para caminhar protestando, rezar, ouvir música gospel e protestar contra algum projeto de lei. Estas modalidades de concentrações religiosas se tornaram frequentes nos últimos anos, algumas já chegaram a reunir cerca de um milhão de pessoas em São Paulo. Assim, o comentário abaixo procura comparar, de maneira descontraída, as semelhanças entre os movimentos obedientes e imitativos das marchas militares com o pensamento submisso e o comportamento imitativo dos participantes destas marchas religiosas.

 

Marcha: imitação e sujeição ao ritmo

            A palavra marcha tem diferentes sentidos, pode ser até uma simples caminhada, não significando apenas aquele conjunto gestual de movimentos semelhantes e simultâneos dos soldados, conhecido como marcha militar, marcada ou não pelo acompanhamento musical de uma banda. Agora, para uma marchar militar ser executada é necessária uma padronização de movimentos executados simultaneamente, na qual cada soldado imita o movimento do outro com rigorosa semelhança. Não existe margem para o improviso, nenhum elemento pode ser criativo naquele momento, a sujeição e a obediência ao ritmo, bem como à coreografia sincronizada são as propriedades da marcha militar. Em suma, a sujeição ao ritmo e a imitação de movimentos são os fatores que fazem a marcha militar efetiva.

            Agora, não é esta marcha gestualmente ritmada que caracteriza as marchas para Jesus, estas são executadas em forma de caminhadas, com liberdade de movimentos físicos. Agora, o que assemelha a marcha militar com a marcha para Jesus é a motivação psicológica por trás da simples caminhada.

            Não é difícil observar que, em muitas pessoas, o sentimento de compartilhar o mesmo pensamento e o mesmo comportamento com uma maioria lhes traz convicção e segurança de estar pensando ou fazendo a coisa certa. É algo como nadar no sentido da correnteza, parece que se está indo para o caminho certo, mas, na verdade, o nadador está sendo levado, ele não tem absoluto controle sobre o seu destino. O instinto de rebanho é estudado pelos psicólogos há décadas e consegue explicar muitas reações irrefletidas. Enfim, todo instinto de rebanho é uma ato de imitação. Quando alguém toma uma atitude assim na vida, costuma se chamar, na linguagem popular, de “Maria vai com as outras” ou de “macaco de imitação”.

A Marcha para Jesus costuma reunir um rebanho de submissos fiéis, que está ali motivado pelo sentimento de que aquela multidão de coparticipantes lhe assegura a convicção. Em outras palavras, o aglomerado lhe transmite o sentimento de que, se tantas pessoas estão aqui e fazendo o mesmo que eu, então isto significa que o que creio é verdadeiro e o que faço está correto. Pensar e fazer como os outros é uma atitude de imitação que se assemelha à marcha militar. Assim como na marcha militar a imitação assegura o bom desempenho coreográfico, também na Marcha para Jesus a imitação de pensamento e de decisão assegura a convicção, daí os frequentes delírios de fé dos participantes nestas ocasiões.

“Quem não marchar direito vai preso pro inferno

            Muitos leitores devem ter brincado com a seguinte cantiga na infância:

            “Marcha soldado, cabeça de papel,

quem não marchar direito vai preso pro quartel”.

Pode parecer cômico, mas o que aproxima esta cantiga com o que está sendo tratado aqui é a semelhança entre a imitação e a obediência. “Marchar direito” significa marchar como os outros, portanto o mesmo que praticar a imitação. Já, “não marchar direito” representa uma ato de desobediência, o qual, num ambiente coercivo como o militar e o religioso, implica em ir “preso pro quartel”, ou ir para o inferno respectivamente. Existem muitos paralelos que podem ser apontados entre a obediência militar e a obediência religiosa. Quando o hábito de imitação se torna muito enraizado, o mesmo assume um papel coercivo sobre a pessoa, ou seja, a sujeição ao hábito de imitação se torna uma imposição de obediência. Pessoas assim muito vulneráveis à submissão pensam que, evitar um hábito até parece uma desobediência, com isso criam uma personalidade submissa, tornando-se vítimas fáceis da manipulação alheia. Nenhuma outra instituição, exceto a religião, carrega tanto este espírito submisso do que o militarismo.

Esta mentalidade em tudo contrasta com o espírito iluminista, definido nas conhecidas palavras de Emanuel Kant: “O iluminismo é a saída do homem do estado de minoridade que ele deve imputar a si mesmo. Minoridade é a incapacidade de valer-se de seu próprio intelecto sem a guia de outro. Esta minoridade é imputável a si mesmo se sua causa não depende de falta de inteligência, mas sim de falta de decisão e coragem de fazer uso de seu próprio intelecto sem ser guiado por outro. Sapare aude! Tem coragem de servir-te de sua própria inteligência! Este é o lema do iluminismo”.

Agora, o interessante é a semelhança entre o militarismo e as igrejas cristãs, as quais costumam chamar seus devotos de soldados, de modo que é frequente se ouvir as denominações “Soldados de Cristo”, “Exército do Senhor”, etc. A força com a qual as igrejas submetem seus devotos é muito parecida com a obediência militar, sobretudo entre os militares de baixa patente. Pessoas tão submissas, como estes soldados de Cristo, parecem, tal como na cantiga acima, ter “cabeça de papel”, na qual estão escritas as ordens a serem obedecidas. As Marchas para Jesus geralmente são convocadas pelos pastores, de modo que os fiéis (soldados de Cristo), com suas cabeças de papel, respondem prontamente às ordens dos seus guias e comparecem em imenso número a estes eventos. É impressionante o poder de influência que os pastores têm sobre as “cabeças de papel”, elas temem que, se não “marcharem direito irão presos pro inferno”. Pois, o ritmo da marcha é ditado pelos pastores que, em seguida, é automaticamente seguido pela submissa massa de seguidores, numa obediência e harmonia de movimentos que até parece uma marcha militar, com isso esta submissão é capar de levar multidões para estas concentrações religiosas.

Para concluir, usando de uma metáfora, o que os participantes nestas marchas religiosas precisam é apagar as inscrições, com as gravações dos comandos dos pastores gravadas em suas cabeças de papel e, em seguida, escrever um novo texto esclarecedor, que lhes mostre a decadência cultural da religião nos últimos séculos, fazendo assim que suas cabeças de papel se transformem em cabeças de verdade e, com isso lhes habilite perceber a inutilidade da cultura religiosa para a Atualidade.

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