“O Sétimo Selo”, um Retrato da Paranoia Medieval

por Octavio da Cunha Botelho

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O ator Max Von Sidow como o cavaleiro Antonius Block em uma cena de O Sétimo Selo de Ingmar Bergman

            O canal Telecine Cult exibiu recentemente o filme O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957) do aclamado e premiado diretor sueco Ingmar Bergman. Estrelado por Max Von Sydow e pela atriz Bibi Andersson, este longa, que foi indicado à Palma de Ouro, mas acabou recebendo o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes em 1957, é considerado pelos críticos como um clássico do cinema mundial, o qual ajudou Bergman a consolidar-se como um renomado diretor e reúne cenas que se tornaram ícones, as quais posteriormente foram reproduzidas em sua homenagem ou como paródia por outros diretores. O roteiro é inspirado em um trecho do Livro do Apocalipse, por isso o nome O Sétimo Selo, bem como ambientado no apocalíptico período medieval da disseminação da Peste Negra na Europa. Bergman considerou este um dos seus trabalhos favoritos.

            Max Von Sydow vive o papel de um cavaleiro (Antonius Block) que retorna, com seu escudeiro, das Cruzadas para sua terra natal, Suécia, onde encontra um ambiente de completo terror, em razão da disseminação da Peste Negra. Ele é visitado pela Morte, a qual lhe procura para levar sua vida, porém, a fim de prolongar sua ida, ele a desafia num jogo de xadrez, o qual se transforma, para além do tabuleiro, num embate entre a racionalidade, representada pelo cavaleiro Block (Max Von Sydow), e o sobrenatural, representado pela Morte. O jogo de xadrez parece simbolizar a tentativa de entender o sentido da vida e da morte através da racionalidade, este era o objetivo do cavaleiro Block.

            Em uma Europa aterrorizada pela Peste Negra, época na qual quase todos pensavam que tinha chegado o Juízo Final, com isso muitos já se preparavam para a morte, alguns críticos apontam ser esta situação uma metáfora de correspondente situação contemporânea na Europa, dos anos 1950, quando os fantasmas da Segunda Guerra Mundial ainda assombravam e o temor de uma guerra nuclear afligia os europeus, em razão do grande número de experimentos com explosões nucleares em ilhas do Pacífico, bem como o inseguro clima da Guerra Fria.

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A Morte em uma partida de xadrez com o cavaleiro Antonius Block (Max Von Sidow)

             Embora não sejam de muita profundidade teológica, pois Bergman, também autor do roteiro, não era teólogo, embora tenha crescido em um ambiente religioso, uma vez que seu pai era pastor, as discussões entre o cavaleiro Block e a Morte poderão ser curiosas para aqueles que se interessam pelo debate entre razão e fé, bem como sobre o sentido da vida e da morte. Em meio ao clima de pavor pela iminência do fim do mundo, em contrapartida, alguns cidadãos descontraídos e humorados satirizavam a cultura da época e certas doutrinas cristãs. Não apenas entre o cavaleiro Block e a Morte, de certa maneira e em linhas gerais, o debate sobre a fé, a razão e o sentido da vida permeia todo o filme, ora através de argumentações racionais, ora através de sátiras ou, por outro lado, através dos delírios de devoção.

            Outro ponto que o filme é capaz de retratar bem é o alto grau de superstição da época. Uma mulher, acusada de falar com o diabo, é acusada de ser uma bruxa e então é preparada para ser executada, daí o cavaleiro Block (Max Von Sydow) a procura para saber se o diabo tem as respostas que a Igreja não foi capaz de lhe satisfazer. Intercalando momentos de expectativa pelo fim do mundo e de sátira da cultura da época, o filme de Bergman diverte mesmo tempo que instrui, de maneira a combinar em uma síntese atrativa, drama, comédia e suspense. Merece ser assistido por aqueles que apreciam os trabalhos cinematográficos fora do padrão enlatado de filmes.

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