O Que é o Mantra Sem a Mistificação

por Octavio da Cunha Botelho

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O som primordial OM escrito de maneira estilizada, com o tempo se tornou o símbolo do Hinduísmo

Algumas décadas atrás, qualquer praticante de yoga no Ocidente era obrigado a explicar o significado da palavra mantra para os outros, quando o assunto surgia. Hoje, a palavra alcançou uma popularidade tal que não é mais necessário explicá-la. Ao mesmo tempo, seu significado popular e na mídia desviou para um sentido que não corresponde mais precisamente àquele atribuído pelos seus criadores, os hindus. Mantra (मन्त्र) passou a significar, no seu sentido mais corrente, qualquer palavra, frase ou slogan repetitivos. O breve estudo abaixo pretende, num primeiro momento, esclarecer o significado original do mantra sustentado pelos seus adeptos e, num segundo momento, analisar criticamente este significado fantástico e o efeito persuasivo do mantra sobre a mente do praticante. 

O que é o mantra 

O interesse pelas propriedades encantadoras do som fez os indianos antigos desenvolveram, desde cedo, uma sofisticada arte e uma aprimorada técnica de manipulação do poder do som. Diferente dos gregos antigos, os hindus não perceberam este poder tanto no discurso (oratória), mas sim na sonoridade da palavra falada, daí a constante constatação da dificuldade dos antigos compositores e exegetas hindus com o raciocínio discursivo. Não se tem informação da existência de oradores ou de algum tratado sobre retórica na Índia antiga. Sua obsessão era pelo encantamento da linguagem, o que os levou, em seguida, a desenvolverem fórmulas condensadas com alta carga de expressividade que ficaram conhecidas como mantras, os quais alguns preferem traduzir como “sons de poder”, “sons mágicos” ou “fórmulas de encantamento”. “Os mantras são particularmente importantes no Hinduísmo. Os mantras acompanham os rituais da vida diária no Hinduísmo; um hindu vive e morre cercado de mantras, desde o ventre da mãe até a pira funeral. Manuais de mantras são publicados por toda a Índia” (Smith, 2001: 263).

A rigor, a arte da entoação de mantras não é nem aquela noção depreciativa que se conhece popularmente, ou seja, a repetição mecânica de sons sem sentido, tampouco o conceito delirante de admiradores e de praticantes que atribuem a estes sons místicos poderes fabulosos. Portanto, para conhecer a perspectiva crédula e lisonjeira do mantra, consultar o livro Healing Mantras (Mantras que Curam) de Thomas Ashley-Farrand ou o site do autor: www.sanskritmantra.com/what, onde são reproduzidos trechos do seu trabalho e a oferta de muitos CD’s com a gravação de mantras para diversos fins, e para conhecer a perspectiva da yoga: www.dlshq.org/teachings/japayoga.htm. Também consulte a coletânea de definições e de explicações traduzida para o português sobre mantras budistas do ponto de vista laudatório em: www.dharmanet.com.br/vajrayana/mantra.  Para ouvir online a quantidade de cerca de 40 mantras hindus, consulte: http://hubpages.com/hub/popular-sanskrit-mantras-in-hindu-religion; para ouvir a entoação completa dos hinos (mantras) dos quatro Vedas por pandits do sul da Índia acesse: www.astrojyoti.com/vedamp3.htm, de todos os 18 capítulos do texto do Bhagavad Gita: http://www.astrojyoti.com/bhagavadgeeta.htm e para ouvir mantras e dharanis budistas pelo Youtube: www.wildmind.org/mantras.

Os delírios sobre a auspiciosidade destes sons místicos podem ser encontrados em afirmações tais como “o que há de impossível para os mantras realizarem, se eles forem praticados conforme as regras?” ou “através dos sussurros repetidos dos mantras, um poder tal é gerado que pode maravilhar o mundo inteiro”, “o mantra de Ekajatâ é tão poderoso que, no momento que é murmurado, a pessoa torna-se livre do perigo, é sempre seguida pela boa sorte, seus inimigos todos são destruídos e, sem dúvida, ele se torna tão piedoso como o Buda”, e exemplos como estes podem se multiplicar (Bhattacharyya, 1989: 57-8). Contudo, quando entendido de uma perspectiva sóbria, o mantra pode ser considerado o resultado de uma engenhosa técnica de exploração dos recursos da linguagem e do som para produzir encanto, muito avançada para os padrões da Antiguidade, quando comparada com os povos contemporâneos. Foi utilizado com objetivos muito diversificados, de modo que foram inventados mantras que vão desde a tentativa de expulsar o demônio das doenças, enfeitiçar ou destruir inimigos, conseguir um bom casamento, até o uso religioso em rituais de sacrifícios, cultos, sacramentos, invocação de deuses e deusas, bem como a repetição (japa mantra) a fim de obter o controle mental preparatório para a meditação (dhyana) na prática de yoga. Com o tempo, apareceram as compilações de mantras na forma de antologias, a mais conhecida e publicada é a Mantra Mahodadhi (Grande Oceano de Mantras), de autoria de Mahidhara, composta no século XVI e.c, inclusive com traduções para o inglês. Enquanto que, a mais elaborada tentativa de sistematizar as dispersas concepções metafísicas sobre o poder do som e os mantras na literatura tântrica é a obra The Garland of Letters (A Grinalda das Letras) de John Woodroffe (primeira edição 1922), com o objetivo de apresentar uma organizada doutrina metafísica do mantra.

A etimologia da palavra é, em parte, duvidosa. A primeira parte “man” (मन्), mais seguramente, deriva da raiz verbal “pensar”, enquanto que a segunda “tra” (त्र) é controvertida. Alguns conjeturam que significa “instrumentalidade” e com isso mantra (मन्त्र) poderia significar “instrumento do pensamento” (Stutley, 1977: 181). Outra sugestão para a origem de “tra” (त्र) é da raiz verbal “trai” (त्रै – proteger, defender), que no particípio passado é “trâna” (त्रान – protegido) e o substantivo é “trânam” (त्रानम् – proteção) (Apte, 1978: 486), portanto algo como “proteção mental”. John Woodroffe traduziu “trâna” (त्रान) como “liberação do cativeiro do mundo fenomenal (संसार – samsâra)” (1985: 276 e Bhattacharyya, 1987: 448; também Smith, 2001: 263 e Yelle, 2003: 11).

Em linhas gerais, um mantra pode estar no formato de:

a)    um verso (rik, shloka ou gayatri), tal como o Gâyatrî Mantra;

b)    uma frase (vakya), tal como em Namah Shivâya ou em Om Namo Narâyanâya;

c)    uma palavra (pâda), tal como em Soham (eu sou aquele ser supremo);

d)    um hino (sûkta, strotam ou stuti), tal como o Purusha Sûkta ou o Durgâ Stotram;

e)    ou até mesmo uma simples sílaba (bîja), tal como em OM, hrim, shrim ou phat.

O Mantra na disciplina yóguica 

No período pós-védico da Índia, a concepção e o método de praticar o mantra sofreram alterações consideráveis com a crescente penetração das técnicas de yoga na disciplina hindu. A partir daí, a prática começou a interiorizar, ou seja, a disciplina mental passou a ser mais importante do que as rígidas regras de pronúncia e de entoação prescritas pelos sacerdotes dos ritos.  A introdução da repetição de fórmulas curtas de invocação de divindades (जप मन्त्र – japa mantra) revolucionou a prática. Esta novidade colocou mais ênfase na disciplina mental durante a entoação do que a observação das minuciosas regras de pronúncia e de entoação, com isso recebeu mais flexibilidade e pôde então se popularizar, rompendo assim os rígidos requisitos do ritualismo brahmânico. Não era mais preciso passar por aquele longo treinamento em língua sânscrita e em rituais védicos para se praticar. Na yoga, o mais importante é a atitude mental de devoção e de concentração no momento da prática, em outras palavras, a disciplina interna é mais importante do que a formalidade externa. Assim, a devoção (bhakti) e a fé (shraddhâ) passaram a serem ingredientes fundamentas na entoação. Ademias, o mantra foi combinado com exercícios de respiração (prânayâma) e com a invocação de uma divindade de adoração (ishta devatâ). Enfim, o sistema da yoga promoveu uma grande revolução na prática do mantra dentro do Hinduísmo. Com esta diversificação, a repetição (japa) dos mantras passou a ser classificada da seguinte maneira segundo a forma de pronunciar:

a)    vaikhari japa: repetição em voz alta;

b)    upamshu japa: repetição em forma de sussurro e

c)    manasika japa: repetição mental.

Assim, é mais comum se encontrar a afirmação, sobretudo entre os iogues, de que a repetição mental (manasika japa) é a mais eficaz, o que atesta o desenvolvimento e a diversificação no entendimento e na técnica no Hinduísmo tardio, que conduziu à interiorização do mantra.

Para os hindus, o mantra OM  (ॐ) é o mantra por excelência, o maior dos mantras, o som primordial, ou seja, o primeiro som emanado do ser supremo (Brahman) que produz todos os outros sons, de forma que, para eles, tudo no universo está contido em OM. Sendo assim, aparece no início ou no fim da maioria dos mantras.

Com a popularização na Índia, o mantra passou a ser definido conforme a corrente ideológica que o utilizava. De maneira que foi conceituado como sons de poder que protege o devoto, ou que efetua a comunhão com a divindade adorada, ou que liberta o praticante do ciclo de nascimentos e mortes (samsâra), ou que conduz à libertação final (moksha), ou que efetua a aparição (darshana) da divindade invocada, ou que conduz o iogue à união com o ser supremo (Brahman), etc., e até aqueles ecumênicos que entendem que o mantra é capaz de levar a realização de todos estes objetivos (para conhecer esta visão ecumênica, acesse: www.dlshq.org/teachings/japayoga.htm.).  A diversificação do conceito e a simplificação da prática levaram o mantra hindu a ser importado, de maneira adaptada, pelo Budismo e pelo Jainismo (para conhecer mantras jainistas, consulte: http://www.terapanth.com.)

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O Mahamantra, muito utilizado pelos Hare Krishnas, escrito no alfabeto Devanagari

Agora, do ponto de vista da ortodoxia hindu, sobretudo do sistema Mîmâmsâ, com sua firme crença no fundamento da arte dos mantras na língua sânscrita e na sua correspondência natural com os objetos da criação faz, na estrita visão dos hindus, o mantra se diferenciar da oração e dos hinos de louvor. Portanto, a rigor, o mantra não deve ser identificado com a oração, como é feito por muitos autores ocidentais. Tampouco pode se falar de mantras em outras línguas tais como mantras do budismo tibetano, chinês ou japonês. Por exemplo, o conhecido mantra sânscrito do Budismo Mahâyana ओं मणि पद्मे हुं (OM mani padme hum – OM, a jóia no lótus, hum) é pronunciado no budismo tibetano como “OM mani peme hung” (para ouvir a pronúncia tibetana deste mantra, acesse: www.dharma-haven.org/tibetan/meaning-of-mani-padme-hung, portanto segundo as rígidas regras de pronúncia dos sacerdotes hindus, esta simples alteração é suficiente para desaparecer o poder místico.

Por outro lado, alguns consideram que “os mantras, tal como muitos outros fenômenos místicos, são arcaicos; tão arcaicos que de fato eles são os predecessores da linguagem no processo da evolução humana” (Smith, 2001: 263).

Análise crítica

Bem, mudando de perspectiva e deixando de lado as explicações mirabolantes e os resultados auspiciosos proclamados pelos adeptos do mantra, os quais podem se multiplicar ad infinitum, a fim de que seja possível aqui uma análise com os pés no chão destes sons encantadores. A rigor, o que na realidade fez desta técnica de encantamento um meio tão eficaz de atração e de manutenção de praticantes foi o fato de ser uma poderosa ferramenta de auto-persuasão, em outras palavras, um instrumento eficiente de manipulação ideologia através da auto-sugestão. O mantra, com efeito, funciona maravilhosamente como uma ferramenta auto-persuasiva que é capaz de desenvolver e complementar outras persuasões ideológicas previamente instaladas na mente do adepto, como continuação e reforço da prévia doutrinação recebida da comunidade mística na qual convive. Não resta dúvida que as sugestões de origem externa ganham força adicional quando combinadas com as auto-sugestões do praticante e, do mesmo modo, as auto-sugestões se tornam mais fortes quando sustentadas pelo ambiente religioso. Esta sinergia é estratégica para a obtenção da persuasão plena, sendo assim um forte reforço para a convicção do adepto. Robert Yelle sugere que  “eles (os mantras) constituem uma espécie de retórica, sua forma poética contribui para a crença em sua eficácia” (Yelle, 2003: 59). Em suma, o mantra será sempre mais efetivo quanto mais o praticante estiver pré-disposto e doutrinado a acreditar em seus resultados, de forma que o mantra só tem efeitos sobre aquelas pessoas suscetíveis à persuasão.

Ademais, parece que os hindus foram os primeiros a perceberem que a repetição tem poder persuasivo. A criação no passado daquelas fórmulas curtas para se repetir muitas vezes (japa), 108 vezes é a mais utilizada, tais como OM namah Shivâya (ओं नमः शिव।य), OM namo Bhâgavate Vasudevâya (ओं नमो भ।गवते वसुदेव।य), OM namo Nârâyanâya (ओं नमो न।र।यण।य),  etc., provou ser favorável à penetração inconsciente da mensagem (Yelle, 2003: 12). Esta técnica repetitiva deve ter sua origem na descoberta do mecanismo da mente de aceitar como verdade uma frase repetida ou ouvida muitas vezes. Quando os publicitários contemporâneos perceberam esta vulnerabilidade do mecanismo da mente, logo passaram a elaborar anúncios que martelam a mente do ouvinte, do telespectador ou do leitor com mensagens repetitivas na tentativa de que sejam aceitas como verdade. É por isso que assistimos a tantos comerciais repetitivos na TV. A repetição da veiculação dos anúncios é denominada tecnicamente de freqüência entre os profissionais de mídia: “Se você pensar nos comerciais dos quais se lembra, os que têm mais possibilidade de lhe vir à mente são aqueles que você viu ou ouviu mais de uma vez, isto é, para uma mensagem ser realmente eficaz em termos de comunicação com o público-alvo, em geral ela ter de ser transmitida mais de uma vez” (Katz: 2004: 127-32). Daí em diante, a repetição passou a ser uma técnica publicitária de persuasão.

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O Japamala, uma espécie de rosário utilizado na contagem da repetição (japa) do mantra, geralmente com 108 contas.

Numa época quando ainda não existia a psicologia científica e a ciência da persuasão, os hindus confundiram o poder persuasivo dos mantras com um imaginário poder místico. Que o mantra tem efeito e transforma uma pessoa, isto é um fato e os místicos podem até se gabar, agora, a natureza persuasiva deste poder é que não é cientificamente reconhecida pelos praticantes, por atribuir-lhe origem sobrenatural. Estritamente falando, o poder influente do mantra é o mesmo poder do encantamento e da sedução, que é o poder que abre a porta para a persuasão entrar na pessoa vulnerável. Em tempos pré-científicos, portanto sem os conhecimentos científicos da psicologia e da neurociência, os antigos hindus ficaram maravilhados com este poder e o conceberam como um poder sobrenatural que, ao contrário, é tão natural quanto o poder de encantamento da arte plástica, da poesia, da música e da sedução. Enfim, o mantra chegou a ter o poder que tem devido a sua engenhosa e estratégica sinergia entre a arte de auto-persuasão pelo encantamento e a doutrinação religiosa recebida de fora. Trata-se da colocação do poder do encantamento a serviço da ideologia, e neste sentido os hindus foram engenhosos, tal como é possível alcançar os mesmos efeitos com os hinos religiosos, com os hinos nacionais, com os hinos dos times de futebol e com as marchas militares, ou seja, a música a serviço da ideologia ou da paixão, com a diferença que os hindus revestiram o mantra com um caráter sobrenatural e místico.

 

Obras consultadas

APTE, V. S. The Practical Sanskrit-English Dictionary. Delhi: Motilal Banarsidass, 1978.

BHATTACHARYYA, B. B. An Introduction to Buddhistic Esoterism. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1989.

BHATTACHARYYA, N. N. History of the Tantric Religion. New Delhi: Manohar Publications, 1987.

CIALDINI, Robert B. A Ciência da Persuasão em Viver Mente&Cérebro, Julho 2005, p. 88-95.

COWARD, Harold G. and David J. Goa. Mantra: Hearing the Divine in India and America. New York: Columbia University Press, 2004.

KATZ, Helen. Media Handbook: Um Guia Completo para Eficiência em Mídia. São Paulo: Nobel, 2004.

LEVINE, Robert. The Power of Persuasion: How We´re Brought and Sold. Hoboken: John Wiley & Sons, 2003.

SMITH, D. Mantra em Concise Encyclopedia of Language and Religion.  John F. A. Sawyer  (ed.). New York: Elsevier, 2001, p. 262-4.

STUTLEY, Margaret and James. A Dictionary of Hinduism. London: Routledge & Kegan Paul, 1977.

URBAN, Hugh B. Tantra: Sex, Secrecy, Politics and Power in the Study of Religion. Berkeley: University of California Press, 2003.

WOODROFFE, John. Shakti and Shakta. London: Luzac & Co., 1918.

_________________ The Garland of Letters. Madras: Ganesh & Company, 1985.

YELLE, Robert A. Explaining Mantras: Ritual, Rhetoric and the Dream of a Natural Language in Hindu Tantra. London/New York: Routledge, 2003.

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