Brasil: Estado Laico e Povo Religioso (com Pouca Religiosidade)

por Octavio da Cunha Botelho

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O Brasil é o oitavo país mais violento do mundo; violência combina com religiosidade?.

            Dentre os argumentos daqueles que defendem ou que lutam pelo aumento dos direitos dos religiosos brasileiros é o de que o Brasil é um estado laico, mas seu povo é religioso. No momento, a principal tentativa de levar adiante esta ideia no Brasil é a PEC 99/2011, do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO). Esta Proposta de Emenda à Constituição pretende acrescentar ao artigo 103 da Constituição Federal o inciso X, que dispõe sobre a capacidade postulatória das Associações Religiosas para propor ação de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade de leis e atos normativos, perante a Constituição Federal. Em 27/03/2013, a Comissão de Constituição de Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade da PEC 99, agora falta passar por outras comissões até a votação em plenário. Em palavras mais explicativas, se aprovada esta proposta, algumas instituições religiosas neste país terão também o direito de questionar, no Supremo Tribunal Federal, a constitucionalidade e a inconstitucionalidade de certas leis e daí até alterar as suas interpretações. Alguns analistas percebem nesta PEC uma ameaça à laicidade do estado brasileiro, uma vez que poderá ser uma abertura para futuros desdobramentos.

              A partir da afirmação de que o “povo brasileiro é religioso”, o texto abaixo analisará a imprecisão deste conceito, tendo como fundamento o princípio comumente aceito de que não existe religião sem religiosidade, ou seja, para que exista um povo religioso é preciso que este povo tenha religiosidade. Antes de discutir este assunto é preciso apontar que a religião predominante no Brasil é o Cristianismo (Catolicismo, Protestantismo e Espiritismo Kardecista). Sobre isto, é importante observar que a religião cristã se tornou aquela com o maior número de seguidores no mundo, não por ser a melhor, tal como pensam muitos cristãos, mas sim por ser a única, dentre as religiões tradicionais, na qual alguém é reconhecido como adepto sem precisar praticar, isto é, basta declarar que tem fé ou afirmar que é cristão. Enfim, o Cristianismo se transformou na religião mais fácil de ser seguida, uma moleza, do jeito que o brasileiro gosta, por isso se deu bem aqui, fazendo do Brasil o país com a segunda maior população cristã do mundo, atrás apenas dos EUA, e o de maior população católica. Nas outras religiões tradicionais não é assim, é preciso praticar para ser considerado um seguidor. Por exemplo, ninguém é reconhecido como hindu se não praticar os ritos diários obrigatórios e os deveres prescritos pelos Dharma Shastras. Sendo assim, o Cristianismo é a religião que mais favorece a separação entre religião e religiosidade.

            Bem, dentre os tantos exemplos que mostram a baixa religiosidade da população brasileira está o alto número da criminalidade. Não é possível existir religiosidade em meio à criminalidade disseminada. O Brasil é um dos países com maior taxa de criminalidade no mundo dentre os crimes mais praticados: assassinato, assalto, latrocínio, estelionato, roubo, fraude, corrupção, crimes de trânsito, sonegação de impostos, falsificação, adultério, prostituição infantil, pedofilia, suborno, etc. Quanto ao crime de assassinato, o Brasil é o maior do mundo em números absolutos, já no índice internacional de assassinato anual por cada cem mil habitantes, seu índice é de 20,4 assassinatos anuais por cem mil habitantes, segundo o Mapa da Violência de 2013. Com esta taxa, o Brasil é o oitavo país mais violento do mundo. A média global é de 7,6 assassinatos anuais por cem mil habitantes, sendo que, de dez assassinatos anuais em diante por cem mil habitantes, já é considerado epidemia pela ONU, portanto o Brasil está bem acima da média mundial e, pior ainda, com o dobro do nível epidêmico, também, das 50 cidades mais violentas do mundo, 14 estão no Brasil.

            Uma curiosidade é que os países mais violentos que o Brasil, no topo do Mapa da Violência, quase todos são países com uma população majoritariamente cristã, bem como na America Latina, o principal reduto do Catolicismo na atualidade, veja abaixo:

1º – El Salvador: 71 assassinatos anuais por cem mil habitantes (70% da população é cristã).

2º – Honduras: 67 assassinatos anuais por cem mil habitantes (97% da população é cristã)

3º – Jamaica:

4º – Guatemala: 52 assassinatos anuais por cem mil habitantes (75 % da população é cristã)

5º – Venezuela – 49 assassinatos anuais por cem mil habitantes (95% da população é cristã)

6º – África do Sul:

7º – Colômbia: 35 assassinatos anuais por cem mil habitantes (90% da população é cristã).

            Agora, compare estes índices acima com os de alguns países de população com os maiores índices de ateísmo, que estão no topo do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medido pela ONU:

1º – Islândia: 0,3 assassinato anual por cem mil habitantes

2º – Japão: 0,4 assassinato anual por cem mil habitantes

3º – Noruega: 0,7 assassinato anual por cem mil habitantes

4º – Suíça: 0,7 assassinato anual por cem mil habitantes

5º – Suécia: 0,9 assassinato anual por cem mil habitantes

6º – Austrália: 1,0 assassinato anual por cem mil habitantes

7º – Holanda: 1,1 assassinato anual por cem mil habitantes.

            Também, a população brasileira não está entre as mais felizes do mundo. A última pesquisa da OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development), em 2013, para encontrar os Países Mais Felizes do Mundo, divulgada pelo jornal britânico The Guardian em 28/05/2013, revela que o Brasil amarga o 33º lugar entre os locais para melhor se viver e trabalhar. Neste ano de 2013, a Austrália ficou em 1º (pelo 3º ano consecutivo), Suécia em 2º, Canadá em 3º, Noruega em 4º, Suíça em 5º e EUA em 6º.

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O Brasil é o país mais violento em números absolutos, superando até mesmo países em guerra.

            Outro item que exibe a baixa religiosidade do brasileiro é o alto grau de alcoolismo, com elevado nível de mortalidade. Entre 2000 e 2006, foram 92,9 mil óbitos causados por doenças relacionadas diretamente com o álcool e 146,7 mil óbitos por causas associadas ao álcool. O índice brasileiro foi de 45 óbitos anuais por cem mil habitantes em 2006. Estudo da UNESP mostrou que 11,7 milhões de brasileiros são dependentes de álcool, sendo que 50% da população brasileira consomem álcool e 20% de maneira abusiva. Entre os jovens, 78% bebem regularmente e 19% deles já são dependentes.

            Outro fator é a imoralidade. O brasileiro é um dos povos mais desonestos do mundo, pois é malandro, pensa que é esperto, quer sempre se dar bem, está sempre acusando, mas não quer ser acusado. O povo brasileiro é do tipo que acha que seus erros são sempre justificáveis, que quando ele faz não é errado, no entanto, se outra pessoa faz o mesmo que ele fez, aí então é errado. Com a mania de ser esperto, o brasileiro cunhou um tipo de comportamento exclusivo, o tal “jeitinho brasileiro”, este último não é nada mais que o sinônimo para os métodos ilegais e imorais de se obter vantagens. Isto tudo é desonestidade e imoralidade, sendo vícios crônicos do caráter brasileiro. Ademais, o brasileiro, na sua grande maioria, é desrespeitoso com os outros, tanto assim que o Brasil é o único país no mundo onde existe a frase “os incomodados que se retirem”.

            Um questionário que pode investigar, com um pouco mais de precisão, a religiosidade de um povo está na pesquisa do Instituto Gallup, para evitar aqueles que respondem que têm religião, mas não praticam, é a pesquisa que pergunta “religião é importante na sua vida diária”? O relatório desta pesquisa de 2009 mostrou o Brasil em 61º lugar entre os países que responderam que a religião tem importância na vida diária, com 86,5% respondendo que sim e 13% respondendo que não. Isto é, uma posição intermediária entre os mais religiosos: Bangaladesh (100%) e Níger (100%), e na outra extremidade os menos religiosos: Estônia (apenas 16%), Suécia (16,5%) e Dinamarca (18%).

             Em linhas gerais, a dedicação religiosa do povo brasileiro é pequena, quando comparada com outros países de efetiva religiosidade. Por exemplo, se for feita uma comparação da religiosidade do povo brasileiro com a religiosidade dos povos mais religiosos do mundo, o resultado será decepcionante para aqueles que pesam que o povo brasileiro é religioso. Pois, em sua grande maioria, os cristãos brasileiros conhecem mais o Neymar do que Jesus, entendem mais de futebol do que de religião, assistem mais jogos de futebol do que missa ou culto, frequentam mais o salão de beleza do que a igreja, leem mais noticiários de esporte do que a Bíblia, conhecem mais os jogadores da seleção brasileira do que os apóstolos, seguem mais as novelas do que o calendário religioso, falam mais da vida alheia do que da doutrina cristã, praticam mais malhação do que oração, são mais apaixonados por automóvel do que pelos símbolos religiosos, preocupam-se mais com a aparência do que com a espiritualidade, etc.

            Então, em vista do que foi analisado acima, se o povo brasileiro for religioso, tal como afirmam alguns defensores desta hipótese, a sua religiosidade será distinta daquela dos outros povos, ela só poderá ser uma religiosidade exclusiva, ou seja, do “jeitinho brasileiro”.

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