Um Ano Sem Sathya Sai Baba, Saudade ou Alívio?

por Octavio da Cunha Botelho

Sathya Sai Baba

Sathya Sai Baba com sua tradicional cabeleira

Este artigo foi programado para ser postado exatamente na data de 24/04/2012, aniversário de um ano da morte de Bhagavan Sri Sathya Sai Baba. Ele foi o mais conhecido líder religioso de nacionalidade indiana das últimas décadas. Considerado por seus devotos e admiradores como um avatar (encarnação divina), conseguiu popularidade com muita rapidez no século XX, devido principalmente ao ímpeto fanático e propagandista de seus seguidores. Sua reputação se espalhou tanto que ele chegou a ser matéria em uma das revistas mais prestigiadas do mundo, a Harvard International Review (vol. 22, nr. 02, 2000, p. 14). Ele talvez tenha sido o guru mais bem sucedido, nas últimas décadas, em restabelecer a fé na religiosidade e resgatar muitos desacreditados para o caminho espiritual, sobretudo em virtude das suas exibições de materializações de objetos sagrados. Por outro lado, os céticos o acusam de charlatanismo e que “a Índia e o mundo teriam sido muito melhores sem Sai Baba”. Para seus seguidores, a sua morte foi uma grande perda para a religiosidade mundial, enquanto que para os céticos, a sua morte foi um alívio para a doença da credulidade.

Santo ou vigarista

Sathya Sai Baba nasceu em 1926, no vilarejo de Puttaparthi (hoje uma cidade muito movimentada) no estado de Andhra Paradesh, sul da Índia. Seu nome de batismo é Sathyanarayana Raju. A partir de certa idade, adotou o nome religioso de Bhagavan Sri Sathya Sai Baba, quando passou a alegar que era a reencarnação de Sai Baba de Shirdi (um lugarejo perto de Mumbai), conhecido pela prática da suposta materialização da Vibhuti (cinza sagrada), um santo que combinava ensinamentos hindus e mulçumanos. Sua missão hoje reúne cerca de cinco ou seis milhões de seguidores no mundo – o número exato é difícil de calcular em virtude da falta de laços formais de filiação – famoso internacionalmente por seus fenômenos de materialização de objetos sagrados (anéis, medalhões, colares, lingas, etc.) e especialmente da vibhuti (cinza sagrada), é proclamado por seus devotos entusiasmados como uma grande encarnação divina. Mais fácil de precisar o tamanho é a Sai Baba Organisation, a qual está presente em 114 países com cerca de 1.200 centros.

Entretanto, paralelamente, circula um número de acusações contra ele e contra sua organização de práticas de pedofilia, do assassinato de seis internos, o seu assistente pessoal Radha Krishna Menon estava entre os assassinados, ocorrido em 06 de Junho de 1993, dentro do seu próprio quarto de dormir no ashram em Puttaparthi, o qual não foi até hoje esclarecido pela justiça indiana; bem como as demonstrações públicas de milagres de materialização da vibhuti e de outros objetos são acusadas de serem truques de mágicas. Em 1963, ele sofreu quatro fortes ataques cardíacos. Em 2006, ele fraturou o quadril num acidente com um garoto que estava em cima de um banco de ferro que escorregou e caiu com o banco em cima de Sai Baba, a partir daí ele passou a utilizar uma cadeira de rodas, que mais parecia uma “luxuosa poltrona de rodas”, com isso diminuiu muito suas aparições públicas. Ele passou a dar darshans (bênçãos) do automóvel ou da cadeira (luxuosa poltrona) de rodas. Agora, o mais decepcionante para seus devotos com a sua morte em 24 de Abril de 2011, aos 84 anos, foi a declarada previsão, feita pelo próprio Sai Baba, de que ele só morreria aos 96 anos e que seu corpo permaneceria jovem até tal idade.

O canal de TV por assinatura National Geographic já exibiu documentários mostrando especialistas em mágica reproduzindo, com exatidão, os mesmos supostos “milagres” executados por Sai Baba, imitando até mesmo o seu habitual movimento circular da mão, antes de materializar a vibhuhi (cinza sagrada). Para conhecer um relato resumido e assistir a uma reportagem em vídeo sobre Sai Baba, do ponto de vista jornalístico, produzidos pelo canal de TV indiano NDTV, acesse: http://www.ndtv.com/article/india/who-is-sri-sathya-sai-baba-101102. Para os casos de abuso sexual, ver a matéria Secret Swami no site da BBC News: http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/this_world/3791921.stm e o artigo A God Accused na Indian Today Magazine de 04/12/2000 em: http://www.india-today.com/itoday/20001204/cover4.shtml. Para os assassinatos de 06/06/1993, ver a coletânea de notícias em jornais indianos que noticiaram o evento em: http://www.saisathyasai.com/baba/Ex-Baba.com/copyright-priddy-stealer2.html. E sobre seus fraudulentos milagres, ver o artigo Sai Baba: god-man or con-man? (Sai Baba: homem-deus ou charlatão?) no site da BBC News: http://www.saisathyasai.com/baba/Ex-Baba.com/copyright-priddy-stealer2.html. Agora, para conhecer os truques por trás das materializações, consultar: http://www.youtube.com/watch?v=Yblhsr1O4IQ&feature=related e

http://www.youtube.com/watch?v=UOhH1oBJOiw.

Ele nunca concordou em submeter suas habilidades a um exame em condições de observação controlada por um investigador, portanto tudo o que foi investigado sobre suas façanhas até agora foi feito à distância e com o absoluto controle dele, bem como conforme depoimentos de testemunhas, na maioria por seus devotos deslumbrados e crédulos. Portanto, desde as investigações relatadas no livro do psicólogo Erlendur Haraldsson, Modern Miracles: An Investigative Report on Psychic Phenomena Associated with Sathya Sai Baba (Milagres Modernos: Um Relatório Investigativo sobre os Fenômenos Psíquicos Associados com Sathya Sai Baba – Hasting House Book Publishers, 1997.), o qual em grande parte endossa seus milagres; até as contestações do seu principal oponente, Basava Premanand (1930-2009), fundador do ramo indiano do CSICP (Committee for Scientific Investigation of Claims of the Paranormal – Comitê para a Investigação Científica das Alegações do Paranormal) e do periódico Indian Skeptic, http://www.indiansceptic.in/, foram realizadas sob mínimas condições de observação científica.

Sai Baba exegeta

            Apesar da sua precária formação escolar, este carismático líder religioso aventurou-se em escrever sobre temas religiosos em geral, bem como escreveu comentários sobre alguns livros sagrados (Bíblia, Upanixades, Bhagavad Gita, etc.), originalmente escritos em Telugu, sua língua nativa, mas quase todos traduzidos para o inglês. Seu comentário sobre o Bhagavad Gita, denominado Geeta Vahini, chama a atenção pela banalidade exegética. Repleto de frases truísticas, até parece mais um livro de catecismo para novatos, o comentário despe o Gita de seu encanto artístico e poético em favor de a uma redação coloquial e popular, capaz de decepcionar qualquer admirador da literatura clássica do Oriente. O clássico diálogo (Gitopadesha) entre Krishna e Arjuna é transformado numa conversa informal entre dois compadres. A coloquialidade e a vulgaridade da tradução a fazem tão distante da tradução poética de Sir Edwin Arnold, The Song Celestial e da tradução filológica de Franklin Edgerton, publicada na Harvard Oriental Series em 1944, que só pode ser o trabalho de um autor que desconhece a cultura e a literatura clássicas. Enfim, se as mensagens dos livros religiosos não têm mais validade científica e moral para a cultural atual, o único proveito remanescente de alguns destes textos clássicos é a sua propriedade artística e poética, mas mesmo esta última virtude restante Sai Baba apagou do texto na sua tradução.

Sua liberdade na tradução, bem como na atribuição do significado que deseja para a mensagem do Gita, é tão grande que ele chega a colocar nas bocas de Krishna e de Arjuna idéias absurdas e anacrônicas, e até certo ponto cômicas, inexistentes no Textus Receptus (texto aceito) do Gita. Veja a seguinte afirmação absurda de Krishna atribuída por ele: “Arjuna, preste atenção a apenas um fato. Qual a temperatura do seu corpo agora? Deve estar próxima dos 98 graus; como isto aconteceu? Porque o sol suporta muito milhões de vezes este calor naquela distância, não é? Agora, se o sol sente que ele não suportará aquele fogo e torna-se frio, o que acontecerá à humanidade?…” (Baba, 1983: 48). O Bhagavad Gita é um trecho do épico Mahabharata, quando acontece um diálogo entre o discípulo Arjuna e seu mestre Krishna no momento antes da batalha entre as famílias dos Pandavas e dos Kauravas, cada família com seus aliados. A historicidade desta batalha ainda é dúvida entre os historiadores, bem como a precisa data da composição do texto do Mahabharata também ainda é objeto de discussão entre filólogos e pesquisadores. Contudo, sabe-se com certeza que os relatos foram compostos aproximadamente no período da Antiguidade, portanto numa época quando ainda não tinha sido inventado o termômetro para medição de temperatura do corpo, de modo que esta afirmação, colocada na boca de Krishna por Sai Baba, é um anacronismo absurdo.  O exemplo seguinte sobre o esfriamento do sol é infantilmente cômico.

Outra passagem anacrônica e cômica é a seguinte pergunta de Arjuna inventada por Sai Baba: “Krishna (…) agora, no fim disto tudo, se você lançar esta bala de canhão, como eu poderei jamais captar seu significado?” (Baba, 1983: 128).  Sabemos pela história que o canhão foi inventado no século XIII e.c., durante a invasão de Genghis Kahn (1162-1227 e.c.) à China, como adaptação dos dispositivos de arremesso de fogos de artifício, utilizados por séculos pelos chineses. Sua primeira utilização militar foi nas campanhas deste conquistador mongol, portanto muitos séculos depois da composição do Mahabharata. De modo que não existia canhão, nem sequer qualquer outra arma de fogo, no tempo deste épico indiano.

Como afirmado acima, o seu comentário está repleto de truísmos, os quais podem chegar ao seguinte grau de obviedade: “Antes do nascimento, as pessoas não tem relacionamento com este mundo e com seus objetos materiais. Após a morte, elas e todos os amigos e parentes desaparecem…” (Baba, 1983: 222).

Dos escritos e discursos de Sai Baba é possível perceber a sua precária formação escolar, sendo que, por outro lado, ele dirigiu as verbas milionárias das doações de seus devotos e admiradores para a construção de escolas e de universidades. Esta foi uma decisão sem dúvida louvável, no entanto, quando uma pessoa instruída, que não é deslumbrada pelos seus fenômenos (ou truques) de materialização, percebe a sua precariedade cultural, não deixará de pensar que o que Sai Baba deveria necessariamente ter feito, de preferência no início, é ter se matriculado em uma das escolas que ele mesmo fundou para estudar junto com as crianças e os adolescentes, a fim aprender algumas lições de história, e com isso não afirmar a existência de canhão e de termômetro na Antiguidade.

Obras consultadas

ARNOLD, Sir Edwin. The Celestial Song: Bhagavad Gita. London: Routledge & Kegan Paul Ltd, 1972.

BABA, B. S. Sathya Sai. Geeta Vahini. Anantapur: Sri Sathya Sai Books & Publications, 1983.

EDGERTON, Franklin. The Bhagavad Gita. Delhi: Harvard University Press/Motilal Banarsidass, 1996.

SINGER, Margaret T. Cults in Our Midst. San Francisco: Jossey-Bass, 2003.

SRINIVAS, Tulasi. Global Godman: Inclusion, Salvation, Syncretism em Many Globalizations: Cultural Diversity in the Contemporary World. Peter L. Berger (ed.). New York/Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 100-16.

STALLINGS, Stephanie. Avatar of Stability. Harvard International Review, vol. 22, nr. 02, 2000, p. 14.

TWEED, Thomas A. and Stephen A. Prothero (eds.). Asian Religions in America: A Documentary History. New York/Oxford: Oxford University Press, 1999, p. 257-60.

WOODHEAD, Linda (ed.). Religions in the Modern World: Traditions and Transformations. London/New York: Routledge, 2002.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s