“Driblando o Destino” e a Sujeição da Mulher à Tradição

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Garota de família tradicional sikh joga futebol escondida dos pais na comédia Driblando o Destino (Bend It Like Beckhman, 2002)

            Mais um filme sobre o conflito entre culturas, cuja história envolve a restrição imposta pela tradição sobre a questão da mulher decidir o seu destino. Trata-se de Driblando o Destino (Bend It Like Beckhman, 2002), uma comédia britânica dirigida por Gurinder Chadha (uma diretora britânica descendente de imigrantes sikhs), quem também participou do roteiro, estrelada por Parminder Nagra, no papel principal de Jesminder (Jess), pela bela Keira Knightley (antes do seu estouro em Piratas do Caribe, 2003), no papel de Juliette (Jules) e por Jonathan Rhys Meyers, na pele do treinador de futebol Joe. O nome original do filme, Bend It Like Beckhman, refere-se ao astro do futebol inglês, David Beckhman, e sua habilidade em cobrar tiros livres ao gol, cuja bola efetua uma curva (bend) inesperada em direção à meta, uma gíria do futebol inglês, algo como a conhecida “folha seca” do antigo craque brasileiro Didi, também, com a analogia de outro sentido da palavra bend de curvar-se a um objetivo, isto é, esforçar-se, dedicar-se.

            Embora não tenha feito tanto sucesso nos cinemas brasileiros, o resultado nas bilheterias foi muito lucrativo pelo mundo afora, uma vez que o custo foi de apenas US$ 6 milhões e a arrecadação mundial de US$ 76 milhões. Recebeu a indicação na categoria de Melhor Filme de Comédia e Musical no Globo de Ouro de 2003, mas não levou o prêmio.

             Parminder Naga vive o papel de uma filha de imigrantes sikhs (Jesminder, apelidada de Jess no filme), em Londres, apaixonada pela prática do futebol. Diferente de sua irmã mais velha, a qual está prometida e se prepara para se casar, tal como o tradicional e invariável destino das jovens sikhs de se casarem, de se tornarem donas de casa, de terem filhos e de cuidarem dos mesmos, Jess escolheu uma atividade que conflita frontalmente com a cultura de sua família, a prática do futebol. Mesmo assim, ela costumava jogar com os amigos em um parque, quando é observada por Jules (Keira Knightley), quem então a convida para fazer um teste no time de futebol feminino Houslow Harries de Londres. Jess é aceita e começa a treinar escondida de seus pais, que são da religião Sikh, a qual proíbe as mulheres de praticar futebol. Com o tempo ela se transforma em uma craque, tornando-se cada vez mais importante para o time, mas seus pais não sabem de nada. Ela prepara uma armação com seus pais para poder jogar uma partida na Alemanha, mas seu pai descobre através do jornal local e então a surpreende em seu retorno. A família e os parentes ficam escandalizados com a notícia de que uma jovem sikh está jogando futebol.

            Apesar da trama e do desenvolvimento previsíveis, a reprodução dos conflitos culturais é curiosa para aqueles que se interessam pela questão do choque entre culturas, bem como a interpretação dos atores é convincente. Ademais, a reprodução da vida sikh é bem representada, uma vez que a diretora e autora do roteiro, Gurinder Chadha, é descendente de imigrantes desta religião indiana. Embora não seja mencionada explicitamente, a referência ao Sikhismo é bem perceptível no filme, pois uma grande gravura de Guru Nanak (fundador do Sikhismo), quem eles chamam de Baba Ji no filme, está colocada na parede da sala da casa de Jess, uma cena no interior de uma gurdwara (templo sikh) é mostrada, onde uma edição do Guru Granth Sahib (o livro sagrado dos sikhs) é exibida, bem como a prática de carregar objetos sagrados sobre a cabeça é mostrada em um episódio. Também, mais ainda, é a longa cena de um casamento sikh, onde quase todos os convidados estão com os seus tradicionais turbantes e a obrigatória barba sikh.

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Nunca o futebol foi tão bonito com a bela atriz Keira Knightley jogando de zagueira.

            O que faz deste filme interessante de ser assistido, por aqueles que se interessam pelo tema da religião, bem como do ateísmo, é a possibilidade de conhecer a vida interna das famílias conservadoras, onde ainda são os pais, a partir das orientações religiosas, os quais decidem o destino dos filhos, neste caso, Jess queira jogar futebol, já seu pai queira que ela fosse para a universidade para se tornar uma advogada. O seu relacionamento amoroso com o técnico de futebol Joe (Jonathan Rhys Meyers), um irlandês, é rejeitado pelos pais, pois eles queriam que ela se casasse com um indiano, uma vez que o Sikhismo é uma religião étnica. Bem, e para aqueles que não se interessam pelo tema, mesmo assim vale a pena assisti-lo, nem que seja só para ver a bela Keira Knightley jogar futebol.

            Uma curiosidade sobre este filme é que, ele foi exibido no Pyongyang International Film Festival, na Coréia do Norte, em 2004, em uma versão dublada e censurada, para uma audiência de apenas cem espectadores. Também, para comemorar o 10º aniversário das relações com o Reino Unido, a TV estatal da Coréia do Norte exibiu esta comédia em 26 de Dezembro de 2010, mais curioso ainda é saber que, segundo a declaração do embaixador britânico naquele país, Martin Uden, este foi o primeiro filme ocidental a ser exibido na TV norte coreana.

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