O Festival Purna Kumbha Mela e o Banho Ritual no Rio Ganges Poluído

Octavio C. Botelho e Gabriel S. Bassi

 

Introdução

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Vista aérea do último festival Purna Kumbha Mela em Allahabad, Índia

O estudo abaixo é outro resultado da parceria com Gabriel S. Bassi, dirigente da Sociedade Racionalista da USP. Tal como o estudo sobre a Hajj (Peregrinação Islâmica), eu escrevi a primeira parte sobre o festival e ele a segunda parte sobre o grau de poluição do rio Ganges, o rio sagrado mais adorado do mundo, visto que o momento culminante deste evento religioso é o banho e o ato ritual de beber a água deste rio sagrado que, paradoxalmente, se transformou, com o tempo, em um rio muito poluído. Enfim, a sujeira da água do Ganges se tornou proporcional a sua sacralidade. Mais uma vez, agradeço ao Gabriel Bassi pela sua contribuição.

As datas oficiais do festival Purna Kumbha Mela (पूर्ण कुम्भ मेल) deste ano (2013) são anunciadas com divergência, algumas fontes anunciam que iniciou em 14 de Janeiro, em uma data conhecida na Índia como Makar Sankranti (Festival da Colheita) e terminará em 10 de Março na Maha Shivaratri (महा शिवरात्रि – a Grande Noite de Shiva). Outras informam que iniciou em 27 de Janeiro, na lua cheia deste mês (पुष्या पूर्णिमा – Pushya Purnima), e terminará em 25 de Fevereiro, na próxima lua cheia. Quase tudo na Índia tem divergência, em virtude da multiplicidade de seitas. Os organizadores do evento aguardam a participação de 85 a 100 milhões de devotos desta vez.

O que é o Purna Kumbha Mela?

            Este é o maior festival religioso do mundo. O número de participantes é tão grande que aparece no Livro dos Recordes como a maior aglomeração de pessoas do planeta. O último Purna Kumbha Mela aconteceu em 2001, na cidade de Allahabad, Índia, na junção dos rios Ganges e Yamuna, com a participação estimada de cerca de 70 milhões de peregrinos, o que corresponde aproximadamente à população da Alemanha (Scott, 2001: 08). Estritamente falando, o festival acontece na junção destes dois rios e do rio mitológico Saraswati, o qual é mencionado nos livros sagrados do Hinduísmo como localizado naquela região, porém, geograficamente, não está lá, portanto trata-se de um rio fictício. A junção destes três rios é conhecida como Triveni Sangam na cultura hindu. A palavra Kumbha (sânscrito), que significa pote, às vezes aparece escrita como Kumbh, conforme a grafia da língua híndi.

Em geral, o festival, que tem a duração de um mês, acontece revezando-se em quatro cidades: Nashik, nas margens do rio Godavari; Ujjain, nas margens do rio Shipra; Haridwar nas margens do rio Ganges e Allahabad (também conhecida como Prayag) na confluência dos rios Ganges e Yamuna. Os Kumbha Melas mais importantes (o Purna e o Maha) acontecem sempre em Allahabad. A escolha destas cidades não foi por acaso, pois, segundo uma tradição mitológica dos hindus, foram nestes locais onde caíram as gotas de néctar (amrita) do pote (kumbha) durante a luta entre os devas (deuses) e os asuras (demônios) pela sua posse, tal como será descrita abaixo. O momento culminante do festival é o banho (snana) no rio, uma vez que os devotos acreditam que esta prática apressa a conquista da Libertação (Moksha) do ciclo de nascimentos e mortes. O principal dia de banho (snana) será em 10 de Fevereiro (Domingo), o Mauni Amasvasya Snana.

Sectariamente, o Kumbha Mela é um festival da tradição vaishnava (vishnuista) do Hinduísmo, no entanto, seguidores de outros cultos hindus (Shaiva, Shakta, Ganapatya, etc.) também participam do evento. 

A periodicidade do festival

Originalmente, o festival denomina-se Kumbha (कुम्भ – pote) Mela (मेल – festival), ou seja, Festival do Pote (Mehta, 2010: 42). Entretanto, conforme a regularidade, outros nomes são acrescidos para determinar a periodicidade, sendo que, quanto maior o intervalo, mais importante o festival:

– o Magha Kumbha Mela: acontece todo ano, geralmente em Janeiro (Magha)

– o Kumbha Mela: acontece uma vez a cada quatro anos

– o Ardha (meio) Kumbha Mela: uma vez a cada seis anos

– o Purna (completo) Kumbha Mela: uma vez a cada doze anos e

– o Maha (grande) Kumbha Mela: uma vez a cada 144 anos, ou seja, após doze Purna Kumbha Melas.

            Os últimos Purna Kumbha e Maha Kumbha Melas aconteceram em 2001, ocasião na qual os dois coincidiram, portanto uma data importantíssima para a religiosidade hindu. Tão importante que reuniu cerca de 70 milhões de peregrinos (Scott, 2001: 08). O Purna Kumbha Mela anterior a este foi em 1989 e o Maha Kumbha Mela antecedente caiu em 1857, mas permanece dúvida se o festival realmente aconteceu, uma vez que não existe registro.  A suspeita é de que não tenha ocorrido, uma vez que na ocasião acontecia uma revolta na Índia, quando soldados indianos se rebelaram contra as indignidades religiosas e sociais. Daí que civis descontentes deflagraram a Grande Rebelião, a qual só foi suprimida pelo exército britânico em 1859 (Keay, 2000: 436-47). Em razão deste tumulto, é provável que o festival não tenha acontecido.

A escolha do momento e do local

            O revezamento do festival em cada uma destas cidades (Allahabad, Haridwar, Ujjain e Nashik), bem como a escolha do momento, dependem das posições astrológicas do sol, da lua e do planeta Júpiter, previamente calculadas por astrólogos hindus. Então, quando Júpiter está no signo de Aquários (Kumbha Rashi) e o sol e a lua estão em Capricórnio (Makara Rashi), o festival acontece em Allahabad (Prayag) no mês de Magha (Janeiro/Fevereiro). Quando o sol está em Aires (Mesha Rashi), a lua em Sagitário (Dhanus Rashi) e Júpiter em Aquários (Kumbha Rashi), o festival acontece em Haridwar nos meses de Phalguna e Chaitra (Fevereiro/Março/Abril). Quando Júpiter está em Leão (Simha Rashi), o sol e a lua em Aires (Mesha Rashi), acontece em Ujjain no mês de Vaishakha (Maio). E quando o sol e a lua estão em Câncer (Kataka Rashi) e Júpiter em Escorpião (Vrischika Rashi), acontece em Nashik no mês de Shravana (Julho).

A origem mitológica do festival

Tal como quase todos os outros festivais religiosos pelo mundo afora, o Kumbha Mela também tem sua origem em um mito. Trata-se do mito da Samudra Manthan (Batedura do Oceano de Leite) narrado nos épicos Ramayana (Book I, Canto XLV) e Mahabharata (Adiparva, Astikaparva, Seções XVII-IXX), no Vishnu Purana (Book I, cap. IX), no Shiva Purana (Shatarudrasamhita cap. XXII) e, mais extensamente, no Bhagavata Purana (Skanda VIII, caps. 7-12). As narrativas nestes diferentes textos variam em detalhes, mas o que envolve o Kumbha Mela pode ser resumido da seguinte maneira.

Num passado remoto, deuses (devas) e demônios (asuras) selaram um acordo de ambos trabalharem na tentativa de produzirem néctar (amrita) através da Batedura do Oceano de Leite (Samudra Manthan). Após alguns obstáculos e desentendimentos, iniciou-se o trabalho. Quando o Pote de Néctar (Amrita Kumbha) surgiu do Oceano de Leite, deflagrou-se uma disputa por sua posse entre os deuses o os demônios, a qual se transformou, em seguida, numa sangrenta guerra. Até aqui a narrativa deste mito aparece nos textos escritos (Ramayana, Mahabharata, Vishnu Purana e Bhagavata Purana), porém a narrativa seguinte foi conservada apenas através da tradição oral. Esta afirma que a guerra durou doze dias e doze noites celestiais, correspondentes à dose anos no mundo terrestre. Ademais, durante a guerra entre os devas e os asuras, quatro gotas do Néctar (Amrita) caíram do pote (Kumbha) nas localidades de Ujjain, Nashik, Haridwar e Allahabad (Prayag), daí que o festival Kumbha Mela é realizado nestas cidades (Mehta, 2010: 42).

A origem histórica

A documentação para se conhecer a história dos Kumbha Melas é muito escassa e os autores que se aventuram a esboçá-la se contradizem frequentemente, quando não confundem mito com história. O primeiro registro da ocorrência de festivais, com a participação numerosa de devotos, aparece nos relatos escritos pelo visitante chinês Hwang Tsang (602-64 e.c.), o qual visitou a Índia nos anos 629-45 e.c., durante o reinado do rei Harshavardhana. No entanto, não é mencionado o nome Kumbha Mela. De modo que, Kama Maclean, no livro Pilgrimage and Power: The Kumbh Mela in Allahabad, 1760-1954, afirma que os festivais anteriores a 1760 eram importantes peregrinações, mas ainda não eram um Kumbha Mela, no sentido atual. Segundo a autora, o primeiro Kumbha Mela em Allahabad aconteceu em 1870 (Maclean, 2008: 99). O Kumbha Mela de 1894, em Allahabad, foi mencionado por Paramahansa Yogananda, em seu livro Autobiography of a Yogi (capítulo 36). Já o Imperial Gazetteer of India (vol. 13, p. 52) menciona e fornece os números de participantes dos Kumbha Melas, em Haridwar, de 1796 (2,5 milhões) e de 1808 (2 milhões).

O Purna Kumbha Mela de 2001 teve uma ampla cobertura da imprensa (TV´s, rádios, internet, jornais e revistas), daí que muitos líderes políticos da Índia se interessaram em participar, a fim de se mostrarem (Scott, 2001: 08), inclusive, a então presidente do Congresso, Sonia Gandhi, realizou um “mergulho simbólico” no rio Ganges (Maha Kumbh Mela concludes, The Hindu, online edition, February 22, 2001).

Tragédias

            O Imperial Gazetteer of India registrou que no Kumbha Mela de 1819, em Haridwar, 430 pessoas, incluindo soldados e guardas, perderam a vida em um acidente (vol. 13, p. 52). Também que, uma epidemia de colega ocorreu durante o Kumbha Mela de 1892, nesta mesma cidade, o que levou a formação da Haridwar Improvement Society (vol. 13, p. 52-3).

            No Kumbha Mela de 1954, em Allahabad, ocorreu o acidente mais trágico dos festivais, que provocou um estouro de pânico, no dia principal do banho (Mauni Amavasya). Os números da tragédia variam conforme as fontes. O The Guardian informou que mais de 800 pessoas morreram e 100 ficaram feridas (The Guardian, online edition, August 28, 2003), a revista Time anunciou que não menos de 350 pessoas foram pisoteadas e afogadas até a morte, 200 foram consideradas desaparecidas e mais de 2000 ficaram feridas (Religion: The Urn Festival, Time Magazine, February 08, 1960). Já o livro Law and Order in India, mais de 500 pessoas foram mortas (Saksena, 1987: 81 e 164).

            Outra tragédia aconteceu no Kumbha Mela de 2003, na cidade de Nashik, nas margens do rio Godavari, quando o lançamento de uma moeda, por um asceta, desencadeou um estouro de pânico que resultou na morte de 39 pessoas e feriu 150. (The Guardian, online edition, August 28, 2003).

Sacralidade e poluição

            O momento culminante do Purna Kumbha Mela é o banho (snana) no rio Ganges (chamado também de rio Gangá pelos hindus, em virtude da deusa Gangá), bem como o ato ritual de beber a sua água, no entanto, sabemos que este rio sagrado e seus afluentes, com o tempo, se transformaram em rios muito poluídos. Enquanto que, para a maioria das pessoas sensatas poluição é incompatível com sacralidade, milhares de hindus ainda veneram estas águas imundas, na esperança de apressar a conquista da Liberação (Moksha). Agora, é interessante refletir sobre a insensatez de continuar atribuindo sacralidade a um rio tão poluído, tal como insistem os hindus devotados, depois de tomar conhecimento das informações do estudo abaixo, sobretudo pelo fato de que esta imundice é frequentemente noticiada pela imprensa e alertada pelos órgãos de defesa do meio ambiente na Índia.

A poluição do rio Ganges

A sacralidade do rio Ganges contrasta assustadoramente com a sujeira da sua água. Para os hindus, banhar-se e beber a água do rio Ganges (Gangá) significa purificar o corpo dos pecados passados e curar as doenças do corpo e da alma. Inclusive muitos de seus veios são desviados para casas como fonte de água “potável” e para a irrigação na agricultura. Porém, muito dessa água não corrobora com seus poderes sobrenaturais de cura e de purificação. Ao contrário, o rio Ganges, como um todo, é considerado uma fonte impressiva de xenobióticos potencialmente letais, além de compostos cancerígenos e teratogênicos. Mas, esse problema não ocorre somente na Índia, tal problema se origina muito além das fronteiras indianas, acumulando-se até chegarmos ao calamitoso delta do Ganges onde deságua no Golfo de Bengala.

Como os países vizinhos contribuem para o aumento da poluição 

Apesar de grande parte das nascentes localizar ao longo do Himalaia, um dos afluentes do rio Ganges se localiza em Bangladesh. Este país está localizado ao leste da Índia, sendo considerado um dos países mais pobres do mundo, o que acarreta em seu despejo em afluentes do Ganges e na sua presença nos cereais irrigados por esses afluentes (e em concentrações excepcionalmente altas, principalmente no arroz polido (Alam et al., 2002).

Sabe-se que entre 40 a 60% do arsênico ingerido pela água é retido no organismo (Farmer e Johnson, 1990), levando-se de 8 a 14 anos de sua ingestão contínua para se alcançar um real impacto na saúde (Rehana et al., 1995). Estudos mostram que o arsênico pode inibir a síntese de DNA, levando a aberrações cromossômicas (Nataranja et al., 1996). Na pele, inicialmente há um efeito eritematoso, levando à melanose, hipercertose e descamação, podendo chegar, ao longo do tempo, ao desenvolvimento de carcinomas (Masholz, 1983). Um dos seus possíveis mecanismos carcinogênicos é a ativação de vírus oncogênicos, tais como o HPV (papiloma virus) (Stohrer, 1991). Além disso, a exposição crônica ao arsênico pode levar à anemia por destruição das hemácias (Kyle e Pearse, 1965), podendo também interferir no metabolismo do folato e do DNA, sendo potencialmente teratogênico (Westhoff et al., 1975).

Despejo de pesticidas e metais pesados

Existem inúmeras indústrias que despejam esgoto industrial diretamente no rio Ganges, contribuindo com até 25% do total de esgotos despejados (AIC, 1994). Saxena et al (1966) já havia concluído, ainda na década de 1960, que 5 curtumes, 10 indústrias têxteis e muitas outras indústrias ao longo do Ganges despejam 37,15 milhões de galões por dia de contaminantes, como metais pesados e lixo industrial. Em especial, curtumes localizados em Kampur despejam inúmeros compostos químicos, principalmente o cromo, excedendo em até 70% os níveis máximos recomendados para os seres humanos (nível que se mantém desde 1995) (AFP, 2010). Gupta et al. (2009) mostraram que duas espécies de peixes comuns no rio Ganges estão contaminadas por metais pesados, tais como zinco, chumbo, cádmio, cobre e cromo, excedendo números até 100 vezes o permitido. Em amostras de água em Saligarh e Sahampur, os níveis de cádmio, ferro, cobre e cromo estavam tão altos e fora dos padrões máximos de segurança, que a sua administração a bactérias causou mutações e aberrações cromossômicas (Tabrez e Ahmad, 2011; 2009).

O uso de pesticidas é comumente usado em todo o vale do Ganges, especialmente na agricultura do arroz. É, sem dúvidas, um dos poluentes mais difíceis de se controlar, visto ser despejado em vários afluentes do Ganges, incluindo grande parte provindo de Bangladesh (Datta et al., 2009). O problema dos pesticidas (principalmente dos organoclorados, como o DDT e o aldrin) é a sua alta resistência à degradação ambiental (Hung e Thieman, 2002). Esses compostos podem ser bioacumulados ao longo do tempo, podendo levar à ações tóxicas sobre o sistema reprodutor (teratogenia) e nervoso (Danzo, 1998; Hellawell, 1988), distúrbios do sistema endócrino (Hileman, 1994), cânceres de mama, fígado, testículos e esterilidade (Davies e Bradlow, 1995; Coco et al., 1997) e atividade carcinogênica (UNEP, 2003).

Estudos mostram que o lençol freático de Bangladesh está contaminado com arsênico em doses 60 a 1000 vezes o permitido, devido ao uso em pesticidas e pelas características geológicas da região (Datta et al., 2009; Alam et al., 2002). No rio Gomti, afluente do Ganges, estudos mostraram níveis altíssimos de contaminação por pesticidas de vários tipos, tais como DDT, heptacloros, lindane e eldrin provindos do uso principalmente na agricultura (Malik et al., 2009). Rehana et al. (1995) coletaram 36 amostras de água ao longo do estreito superior do rio Ganges (em Kachla, Fatehgarh e Kanauj), detectando níveis de pesticidas, tais como DDT e organosfosforados, até 5000 vezes mais alto que o permitido (Agencia de Proteção Ambiental dos EUA, 1980). E esse tipo de contaminação aparenta ser endêmica, pois há níveis também altíssimos de pesticidas nos rios de cidades como Naroda (Rehana et al., 1996), Okhla (Asleem e Malik, 2005), Mathura (Asleem e Malik, 2003), Lucknow (Tripathi et al., 2009), Farrukhabad (Agnihotri et al., 1994), Ramnagar e Rjaghat (Varanasi) (Nayak et al., 1995). Talvez um dado ainda mais alarmante é que o próprio lençol freático em volta do Ganges também está contaminado por pesticidas (Sankararamakrishnan et al., 2005).

Com níveis de pesticidas tão altos nas águas dos rios, não é surpresa encontrar esses contaminantes em animais aquáticos pelo rio Ganges. Vários estudos mostraram que há também alto nível de contaminação de peixes e outros animais aquáticos (que são consumidos e vendidos pela população local, inclusive aos turistas) por esses mesmos pesticidas tanto no Ganges como em seus afluentes (Das et al., 2002; Jabber et al., 2001; Guzella et al., 2005). O grau de contaminação da água do rio Ganges é tão alto que uma pesquisa de 2002 revelou que até os golfinhos de água doce localizados em Patna estavam contaminados com altos níveis de DDT, aldrin e endosulfan (Kumar et al., 2002)

Obviamente que a contaminação da água e dos animais aquáticos pode levar à contaminação humana. Kumar e colaboradores (2001) mostraram que os indianos em torno do Ganges também estão contaminados por pesticidas em níveis acumulados muito acima do seguro. Em 2001, Shukla e colaboradores analisaram o conteúdo de carcinomas de vesículas biliares de 30 pacientes das regiões de Bihar e Uttar Pradesh, encontrando altos níveis dos pesticidas BHC, DDT, aldrin e endosulfano. Pessoas que vivem ao longo das margens do Ganges nas cidades de Uttar Pradesh, Bihar e Bengala têm maior propensão de desenvolver câncer que o resto do país, tendo-se a incidência de câncer de bexiga como o segundo mais alto do mundo e a incidência de câncer prostático como o maior de toda a Índia (Gosh, 2012). Curiosamente, as maiores incidências de cânceres de língua, boca, nasofaringe, estômago, vesícula biliar e útero na Índia ocorrem justamente em torno do delta do Ganges (Nadakumar et al., 2005).

Esgotos

Talvez o primeiro artigo mostrando a qualidade da água veio de Lakshminarayana em 1965, mostrando que a qualidade da água do rio Ganges em Varanasi (Benares) diminui nos períodos de chuva (monções, que ocorrem de Junho a Agosto), sem variar durante o inverno e o verão. Porém, o maior contribuinte para a contaminação do rio Ganges talvez seja o despejo de esgoto sem tratamento. Em Benares, ao menos 32 esgotos provindos da cidade deságuam no rio Ganges, entre eles plástico, animais e corpos humanos podem ser vistos flutuando no rio, e em Kampur são as unidades industriais, especialmente os curtumes, que descarregam produtos químicos e metais pesados na água (Ramachandran, 2011)

Um estudo de 1976 mostrou que o despejo de esgoto diretamente no Ganges, na cidade de Benares, é o responsável pela presença de organismos patogênicos na água (Agarwal et al., 1976). Dados estatais afirmam que todos os dias são despejados 2,9 milhões de litros de esgoto não tratado somente no Ganges, sendo que o sistema de tratamento comporta somente 1,1 milhão de litros/dia. Em Benares, o tratamento de esgoto depende de estações de bombeamento, porém a cidade ainda sofre com blecautes que podem durar até 12 horas. Em tempos de monções, essas estações são desligadas por um período de 3 a 5 meses por ano (Hamner et al., 2006). Além disso, o rio Ganges fornece até 40% da água consumida em 11 estados indianos (Hindustan Times, 2012). Os níveis de coliformes são tão altos que o uso de sua água até para a agricultura não é indicado (Daftuar, 2011).

A Índia é um local endêmico para contaminação por cólera, principalmente em sua parte oriental (Sur et al., 2007; Hamner et al., 2006). Bilgrami e Kumar (1998) encontraram índices alarmantes de coliformes até 800% acima do permitido, além de níveis altíssimos de E. coli e C. perfringens no Ganges. De at al. (1993) não recomendam o uso da água do rio Ganges para beber ou tomar banho devido ao alto nível de contaminação do rio Ganges por bactérias potencialmente nocivas, tais como aeromonas, coléricas, salmonelas e shiguela. A contagem de coliformes da água em Benares alcança 60 mil organismos por 10 ml de água (Ramachandran, 2011) (os níveis seguros para locais de recreação é de 235 organismos por 10mL de água – algo em torno de 25 mil vezes acima do recomendado), rio abaixo a Benares, essa contagem chega a 1 milhão por 10 ml de água (Ramachandran, 2011).

A área em torno do rio Ganges é considerada local epidêmico de distúrbios gastrointestinais causados pelo V. cholera (Organização Mundial da Saúde; Levine et al., 2006). Annapurna e Sanyal (1977) mostraram que os indivíduos em torno do rio Ganges estão em constante exposição à bactéria Aeromonas hydrophila, causadora de diarreia, que se acumula nas fontes de água não tratada (provindas principalmente do rio Ganges ou do lençol freático). Padey e colaboradores (2005) mostraram que um dos principais causadores de doenças entéricas em Benares é a contaminação da água do Ganges, além da estratificação socioeconômica. E aparentemente casos de epidemias de cólera associadas ao uso de água não tratada não são raras nessa região (Das et al., 2009; Mukherjee et al., 2011).

Bibliografia

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RAMAN, B. V. A Manual of Hindu Astrology. Bangalore: IBH Prakashana, 1983.

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WILSON, H. H. (tr.). The Vishnu Purana. London: John Murray, 1840, Book I, p. 75-7.

Para conhecer uma galeria de fotos do Kumbha Mela, visite:

https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&gs_rn=1&gs_ri=hp&tok=YQ3Ps2hdW4l3XEpMYv0hwQ&cp=14&gs_id=2u&xhr=t&q=Purna+Kumbha+Mela+2001&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.r_qf.&bvm=bv.41248874,d.eWU&biw=1241&bih=606&um=1&ie=UTF-8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=zD79UIy9CIXU9ATSwYHAAg

Vídeos:

http://vimeo.com/18211108

http://www.youtube.com/watch?v=XMVBaUpvpwA

Para a poluição do rio Ganges, visite:

http://www.all-about-india.com/Ganges-River-Pollution.html

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