Nossa Senhora “Reaparecida”

por Octavio da Cunha Botelho

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Imagem de Nossa Senhora Aparecida, o manto e a coroa foram doações da princesa Isabel.

            Ela é a padroeira do Brasil e seu dia, 12 de Outubro, é feriado nacional desde 1978. Seu santuário, localizado no município de Aparecida do Norte, é o maior santuário dedicado à adoração da Virgem Maria, e o quarto mais visitado no mundo. Outros santuários internacionalmente conhecidos são o de Lourdes na França e o de Fátima em Portugal. O santuário foi visitado por Dom Pedro I, pela princesa Isabel (quem doou a coroa e o manto que adornam a imagem atualmente) e por vários presidentes da república. A atual basílica foi consagrada pelo papa João Paulo II em 04 de Julho de 1980.

            Que a população brasileira é uma das mais crédulas do mundo já se sabe, não só pela grande quantidade de religiosos, pois é o país com a maior população católica do mundo, mas também por uma pesquisa, feita em muitos países, que apontou o Brasil, empatado com o México, como a segunda população que mais acredita em propaganda, ficando atrás apenas das Filipinas. Por conseguinte, esta disseminação de adoração de estátuas encontra solo fértil na credulidade da população brasileira. Próprio de países com alto grau de carolice, por outro lado, não existem santuários de crendice desta magnitude em países que encabeçam o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tais como: Suécia, Holanda, Noruega, Suíça, Dinamarca e outros no topo da lista da melhor qualidade de vida.

Apesar de toda a popularidade, ela não é nenhuma personagem histórica, ou mitológica, ou mesmo se encontra descrita em algum texto religioso, a qual, depois foi representada numa imagem para ser adorada pelos devotos, tal como muitos ícones de devoção. Peculiarmente, Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Nossa Senhora da Conceição Aparecida, é uma estátua de terracota, descoberta por três pescadores no rio Paraíba em Outubro de 1717, que se transformou em objeto de adoração, em razão dos acreditados milagres realizados por ela após a descoberta. Os relatos sobre o achado informam que os pescadores encontraram inicialmente o seu corpo, sem a cabeça, e que no segundo lançamento da rede de pesca ao rio é que a cabeça foi encontrada. Portanto, ela é uma imagem que foi lançada ao rio por estar danificada, esta era uma prática comum no período colonial. Enfim, o nome “Aparecida” lhe é atribuído em virtude deste aparecimento ou achado pelos três pescadores, daí então o nome Nossa Senhora Aparecida. Porém, na realidade, por ter sido uma reaparição, o nome mais preciso então seria “Nossa Senhora Reaparecida”.

             Segundo os relatos, já no primeiro milagre aconteceu uma agressão ambiental. Os três pescadores estavam cansados da tentativa de conseguir peixes, já pensavam em desistir da pescaria quando apareceu na rede de pesca a imagem, sem cabeça, da santa. Após a retirada da imagem da água, a pescaria se tornou farta, tão farta que tiveram de retornar ao porto, uma vez que a quantidade de peixes ameaçava afundar a embarcação. Em outras palavras, a descoberta da imagem resultou numa grande matança de peixes, uma agressão ecológica, portanto, foi um milagre predatório.

            A autoria da estátua (por volta de 1650) é obra do artista frei Agostinho de Jesus (1600-1661), quem viveu grande parte de sua vida em Santana do Parnaíba-SP, conhecido por sua habilidade artística na confecção de imagens sacras, foi autor de diversas estátuas, sobretudo a de são Bento e de santa Escolástica, expostas no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, e de Nossa Senhora da Purificação, exposta no Museu de Arte Sacra de São Paulo.

             Em Maio de 1978, um protestante retirou a imagem do altar da basílica depois da última missa. Então, foi perseguido pelos guardas e, ao ser alcançado, deixou a estátua cair no chão, por ser feita de terracota, espatifou-se em muitos fragmentos. A restauração foi feita por um grupo de artista do MASP de São Paulo. Este incidente pode ter sido uma calamidade para os católicos, mas, por outro lado, a sua saída da basílica e sua longa permanência no MASP, foi uma proveitosa oportunidade para os especialistas e os historiadores da arte investigarem, bem de perto, com tempo e com profundidade, a natureza, o estilo artístico, a origem e a autoria da imagem, à medida que a estátua ia sendo restaurada. As conclusões do estudo confirmaram a antiga suspeita de que é uma obra de autoria do escultor frei Agostinho de Jesus, do século XVII. Confirmou-se também que a argila utilizada na confecção da estátua é da região de Santana do Parnaíba, local onde viveu e esculpiu por muitos anos o religioso acima.

            Agora, seria intrigante imaginar, para efeito de conjectura, o que sentiria frei Agostinho de Jesus, se pudesse saber hoje que, de todas as obras de arte que esculpiu, inclusive com esculturas expostas no Mosteiro de São Bento e no Museu de Arte Sacra de São Paulo, a que mais ficou conhecida e se tornou ícone de adoração, foi aquela que foi atirada ao rio por estar danificada. E mais ainda, que esta imagem descartada seria o objeto que levaria a construção do maior santuário de adoração da Virgem Maria no mundo, graças à imensa credulidade da população brasileira, e que resultaria numa contagiosa febre de carolice.

 

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