Jesus na Índia, uma Breve Análise das Fontes


por Octavio da Cunha Botelho

Considerações iniciais

Rozabal (1)

O santuário de Roza Bal, em Srinagar, Caxemira, onde a tradição local acredita estar sepultado o santo Yuz Asaf (Jesus).

A vida de Jesus sem a crucificação e, consequentemente, sem a ressurreição, é algo inconcebível para tradição cristã, ou melhor, mais do que isto, uma remoção da base da doutrina do Cristianismo, a qual foi construída a partir do crucial milagre da ressurreição, que está bem no coração da fé cristã. No entanto, não era assim nos primeiros anos do Cristianismo, quando diferentes correntes exegéticas disputavam a hegemonia ideológica da nova crença. Os gnósticos, com base no que é possível perceber a partir dos textos remanescentes e dos descobertos, por exemplo, não davam tanta importância para os fenômenos da crucificação e da ressurreição, tal como faziam os seguidores da corrente que se tornaria ortodoxa mais tarde, pois para eles, Jesus era mais um sábio do que um salvador, portanto a sua sabedoria era mais importante que os milagres e o fenômeno da ressurreição. Os textos gnósticos compostos no momento das aparições de Jesus após a morte não são para provar que ele alcançou o fantástico milagre de renascer entre os mortos, tal como o Cristianismo ortodoxo entende, mas sim para transmitir ensinamentos numa sublimidade que nenhum outro era capaz. Enfim, para os gnósticos as instruções são mais importantes que os milagres da ressurreição e das aparições póstumas. Um exemplo é o Pistis Sophia, um extenso texto gnóstico no qual Jesus transmite ensinamentos aos discípulos durante uma aparição após a morte.

Assim, o estudo abaixo trata de uma versão da vida de Jesus que desmorona todo o edifício da tradicional fé cristã, erguido, após muita luta e sangue, sobre os alicerces da crucificação e da ressurreição de Jesus, ou seja, a hipótese de que ele não tenha morrido na cruz, daí a magnitude da polêmica entre os religiosos.

O ímpeto fantasioso

O ímpeto pela fantasia é tão incontido nos religiosos que o processo de composição de novas lendas e mitos não tem fim, bem como o resgate de antigas lendas perdidas continua a atrair a curiosidade de muitos. Mesmo numa época predominantemente secular, tal como o século XX, novos relatos fantasiosos sobre as antigas religiões e seus líderes são criados com a receptividade dos curiosos, sobretudo daqueles que procuram versões alternativas que, supostamente, preencham lacunas deixadas pelas grandes religiões tradicionais. No Ocidente, este interesse é alimentado, sobretudo, pelos esoteristas, pelos teósofos, pelos rosa-cruzes, pelos new agers e por outros, os quais estão sempre abertos e ávidos por novas revelações, por novos achados e por novas interpretações que satisfaçam os seus apetites por esclarecimentos suplementares ausentes nas religiões tradicionais, não importando, na maioria das vezes, o quão fantasiosa a nova revelação possa ser.

Com respeito ao Cristianismo, a continuidade do aparecimento de novos relatos, sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, recebeu os nomes de “apócrifos modernos” ou de “boatos bíblicos” (Goodspeed, 1956). Se estas denominações são procedentes ou não, trata-se de um assunto discutível. A literatura sobre estas novas revelações e descobertas é extensa, de modo que o breve estudo abaixo se limitará aos recentes textos sobre a viagem e a estadia de Jesus na Índia.

O assunto nunca foi seriamente encarado pelos acadêmicos. Com isso, não temos literatura acadêmica, apenas breves avaliações e comentários desaprovadores por especialistas, os quais não se deram ao trabalho de aprofundar na questão. Porém, mesmo assim, será interessante tratar deste assunto aqui, pois embora não seja de interesse acadêmico, provoca muito reboliço na mídia e na população. Veja os exemplos do alvoroço provocado por filmes como a Última Tentação de Cristo (1988) e O Códico Da Vinci (2006), ambos a partir de livros, duas obras que tratam da sobrevivência de Jesus à crucificação.

A lacuna nos evangelhos canônicos

            Os quatro textos oficiais omitem o relato da vida de Jesus dos 12 aos 30 anos de idade.  No máximo, o Evangelho de Lucas apenas menciona que ele foi levado ao templo na idade de 12 anos (Lucas 2:41), mais adiante é afirmado que ele inicia seu ministério na idade de cerca de 30 anos (Lucas 3:23), portanto um salto de 18 anos. Existem alguns evangelhos apócrifos da infância, porém nada foi registrado da sua adolescência e do início da sua vida adulta.  Esta lacuna deixa a curiosidade em saber da vida do nazareno durante este período. Os relatos sobre as suas viagens durante este período, sobretudo à Índia, são contestadas pelos oponentes com base em um episódio, nem tão esclarecedor, narrado nos evangelhos de Marcos e de Mateus, quando Jesus está iniciando seu trabalho de pregação e é visto por conterrâneos que se surpreendem com o seu discurso, então proferem a indagação: “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria…”? (Marcos 6:03 e Mateus 13:53). Existe uma diferença na redação destas duas passagens, na de Marcos, Jesus é mencionado como o ‘carpinteiro’ (gr: tekton; lat: faber), enquanto na de Mateus, é mencionado como o ‘filho do carpinteiro’ (gr: tektonos uios; lat: fabri filius). A alegação dos contestadores das viagens é que Jesus permaneceu em sua cidade, trabalhando como carpinteiro, durante este período, por isso a familiaridade de seus conterrâneos e a surpresa pela sua pregação. No entanto, a indagação dos conterrâneos não é suficiente para assegurar a sua invariável permanência, pois a frase “filho do carpinteiro” (tektonos uios) deixa uma margem para o fato de Jesus ser conhecido apenas como o filho de José, o carpinteiro, e não ter sido um carpinteiro de profissão, bem como a possibilidade de ter estado fora da região por algum período, portanto não trabalhou o tempo todo como carpinteiro em sua cidade.

Os anos perdidos e a sobrevivência à crucificação

            O período da vida de Jesus omitido nos relatos bíblicos é conhecido como “os anos perdidos” ou “os anos desconhecidos” (Notovitch, 1916; Dowling, 1947; Prophet, 1987; Kerster, 2001 e Ahmad, 2003), isto é, a fase dos 12 aos 30 anos, quando alguns autores alegam que o nazareno esteve com os essênios, ou visitou a Bretanha, ou viajou pelo Oriente (Índia, Tibete, Egito, Pérsia, Grécia, Japão, etc.), aprendendo com os sábios ou ensinando ao povo. Outra alegação é a de que ele não morreu na cruz (Alcorão 4:157 e Ahmad, 2003: 57-62), sendo então substituído por outra pessoa no momento da crucificação, a qual foi crucificada em seu lugar, ou também, sobreviveu à crucificação, não chegando a morrer, mas apenas sofreu um desmaio (Ahmad, 2003: 17), este último caso é conhecido como “hipótese do desmaio”. Então, em seguida, partiu em viagem para o Oriente, onde faleceu nestas terras distantes em idade avançada (Ahmad, 2003: passim), ou até mesmo que Jesus visitou as regiões orientais tanto na sua juventude como depois da sobrevivência à crucificação (Kersten, 2001). Os mórmons acreditam que Jesus realizou aparições na América depois da sua morte. Dentre todas estas especulações, o estudo aqui se limitará à hipótese de sua viagem à Índia, do contrário este estudo se tornaria muito extenso, em vista do grande número de relatos delirantes.

O despertar do interesse

            O assunto acima estava adormecido até 1887, quando o jornalista russo Nicolas Notovitch, durante uma viagem à Índia, visitou a região do Ladak, no estado da Caxemira, Índia, onde predomina a cultura do Budismo Tibetano, por isso o Ladak é apelidado de “Pequeno Tibete”. Após uma fratura na perna, ele teve de ser assistido por monges do mosteiro budista de Hemis, nesta região, fato que lhe obrigou a estender sua permanência. Na ocasião, ele foi informado da existência de um manuscrito desconhecido com o nome de “A Vida do Santo Issa, o Melhor dos Filhos do Homem” guardado na biblioteca deste mosteiro. Issa é o nome atribuído a Jesus no Alcorão (3:45 e 5:75). Então, com a ajuda de um intérprete, anotou as traduções para, assim, publicá-las depois em Paris com o título de “La Vie Inconneu de Jésus Christ” (A Vida Desconhecida de Jesus Cristo), em 1894. A edição inglesa apareceu logo em seguida, com o nome de “The Unknown Life of Jesus Christ”, em 1895 (Notovitch, 1916: 08-9). O livro, certamente, provocou um alvoroço no meio intelectual. As opiniões se dividiram entre os que acreditaram na publicação de Notovitch e os que perceberam nela uma fraude. O primeiro a contestar foi o então prestigiado orientalista F. Max Müller, no jornal inglês The Nineteenth Century, em Outubro de 1894, onde ele denunciou a descoberta de Notovitch como uma fraude, bem como suspeitou até mesmo da visita deste jornalista russo ao mosteiro de Hemis no Ladak (Kerster, 2001: 10). Outro ataque, desta vez de um professor do Government College de Agra, Índia, J. Archibald Douglas, cuja visita ao Ladak em 1895, o levou a investigar a autenticidade da descoberta de Notovitch. Seu relato foi publicado em Abril de 1896 no Orientalischen Bibliografie com o título de “Documentos provam a fraude de Notovitch”. Outra publicação do The Nineteenth Century, em 1896, contém a afirmação de J. A. Douglas, durante sua visita ao mosteiro Hemis, de que o abade, ao conhecer a publicação de Notovitch, respondeu que “tudo era mentira” (Kerster, 2001: 11).

            Em 1956, Edgar J Goodspeed usou o primeiro capítulo de seu livro Famous Biblical Hoaxes or Modern Apocrypha (Famosos Boatos Bíblicos ou Apócrifos Modernos) para demonstrar a fraude de Nicolas Notovitch. Mais recentemente, o conhecido e dedicado pesquisador bíblico Bart D. Ehrman escreveu: “Hoje não há um único pesquisador reconhecido no planeta que tenha dúvida sobre a matéria. A história inteira foi inventada por Notovitch, que ganhou muito dinheiro e uma substancial soma de notoriedade por seu boato” (Ehrman, 2011: 282-3). Para James r. Lewis, tudo é uma forja (Lewis, 2003: 79s).

            Por outro lado, Nicolas Notovitch também teve defensores, naturalmente da parte de um esoterista, de um místico, e de uma que se autoproclamava vidente (Kersten, 2001: 01-18; Abhedananda, 1987 e Prophet, 1987: 92-120 respectivamente). Enfim, somente estas modalidades de pessoas acreditaram em Notovitch. O fato é que, o manuscrito, do qual Notovich retirou suas anotações traduzidas, nunca foi mostrado publicamente, nem sequer uma cópia, sendo assim, nunca foi entregue para o escrutínio de pesquisadores acadêmicos com conhecimento em Crítica Textual e em Filologia, para a avaliação da sua autenticidade, do seu significado e da sua credibilidade como documento histórico.

“A Vida Desconhecida de Jesus Cristo” de Nicolas Notovitch

            Agora, deixando de lado a questão se a publicação de Notovitch é autêntica ou uma fraude, ou seja, se o tal manuscrito realmente existe, se ele esteve no mosteiro de Hemis, se o tal manuscrito lhe foi mostrado, se ele de fato anotou as traduções ditadas pelo tradutor, etc., uma vez que a dúvida não foi esclarecida até hoje, a análise do próprio conteúdo da publicação poderá ser mais útil para o julgamento da autenticidade.

            Notovitch afirmou que a sua publicação de “A Vida Desconhecida de Jesus Cristo” não é uma tradução integral do manuscrito que lhe foi mostrado no mosteiro de Hemis, mas sim uma coletânea de notas que ele efetuou conforme o tradutor lhe foi ditando. Estas anotações em algumas passagens coincidem e em outras divergem dos relatos do Antigo e Novo Testamentos. Com respeito a Jesus, chamado de Issa neste texto, ele já era um admirado pregador na idade de treze anos, quando sua casa era frequentada por ricos e nobres, os quais disputavam o jovem Issa (Jesus) como genro (Notovitch, 1916: 106-7). Mas Issa não se interessou por este destino e, clandestinamente, deixou a casa dos pais para, na companhia de mercadores, viajar em direção a Sindh (Índia), para “se aperfeiçoar na divina palavra e estudar as leis dos grandes Budas” (idem, p. 107). Chegando lá, ele primeiro esteve com os adoradores do deus Jaina (os jainistas não adoram nenhum deus), mas logo em seguida os abandonou e se dirigiu para a província de Orissa (nordeste da Índia). Lá encontrou os brâmanes, os quais lhe ensinaram a ler e a compreender os Vedas (os brâmanes nunca ensinavam os Vedas aos estrangeiros no passado), a realizar curas pela oração e a expulsar demônios. Ele permaneceu seis anos em algumas cidades, inclusive Benares, na companhia dos vaishyas e dos sudras, as castas mais baixas do Hinduísmo (idem, p. 108). Então, Issa passou a ensinar o que tinha prendido dos Vedas aos membros das castas mais baixas, o que provocou a imediata ira dos brâmanes de dos kshatriyas (as castas mais altas), uma vez que a lei hindu (Dharma Shastra) restringe o ensino védico aos vaishyas e proíbe totalmente aos sudras. Em seguida, Issa (Jesus) negou a divina origem dos Vedas e dos Puranas (os pesquisadores ainda não têm certeza se os Puranas já tinham sido compostos naquela época, sobretudo na forma em que se apresentam hoje), bem como desestimulou a adoração aos deuses hindus e começou a fazer uma pregação com base na doutrina bíblica, falou até do Juízo Final aos vaishyas e aos sudras (para quem conhece o Hinduísmo, esta seria, se fosse verdade, uma cena cômica).

            Ao saberem deste discurso de Issa, os brâmanes ordenaram que ele fosse assassinado (essa reação não é comum na história do Hinduísmo). Porém, antes disto, Issa ficou sabendo e fugiu para o Nepal, onde aprendeu a língua Páli e estudou os Sutras (sermões) de Buda (idem p. 113) – ainda é dúvida se a língua Páli era conhecida naquela época no local. Depois deixou esta região em direção ao Ocidente, onde continuou pregando em seu caminho até chegar de volta à Israel com 29 anos de idade (idem, p. 123). Na passagem pela sua terra natal (idem p. 123-46), alguns episódios coincidem e outros divergem do Novo Testamento. Seria muito extenso mencioná-los todos aqui, porém os mais curiosos são os fatos que Issa também é crucificado e a tumba é encontrada vazia depois de três dias, mas não por Maria Madalena, e sim pela multidão (idem, p. 146), então o texto termina aqui. De maneira que não menciona a ressurreição e nem as aparições póstumas de Issa aos discípulos. Bem, se o relato acima não é crível, é, pelo menos, cômico em alguns trechos.

            Outro livro sobre a viagem de Jesus à Índia, nesta mesma fase da sua vida, é a fantasiosa obra de Levi Dowling “The Aquarian Gospel of Jesus the Christ” (O Evangelho Aquariano de Jesus, o Cristo), primeira edição em 1908, com a diferença que este não foi escrito a partir de algum manuscrito antigo, mas sim de experiências de clarividência. Em linhas gerais, o trecho sobre a viagem a Índia (p. 47-65) ora coincide ora diverge da narrativa do livro de Notovitch, com alguns acréscimos ainda mais cômicos e a especificação de mais detalhes. Afirma-se aí que Jesus esteve e estudou em Jagannath, na cidade de Puri, no estado de Orissa, Índia, um templo Vishnuista do Hinduísmo, famoso por seu festival anual da carruagem (Ratha Yatra). Este relato é tão absurdo que, segundo a história e as pesquisas arqueológicas, este templo só foi construído durante a dinastia Ganga Oriental (séculos XI-XV e.c.), mais precisamente, iniciado pelo rei Ananga Bhima Deva em 1174 e.c. e finalizado em 1198 e.c., portanto o templo ainda não existia na época de Jesus.

Jesus na Índia após a crucificação

            Outro momento que é alegado que Jesus esteve na Índia, mas não na fase dos 12 aos 30 anos de idade, como tratado acima, e sim no período após a crucificação, com o argumento que ele sobreviveu à crucificação. A tradição de que ele não morreu na cruz é antiga, uma das fontes mais antigas é a seguinte passagem do Alcorão 4:157 “e disseram: Nós matamos o Messias, Jesus, o filho de Maria, o Mensageiro de deus. (Quando na verdade) eles não o mataram, nem o crucificaram, embora pareceu assim para eles. Aqueles que discordaram sobre ele (se morreu ou não) estão em dúvida, sem nenhum conhecimento, somente suposição, eles certamente não o mataram” (Haleem, 2005: 65). Ainda na tradição islâmica, H. M. Ghulam Ahmad menciona alguns Hadiths (ditos de Maomé), da coleção conhecida como Kanz-ul-Ummal, de que Jesus viveu até a idade avançada de 125 anos, viajou por muitas partes do mundo e ficou conhecido como o “profeta viajante” (Ahrmad, 2003: 62-3). Este autor, que é o fundador do movimento islâmico reformista Ahrmadiyya Muslim Jamat, é um dos primeiros e mais ardentes defensores da tese de que Jesus sobreviveu à crucificação, viajou para a Índia para encontrar as tribos de Israel e, o que é também surpreendente, do argumento de que o profeta Yuz Asaf, enterrado no santuário de Roza Bal, na cidade de Srinagar, Caxemira, é o próprio Jesus. Ele foi o principal divulgador desta tradição de Roza Bal, através do seu livro, publicado em 1908 na língua urdu “Misih Hindustan Mein”, depois publicado em inglês pela primeira vez em 1944, com o título de “Jesus in India”.

H. Mirza Ghulam Ahmad influenciou outros autores, inclusive esoteristas ocidentais, os quais acreditaram na sua argumentação. Em suma, para ele Jesus sobreviveu à crucificação, viveu na Índia por muitos anos, que ele é Yuz Asaf e está sepultado no santuário de Roza Bal em Srinagar, Caxemira.

Jesus no Bhavishya Purana

            Os Puranas são textos em sânscrito que fazem parte de uma coleção de contos dos tempos antigos da Índia. Estão entre as mais importantes e influentes escrituras do Hinduísmo. Existem 18 Puranas principais, conhecidos como Maha Puranas (Grande Puranas), e o Bhavishya Purana está entre eles. Diferente dos demais, o Bhavishya Purana trata, além dos habituais tópicos comuns nos outros puranas, de profecias sobre o futuro (bhavishya), portanto, em alguns trechos, é um purana profético.

            O que existe de excepcional neste purana é a referência a Jesus, mencionado como Isha Putra (filho de deus), a partir dos termos Isa e Issa dos textos islâmicos, no episódio do diálogo com o rei Salivahana (também conhecido como Gautamiputra Shatakarni), pertencente à dinastia Shatavahana, que reinou de 78 a 102 e.c. (portanto contemporâneo com o período da sobrevivência de Jesus à crucificação), cuja capital do reino era Ujjain, no atual estado de Madhya Pradesh, na Índia Central.  Este diálogo aparece no Pratisarga Parva do Chaturyuga Kanda do Dwitiya Adhyayah, no capítulo 19, versos 17-32. Abaixo um resumo deste trecho.

            O texto inicia informando que uma vez um poderoso rei, chamado Salivahana, alcançou muitas conquistas, o qual subjulgou os Shakas, os Cinas, o povo de Roma, os descendentes de Khuru e o povo de Bahikaus. Em seguida estabeleceu as fronteiras do país dos arianos e a dos Mlecchas (estrangeiros impuros). O país dos arianos era conhecido como Sindusthan, o qual se transformou em um grande país.

            Uma vez o rei Salivahana dirigiu-se para o oeste, na direção de Hunadesha (região perto da montanha Kailasa no Tibete Ocidental). Aí, o rei avistou um auspicioso homem que vivia numa montanha. A pele deste homem era dourada e suas roupas brancas. Então, o rei lhe perguntou: “Quem és tu, senhor”? O Homem respondeu: “Você deveria saber que eu sou Isha Putra, o filho de deus”, e completou: “eu sou filho de uma virgem”. “Eu sou o expositor da religião dos Mlecchas e eu me prendo estritamente à verdade absoluta”. Ao ouvir isto o rei indagou: “Quais são os princípios de acordo com sua opinião”? Após ouvir esta pergunta de Salivahana, Isha Putra (Jesus) disse: “Ó rei, quando a destruição da verdade ocorreu, eu, Masiha, o profeta, vim para este país de um povo degradado, onde não há regras e leis. Então, ao encontrar esta temerosa condição irreligiosa dos bárbaros, a qual se espalha desde o país dos Mlecchas, eu decidi assumir o papel de profeta deste povo”. Então, em seguida, Isha Putra (Jesus) expôs os princípios da sua religião ao rei, através de tópicos da religião hindu. No final, Isha Putra afirma que se tornou o Isha Masiha (Jesus, o Messias).

            Após ouvir estas comoventes palavras e prestar reverência a aquele homem, o qual é adorado pelos bárbaros, o rei humildemente pediu a ele para permanecer na terra horrível dos Mlecchas (estrangeiros impuros).

            Primeiro é preciso esclarecer que o Bhavisha Purana é um texto cercado de desconfianças, uma vez que, das quatro edições disponíveis atualmente, nenhuma coincide uma com a outra em muitos pontos. Por isso, Maurice Winternitz observa que “o texto preservado até nós em forma manuscrita certamente não é a antiga obra, a qual é citada no Apastambiya Dharmasutra” e que Th. Aufrecht o “tem exposto como uma fraude literária” (Winternitz, 1990, 541).  As fraudes não são difíceis de serem percebidas, pois se mostram através de clamorosas falhas histórias e anacrônicas. Logo no início é afirmado que o rei Salivahara (r. 78-102 e.c.) derrotou os Shakas, os Cinas (chineses), o povo de Roma, os descendentes de Khuru (os persas) e o povo de Bahikaus (bactrinianos-gregos). Historicamente falando, dos povos relacionados, o rei Salivahana (Gautamiputra Shatakarni), na verdade, derrotou apenas os Shakas (Keay, 2000, 131). Os outros povos derrotados pelo rei Salivahana, conhecidos na história, são os Yavanas e os Pahlavas, porém não são mencionados no texto em questão. Não existe nenhum registro na história indiana no qual os chineses travaram uma batalha com os indianos no passado. Também, os indianos nunca guerrearam com os romanos, apenas com os gregos, na época de Alexandre, o Grande. Ademais, não existe prova de que os gregos chegaram até a região de Ujjain, a capital Shatavahana na Índia Central, a ocupação grega na Índia se limitou à região noroeste.

            Ainda mais, existe uma forte suspeita de que este trecho do Bhavishya Purana seja uma interpolação acrescida por missionários cristãos, durante o período da ocupação britânica na Índia, com o objetivo de converter os hindus das classes mais instruídas, uma vez que sabemos que alguns sacerdotes aprenderam a língua sânscrita, e esta foi uma estratégia para tentar aproximar o Cristianismo do Hinduísmo e, consequentemente, com isso, facilitar as conversões. A pista para esta suspeita é o fato de que todas as edições existentes deste texto são do período a partir da colonização britânica.

            Outra curiosidade é a diferença entre as quatro edições conhecidas, uma tem 5 capítulos, outra tem 4, uma outra tem 3 e ainda uma outra tem apenas 1 capítulo. Também, o conteúdo em cada uma das 4 versões diverge em muitos graus, algumas têm mais versos, enquanto outras têm menos, embora todas elas mencionam Jesus (Isha Putra), porém, com razões diferente. Aqui foi utilizada, para este estudo, a edição da Venkateswara Press, Mumbai, 1917.

            A exposição dos princípios da religião dos Mlecchas por Jesus (Isha Putra) ao rei Salivahana (versos 27-9) parece uma pregação proferida pela boca de um guru hindu, com tópicos tais como: prescrição da prática de japa (repetição de mantras), menção do Surya Mandala (diagrama do deus Sol para adoração dos hindus) e da dhyana (meditação).

            Enfim, para encerrar, se para um cristão tradicional a ideia de uma vida de Jesus sobrevivendo à crucificação, portanto sem ressurreição, já é sentida como um desmoronamento da fé cristã, imagine então o choque que será ao saber de um Jesus pregando doutrinas e prática hindus. 

Obras consultadas

ABHEDANANDA, Swami. Journey into Kashmir and Tibet: with the Life of Jesus by Nicolas Notovitch. Calcutta: Ramakrishna Vedanta Math, 1987.

AHMAD, H. M. Ghulam. Jesus in India: Jesus’s Deliverance from the Cross & Journey to India. Tilford: Islam International Publication, 2003, (1st edition, 1908).

BHAVISHYA MAHAPURANA (Sanskrit Edition). Mumbai: Venkateswara Press, 1917.

DOWLING, Levi H. The Aquarian Gospel of Jesus the Christ. London: L. N. Fowler & Co. Ltd, 1947 (first published, 1908).

EHRMAN, Bart D. Forged: Writing in the Name of God. Why the Bible’s Author’s Are Not Who We Think They Are. New York: Harper/Collins, 2011.

GOODSPEED, Edgar J. Famous Biblical Hoaxes or Modern Apocrypha. Grand Rapids: Baker Book House, 1956.

GREEN, Joel B. Crucifixion em The Cambridge Companion to Jesus. Markus Bockmeuhl (ed.).  Cambridge: Cambridge University Press, 2001, p. 87-101.

HALEEM, M. A. S. Abdel (tr.). The Qur’an. Oxford/New York: Oxford University Press, 2005.

KEAY, John. India: a History. London: HarperCollins Publishers, 2000.

KERSTEN, Holger. Jesus Lived in India: His Unknown Life Before and After the Crucifixion. New Delhi: Penguin Books, 2001.

LEWIS, James R. Legitimating New Religions. New Brunswick: Rutgers University Press, 2003, p. 73-88.

NOTOVITCH, Nicolas. The Unknown Live of Jesus Christ. Chicago: Indo-American Book Company, 1916, (primeira edição francesa, 1894).

PROPHET, Elizabeth Clare. The Lost Years of Jesus: Documentary Evidence of Jesus’ 17-years Journey to the East. Gardiner: Summit Publications, 1987.

WINTERNITZ, Maurice. A History of Indian Literature, vol. I. Delhi: Motilal Banarsidass, 1990.

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Um comentário sobre “Jesus na Índia, uma Breve Análise das Fontes

  1. E as afirmações dos islamitas sobre Jesus? Segundo eles (alcorão), não morreu na cruz…

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