A Nova Imagem de Maria Madalena e a Rivalidade com o Apóstolo Pedro

por Octavio da Cunha Botelho

Considerações iniciais 

maria madalena

Maria Madalena foi durante muitos séculos reconhecida como a prostituta arrependida

            Ela foi identificada com a pecadora arrependida na passagem de Lucas 07:36-50, depois conjeturalmente interpretada como prostituta, ainda nos primeiros séculos do Cristianismo. A oficialização aconteceu através da Homilia XXIII do papa Gregório, o Grande, em Setembro de 591 e.c. (Schlumpf, 2000: 12). Entretanto, em nenhuma passagem dos evangelhos canônicos ela é explicitamente mencionada como uma prostituta. Mesmo assim, esta imagem equivocada perdurou por mais de 15 séculos, deixando, durante este período, uma definitiva influência na literatura, nas artes e até no cinema do século XX.  Filmes recentes como A Última Tentação de Cristo de Martin Scorsese e A Paixão de Cristo de Mel Gibson, o musical Jesus Superstar de Andrew Lloyd Webber e o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago ainda a representam como uma prostituta. Entretanto, como será visto mais adiante, esta identificação nunca foi uma unanimidade no Cristianismo. Em certas correntes, por exemplo, ela é elogiada como a “apóstola dos apóstolos” (apostola apostorum), em virtude da sua privilegiada tarefa de levar a mensagem da ressurreição de Jesus aos outros apóstolos (D’Angelo, 1999, 106).

            Karen L. King esclarece: “A redescoberta do Evangelho de Maria agora fornece direta evidência dos argumentos do Cristianismo inicial em favor da liderança de mulheres, e nos permite ver que as opiniões que excluíam mulheres eram nada menos que um lado de uma questão ardentemente debatida” (King, 1993: 601). De modo que, o breve estudo abaixo mostrará como a imagem de Maria Madalena vem sendo apagada e, simultaneamente, restaurada com outras formas e com outro colorido pelos historiadores, sobretudo após a descoberta da coleção de textos gnósticos em Nag Hammadi, em 1945, a qual lançou uma nova luz sobre a história inicial do Cristianismo, e a partir do mais cuidadoso exame dos próprios evangelhos canônicos.

O poder da descoberta     

Dentre as incontáveis derrotas que a Religião sofreu, ao longo da história, em seu confronto com as inovadoras concepções científicas, a descoberta tem sido um dos fatos que golpeou mais fortemente as tradicionais doutrinas religiosas. Um achado, em virtude da concretude da prova, é capaz de calar, quando contradiz, dezenas de profecias, de inspirações, de teorias e de especulações. Assim, dentro do mundo da cultura cristã, a descoberta da coleção de códices de textos gnósticos, nos arredores da aldeia de Nag Hammadi, Egito, em 1945, convocou os historiadores a repensarem a história inicial do Cristianismo. Trata-se de uma coleção de escritos do século IV e.c., tão extensa que alguns autores a denominam de Biblioteca de Nag Hammadi (Robinson, 2007), de 13 códices (volumes encadernados), cuidadosamente encapados em couro, e mais 52 textos avulsos, muitos encontrados em bom estado de conservação, após cerca de 1.500 anos soterrados. Excluindo os tratados em duplicidade, são 45 trabalhos em língua copta, alguns até então desconhecidos, porém outros já conhecidos anteriormente, na íntegra ou em fragmentos, embora não inclua alguns importantes textos gnósticos, tais como o Pistis Sophia e o Evangelho de Judas.

Os efeitos culturais e históricos desta descoberta, apesar de ainda estarem em curso, já provocaram muitas alterações nas mentes dos historiadores. O primeiro efeito foi o reconhecimento do novo panorama de que, a partir da descoberta desta extensa coleção de textos, não é mais prudente estudar o Cristianismo sem levar em conta a imensa quantidade de textos apócrifos disponíveis na atualidade, uma vez que o número destes últimos é muito maior que o dos textos do Novo Testamento; confirmando, assim, a suposição dos historiadores de que, na época do Concílio de Nicéia, em 325 e.c., existiam mais de 50 evangelhos diferentes.

A versão conforme o interesse da comunidade

Outro efeito foi a confirmação de que, tal como alguns já supunham, os evangelhos, tanto canônicos como apócrifos, foram escritos, algumas décadas após a morte de Jesus por autores desconhecidos, com o determinado objetivo de atender às agendas e aos programas de doutrinação e de propaganda das diferentes comunidades cristãs, muitas delas ideologicamente rivais entre si, enfim, para atender as necessidades, os interesses e as preocupações da época e de certas localidades. Nas palavras de Mary R. D’Angelo: “a imagem de Jesus em si varia muito entre os evangelhos. Os escritores dos evangelhos procuraram reapresentar Jesus para fazê-lo novamente presente e ativo nas comunidades para quem eles escreviam. (…) Assim, o Jesus dos evangelhos atua e fala para as comunidades do fim do primeiro século e do início do segundo século. Os ditos de Jesus foram revisados para se ajustarem as suas necessidades, e as perguntas e as objeções, que são colocadas a ele, frequentemente articulam as questões que as comunidades estavam confrontando” (D’Angelo, 1999: 106).

O estudo seguinte mostrará uma ocorrência que é comum na composição dos textos religiosos, isto é, a de que os compositores e os compiladores destes escritos não são historiadores, mas sim adeptos e admiradores, portanto não se preocupam em narrar os fatos fielmente tal como eles acontecem na realidade. Com efeito, a prioridade da composição ou da compilação religiosas é transmitir o que a agenda ou o programa de doutrinação e de propagada de uma religião emergente deseja que o ouvinte ou o leitor acredite. Por isso, as composições estão sempre carregadas de pretensões persuasivas, exortativas e catequéticas, bem como as narrativas recheadas de mitos e de ficções. Enfim, o mais importante é a persuasão, isto é, para os religiosos em geral, a verdade é o convencimento e a crença, e não a realidade em si mesma. Em outras palavras: se convenceu, então basta, é verdade.

A confusão de Marias nos Evangelhos Canônicos

            O nome Maria parece ter sido muito popular na época de Jesus. As Marias mencionadas nos evangelhos canônicos são:

– Maria de Nazaré, a mãe de Jesus

– Maria da Betânia, a irmã de Marta e Lázaro (Lucas 10:38-42 e João 12:03-11)

– Maria Madalena (Lucas 8:02; Marcos 15:40 e 47, e 16:01)

– Maria, a esposa de Cléofas (João 19:25)

– Maria, mãe de José (Marcos 15:47)

– Maria, mãe de Tiago (Marcos 16:01)

– Maria, mãe de Tiago e de José (Marcos 15:40), às vezes duvidosamente identificada com a Mãe de Jesus (Marcos 6:03)

– a outra Maria, mencionada em Mateus 28:01

– Salomé, depois conhecida como Maria Salomé nas lendas medievais (Marcos 15:40 e 16:01) e

– a pecadora arrependida, identificada depois no Cristianismo Ocidental com Maria Madalena (Lucas 7:36-50).

            Excluindo Maria, mãe de Jesus, a identificação e a distinção de uma Maria com outra, nas passagens dos Evangelhos Canônicos, dependem, em muitos casos, de interpretações, muitas vezes conjeturais, em vista da imprecisão e da vagueza das citações. Ademais, as interpretações variam conforme as diferentes correntes do Cristianismo. Por exemplo, o Catolicismo Ocidental identificou Maria Madalena com a pecadora arrependida, a qual chorou aos pés de Jesus e enxugou-lhes com os seus cabelos, bem como os beijou e os ungiu com bálsamo, numa passagem que aparece apenas em Lucas 7:36. Esta identificação pode ter sido motivada pelo fato de que no capítulo seguinte, Maria Madalena, de quem Jesus expulsou sete demônios, é incluída, logo em seguida, como uma de suas companheiras (Lucas 8:02). Ela foi também vista como uma prostituta arrependida pelo Catolicismo Europeu. Identificou-se Maria Madalena também com Maria da Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, que pode ser acontecido em razão da semelhança do episódio da pecadora arrependida (Lucas 7:36-50) com a passagem na qual Maria da Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, durante um jantar em sua casa, tomou um vaso de bálsamo e “ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos” (João 11:02 e 12:03). Em uma lenda denominada “O Nascimento da Abençoada Virgem Maria”, que circulou pela Idade Média, Maria Salomé é identificada com Maria, a mãe de Tiago e de José (De Voragine, 2012: 536). Outras intérpretes pensam que Maria Madalena foi uma espécie de ‘bode expiatório’, isto é, “ela é a essência composta de muitas outras mulheres que possuem o nome de Maria, e os atos e crimes de mais de uma Maria foram atribuídos a ela” (Rushing, 1994: 45).

            O Cristianismo Ortodoxo do Oriente nunca aceitou a identificação de Maria Madalena com a pecadora arrependida ou a prostituta penitente. Nesta vertente, ela sempre foi vista como uma virtuosa companheira de Jesus, a qual, juntamente com outras, lhe assistia em suas despesas e lhe acompanhava nas viagens (Lucas 8:01-04).

Maria Madalena nos evangelhos canônicos

            Pouco mencionada nos trechos iniciais dos quatro evangelhos, apenas em Lucas 8:02, ela torna-se personagem proeminente nos episódios da crucificação, do sepultamento e da ressurreição de Jesus, bem como foi encarregada do anúncio da ressurreição aos apóstolos. Enquanto os apóstolos tinham se escondido, temendo serem aprisionados pelos soldados romanos, (Pedro negou Jesus três vezes de tanto medo), ela, por sua vez, estava corajosamente no pé da cruz de Jesus, acompanhada de outras mulheres, durante a crucificação (Mateus 27:56; Marcos 15:40 e João 19:25). Também, acompanhou o ato de sepultamento (Mateus 27:61 e Marcos 15:47). E, foi a primeira a testemunhar a tumba vazia e o evento da ressurreição (Mateus 28:01; Marcos 16:01 e João 20:01). Mais ainda, foi a primeira a ver Jesus ressuscitado (Mateus 28:09; Marcos 16:09 e João 20:11-17) e encarregada por ele de anunciar a sua ressurreição aos apóstolos (Mateus 28:08-10 e João 20:14-18). Depois destes episódios, os quatro evangelhos silenciam-se sobre Maria Madalena.

            Aqui começa o tratamento das questões polêmicas deste estudo. O motivo para o silêncio é apontado pelos críticos, sobretudo as feministas, como uma tentativa de encobrir a proeminência de Maria Madalena entre os companheiros e companheiras de Jesus, por parte dos autores dos relatos e dos compiladores da corrente patriarcal, no momento da composição dos evangelhos que, no futuro, se tornariam canônicos. Segundo alguns intérpretes, as mulheres podem ter tido posição de destaque no ministério e sido apóstolas de Jesus (D’Angelo, 1999: 106). Em virtude do encobrimento e da manipulação textual, as pistas para tal condição são difíceis de serem percebidas nos evangelhos canônicos e um exemplo de manipulação, dentre tantos outros, é apontado pelas feministas nos doze versos finais do Evangelho de Marcos. Este é considerado pela maioria dos pesquisadores como o primeiro a ser composto, talvez logo após a queda do Segundo Templo, em 70 e.c., portanto cerca de 40 anos após a morte de Jesus (D’Angelo, 1999: 106), e serviu de base para a composição dos evangelhos de Mateus e de Lucas (Ehrman, 2006: 145-6). A pesquisa da Crítica Textual tem revelado que o Evangelho de Marcos, o mais antigo, originalmente terminava em 16:08, portanto os doze últimos versos (16:09-20) são acréscimos posteriores por copistas e por revisores dos manuscritos na Antiguidade. Segundo Bart D. Ehrman, estes “versículos estão ausentes em dois de nossos mais antigos e melhores manuscritos do Evangelho de Marcos, além de ausentes em outros importantes testemunhos; o estilo de escrita é diferente do estilo que encontramos em todo o restante de Marcos; a transição entre essa passagem e a anterior é de difícil entendimento (por exemplo, Maria Madalena é apresentada no versículo 9 como se ainda não tivesse sido mencionada, mesmo tendo sido discutida nos versículos anteriores; há mais um problema com o grego que faz a transição ainda  mais complicada); e há um grande número de palavras e frases na passagem que não são encontradas em nenhum outro lugar em Marcos. Em suma, as evidências são suficientes para convencer quase todos os pesquisadores textuais de que esses versículos são um acréscimo a Marcos” (Ehrman, 2006: 77).

            Ehrman aponta o motivo para o acréscimo deste apêndice sumário no Evangelho de Marcos (16:09-20) ao fato do seu final parecer abrupto demais e que o deixava sem conclusão, permanecendo as dúvidas se os discípulos nunca souberam da ressurreição, se Jesus nunca apareceu para eles, etc. Para resolver o problema os copistas acrescentaram um fim (Ehrman 2006: 77). Por outro lado, as intérpretes feministas atribuem o motivo da inclusão deste apêndice sumário ao fato de que, sem ele, ficaria para a posteridade a ideia de que o Jesus ressuscitado apareceu somente para as mulheres, deixando os apóstolos numa posição desprivilegiada, bem como favorecendo as comunidades rivais que apoiavam o apostolado feminino. Sandra M. Rushing vai mais longe ao afirmar que “a história de Maria Madalena foi distorcida, criando a maior falsificação histórica do Ocidente, em favor do patriarcalismo, a qual teve a maior influência no lugar da mulher na Igreja” (Rushing, 1994: 46).

            Feministas procuram encontrar passagens nos evangelhos canônicos que podem desvelar o fato de que mulheres exerceram papéis de apóstolas e até de líderes no círculo de Jesus (D’Angelo, 1999: 105-28). Porém, as pistas são muito imprecisas e problemáticas, sobretudo se, de fato, os autores dos evangelhos canônicos eram partidários da cultura patriarcal, daí procuram encobrir, o máximo possível, as posições proeminentes das mulheres, para então não favorecer as alegações rivais que proclamavam o ministério feminino no apostolado. Dentre as muitas pistas apontadas por Mary R. D’Angelo, está o significado da palavra grega diakoneo, geralmente traduzida como “tendo servido”, no sentido de assistir, ajudar ou servir, em Marcos 15;41; mas que feministas interpretam como uma tarefa de ministério (grego: diakonia, latim: ministerium), tal como em Lucas 10:40, alegando assim que mulheres foram apóstolas de Jesus, e não apenas o serviam e o suportavam em suas despesas Lucas 8:01-3). Esta autora vai mais longe ao afirmar que “é possível que João 20:19-31 foi acrescentado precisamente para eliminar a impressão de que a definitiva interpretação da partida de Jesus foi dada apenas através de uma mulher. Ainda mais notadamente, o apêndice ao evangelho, o qual foi provavelmente suprido por um membro tardio da comunidade, especificadamente para definir os relativos papéis de Pedro e o discípulo amado, não menciona Maria Madalena” (D’Angelo, 1999: 112).

Maria Madalena nos textos gnósticos

            Se nos evangelhos canônicos as referências ao apostolado feminino e a proeminência de Maria Madalena são omitidas, ou talvez muito vagas, nos evangelhos gnósticos estas menções são abundantes e explícitas. No Evangelho de Felipe, por exemplo, é mencionado que “a companheira de [Jesus é] Maria Madalena. [Ele] amava ela mais que a todos os discípulos…”. Logo em seguida os discípulos perguntam a Jesus: “Por que tu a amas mais do que a todos nós? O Salvador respondeu a eles: Por que eu não vos amo como ela? Quando um cego e aquele que vê estão juntos na escuridão, eles não são diferentes um do outro. Quando vem a luz, então aquele que vê verá a luz, e aquele que é cego permanecerá na escuridão” (Ehrman, 2003: 42 e Isenberg, 2007: 134).

            No Pistis Sophia, outro texto gnóstico em forma de diálogo entre Jesus e seus discípulos, das 64 perguntas, 39 foram feitas por mulheres, incluindo uma Maria e uma Marta (talvez a irmã de Maria da Betânia), que a maioria dos intérpretes identifica com Maria Madalena, demonstrando que as mulheres não eram apenas ajudantes e sustentadoras das despesas de Jesus, tal como nos evangelhos canônicos, mas também participavam ativamente no ensinamento e no apostolado. Dentre outras menções e elogios, Maria é assim elogiada por Jesus neste texto: “Maria, tu a abençoada, quem eu aperfeiçoei em todos os mistérios das alturas (…), tu, cujo coração ascendeu ao reino do céu mais que todos os teus irmãos” (Capítulo 17 – Mead, 1921: 20) e mais adiante: “Bem dito Maria, pois tu és abençoada ante todas as mulheres na Terra, porque tu deves ser a plenitude de todas as plenitudes e a perfeição de todas as perfeições” (Capítulo 19 – Mead, 1921: 22).

A proeminência de Maria Madalena e a rivalidade com Pedro

            Alguns textos gnósticos são transparentes quanto à proeminência de Maria Madalena e à resultante rivalidade com os apóstolos, sobretudo com Pedro. Daí que é possível conhecer as tensões ocorrentes nas comunidades emergentes. Um exemplo pode ser visto no parágrafo 114 do Evangelho de Tomé (encontrado em Nag Hammadi), onde Simão Pedro diz a Jesus: “Permite que Maria nos deixe, pois as mulheres não são dignas da vida”. Em seguida a estranha resposta de Jesus: “Eu mesmo devo guiá-la para fazer dela um homem, para que ela também possa se tornar um espírito vivo semelhante a vós homens. Pois, cada mulher que fizer dela mesma um homem, entrará no reino do céu” (Ehrman, 2003: 28 e Lambdin, 2007: 125). Neste mesmo evangelho, o qual é em forma de diálogo com os discípulos, Maria participa com uma pergunta no parágrafo 21 (Ehrman, 2003: 22 e Lambdin, 2007: 118). Sandra M. Rushing resume: “Dos relatos no Evangelho de Tomé, no Evangelho de Felipe e no Evangelho de Maria, torna-se evidente que Pedro, de todos os discípulos, foi o mais ofendido com o especial relacionamento de Maria Madalena com Jesus” (Rushing, 1994: 52).

O Evangelho de Maria

            Estritamente falando, o Evangelho de Maria já era conhecido antes da descoberta do manuscrito copta em Nag Hammadi, no ano de 1945, através de dois fragmentos de manuscritos em grego do terceiro século e.c., com apenas uma página cada um (Ehrman, 2003: 35). Karen L. King fala de outro fragmento copta que foi comprado no Cairo por Carl Schmidt e trazido para Berlim em 1896, depois publicado por Walter Till em 1955. Ela observa também que existem consideráveis diferenças entre as versões grega e copta deste evangelho (King, 1993: 602 e 2007: 442). O manuscrito encontrado na coleção de Nag Hammadi também está fragmentado, das 18 páginas, apenas 8 estão preservadas, estão faltando as páginas 01-06 e 11-14. Pesquisadores afirmam que a versão copta é uma tradução de um texto originalmente composto em grego no século II e.c. (Ehrman, 2003: 35 e King, 2007: 442).

Apesar da falta, o restante do texto é intrigante, uma vez que mostra Maria, que a maioria dos pesquisadores aponta ser Maria Madalena (em nenhum trecho o nome Madalena é mencionado), numa posição de destaque e até mesmo de liderança entre os apóstolos, a quem Jesus revelou ensinamentos secretos que foram ocultados dos outros discípulos. Por isso, na página 10, Pedro solicita à Maria “Irmã, nós sabemos que o Salvador amava a ti mais que a todas as mulheres. Diga-nos as palavras do Salvador que mais te recordas – as quais tu sabes, mas nós não sabemos, nem ouvimos falar delas”. Em seguida Maria responde: “O que a vós está oculto, eu vos proclamarei”. Então, ela passa a descrever uma visão que teve de Jesus. (King, 1993: 611-2; MacRae, 2007: 443, Erhman, 2003: 36). A prática de transmitir ensinamentos secretos é habitual no Gnosticismo, por exemplo, no Evangelho de Judas, outro texto gnóstico, mas que não foi encontrado em Nag Hammadi, Judas é um discípulo de confiança de Jesus que recebe instruções secretas, por isso é encarregado de entregá-lo às autoridades. Este evangelho termina neste episódio, portanto os episódios da prisão, do julgamento, da crucificação, do sepultamento e da ressurreição são omitidos (Meyer, 2006).

Como mencionado na página 9, o Evangelho de Maria é um dialogo pós-ressurreição de Jesus com seus discípulos, ou seja, mais uma aparição aos apóstolos. Mais do que em qualquer outro texto cristão, neste a proeminência e o privilégio de Maria Madalena são explícitos. No entanto, estas prerrogativas não eram aceitas e recebidas com simpatia por todos os apóstolos, de modo que este evangelho reproduz as tensões e os conflitos da época. O clima se agrava a partir da página 17 quando, logo após o relato de Maria da sua visão e dos ensinamentos recebidos de Jesus, André a contesta da seguinte maneira: “Dizei o que desejeis dizer sobre o que ela disse. Eu pelo menos não acredito que o Salvador disse isto. Pois, certamente, esses ensinamentos são ideias estranhas”. Em seguida, Pedro entra na discussão e questiona: “Ele realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento e não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?” Então Maria lamentou e disse a Pedro “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crês que eu mesma inventei essas coisas no meu coração, ou que esteja mentindo sobre o Salvador?” Daí Levi interfere para acalmar o clima: “Pedro, tu sempre foste o exaltado. Agora eu te vejo opondo a uma mulher como adversários. Mas se o Salvador a fez digna, quem és tu de fato para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Por isso ele a amava mais do a nós” (Karen, 1993: 613-7; Ehrman, 2003: 37 e MacRae, 2007: 444).

Bem, o bate boca acima reflete algumas das tensões do Cristianismo do século II, no qual Pedro e André representam as posições ortodoxas que negam a validade da revelação esotérica e rejeitam a autoridade da mulher no ensinamento. O Evangelho de Maria ataca ambas as posições de frente por meio da figura de Maria Madalena. Ela é a amada do Salvador, possuidora do conhecimento secreto e do ensinamento superior àqueles da tradição apostólica pública.

Reflexão final

            Enquanto os cristãos, os teólogos e as feministas discutem qual posição dever ser a verdadeira, ou seja, se Maria Madalena realmente teve uma posição de liderança no apostolado ou não, para o pesquisador é difícil tomar uma decisão quanto a qual lado se inclinar. O que é possível dizer com absoluta certeza é apenas que os textos cristãos, tanto canônicos como apócrifos, foram compostos cercados de um clima de rivalidade e de conflito ideológico, que influenciou determinantemente nas escolhas dos relatos e dos ensinamentos de Jesus, para atender à agenda doutrinária da comunidade a qual pertencia o compositor ou o compilador do texto. Enfim, não é prudente confiar totalmente em nenhum dos lados, tal como os cristãos têm feito por cerca de dois mil anos, os quais suportam o lado tradicional; tampouco aprovar o entusiasmo dos esoteristas contemporâneos, os quais enxergam nos textos gnósticos a redescoberta do verdadeiro Cristianismo.

Portanto, a tarefa de identificar o que é histórico e o que é manipulação é difícil e está ainda em andamento, com alguns sucessos já alcançados. Assim como existe o projeto “Em Busca do Jesus Histórico”, alguns pesquisadores já iniciaram o projeto “Em Busca da Madalena Histórica” e os resultados iniciais já são esclarecedores. Em suma, quanto mais confirmação histórica e crítica, e menos crença e especulação, nos resultados das pesquisas, melhor serão para o público interessado no assunto.

Obras consultadas

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DE VORAGINE, Jacobus. The Golden Legend: Readings on the Saints. Princeton: Princeton University Press, 2012, p. 375-82.

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EHRMAN, Bart D. Lost Scriptures: Books That Did Not Make It Into The New Testament. London/New York: Oxford University Press, 2003.

______________ The Truth Behind the Da Vinci Code: A Historian Explores What We Really Know About Jesus, Mary Magdalene and Constantine. London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 141-84.

______________ O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê. Rio de Janeiro: Prestígio Editorial, 2006.

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_____________ What is Gnosticism? Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2003.

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LAMBDIN, Thomas O. (tr.). O Evangelho de Tomé em A Biblioteca da Nag Hammadi. James M. Robinson (ed.). São Paulo: Madras Editora, 2007, p. 114-25).

MACRAE, George W. e R. McL. Wilson (trs.). O Evangelho de Maria em A Biblioteca de Nag Hammadi. James M. Robinson (ed.). São Paulo: Madras Editora, 2007, p. 441-4.

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