Os Irmãos de Jesus

por Octavio da Cunha Botelho

 

Considerações iniciais

filmeA discussão abaixo tem relações com o assunto do artigo “A Mãe de Deus é Filha de um Casal em Desespero”, uma vez que toca no assunto da perpétua virgindade de Maria, pois se confirmada a existência dos irmãos de Jesus, como filhos de sua mãe, este dogma torna-se uma mentira. As opiniões se dividem e o estudo seguinte procura apresentar os argumentos prós e contras, a partir dos textos, sobretudo os canônicos, visto que não existe confirmação, asseguradamente comprovada, fora das citações textuais, da existência dos irmãos de Jesus. Assim, o artigo abaixo é, de certa maneira, um estudo crítico-textual.

Numa época e numa região nas quais o registro de eventos era muito precário, o estudo abaixo terá de se limitar às poucas referências textuais dos autores de evangelhos (canônicos e apócrifos), nem sempre fidedignas, para mostrar o que é possível crer de suas escassas e dúbias informações, muitas vezes imprecisas e ambíguas que, em decorrência destas imprecisões, abriram espaço para a manipulação de interpretações teológicas, mais do que para a preocupação com a fidelidade histórica.

Uma controvérsia que iniciou logo nos primeiros anos

            O fato de Jesus ter tido ou não irmãos e irmãs é uma discussão antiga. A controvérsia foi ardente nos primeiros anos do Cristianismo, sobretudo a partir do instante em que o mito da eterna virgindade de Maria começava a se firmar como um dogma consolidado da ortodoxia cristã. Parece que o primeiro grupo a desaprovar foi a seita dos ebionitas, uma corrente de judeus cristãos que sustentava a opinião de que Jesus era filho biológico de José e Maria, portanto nem sequer aceitava a imaculada concepção de Maria e o nascimento milagroso de seu filho. Por outro lado, o principal personagem para a consolidação do dogma da perpétua virgindade de Maria foi Jerônimo (347-420 e.c.), o autor da conhecida tradução latina da Bíblia (Vulgata), através de sua obra Adversus Helvidius (Contra Helvídio), mais comumente traduzida como The Perpetual Virginity of Blessed Mary (A Perpétua Virgindade da Abençoada Maria), em razão de que ele aproveitou as críticas a Helvídio para também desenvolver seus argumentos em favor da perpétua virgindade de Maria (Fremantle, 1892: 334-46). Em virtude de seu prestígio na ocasião, Jerônimo conseguiu persuadir muitos cristãos e seu ponto de vista ajudou a consolidar ainda mais o dogma da eterna virgindade de Maria, cujo reconhecimento foi homologado pelos concílios subsequentes.

            Após Jerônimo, a discussão esfriou e somente retornou à tona muitos séculos depois através dos autores protestantes ‘pós-reforma’, uma vez que Lutero, Calvino, Zwingli e outros primeiros reformadores protestantes reconheceram a perpétua virgindade de Maria. Atualmente, o quadro é mais ou menos o seguinte, as igrejas que ainda aceitam o dogma da perpétua virgindade de Maria (aeiparthenos – sempre virgem, como é conhecida pelos devotos das igrejas Ortodoxa e Oriental) são: a Igreja Católica, a Ortodoxa, a Anglicana, as Igrejas Orientais e alguns grupos protestantes conservadores. As que não aceitam são muitas igrejas protestantes, número extenso demais para ser enumerado aqui.

Os irmãos e as irmãs de Jesus no Novo Testamento canônico

            Quando este assunto surge, as discussões são acaloradas, em razão das claras e explícitas referências aos irmãos e às irmãs de Jesus nos textos canônicos, inclusive citação dos nomes dos irmãos, sobretudo por conta dos argumentos impetuosos dos defensores da Virgem Maria. A menção mais clara aparece num momento em que Jesus pregava para um grupo de ouvintes que o aclamava, então um conterrâneo perguntou surpreso ao ver a pregação de alguém familiar: “Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua Mãe? Não são seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs, não vivem todas entre nós? (Mt. 13:54-5 e Mc. 6:03).

            A primeira pergunta que surge com a leitura desta passagem é saber se os irmãos especificados e as irmãs mencionadas são filhos de Maria ou de José de um casamento anterior. As opiniões dos intérpretes se dividem. Se os filhos são de Maria, ou seja, irmãos de sangue de Jesus, significa que ela e José tiveram uma vida conjugal e geraram filhos após o nascimento de Jesus, com isso a perpétua virgindade de Maria torna-se impossível.  Se estes são filhos de José de um casamento anterior, o Novo Testamento é omisso, só existem referências à paternidade de José, antes do seu encontro com Maria, num texto apócrifo, tal como será visto em seguida.

            As palavras irmãos e irmãs no texto grego consultado desta passagem são: adelfoi, que Jerônimo traduziu na Vulgata como fratres, e adelfai (Vulgata: sorores) respectivamente. Na tentativa de defender a eterna divindade de Maria, Jerônimo argumentou que estes irmãos e irmãs de Jesus não são filhos de Maria, sua mãe, mas de outra Maria, mulher de Cléofas (Fremantle, 1892: 340-1), a qual estava presente junto a Jesus crucificado, com Maria mãe de Jesus e Maria Madalena (Jo. 19:25). Existe nesta passagem uma confusão de Marias. Outro argumento muito utilizado, pelos defensores da perpétua virgindade de Maria, é o de que estes irmãos e irmãs são, na verdade, primos de Jesus, quer sejam pelo lado do seu pai ou da sua mãe. Na seguinte passagem do Evangelho de João: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena” (Jo. 19:25), é mencionada que Maria, mãe de Jesus, tinha uma irmã, mas a passagem é confusa, nem sequer os textos em grego e em latim auxiliam no esclarecimento, uma vez que não é possível saber qual frase é sujeito ou aposto. Ou seja, se a frase “Maria, mulher de Cléofas” é aposto de “a irmã de sua mãe”, pois sendo assim, Maria, a mãe de Jesus, teria uma irmã com o mesmo nome, fato muito improvável, de modo que o mais provável é que sejam pessoas distintas. Mesmo assim, alguns autores até acreditam que Maria, a mãe de Jesus, teve uma irmã, também chamada Maria, e que as passagens com a menção dos nomes dos irmãos de Jesus (Mt. 13:54-5 e Mc. 6:03) se referem aos seus primos, ou seja, aos filhos da Maria irmã da Maria, mãe de Jesus. O que os intérpretes cristãos não são capazes de inventar para defender suas crenças ridículas!

            Outro argumento é o de que a antiga língua aramaica, a qual era falada na época, não possuía uma palavra específica para primos, de modo que era usada uma palavra mais genérica que incluía ambos, primo e irmão no seu significado. Os textos grego e latino não observaram esta homogeneidade. A língua grega possui uma palavra para primo (anepsios) e outra para irmão (adelfos), de maneira que os tradutores gregos traduziram como adelfoi (irmãos). Esta palavra grega adelfoi (irmãos) só pode ser no sentido de irmãos de sangue, uma vez que é formada de “a” (mesmo) e “delphys” (útero), portanto o significado etimológico é “do mesmo útero”. Bart D. Ehrman é da opinião de que Jesus teve irmãos, filhos de Maria (Ehrman, 1999: 99). O argumento da inexistência de uma palavra específica para primo na língua aramaica é fraco, uma vez que na época e na região já existia o senso e a especificação dos membros da família era necessária. E caso não o tivesse, teriam de importar do grego ou do latim para o seu vocabulário, a fim de usar nos sensos. Ademais, no vocabulário de qualquer língua, quer sejam até as mais primitivas, os nomes de familiares são os primeiros a surgirem, por se tratar de um uso tão frequente. Portanto, é impossível que uma língua com tantos falantes, que já tinha até escrita, não tivesse uma palavra para diferenciar um primo de um irmão.

             Ainda outro argumento é o de que estes não eram irmãos de sangue de Jesus, mas sim irmãos no sentido afetivo de partidários. Segundo os defensores desta hipótese, era comum naquela região chamar um colega de irmão, algo como uma denominação coletiva, para incentivar o espírito de coleguismo, entre membros de um grupo de colegionários. Porém, o argumento não se encaixa na passagem acima, uma vez que ela diferencia a mãe, os irmãos e as irmãs de Jesus, do contrário poderia ter agrupado todos (mãe, irmãos e irmãs) sob a denominação coletiva de irmãos. Também, uma passagem do Evangelho de João contraria este argumento, quando seus irmãos disseram a Jesus na tentativa de evitá-lo: “Parte daqui e vai para a Judéia, a fim de que também os seus discípulos vejam as obras que fazes. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes estas coisas, revela-se ao mundo. Com efeito, nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele” (Jo. 7:03-5). Quando seus irmãos dizem “a fim que seus discípulos vejam as obras que fazes”, eles mesmos estão se excluindo do grupo de discípulos de Jesus, portanto não podiam ser irmãos no sentido de partidários, pior ainda a frase final: “nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele (Jesus)”. Ainda mais, em outra passagem é feita a diferenciação entre seus irmãos e seus discípulos: “Depois disto desceu para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos…” (Jo. 2:12).

            Outras passagens dos evangelhos onde os irmãos de Jesus são mencionados são as seguintes: “Chegaram sua mãe e irmãos e estando do lado de fora, mandaram chamá-lo. Ora, a multidão estava sentada ao redor dele, e disseram-lhe; tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram” (Mc. 3:31-3, também Mt. 12:46-50 e Lc. 8:19-21).

            Fora dos evangelhos, os irmãos são mencionados nos Atos dos Apóstolos: “Todos eles perseveraram unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas, Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (Ac. 1:14). Na Epístola aos Gálatas, Paulo relata que, quando esteve em Jerusalém: “Dos apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do senhor” (Gl. 1:19).

Os irmãos de Jesus nos apócrifos e na obra de Flávio Josefo

            O argumento de que os irmãos de Jesus eram filhos de um casamento anterior de José, pode ter sua origem na tradição registrada no Protoevangelho de Tiago, quando o pai de Jesus sente-se envergonhado em tomar Maria como esposa por isso afirmou: “Tenho filhos e sou velho, enquanto que ela é uma menina; não gostaria de ser objeto de zombarias por parte dos filhos de Israel” (IX, 02 – Elliott, 1993: 61). O Evangelho de Tomé menciona uma passagem semelhante à de Mateus 12:46-50: “Os discípulos disseram a ele (Jesus): Teus irmãos e tua mãe estão lá fora…” (Dito 99 – Elliott, 1993: 146 e Robinson, 2007: 124).

            A morte por apedrejamento do irmão de Jesus, Tiago, é mencionada numa passagem da obra Antiguidade dos Judeus de Flávio Josefo (37-100 e.c.). Esta é a menção mais próxima dos eventos do Novo Testamento, de algum irmão de Jesus, fora dos relatos cristãos: “então ele reuniu o Sanhedrin dos juízes e trouxe diante dele o irmão de Jesus chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e alguns outros. Quando ele os tinha acusado como infratores da lei, ele entregou-os para serem apedrejados” (Ant. of the Jews, XX: 09: 01 – Van Voorst, 2000: 83). De modo que, o historiador Josefo acreditava que Jesus teve irmãos.

 

A passagem mais intrigante

            O maior embaraço dos defensores da perpétua virgindade de Maria está na seguinte passagem do Evangelho de Mateus: “E, sem que ele (José) a tivesse conhecido, ela (Maria) deu a luz o seu filho primogênito, que recebeu o nome de Jesus” (Mt. 1:25, ver também Lc: 2:07). A palavra primogênito no texto grego consultado é prototokos (nascido primeiro – gerado primeiro), a qual Jerônimo traduziu na Vulgata como primogenitum. A passagem deixa o sentido de que Jesus foi o primeiro filho (primogênito) de Maria, a qual teve outros em seguida. Portanto, em vista disto, é curioso observar a grande quantidade de traduções da Bíblia que omitem a palavra primogênito nesta passagem em suas edições, cuja redação do trecho final fica assim: “ela deu a luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus”.

            Agora, é curioso também saber por que os copistas cristãos, que fizeram tantas outras alterações (tanto voluntárias como involuntárias) durante o processo de copiar os manuscritos cristãos no passado (ver: Ehrman, 2006), não retiraram do texto a palavra primogênito, uma vez que o dogma da perpetua virgindade de Maria era defendido pela corrente dominante e a palavra era polêmica. Surpreendentemente, foi mantida nos manuscritos gregos e na Vulgata.

            Jerônimo, em sua tentativa de defender o dogma da perpétua virgindade, argumentou que: “Nossa posição é esta: cada filho unigênito é um filho primogênito, mas nem todo primogênito é um unigênito. Por primogênito nós entendemos não só aquele que é sucedido por outros, mas aquele que não tem predecessor” (Fremantle, 1892: 339). Ele encontrou um duplo sentido para a palavra primogênito, ou seja, não é só um primeiro filho de uma série de outros, mas, sobretudo o que é o mais importante para ele, um primeiro filho que não tem predecessor. Quando comparado com o uso mais comum da palavra primogênito, esta interpretação de Jerônimo parece mais um jogo linguístico, pois é muito incomum alguém utilizar a palavra primogênito para um filho, quando este não é sucedido por outros. Mesmo assim, com a descoberta deste duplo sentido, a astúcia de Jerônimo funcionou e com isso foi convincente na época.

Algumas reflexões finais

            Este assunto é muito debatido entre cristãos católicos, que ainda sustentam a eterna virgindade de Maria, e cristãos protestantes que não reconhecem tal dogma. De maneira que, o estudo acima se assemelha, em parte, aos argumentos contestatórios apresentados pelos protestantes. Longe disto, este estudo não pretende defender nenhum dos lados, apenas mostrar como uma crença perdura, mesmo diante de tantas passagens adversas nas escritoras. Estritamente falando, os protestantes contestam o mito da perpétua virgindade, mas, ao mesmo tempo, com base em seu princípio da Sola Scriptura (só pela escritura, isto é, a Bíblia) acreditam em outros mitos, tão ingênuos como este; por exemplo, o mito da imaculada concepção de Maria, só porque está na Bíblia, enquanto o mito da perpétua virgindade de Maria, foi extraído, pelos primeiros cristãos, das tradições paralelas às escrituras que foram homologadas nos concílios.

             O Movimento Protestante do século XVI contestou e retirou muitos dogmas e crenças tradicionais de suas interpretações, mas conservou sua confiança literal no texto da Bíblia, com isso se prenderam ao princípio da Sola Scriptura, uma vez que na época não existiam ainda os estudos críticos das escrituras (Alta Critica e Crítica Textual), tal com nos dias de hoje. Pois se existissem, os protestantes teriam de protestar também tanto contra a hostil e repugnante batalha no processo de formação da Bíblia (Ehrman, 2008), como também as incontáveis alterações efetuadas pelos copistas de manuscritos, mesmo depois da sua formação (Ehrman, 2006).

Daí que, como resultado decepcionante deste estudo, o protesto mais sensato que um protestante poderá fazer é tornar-se um cético, tal como Bart D. Ehrman (ex-protestante com graduação em Teologia na Universidade de Princeton), o mais dedicado pesquisador de manuscritos bíblicos e da história inicial do Cristianismo da atualidade, o qual, depois de muita pesquisa, chegou a seguinte conclusão: “A Bíblia, feita todas as contas, é um livro inteiramente humano” (Ehrman, 2006: 22).

Obras consultadas

EHRMAN, Bart D. Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium. New York/Oxford: Oxford University Press, 1999.

_________________ O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê. Rio de Janeiro: Prestígio Editorial, 2006.

________________ Lost Christianities: The Battle for Scripture and the Faiths We Never Knew. New York/Oxford: Oxford University Press, 2003. Versão brasileira: Evangelhos Perdidos: As Batalhas pela Escritura e os Cristianismos que Não Chegamos a Conhecer. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2008.

ELLIOTT, J. K. The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993.

FREMANTLE, W. H. (tr.). The Perpetual Virginity of Blessed Mary em The Principal Works of St. Jerome (Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, Series II, Vol. VI). Edinburg: T&T Clark, 1892, p. 334-46 (Reimpressão digital: Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, p. 758-78).

ROBINSON, James M. (ed.).  The Nag Hammadi Library in English. Leiden: E. J. Brill, 1988. Edição brasileira: A Biblioteca de Nag Hammadi. São Paulo: Madras Editora, 2007.

VAN VOORST, Robert. Jesus Outside the New Testament: An Introduction to the Ancient Evidence. Grand Rapids/Cambridge: W. B. Eerdmans, 2000.

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