A Historicidade dos Episódios da Crucificação e da Ressurreição

por Octavio da Cunha Botelho

 Considerações iniciais

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Jesus aparece para Maria Madalena após a Ressurreição, segundo os relatos canônicos.

            Apesar de o assunto deste estudo ser considerado matéria de fé para muitos, com isso se pensar que o que existe disponível são apenas textos de pregação cristã, na realidade existe uma enorme quantidade de estudos e de discussões já publicada sobre o tema. A literatura é tão numerosa que até parece incontável, porém escrita, em sua grande maioria, por religiosos e teólogos. De modo que, ao conhecer esta imensidão literária, o pesquisador novato é levado a pensar que a historicidade dos episódios da vida de Jesus, mencionados no título deste estudo, está fundamentada em concretas e seguras provas materiais, bem como em abundante documentação imparcial e de autores de fora da tradição cristã. Também, os resultados das discussões são rigorosamente conclusivos. Nada disto, a realidade é o contrário. Ao se estudar estas publicações, o que mais se encontra são palavras e expressões tais como: pode ser, talvez, presume-se, quiçá, penso que, possivelmente, é verossímil que, fulano sugere, segundo a opinião de, é consenso que, etc. A razão para tantas incertezas é que este imenso edifício de discussões está construído sobre um frágil alicerce de escassez de provas materiais e de ausência de documentação imparcial, tal como será visto adiante. Daí que as conclusões dos estudos são resultados, na quase totalidade, do consenso dos pesquisadores. De maneira que, para os teólogos mais crédulos, o consensual é o verdadeiro, daí constroem suas reflexões com base em opiniões consensuais. Sendo assim, estas conclusões consensuais têm significado, importância e credibilidade apenas dentro do ambiente dos cristãos e dos teólogos, e não entre historiadores com os pés no chão, por não serem conclusões confirmáveis. Em suma, quando se lê estes estudos sobre o Novo Testamento, muito é produto apenas de consenso entre acadêmicos, pouco é proveniente de provas históricas e nada é extraído de documentos imparciais e contemporâneos aos eventos.

Consenso não é certeza

            Pela história sabemos que, por alguns poucos milênios, a idéia de que a Terra era o centro do universo vigorou até os tempos de Copérnico e de Galileu. Durante todo este tempo a teoria geocêntrica era consenso, de modo que falar da possibilidade da Terra girar em torno do Sol era um contra-senso. O consenso e a convicção eram tão consolidados que a Astrologia, que foi muito influente na Antiguidade e na Idade Média, surgiu e se desenvolveu a partir desta concepção, tanto para a formulação de teorias como para os cálculos astrológicos, de maneira que muitas pessoas acreditavam e seguiam as suas orientações. Um rigoroso cálculo, com base no preciso uso da matemática, era utilizado para os cálculos dos movimentos dos astros e das estrelas. Para ser astrólogo era necessário um profundo conhecimento de matemática. Em outras palavras, muitos cálculos matemáticos rigorosos para um conhecimento tão precário do céu. Um exemplo que nos faz lembrar o trabalho dos teólogos: muita discussão com rigorosa precisão de raciocínio filosófico sobre dados tão precários e incertos. No caso da Astrologia, foi assim até sofrer um forte golpe com a descoberta do fato de que era a Terra que girava em torno do Sol, a partir de então a Astrologia nunca mais teve a mesma credibilidade (Stuckrad, 2007: 259-94, sobretudo: 283s). Pois, o fenômeno heliocêntrico, a descoberta do movimento das estrelas e da Via Lacta, bem como a descoberta de um número infinito de estrelas além das integrantes nas doze constelações do zodíaco, através dos telescópios modernos, abalou alguns importantes fundamentos da Astrologia com base no geocentrismo. Na época, alguns até falavam no “fim da Astrologia” (Stuckrad, 2007: 260). Este é um exemplo, entre tantos outros, da força que a concepção, com base no consenso, exerce sobre as pessoas, nas condições pré-científicas, pois, consenso não é certeza. O máximo que o consenso pode nos assegurar é de que uma hipótese é mais aceita que outra.

A dubiedade dos dados

            O que torna a historicidade dos relatos do Novo Testamento impossível de ser inteiramente confiável é a inexistência de relatos contemporâneos ao ministério e aos atos de Jesus e dos apóstolos por autores de fora da tradição cristã, ou seja, tudo que se tem, ou seja, tudo que restou, é de autoria confessional. O relato cronologicamente mais próximo que poderia confirmar a historicidade de Jesus e dos primeiros cristãos, independente de fontes tradicionais, é do historiador judeu Flávio Josefo (37-100 e.c.), o qual se refere ao pregador nazareno em sua obra Antiguidade dos Judeus (93 e.c.), numa passagem conhecida no mundo cristão como Testimonium Flavianum (o Testemunho de Flávio Josefo sobre Jesus): “Por volta desta época, um homem sábio, se na verdade é certo chamá-lo um homem. Pois ele foi o realizador de atos impressionantes e foi um mestre das pessoas que aceitam a verdade com prazer. Ele converteu muitos judeus e muitos gregos. Ele foi o messias. Pilatos, quando ouviu falar dele, acusado pelos líderes entre nós, condenou-o à cruz, mas aqueles que, desde o início o amavam, não pararam de amá-lo. Pois, no terceiro dia, ele apareceu a eles novamente, porque os divinos profetas tinham profetizado esta e outras coisas sobre ele. Até os dias de hoje, a tribo dos cristãos, denominada segundo ele, não desapareceu” (Ant. dos Judeus: 18.03.03; Van Voorst, 2000: 85).

Contudo, sabe-se através de pesquisas grafotécnicas e da crítica textual que este texto sofreu alterações nas mãos dos copistas cristãos do século III. Mais suspeitas ainda são as passagens de uma versão eslava da obra Guerra dos Judeus (2.9.2; 5.5.4; 5.5.2 e 6.5.4) de Josefo, sendo o conjunto destas passagens conhecido pelos cristãos como Testimonium Slavianum (o Testemunho Eslavo) – esta versão eslava só veio a ser traduzida e publicada no início do século XX – cujo conteúdo não coincide com a tradução do original grego da Guerra dos Judeus, em razão dos elogios a Jesus acrescidos no texto eslavo (ver: Van Voorst, 2000: 85s). Certamente, estes acréscimos são interpolações posteriores de copistas cristãos.  Alguns anos depois, o historiador romano Tácito (talvez 56-120 e.c.) informou que “Jesus tinha sido executado no reinado de Tibério pelo procurador Pilatos” (Van Voorst, 2000: 47). Porém, estas são referências muito vagas para nos capacitar a discernir o que é fato histórico e o que é ficção nos evangelhos canônicos ou nos apócrifos (para conhecer mais: Rivkin, 1986, 103-18).

            Esta dubiedade histórica não é diferente nos relatos da vida de outros visionários e fundadores de religiões. Quanto à vida de Maomé, a situação é semelhante. Os relatos existentes são todos de fontes islâmicas: alguns poucos trechos do Alcorão, mais um pouco de informações nos Hadiths (Ditos de Maomé) e as biografias mais próximas são de pelo menos cento e cinqüenta anos depois da sua morte: a Sirat Rasul Alla (A Vida do Mensageiro de Deus) de autoria de Ibn Ishaq, morto em 768 e.c. e o Kibat al-Tarikh wa al-Maghizi (O Livro da História e das Campanhas) de Al Waqidi (748-822 e.c.), desta última biografia restaram apenas fragmentos.  Embora sejam as biografias mais próximas da época de Maomé, estão recheadas de lendas (Robinson, 2003: 90). O mesmo acontece com os relatos da vida de Buda, que só conhecemos de fontes literárias do Budismo (o Nidanakatha, o Mahavastu, o Lalitavistara, o Buddhacharita e os contos Jatakas). O vestígio arqueológico mais próximo da época foi a descoberta, no século XIX, de um pilar com inscrições erguido em 250 a.e.c. (portanto, mais de 200 anos após a morte de Siddharta), pelo imperador Ashoka, no bosque de Lumbini em Kapilasvastu, Nepal, local atribuído ao nascimento de Buda. Nas “biografias” mencionadas acima não é possível também diferenciar o que é historia do que é lenda. As diferenças dos sermões de Buda nos textos páli do Budismo Hinayana para os sermões nos textos sânscritos do Budismo Mahayana são tão antagônicas quanto os contrastes entre as mensagens de Jesus nos evangelhos canônicos e os ensinamentos de Jesus no Pistis Sophia dos gnósticos cristãos. Parece que a manipulação textual era uma prática comum no passado, pois cada seita procurava colocar na boca de seu mestre a mensagem conforme a sua interpretação ideológica. O Pistis Sophia, por exemplo, é um diálogo de Jesus com seus discípulos onde a cosmologia gnóstica é colocada na boca do nazareno (Mead, 1921). O acréscimo de lendas é comum também nos relatos das vidas de Pitágoras, de Krishna, de Lao Tzu, de Confúcio, de Bodhidharma, de Apolônio de Tyana, de Padmasambhava (introdutor do Budismo no Tibete), etc.

A projeção de admiração nos relatos

            Os autores de textos religiosos não são historiadores. Antes de qualquer coisa são admiradores e adeptos que, ao comporem seus relatos, projetam para os seus escritos o significado que a mensagem de um santo ou de um mestre religioso representa para ele, bem como a sua admiração. Por estas razões, os relatos das vidas e das mensagens dos santos e dos mestres mencionados acima estão repletos de fantasias e de embelezamentos, de maneira que não é possível, na maioria das vezes, discernirmos o que é fato e o que é ficção, bem como o que é mensagem original e o que é interpretação do adepto nos escritos religiosos. Esta prática é comum nos textos de todas as grandes religiões tradicionais, sobretudo nas mais antigas. E não é diferente no Novo Testamento. Por exemplo, os evangelhos canônicos foram compostos algumas décadas após a morte de Jesus e não se sabe quem foram os autores, por isso as denominações, Evangelho Segundo Mateus, Evangelho Segundo Marcos, etc. Reproduzo em seguida um curto trecho da obra de Bart D. Ehrman, onde ele aponta as possíveis datas destas composições, no qual aproveito para assinalar em itálico as palavras de incerteza e de imprecisão que tanto permeiam estes estudos, tal como mencionado acima. “Muitos estudiosos acham que Marcos é nosso relato remanescente mais antigo sobre a vida de Jesus, escrito em algum momento entre 65 e 70 d. C.; que Mateus e Lucas foram produzidos dez ou quinze anos mais tarde, possivelmente 80-85 d.C.; e que João foi o último dos relatos canônicos, escrito próximo do fim do primeiro século, por volta de 90 ou 95 d.C.” (Ehrman, 2008, 43; também Perkins, 2007: 241).  Ademais, os manuscritos autógrafos (escritos pelo próprio autor) não existem mais. Os manuscritos mais antigos que sobreviveram destes textos são cópias dos séculos II d.C. (Ehrman, 2006: 98-101). De maneira que é impossível saber o que foi alterado nos relatos desde o período da morte de Jesus até as primeiras composições escritas, bem como depois destas até a época dos mais antigos manuscritos sobreviventes do século II e.c. Assim sendo, o trabalho da Crítica Textual do Novo Testamento só pode começar a partir do estudo destes manuscritos e dos subseqüentes (Ehrman, 2006: passim; para mais aprofundamento: Metzger, 1992: 36s).

A historicidade dos episódios da crucificação e da ressurreição

            Não é possível tratar deste assunto sem antes falar da discussão sobre a historicidade de Jesus. A pergunta “Jesus realmente existiu?” preocupou a mente de muitos céticos por séculos. Esta preocupação levou a criação de um programa de pesquisa que ficou conhecido como “Busca pelo Jesus Histórico”, o qual se divide em três vertentes. Van Voorst resume assim: “Numa extremidade do espectro acadêmico, alguns têm concluído que os evangelhos canônicos são relatos históricos plenamente confiáveis de Jesus com pouca ou nenhuma alteração posterior, assim nós podemos conhecer muito sobre ele (Jesus). Aqueles que negam a historicidade de Jesus raramente se referem à obra dos tradicionalistas, exceto para rotulá-la de credulidade. No meio estão os acadêmicos que percebem os evangelhos como uma mistura de material histórico autêntico e de interpretação teológica de Jesus, tal como se desenvolveu entre sua época e aquela dos evangelistas. Estes acadêmicos, a vasta maioria dos pesquisadores, se esforçam para compreender a interação destes dois elementos, e eles distinguem “o Jesus histórico” com alguma segurança…” (Van Voorst, 2000: 07).  A posição predominante na atualidade é esta terceira vertente, ou seja, aquela que acredita que os evangelhos, bem como os outros textos do Novo Testamento (Atos, Epístolas e Apocalipses) são uma combinação de relatos históricos com ficções e interpretações teológicas acerca de Jesus, criadas pelos primeiros compositores dos textos. De modo que, a grande tarefa dos pesquisadores agora é identificar o que é fato histórico e o que é ficção no Novo Testamento.

            Apesar de não se ter uma prova absolutamente concreta acerca da vida de Jesus, o estudo minucioso dos primeiros documentos cristãos, quer canônicos ou apócrifos, leva a concluir que é mais provável que ele tenha existido do que não tenha existido.  Ou seja, é muito difícil que os compositores dos primeiros textos e, sobretudo, os autores das epístolas apostólicas, as quais são os primeiros escritos cristãos – “a primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses é datada de 49 e.c., portanto, cerca de vinte anos após a morte de Jesus e vinte anos antes dos relatos evangélicos” (Ehrman, 2006: 32; também Dunn, 2007: 276-7) – tenham inventado tudo sobre a existência de Jesus. Enfim, as primeiras epístolas apostólicas são os documentos mais confirmatórios da historicidade de Jesus. Entretanto, existe uma enorme diferença em admitir a existência de Jesus e aceitar que todos os relatos dos textos canônicos ou apócrifos são relatos históricos. Agora, é disto que iremos tratar daqui para frente.

A crucificação e a ressurreição nos evangelhos canônicos e apócrifos

            As fontes mais extensas e informativas sobre os eventos do julgamento, da paixão, da crucificação, do sepultamento e da ressurreição, disponíveis até o presente momento conforme as descobertas, são os quatro evangelhos canônicos: Mateus 26:57 a 28:15; Marcos 14:53 a 16:18; Lucas 22:66 a 24:12 e João 17:13 a 20:18, e dois evangelhos apócrifos: o Evangelho de Pedro (texto grego: Swete, 1892; traduções: Platt Jr., 1926: 282-86; Elliott, 1993: 150-8 e Ehrman, 2003: 31-4) e o Evangelho de Nicodemus, também conhecido como Atos de Pilatos, (traduções: Platt Jr. 1926: 64-91 e Elliott, 1993: 164-8). Na coleção de textos gnósticos encontrados em Nag Hammadi, existe um “O Tratado da Ressurreição” (Peel, 2007: 59-63), cuja concepção de ressurreição é diferente daquela dos evangelhos canônicos. Existem outros relatos destes eventos em pequenos fragmentos de manuscritos. O Evangelho de Pedro, encontrado na sepultura de um monge em 1886 no Egito, também é um fragmento, pois o manuscrito estava sem o início e o fim do texto, porém extenso o bastante para ser maior que o relato destes episódios no Evangelho de Marcos. Dentre estes seis evangelhos, o de Pedro é o que mais diverge dos outros. Destas divergências, uma deve ter sido a principal razão para este evangelho não ser reconhecido como canônico pelos seguidores da igreja, que estava começando a se consolidar como dominante, por transmitir uma cristologia docética, uma interpretação rival na época. Trata-se da frase dita por Jesus na cruz: “Meus Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46 e Marcos 15:34), no Evangelho de Pedro esta frase aparece como: “Minha força, minha força, por que me abandonaste?” (v. 19 – Platt Jr., 1926: 284; Elliott, 1993: 155 e Ehrman, 2003: 33). Alguns evangelhos apócrifos, principalmente os gnóstico, relatam os atos de Jesus, mas não incluem os episódios acima mencionados, por exemplo, o Evangelho de Judas termina com a entrega de Jesus às autoridades judias após a traição de Judas (Wurst, 2006: 45).

            Até o século XVIII, o número de textos apócrifos do Novo Testamento conhecidos era muito pequeno, de modo que não se dava muita importância para o seu estudo. À medida que aumentaram as descobertas de mais textos, sobretudo após a descoberta da extensa coleção de textos gnósticos em Nag Hammadi no Egito, em 1945, o interesse pelo estudo destes textos outrora perdidos aumentou. O número de manuscritos já descobertos é tamanho, que hoje se tem mais Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipses apócrifos do que canônicos do Novo Testamento. A coleção apócrifa do Novo Testamento mais completa é a de J. K. Elliot (1993), dentre as publicadas com critério filológico e prévio exame de Alta Crítica e de Crítica Textual. Diante disto, tornou-se uma imprudência entre os pesquisadores mais ponderados, a partir de certo momento, a desconsideração destes textos no estudo da história dos primeiros anos do Cristianismo.

A crucificação

            Tal como no caso da historicidade da vida de Jesus em geral, os eventos do julgamento, da paixão, da crucificação e do sepultamento seguem o mesmo traço, ou seja, a trama nuclear que permeia o relato dos evangelhos deve ser verídica, porém, os relatos individuais foram acrescidos de ficções, de embelezamentos e de dramatizações pelos compositores, para aumentar o impacto emotivo da narrativa. Quando se compara a grande quantidade de argumentos pró e contra a historicidade da crucificação, parece que os argumentos pró são mais convincentes, quando despimos os relatos de seus acréscimos fantasiosos e seguimos apenas o núcleo narrativo comum em todos os seis evangelhos (canônicos e apócrifos), bem como um compositor copiou os trechos da narrativa de outro, fazendo com que os evangelhos tenham trechos em comum e trechos diferentes. O Seminário de Jesus, um grupo de pesquisadores bíblicos (atualmente com cerca de 200 membros) que, através de votação, julga a historicidade dos ditos e dos atos de Jesus, reconhece que Jesus foi crucificado pelos romanos. Em suma, mesmo sem documentos que proporcionem certeza absoluta, o mais provável é que os relatos destes episódios sejam uma montagem de inúmeras peças fictícias de narrativa sobre uma história talvez verídica.

A ressurreição

            Ao contrário do episódio da crucificação, a ressurreição parece mais ser um produto de ficção inventada pelos primeiros cristãos, para atender objetivos teológicos. Se o episódio da ressurreição não tivesse sido acrescido à vida de Jesus, com sua morte na cruz, ele seria visto apenas como mais um profeta fracassado, juntamente com os tantos outros que o precederam. Então, a invenção da ressurreição foi necessária para fazer de Jesus um messias, através de um fenômeno excepcional. O Seminário de Jesus reconhece que o evento da tumba vazia é uma ficção, também, Jesus não ressuscitou dos mortos e a crença na ressurreição é baseada em experiências visionárias de Paulo, de Pedro e de Maria Madalena.

Com a morte de Jesus na cruz, dois seguimentos tentaram compensar este fracasso, o primeiro inventou o episódio da ressurreição, para atribuir um caráter extraordinário à vida de Jesus e fazer da ressurreição o centro da sua fé e doutrina. Este foi o seguimento que, com o tempo, se transformou na corrente ortodoxa que triunfaria no concílio de Nicéia, em 325 e.c. Este é o Cristianismo predominante até hoje. O outro seguimento foi o dos gnósticos, que deram pouca ou nenhuma importância à ressurreição, alguns de seus evangelhos até a omitem, então para compensar o fracasso da morte de Jesus, os gnósticos colocaram em sua boca uma sabedoria esotérica e fantástica, reproduzida em seus textos que foram considerados, pela então igreja dominante, como hereges. Para os gnósticos, Jesus era mais um sábio e um mestre do que um salvador, por isso sua ênfase na gnose (conhecimento). É curioso especular que, se os gnósticos tivessem triunfado no concílio de Nicéia e nos seguintes, e se consolidado como a corrente predominante, muito provavelmente não haveria as comemorações da Semana Santa, uma vez que atribuíam pouca importância aos episódios da paixão, da crucificação, do sepultamento e da ressurreição. Enfim, a tradição da Semana Santa é o resultado da vitória de uma corrente ideológica, que triunfou no concílio de Nicéia e nos concílios ecumênicos seguintes, a qual pregava a suma importância para os eventos da paixão, da crucificação e da ressurreição, alguns provavelmente fictícios, em oposição às outras correntes que não valorizavam tanto estes eventos, corrente vitoriosa esta que fez do significado da ressurreição o centro da sua fé. Poderia ser muito diferente se outra corrente tivesse se tornado dominante (para conhecer a história da batalha pela hegemonia teológica entre as primeiras correntes cristãs, veja: Ehrman, 2008).

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